





Abas: 

Rachel White  uma jovem advogada nova-iorquina, que sempre sonhou em encontrar um grande amor.
No dia do seu aniversrio de 30 anos, sua melhor amiga Darcy organiza uma festa para ela, e Rachel  surpreendida por um acontecimento inesperado: nessa noite, depois 
de uns drinques a mais, ela acaba na cama com Dexter Thale, o bom e velho amigo de faculdade... que est noivo de Darcy. Embora acorde determinada a deixar para 
trs a aventura de uma noite, Rachel se assusta ao perceber que est irremediavelmente apaixonada pelo nico cara do qual deveria manter distncia.
Decidido a esclarecer tudo, Dex liga para Rachel no dia seguinte. Ela fica emocionada e confusa ao ouvi-lo dizer que no estava bbado na noite anterior e que no 
se sente culpado por ter trado a noiva. Os telefonemas vo se intensificando e novos encontros vo sendo marcados, numa bola de neve que leva Rachel a um beco sem 
seda. Nem em seus sonhos mais fantasiosos ela se imaginaria numa situao dessas. A data do casamento se aproxima, e Rachel sabe que tem de fazer uma escolha: ser 
leal  amiga ou aos seus prprios sentimentos.
Divertido e comovente, O noivo da minha melhor amiga traz um final de grandes surpresa, vai fazer voc rir e chorar, e torcer pela amizade e pelo amor verdadeiro.

Emily Giffin trabalhou como advogada em Nova York durante muitos anos, antes de se mudar para Londres, onde passou a se dedicar  literatura em tempo integral. Ela 
 casada e tem dois filhos. O noivo da minha melhor amiga  seu primeiro romance. O segundo, que acaba de ser lanado nos EUA, conta a mesma histria deste livro, 
s que do ponto de vista de Darcy, a amiga trada.

CONTRA-CAPA:
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"Eu simplesmente amei o livro, li em duas tacadas porque no conseguia largar. Fiquei impressionada de ver como Emily Giffin abordou uma complexa questo moral com 
tanta compaixo e lucidez. Fiquei mergulhada no livro o tempo todo e me esqueci da vida enquanto estava lendo. Os trs personagens principais, com todas as suas 
facetas e imperfeies, so muito cativantes, exatamente como as pessoas do mundo real. Alm disso,  um livro muito bem escrito, numa prosa enxuta e envolvente, 
que me deixou sempre ansiosa para saber o que iria acontecer depois.  tambm corajoso ao encarar de frente o problema das rivalidades, mesmo as que existem entre 
melhores amigas. Parabns para Emily Giffin por ter escrito um livro to envolvente, maravilhoso e engrandecedor."
Marian Keys, autora de Melancia e Sushi

"No  preciso cobiar o namorado da sua melhor amiga para gostar deste livro (pode acreditar em mim)... Aqui est uma herona pelo qual voc vai torcer, e um livro 
que voc no vai conseguir largar. Eu amei."
Lauren Weisberger, autora de O diabo veste Prada.

"Emily Giffin  uma voz nova e diferente na fico feminina. O noivo da minha melhor amiga  uma histria cmica e pungente."
Meg Cabot, autora de O dirio da princesa

"O noivo da minha melhor amiga  campeo, um livro de rara profundidade emocional. Nele, uma garota bem-comportada, sempre disposta a fazer sacrifcios, surpreende 
a si mesma tendo um caso com o noivo da sua melhor amiga. Esse primeiro sopro de liberdade com certeza vai provocar uma reao em cadeia, inspirando meninas bem-comportadas 
a darem seus prprios gritos de liberdade por a."
Valerie Frankel, autora de Virgem por acaso

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O NOIVO DA MINHA MELHOR AMIGA
Romance
Emily Giffin
Traduo
Andra Rocha
Ttulo original: Something Borrowed
Copyright (c) 2004 by Emily Giffin
Direitos de edio da obra em lngua portuguesa no Brasil adquiridos
pela EDITORA NOVA FRONTEIRA S.A. Todos os direitos reservados.
Nenhuma parte desta obra pode ser apropriada e estocada
em sistema de banco de dados ou processo similar, em
qualquer forma ou meio, seja eletrnico, de fotocpia, gravao
etc., sem a permisso do detentor do copirraite.
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e-mail: sac@novafronteira.com.br
CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.
G388n Giffin, Emily
O noivo da minha melhor amiga / Emily Giffin ;
traduo de Andra Rocha. - Rio de Janeiro : Nova
Fronteira, 2005
Traduo de: Something borrowed
ISBN 85-209-1769-0
1. Relaes homem-mulher - Fico. 2. Romance
americano. I. Rocha, Andra. II. Ttulo.
CDD 813
CDU 821.111(73)-3























Para minha me, com amor










































Agradecimentos:

Gostaria de agradecer a meus pais, minha irm, minha famlia e meus
amigos pelo amor e por todo o apoio.
Sou grata  minha agente Stephany Evans e  minha editora Jennifer
Enderlin por acreditarem em mim.
Devo muito aos meus primeiros leitores, Sarah Giffin, Mary Ann Elgin
e Nancy LeCroy Mohler, por suas incansveis contribuies a cada esboo
do manuscrito.
E, acima de tudo, agradeo a Buddy Blaha, por tudo.

















UM

Eu estava na 5 srie quando pensei pela primeira vez sobre fazer trinta anos. Um dia, eu e minha melhor amiga Darcy pegamos uma agenda e abrimos no final, onde 
havia um calendrio perptuo que permitia consultar qualquer data no futuro e, por meio de uma pequena tabela, determinar qual seria o dia da semana correspondente. 
Ento localizamos nossos aniversrios do ano seguinte, o meu em maio e o dela em setembro. O meu caa na quarta, uma noite de aula. O dela caa na sexta. Uma vitria 
pequena, mas tpica. Darcy era sempre a mais sortuda. Sua pele se bronzeava mais rpido, seu cabelo era mais fcil de modelar e ela no precisava de aparelho nos 
dentes. Ela fazia passos de break como ningum, assim como dava estrelas e cambalhotas para frente (eu nem mesmo sabia dar cambalhotas). Tinha a melhor coleo de 
adesivos. Mais btons do Michael Jackson. Suteres Forenza em turquesa, vermelho e pssego (minha me no me deixava ter nenhuma - dizia que eram modismos e muito 
caras). Tinha tambm um jeans de cinqenta dlares da Guess, com zperes na lateral do tornozelo, alm de dois furos em cada orelha e um irmo, o que era melhor 
do que ser filha nica como eu.
Pelo menos eu era alguns meses mais velha e ela nunca poderia me alcanar. Foi a que decidi checar meu trigsimo aniversrio - num ano to distante que soava como 
fico cientfica. Caa num domingo, o que significava que meu marido boa-pinta e eu providenciaramos uma bab responsvel para os nossos dois (possivelmente trs) 
filhos na noite de sbado, jantaramos num sofisticado restaurante francs com guardanapos de pano e ficaramos fora at depois da meia-noite, de forma que, tecnicamente, 
estaramos celebrando na data real do meu aniversrio. Eu teria acabado de ganhar uma grande causa, de provar a inocncia de um homem da cidade. E meu marido faria 
um brinde em minha homenagem: " Rachel, minha linda esposa, me dos meus filhos e a melhor advogada da cidade." Compartilhava minha fantasia com Darcy quando descobrimos 
que seu trigsimo aniversrio caa numa tera-feira. Uma decepo para ela. Observei enquanto ela apertava os lbios processando a informao. 
- Voc sabe como , Rachel, quem se importa com o dia da semana em que cai o aniversrio de trinta anos? - ela disse, sacudindo os ombros macios e bronzeados. - 
At l ns j estaremos velhas. Os aniversrios no importam quando a gente fica velha.
Pensei nos meus pais, que estavam na faixa dos trinta, e na maneira displicente com que tratavam os prprios aniversrios. Meu pai acabara de dar uma torradeira 
de aniversrio para minha me, porque a nossa havia quebrado na semana anterior. A torradeira nova torrava quatro fatias de po ao mesmo tempo, em vez de apenas 
duas. No era exatamente um presente, mas minha me pareceu bem satisfeita com seu novo eletrodomstico. Em nenhum momento pude identificar nela a decepo que eu 
sentia quando meus presentes de Natal no correspondiam s minhas expectativas. Ento Darcy provavelmente tinha razo. Coisas divertidas como aniversrios no teriam 
tanta importncia quando chegssemos aos trinta.
S fui pensar outra vez nesse assunto no ltimo ano da escola, quando Darcy e eu comeamos a ver uma srie meio triste na televiso. Ns preferamos programas mais 
alegres, mas mesmo assim assistamos. Meu grande problema com essa srie eram os personagens, que viviam se queixando, e as questes deprimentes que eles pareciam 
estar sempre atraindo. Lembro de achar que eles tinham mais era que crescer e parar com frescuras, parar de ficar tentando entender o sentido da vida e comear a 
fazer a lista do supermercado. Isso foi na poca em que eu pensava que os meus anos de adolescncia estavam se arrastando demais e que os meus vinte anos certamente 
durariam para sempre.
Ento cheguei aos meus vinte anos. E os primeiros anos dessa dcada realmente pareceram interminveis. Quando ouvia pessoas que eu conhecia e que eram um pouco mais 
velhas do que eu lamentando o fim da juventude, eu ficava toda prosa, no me sentia ainda na zona de perigo. Tinha tempo de sobra. At que cheguei aos 27, quando 
os dias de ter de apresentar carteira de identidade para provar a idade se tornaram coisa do passado e quando comecei a ficar impressionada com a repentina acelerao 
dos anos, e com as conseqentes rugas e os primeiros cabelos brancos (nessa poca sempre me lembrava dos monlogos anuais da minha me enquanto tirava do armrio 
os enfeites de Natal). Aos 29, um verdadeiro pavor se instalou, e eu me dei conta de que de certo modo era como se eu j tivesse trinta. Mas nem tanto. Porque ainda 
poderia continuar dizendo que tinha vinte e poucos. Ainda tinha algo em comum com estudantes universitrios em vias de se formar.
Descobri que trinta era apenas um nmero, que a gente tem a idade que sente que tem e tudo o mais. Tambm me dei conta de que, sob um ponto de vista mais abrangente, 
uma pessoa de trinta ainda  jovem. Mas no to jovem. Est longe, por exemplo, da idade mais adequada para se ter filhos.  tarde demais para, digamos, comear 
a treinar para ganhar uma medalha olmpica. Mesmo considerando-se a hiptese de morrer em idade avanada, ainda assim a gente est a um tero do caminho para cruzar 
a linha de chegada. Por isso, no consigo evitar uma certa inquietao ao me sentar num sof marrom-avermelhado bem fofo, numa sala escura no Upper West Side, na 
minha festa-surpresa de aniversrio organizada pela Darcy, que ainda  minha melhor amiga. 
Amanh  o domingo que contemplei pela primeira vez quando era uma aluna de 5 srie, brincando com a agenda. Depois de hoje  noite, os meus vinte anos vo ter 
se acabado, sero um captulo fechado para sempre. A sensao que eu tenho me faz lembrar das noites de Ano-Novo, quando a contagem regressiva comea e eu fico na 
dvida entre pegar minha cmera ou apenas viver o momento. Geralmente pego a cmera e mais tarde me arrependo quando a foto no sai. Ento fico extremamente frustrada 
e penso comigo mesma que a noite teria sido mais divertida se no significasse tanto, se eu no fosse forada a analisar onde estivera at aquele momento e para 
onde estava indo. 
Como as noites de Ano-Novo, esta noite representa um final e um comeo. No gosto de finais e comeos. Se pudesse escolher, ficaria oscilando entre os dois extremos. 
A pior coisa desse final (da minha juventude) e desse comeo (da meia-idade)  que, pela primeira vez na vida, percebo que no sei para onde estou indo. Meus desejos 
so simples: um trabalho de que eu goste e um cara que eu ame. E na noite do meu trigsimo aniversrio tenho de reconhecer que estou perdendo por 2 a 0.
Em primeiro lugar, sou advogada de um grande escritrio de Nova York. Por definio isso significa que sou uma desgraada. Ser advogada simplesmente no corresponde 
ao que dizem por a - no tem nada a ver com L.A. Law, o programa de TV que fez com que a procura por curso de Direito aumentasse vertiginosamente no incio dos 
anos 1990. Trabalho durante horas torturantes, cuidando das tarefas mais tediosas para um dos advogados associados do escritrio, que  mesquinho e obsessivo. E 
esse tipo de dio pelo prprio trabalho  uma coisa que comea a crescer aos poucos em voc.  por isso que j sei de cor o mantra das pessoas que trabalham em escritrios 
de advocacia: Odeio meu trabalho e logo, logo vou pedir demisso. Logo que pagar meus emprstimos. Logo que ganhar o bnus do prximo ano. Logo que pensar em alguma 
outra coisa para fazer que pague o meu aluguel. Ou logo que achar algum que passe a pagar por mim.
O que leva  minha segunda constatao: estou sozinha numa cidade de milhes. Tenho vrios amigos, como ficou comprovado pela presena macia esta noite. Amigos 
para andar de patins. Amigos para veranear nos Hamptons. Amigos para encontrar na quinta  noite depois do trabalho, para um, dois, ou trs drinques. E tenho Darcy, 
minha melhor amiga, que nasceu no mesmo lugar que eu e sintetiza tudo isso que acabei de dizer. S que todo mundo sabe que amigos no so tudo, embora muitas vezes 
eu diga o contrrio, apenas para no ficar mal diante das minhas amigas casadas e noivas. Eu no tinha planos de estar sozinha quando chegasse aos trinta, mesmo 
ao incio dos trinta. A esta altura eu j queria ter um marido; queria ter ficado noiva na faixa dos vinte. Mas aprendi que a gente no pode simplesmente fazer um 
cronograma pessoal e desejar que se torne realidade. Ento aqui estou eu, s portas de uma nova dcada, chegando  concluso de que estar sozinha faz dos meus trinta 
anos uma coisa assustadora, e de que ter completado trinta faz com que eu me sinta mais sozinha.
A situao parece ainda mais sombria porque a minha melhor amiga, e a mais antiga, tem um trabalho glamouroso como relaes pblicas e ficou noiva h pouco tempo. 
Darcy continua sendo a sortuda da turma. Estou a observando agora, enquanto ela conta uma histria para um grupo de amigos nossos, incluindo o noivo dela. Dex e 
Darcy formam um belo casal, magros e altos, ambos com cabelos escuros e olhos verdes. Eles fazem parte da alta sociedade de Nova York. So o tipo de casal bem arrumado 
que vai ao sexto andar da Bloomingdales's fazer listas de casamento que incluem porcelana fina e cristais. Voc odeia o ar presunoso deles, mas no consegue deixar 
de olhar quando est no mesmo andar, em busca de um presente "no to caro" para o ltimo de uma srie de casamentos para os quais voc foi convidada sem ter um 
namorado. Voc se estica para dar uma espiada no anel dela e no mesmo instante se arrepende. Ela percebe e lana um olhar de desprezo na sua direo, enquanto checa 
voc de cima a baixo. Voc desejaria no ter ido de tnis para a Bloomingdales's. Ela provavelmente fica achando que os sapatos talvez sejam parte do seu problema. 
Voc compra ento o seu vaso Waterford e se manda dali.
- Moral da histria: se voc quer uma depilao  brasileira, seja bem especfica. Diga  depiladora para deixar uma margem de segurana ou vai acabar sem nada, 
como uma menininha de dez anos de idade! - Darcy conclui sua historinha indecente e todo mundo ri. Com exceo de Dex, que balana a cabea como se dissesse "que 
figura esta minha noiva".- Certo. Volto j, j - declara ela, de repente. - Uma rodada de tequila para todos!
Enquanto ela se afasta do grupo em direo ao bar, comeo a me lembrar de todos os aniversrios que celebramos juntas, todos os marcos que atingimos juntas, marcos 
que eu sempre atingi primeiro. Tirei minha carteira de motorista antes dela e pude legalmente beber antes dela. Ser mais velha, mesmo que por apenas alguns meses, 
costumava ser uma coisa boa. Mas agora nossa sorte mudou. Darcy tem um vero a mais na faixa dos vinte - uma vantagem de ter nascido no outono. No que isso faa 
muita diferena para ela: quando voc est noiva ou  casada, fazer trinta anos simplesmente no  a mesma coisa.
Neste momento Darcy est debruada no bar, dando bola para um cara de vinte e poucos anos, aspirante a ator/barman a respeito do qual ela j declarou que, se fosse 
solteira, "traaria" facilmente. Como se algum dia Darcy fosse ser solteira. Uma vez, quando estvamos no segundo grau, ela disse:
- Eu no termino, eu troco.
Neste caso ela manteve a palavra; era sempre ela quem dispensava. Durante toda a nossa adolescncia, faculdade e juventude, Darcy esteve ligada a algum. Em geral 
ela tem mais de um cara esperanoso por perto.
De repente me ocorre que eu poderia me ajeitar com o barman. Estou totalmente desimpedida - nem ao menos sa com algum nos ltimos dois meses. Mas no me parece 
uma coisa que algum devesse fazer aos trinta. Viver uma aventura de uma noite  para meninas que esto na casa dos vinte. No que naquela poca eu soubesse disso. 
Meu caminho sempre foi o do bom comportamento, o de uma pessoa certinha, sem desvios. Tirava dez em tudo na escola, entrei para o segundo grau, me formei com grandes 
honras, fiz a prova para entrar no curso de Direito, fui direto para a faculdade e depois para um grande escritrio de advocacia. Nada de sair pela Europa de mochila, 
nada de histrias malucas, nada de paixes doentias ou trridas. Nada de segredos. Nada de intrigas. E agora parece que  tarde demais para qualquer coisa do tipo. 
Porque esse negcio apenas retardaria ainda mais os meus planos de encontrar um marido, de me estabelecer, ter filhos e um lar feliz com gramado, garagem e uma torradeira 
que torra quatro fatias de po de uma s vez.
Sendo assim, fico apreensiva a respeito do futuro e, de certa forma, arrependida em relao ao passado. Digo a mim mesma que haver tempo de ponderar a questo amanh. 
Neste exato momento vou me divertir.  o tipo de coisa que uma pessoa disciplinada pode simplesmente decidir. E sou extremamente disciplinada - o tipo de criana 
que fazia o dever de casa na sexta-feira  tarde, logo depois da escola, o tipo de mulher (j que a partir de amanh no restar mais nada de menina em mim) que 
passa fio dental todas as noites e que faz a cama todas as manhs.
Darcy volta com as bebidas, mas Dex recusa a dele, ento ela insiste que eu fique com duas. Antes que eu perceba, a noite comea a adquirir aquela nebulosidade, 
entra naquele estgio em que voc passa da condio de alegre para a de bbada, perdendo a noo do tempo e da ordem exata das coisas. Pelo jeito, Darcy atingiu 
esse estado at antes de mim, porque neste exato momento ela est danando sobre o bar, rodopiando e serpenteando num minsculo vestido modelo frente-nica e com 
um salto de sete centmetros.
- Roubando a cena na sua festa - cochicha comigo Hillary, minha melhor amiga do trabalho. - Ela no tem vergonha.
Eu rio.
- , isso  a cara dela.
Darcy solta uns gritinhos, bate palmas com os braos para o alto e me convoca com uma expresso sedutora que agradaria qualquer homem que j tenha alguma vez fantasiado 
com mulheres interagindo com mulheres.
- Rachel, Rachel, vem pra c!
 claro que ela sabe que eu no vou me juntar a ela. Jamais dancei em cima de um bar. No saberia o que fazer l em cima, a no ser cair. Balano a cabea e rio, 
uma recusa educada. Ficamos todos aguardando a prxima jogada, que consiste em girar os quadris exatamente no ritmo da msica, ir se inclinando aos poucos e depois 
voltar bruscamente para endireitar o corpo, o cabelo se esparramando para todos os lados. A flexibilidade da manobra me faz lembrar de sua imitao perfeita de Tawny 
Kitaen no clipe de "Here I Go Again", do Whitesnake, da maneira como ela rodopiava e fazia spaccati no cap do BMW do pai dela, para deleite dos adolescentes da 
vizinhana. Olho para Dex, que nesses momentos nunca sabe se acha divertido ou se fica irritado. Dizer que o cara  paciente  pouco. Dex e eu temos isso em comum.
- Feliz aniversrio, Rachel! - grita Darcy. - Vamos todos fazer um brinde  Rachel!
E  o que todos fazem. Sem desgrudar os olhos dela. 
Um minuto depois, Dex tira Darcy do bar, suspendendo-a em seus ombros e devolvendo-a ao cho, ao meu lado, num movimento contnuo. Com certeza ele j fez isso outras 
vezes.
- Est bem - anuncia ele. - Vou levar nossa pequena organizadora de festas para casa.
Darcy apanha sua bebida e bate o p.
- Voc no manda em mim, Dex! No , Rachel?
Enquanto afirma sua independncia, Darcy tropea e derrama todo o martni no sapato de Dex. Ele faz uma cara feia.
- Voc est bbada, Darce. Ningum est achando a menor graa, s voc.
- Tudo bem, tudo bem. Eu vou embora... Estou mesmo me sentindo meio mal - diz ela, parecendo enjoada.
- Voc vai ficar bem?
- Vou ficar numa boa, no se preocupe - responde, agora fazendo o papel da menininha doente e corajosa.
Agradeo Darcy pela festa, digo que foi uma completa surpresa - o que  uma mentira, porque sabia que ela tiraria vantagens do meu trigsimo aniversrio para comprar 
um vestido novo, dar um festo e convidar tantos amigos dela quanto meus. Ainda assim, foi legal da parte dela ter organizado a festa e estou satisfeita de que tenha 
feito isso. Darcy  o tipo de amiga que sempre faz as coisas parecerem especiais. Ela me d um abrao apertado, diz que seria capaz de fazer qualquer coisa por mim 
e pergunta o que seria dela sem mim, sua madrinha nmero um, a irm que ela nunca teve. Ela est bastante efusiva, como sempre fica quando bebe demais.
Dex a interrompe.
- Feliz aniversrio, Rachel. A gente se fala amanh.
Ele me d um beijo no rosto.
- Obrigada, Dex - digo. - Boa noite.
Fico observando enquanto ele a conduz para fora, segurando-a pelo cotovelo depois que ela quase tropea no meio-fio. Oh, ter um guarda costas como este. Poder beber 
sem a menor preocupao, sabendo que haver algum para levar voc em segurana para casa. Algum tempo depois, Dex reaparece no bar.
- Darcy perdeu a bolsa. Ela acha que deixou por aqui.  pequena, prateada - diz. - Vocs viram por a?
- Ela perdeu a bolsa Chanel dela?
Balano a cabea e rio, porque perder as coisas  a cara da Darcy. Em geral tomo conta das coisas dela, mas no meu aniversrio no estou a servio. Ainda assim, 
ajudo Dex a procurar a bolsa, encontrando-a, afinal, embaixo de um dos bancos do bar.
Quando ele j est de sada, Marcus, um amigo de Dex, um de seus padrinhos de casamento, o convence a ficar.
- Ah, vai, cara. Fica mais um pouco a. 
Ento Dex liga para Darcy em casa e ela balbucia seu consentimento, diz a ele para se divertir sem ela. Embora provavelmente esteja convencida de que tal coisa no 
seja possvel.
Aos poucos meus amigos vo indo embora, ainda me desejando parabns. Dex e eu somos os ltimos, at mesmo Marcus j foi. Sentamos no bar puxando conversa com o ator/barman 
que tem um "Amy" tatuado e interesse zero numa advogada que est envelhecendo. J passa das duas quando decidimos que est na hora de ir embora. A noite est mais 
para meados de vero do que para primavera e, de repente, o ar quente me enche de esperanas: Este vai ser o vero em que vou encontrar o homem da minha vida.
Dex chama um txi para mim, mas, quando o carro pra, ele diz:
- Que tal irmos para um outro bar? Quer tomar mais um drinque?
- Tudo bem - respondo. - Por que no?
Entramos no carro e ele diz ao motorista para ir dirigindo, que ele ainda tem de pensar em qual vai ser a prxima parada. Acabamos em Alphabet City, num bar que 
fica na esquina da Stima Avenida com a Avenida B, apropriadamente chamado 7B.
No  um cenrio muito pra cima - o 7B  meio sombrio e enfumaado. De qualquer forma, gosto dali - no  pretensioso e tampouco uma espelunca se esforando para 
ser bacana justamente por no ser pretensiosa.
Dex aponta na direo de uma mesa que fica entre dois bancos altos.
- Senta a. Eu j venho.
Ele se vira.
- O que eu trago pra voc?
Digo que vou querer o mesmo que ele, sento e fico esperando na mesa. Percebo que ele diz alguma coisa para uma garota que est no bar, vestida com uma cala verde-oliva 
cheia de bolsos grandes e uma camiseta bem justa onde se l "Anjo Cado". Ela sorri e balana a cabea. "Omaha" est tocando ao fundo.  uma daquelas msicas que 
parecem melanclicas e alegres ao mesmo tempo.
Alguns momentos depois, Dex desliza pelo banco  minha frente e empurra uma cerveja na minha direo.
- Newcastle - diz ele. Ento sorri, algumas rugas aparecendo em torno dos olhos. - Voc gosta? 
Fao que sim com a cabea e sorrio.
De soslaio, vejo Anjo Cado girar em seu banco de bar e dar uma olhada em Dex, absorvendo seus traos bem desenhados, o cabelo ondulado e os lbios carnudos. Uma 
vez Darcy reclamou que Dex provocava mais olhares e viradas de cabea do que ela. Entretanto, ao contrrio de sua parceira do sexo oposto, Dex parece no perceber 
a ateno. Anjo Cado agora olha em minha direo, provavelmente imaginando o que Dex est fazendo com algum to comum. Espero que ela pense que somos um casal. 
Hoje  noite ningum precisa saber que sou apenas coadjuvante na festa de casamento.
Dex e eu conversamos sobre nossos trabalhos, sobre a casa que vamos dividir em Hamptons a partir da prxima semana e sobre muitas outras coisas. Mas o nome de Darcy 
no  mencionado, nem o casamento deles em setembro.
Depois que terminamos nossa cerveja vamos at a jukebox, enchemos a mquina com dlares, em busca de msicas boas. Aperto duas vezes o cdigo para "Thunder Road" 
porque essa  minha msica favorita. Digo isso a ele.
- , Bruce Springsteen tambm est no topo da minha lista. Voc j viu algum show dele?
- J - respondo. - Duas vezes.
Quase digo a ele que fui com a Darcy nos tempos da escola, que a arrastei comigo embora ela preferisse bandas como Poison e Bon Jovi. Mas no menciono isso. Porque 
do contrrio ele vai se lembrar de voltar para casa para encontr-la e eu no quero ficar sozinha nos ltimos momentos dos meus vinte anos. Obviamente, preferia 
estar com um namorado, mas Dex  melhor do que nada.
No 7B os garons esto atendendo aos ltimos pedidos da noite. Pegamos mais algumas cervejas e voltamos para a mesa. Algum tempo depois entramos novamente num txi, 
indo em direo ao norte pela Primeira Avenida.
- Duas paradas - avisa Dex ao motorista, porque moramos em lados opostos do Central Park.
Dex est segurando a bolsa Chanel de Darcy, que fica pequena e deslocada em sua mo enorme. Olho para o mostrador prateado do Rolex dele, um presente de Darcy. Falta 
pouco para as quatro horas.
Ficamos em silncio por uns dez ou 15 quarteires, ambos olhando para fora de nossas respectivas janelas, at que o carro passa por um buraco e me vejo lanada para 
o meio do banco traseiro, minha perna roando a dele. Ento, de repente, do nada, Dex est me beijando. Ou talvez eu esteja beijando Dex. No sei como, estamos nos 
beijando. Minha cabea fica leve enquanto ouo o suave som dos nossos lbios se encontrando repetidas vezes. A certa altura, Dex, entre um beijo e outro, diz ao 
motorista que no fim das contas vai ser apenas uma parada.
Chegamos na esquina da 73 com a Terceira Avenida, perto do meu apartamento. Dex entrega uma nota de vinte para o motorista e no espera pelo troco. Saltamos do txi, 
nos beijamos mais na calada e ento na frente de Jos, meu porteiro. Enquanto subimos, nos beijamos o tempo todo. Estou imprensada contra a parede do elevador, 
minhas mos em sua nuca. Fico surpresa ao sentir a maciez do cabelo dele.
Luto com as chaves, girando para o lado errado da fechadura, enquanto Dex mantm o brao em torno da minha cintura, seus lbios no meu pescoo e na lateral do meu 
rosto. Finalmente a porta se abre, e estamos nos beijando no meio do meu apartamento de apenas um cmodo. Estamos de p, tendo apenas um ao outro como apoio. Vamos 
cambaleando at minha cama, arrumada ao estilo de uma cama de hospital.
- Voc est bbada? - A voz dele  um sussurro no escuro.
-No - respondo.
Porque sempre se diz que no se est bbado. E embora eu esteja tenho um momento de lucidez quando considero exatamente o que estava faltando nos meus vinte anos 
e o que desejo encontrar a partir dos meus trinta. Fico impressionada ao ver que, de certa forma, posso ter ambas as coisas nesta importante noite de aniversario. 
Dex pode ser meu segredo, minha ultima chance para um capitulo oculto nos meus vinte anos, e tambm uma espcie de preldio - uma promessa de que algum como ele 
possa aparecer. Darcy surge no meu pensamento, mas esta sendo empurrada l para trs, encoberta por uma fora mais forte do que nossa amizade e do que a minha prpria 
conscincia. Dex se movimenta sobre mim. Meus olhos esto fechados, ento abertos, depois fechados novamente. 
E ento, no sei como, estou na cama com o noivo da minha melhor amida.

DOIS

Acordo com meu telefone tocando e por um segundo sinto-me desorientada em meu prprio apartamento. Ento ouo a voz estridente de Darcy na minha secretaria eletrnica, 
insistindo que eu atenda, atenda, por favor, atenda. De repente, meu crime entra em foco. Sento rpido demais e meu apartamento gira. As costas de Dex esto voltadas 
para mim, bem delineadas e com sardas esparsas. Dou uma cutucada nele com fora.
Ele se vira e olha para mim.
- Ai, meu Deus! Que horas so?
Meu radio-relgio nos informa que so 7h15. Faz duas horas que tenho trinta anos. Correo - uma hora, nasci no fuso horrio da regio central do pas.
Dex sai rpido da cama catando suas roupas, que esto espalhadas pelo quarto. A secretria eletrnica emite dois bipes, interrompendo Darcy. Ela telefona de novo 
e fica o tempo todo falando sobre Dex no ter voltado para casa. Mais uma vez, minha mquina a interrompe no meio de uma frase. Ela telefona uma terceira vez, gemendo:
- Acorda, vai, me telefona! Preciso de voc!
Quando comeo a me levantar, percebo que estou nua. Sento de novo e me cubro com um travesseiro.
- Oh, meu Deus. O que a gente faz? - minha voz est rouca e trmula. - Ser que eu devo atender? Dizer a ela que voc dormiu aqui?
- Que diabos, no! No atenda.. deixa eu pensar por uns segundos.
Ele se senta, s de cueca, e esfrega o maxilar, agora coberto pelo sombreado de inicio de barba.
Um pavor doentio e capaz de me deixar sbria se apodera de mim. Comeo a chorar. O que nunca ajuda em nada. 
- Olha s, Rachel, no chora- diz Dex. - Tudo vai acabar bem.
Ele veste o jeans e depois a camisa, puxa o zper, enfia a camisa para dentro da cala e abotoa com eficincia, como se fosse uma manh como outra qualquer. Em seguida 
verifica as mensagens no celular.
- Merda, 12 chamadas no atendidas - diz ele, sem parecer muito preocupado. Apenas seus olhos revelam uma certa ansiedade. 
Depois de se vestir, Dex senta de novo na beira da cama e apia a testa sobre as mos. Percebo que ele est respirando forte pelo nariz. O ar para dentro e para 
fora. Ento ele olha para mim, recomposto.
-Certo.  isso que vai acontecer. Rachel, olha para mim.
Obedeo s suas instrues, ainda agarrada ao travesseiro.
- Tudo vai ficar bem. Escuta s - explica Dex, como se estivesse conversando com um cliente numa sala de reunies.
- Estou ouvindo. -digo.
- Vou dizer a ela que fiquei na rua at mais ou menos cinco horas e depois fui tomar caf com Marcus. Pronto, ela no vai desconfiar de nada.
- O que eu falo para ela? - quero saber. Mentir nunca foi o meu forte.
- Diga apenas que voc saiu da festa e veio para casa... Diga que voc no consegue se lembrar com certeza se eu ainda estava l quando voc saiu, mas que voc acha 
que eu ainda estava l com o Marcus. E no deixe de dizer que voc "acha"... no seja to taxativa. E isso  tudo o que voc sabe, certo? - ele aponta para o meu 
telefone. - Liga de volta para ela, agora ... vou ligar para o Marcus assim que sair daqui. Entendeu?
Balano afirmativamente a cabea, meus olhos se enchendo de lgrimas novamente, enquanto ele se levanta.
- E fique calma - diz ele, sem maldade, mas com firmeza. E logo ele j est na porta, uma das mos na maaneta, a outra percorrendo o cabelo escuro, longo o suficiente 
para ser sexy.
- E se ela j tiver falado com o Marcus? - pergunto quando Dex j est no meio do corredor. Depois digo para mim mesma: - Estamos muito ferrados.
Ele se vira e olha pra mim do corredor. Por um segundo acho que est bravo, que vai gritar comigo para que eu me controle. Que isso no  uma questo de vida ou 
morte. Mas o tom dele  delicado.
- Rach, ns no estamos ferrados. J resolvi tudo. Voc apenas fala o que eu disse para voc falar... E ... Rachel?
- O qu?
- Sinto muito.
-  - respondo - Eu tambm.
Ser que estamos falando um com outro ... ou com Darcy?
Logo que Dex vai embora, vou para o telefone, ainda me sentido tonta. Demoro alguns minutos, mas finalmente crio coragem para ligar para Darcy.
Ela est histrica.
- O filho-da-me no veio para casa ontem  noite!  melhor que ele esteja deitado na cama de um hospital!... Voc acha que ele me traiu?
Comeo a dizer que no, que provavelmente ele apenas saiu com Marcus, mas penso melhor. Isso no pareceria bvio demais? Ser que eu diria isso se no soubesse de 
nada? No consigo pensar. Minha cabea est estourando e meu corao batendo forte. De tempos em tempos o quarto volta a girar.
- Tenho certeza de que ele no estava traindo voc.
Ela assoa o nariz.
- Por que voc tem tanta certeza? 
- Porque ele no faria isso com voc, Darce.
No consigo acreditar nas minhas palavras, na facilidade com que elas saem.
- Bem, ento onde  que ele est, porra? Os bares fecham l pelas quatro, cinco horas. Porra so 7h30.
- Eu no sei ... mas tenho certeza de que existe uma explicao lgica.
O que de fato existe.
Ela me pergunta a que horas eu fui embora, se ele ainda estava l e com quem estava - exatamente as perguntas para as quais Dex me havia preparado. Respondo com 
cuidado, como fora instruda. Sugiro que ela telefone a Marcus.
- J telefonei - diz ela. E aquele imbecil no atendeu o maldito celular.
Sim. Ns temos uma chance.
Ouo um clique de uma ligao na espera e Darcy desaparece, depois volta, dizendo que  o Dex e que ela vai me telefonar assim que puder.
 Levanto e ando cambaleante at o banheiro. Olho no espelho. Minha pela est toda manchada, avermelhada. Meus olhos esto com rodelas de rmel e lpis de maquiagem 
e ardem porque dormi com as lentes de contato. Tiro as lentes rapidamente, segundos antes de ter nsias de vmito sobre a privada. No vomito por causa da bebida 
desde os tempos de faculdade, e mesmo assim isso s aconteceu uma vez. Porque aprendo com os meus erros. A maior parte das pessoas na faculdade diz: "Nunca mais 
vou fazer isso". Ento fazem de novo no fim de semana seguinte. Mas eu mantenho a palavra.  assim que sou. Vou aprender com essa tambm. Deixa s eu me safar dessa.
Tomo um banho, fico livre do cheiro de fumaa no cabelo e na pele e deixo o telefone sobre a pia, esperando Darcy me ligar dizendo que est tudo bem. Mas as horas 
passam e ela no liga. Por volta do meio-dia comeam as ligaes pelo aniversrio. Meus pais fazem sua serenata anual e o tradicional "adivinha onde eu estava trinta 
anos atrs, nesta data?". Consigo disfarar e brincar com eles, mas no  fcil.
L pelas trs horas estou sem notcias da Darcy e ainda enjoada. Bebo de uma s vez um copo d'gua enorme, tomo dois anticidos e considero a possibilidade de pedir 
ovos fritos e bacon, remdio em que Darcy acredita piamente quando est de ressaca. Mas sei que nada vai aplacar a dor de esperar, imaginando o que estar acontecendo, 
sem saber se Dex se ferrou, ou se ns dois nos ferramos.
Ser que algum nos viu juntos no 7B?No txi? Na rua? Algum alm de Jos, cujo trabalho  no saber? O que estar acontecendo no Upper West Side, no apartamento 
deles? Ser que deu a louca e ele resolveu confessar? Ser que ela est fazendo as malas? Ser que esto fazendo amor o dia todo para aplacar a conscincia pesada 
dele? Ser que ainda esto brigando, dando voltas e mais voltas em torno de acusaes e negaes?
O medo deve suplantar todas as emoes - seja uma vergonha sufocante ou um arrependimento -, porque, por mais maluco que possa parecer, acho que no estou culpada 
por ter trado minha melhor amiga. Nem mesmo quando encontro no cho o preservativo que usamos. A nica culpa real que reconheo  a de no me sentir culpada. Mas 
vou me arrepender mais tarde, logo que souber que no corro perigo. Oh, por favor, meu Deus, nunca fiz nada assim. Por favor, permita que eu me safe dessa. Estou 
disposta a sacrificar toda a minha felicidade futura. Qualquer chance de encontrar um marido.
Penso em todos os acordos que tentei negociar com Ele quando ainda estava na escola, crescendo. Por favor, no permita que eu tire menos de B nesta prova de matemtica. 
Por favor, fao qualquer coisa - at preparar sopa para os pobres todos os sbados em vez de apenas uma vez por ms. Bons tempos aqueles. E pensar que um C algum 
dia simbolizou tudo o que poderia dar errado no meu mundo to organizado. Como  que pude, mesmo que de forma passageira, ter optado pelo caminho do mal? Como pude 
cometer um erro to enorme, com tanto potencial para alterar minha vida, e to completamente imperdovel?
Chega finalmente o momento em que no consigo mais suportar. Ligo para o celular da Darcy, mas cai direto na caixa-postal. Em seguida ligo para a casa deles, na 
esperana de que ela atenda. Em vez disso, Dex atende. Eu me retraio toda.
- Oi, Dex. Aqui  a Rachel - digo, tentando soar natural.
Voc sabe, a madrinha do seu casamento que est prestes a acontecer mulher com quem voc foi para a cama na noite passada.
- Oi, Rachel- ele diz casualmente. - E a? Voc se divertiu ontem  noite?
Por um segundo acho que ele est falando de ns dois e fico horrorizada com o desprendimento dele. Mas logo ouo Darcy ao fundo, clamando pelo telefone, e percebo 
que ele est apenas se referindo  festa.
- Ah, claro, foi timo, uma festa e tanto - mordo meu lbio.
Darcy j arrancou o telefone da mo dele. O tom dela  bem alegre, est completamente refeita.
- Puxa, me desculpa, esqueci de ligar de volta para voc. Sabe como , por um tempo a situao esteve dramtica por aqui.
- Mas voc est bem agora? Est tudo bem com voc ... e com Dex?
Tenho dificuldade em dizer o nome dele. Como se de alguma forma fosse dar bandeira.
- Hum, , espera s um minutinho.
Percebo que ela fechou a porta, ela sempre vai para o quarto quando fala ao telefone. Fico imaginando a cama deles com dossel, a cama da Charles P. Rogers que ajudei 
Darcy a escolher. Logo, logo ser o leito nupcial dos dois.
- Ah, , agora eu estou bem. Ele estava com o Marcus, foi s isso. Eles ficaram fora at tarde e acabaram indo tomar caf da manh. Mas  claro, voc sabe, ainda 
estou fazendo o gnero furiosa. Disse que  totalmente pattico, um cara de 34 anos, noivo, ficar fora a noite inteira. Pattico, voc no acha?
- , acho que sim. Mas sem maiores conseqncias - engulo em seco e penso, sim, aquilo no teria maiores conseqncias. - Bem, fico satisfeita que vocs tenham se 
entendido.
- , estou numa boa, eu acho. Mas ainda assim ... ele deveria ter telefonado. No aceito esse tipo de merda, entende?
- Sei - digo e depois corajosamente acrescento -, eu disse que ele no estava traindo voc.
- Eu sei... mas ainda assim fico imaginando Dex com alguma stripper desmiolada ou coisa parecida.  a minha imaginao frtil.
Foi isso que a noite passada representou? Sei que no sou uma desmiolada, mas ter sido uma escolha consciente da parte dele ir para a cama com algum antes do casamento? 
No, certamente no. Certamente ele no escolheria a madrinha da noiva.
- Enfim, e voc, o que achou da festa? Sou uma amiga to horrvel... fico bbada e saio cedo. E, oh, merda! Hoje  que  o dia mesmo do seu aniversrio. Feliz aniversrio! 
Meu Deus, eu sou a pior de todas, Rach!
, voc  a amiga m.
- Ah, foi timo. A festa foi to divertida. Muito obrigada por ter planejado tudo ... fiquei completamente surpresa ... realmente incrvel...
Ouo a porta do quarto deles se abrindo e Dex diz alguma coisa sobre estarem atrasados.
- , na verdade preciso correr, Rachel. Ns vamos ao cinema. Voc quer vir?
- Hum, no, obrigada.
- Tudo bem. Mas o jantar de hoje  noite est de p, certo? No Rain, s oito horas.
Tinha esquecido completamente dos planos de encontrar Dex, Darcy e Hillary para um pequeno jantar de aniversrio. No h a menor chance de eu conseguir encarar Dex 
ou Darcy hoje  noite - e com certeza no os dois ao mesmo tempo. Digo a ela que no sei se vou, que estou realmente de ressaca. Apesar de ter parado de beber s 
duas, acrescento, antes de me lembrar que mentirosos costumam oferecer detalhes sem muita importncia.
Darcy no nota.
- Talvez voc se sinta melhor mais tarde ... ligo para voc depois do cinema.
Desligo o telefone achando que foi fcil demais. Mas em vez de me sentir aliviada, acabo ficando com uma vaga insatisfao, uma tristeza, desejando que fosse eu 
quem estivesse indo ao cinema. No com Dex,  claro. Apenas algum. Com que rapidez eu dou as costas ao meu acordo com Deus! Quero um marido novamente. Ou pelo menos 
um namorado.
Sento no sof com as mos cruzadas sobre o colo, meditando sobre o que fiz com Darcy, esperando a culpa chegar. No chega. Foi porque tive o lcool como desculpa? 
Estava bbada, fora do meu perfeito juzo. Penso na minha aula de Direito Penal no primeiro ano da faculdade. Intoxicao, assim como infncia, insanidade, coao 
e induo,  uma desculpa legal, uma defesa onde o ru no  imputvel por ter se engajado numa conduta que de outro modo seria um crime. Merda. Aquilo foi apenas
intoxicao involuntria. Bem, foi Darcy quem me fez beber aquelas doses todas. S que presso do grupo no constitui intoxicao involuntria. Ainda assim,  um 
atenuante que o jri pode levar em conta.
Claro, responsabilize a vtima. O que h de errado comigo?
Talvez eu simplesmente seja uma pessoa m. Talvez a nica razo para que eu tenha sido boa at agora tenha menos a ver com a minha firmeza de carter e mais a ver 
com o medo de ser pega em flagrante. Obedeo s regras porque tenho averso ao risco. Nunca roubei supermercados quando era adolescente em parte porque sabia que 
era errado, mas principalmente porque sabia que seria a primeira pessoa a se dar mal. Nunca colei em nenhuma prova pela mesma razo. At hoje sou assim, no levo 
pra casa nada do escritrio porque de alguma forma acredito que as cmeras de vigilncia vo me pegar em flagrante. Ento, se  isso que me motiva a ser boa, ser 
que realmente mereo crdito? Ser que sou mesmo uma pessoa boa? Ou apenas uma pessimista covarde?
Tudo bem. Talvez eu seja mesmo uma pessoa m. No h outra explicao plausvel para a minha falta de culpa. Ser que fiz isso com a Darcy de propsito? Ser que 
a noite passada foi motivada por cime? Ser que me ressinto de sua vida perfeita, da facilidade com que ela consegue as coisas? Ou talvez, de forma subconsciente, 
em meu estado de embriaguez, estivesse acertando as contas das coisas erradas que fez comigo no passado. Darcy no tem sido sempre uma amiga perfeita. Longe disso. 
Comeo a apresentar o caso ao jri, lembrando-me de Ethan no tempo do primrio. Estou me dando conta de uma coisa... Senhoras e senhores do jri, considerem a histria 
de Ethan Ainsley ...

Darcy Rhone e eu crescemos como melhores amigas, ligadas pela geografia, uma fora maior do que todas as outras quando se est no primrio. Ns nos mudamos para 
a mesma rua sem sada em Naperville, Indiana, no vero de 1976, bem a tempo de assistir ao desfile do bicentenrio da cidade. Marchamos lado a lado, batendo os mesmos 
tambores vermelhos, brancos e azuis que o pai dela comprou para a gente. Ainda me lembro da Darcy se inclinando para o meu lado e dizendo: "Vamos fazer de conta 
que somos irms." A idia me deixou arrepiada ... uma irm! E naquele exato momento foi o que ela se tornou para mim. Dormamos uma na casa da outra todas as sextas 
e sbados durante o ano e na maior parte dos dias da semana durante o vero. Fomos capazes de captar as nuanas das famlias uma da outra, detalhes que voc s conhece 
quando  vizinha de porta de uma amiga. Sabia, por exemplo, que a me de Darcy dobrava as toalhas em trs, com todo o capricho, enquanto via TV, que o pai dela tinha 
assinatura da Playboy, que gulodices eram permitidas no caf da manh e que as palavras "merda" e "porra" no tinham nada de mais. Tenho certeza de que ela tambm 
observou muita coisa na minha casa, embora seja difcil dizer o que faz da sua vida uma vida nica. Dividamos tudo roupas, brinquedos, quintais, at mesmo nosso 
amor por Andy Gibb, o Bee Gees, e por unicrnios.
Na 5a srie descobrimos os meninos. O que me leva ao Ethan, minha primeira paixo de verdade. Darcy, assim como todas as outras meninas da sala, gostava de Doug 
Jackson. Eu at entendia os encantos de Doug. Gostava do cabelo louro que ele tinha e que me lembrava Bo Duke de Os gates. Gostava tambm do modo como a cala Wrangler 
dele modelava sua bunda, do pente preto encaixado com capricho no bolso traseiro esquerdo. E tambm de sua liderana no beisebol- o modo como ele casualmente e sem 
esforo nenhum golpeava a bola para longe do alcance de todos em direo ao alto, quase na vertical.
Mas eu adorava Ethan. Adorava seu cabelo rebelde e o modo como suas bochechas ficavam cor-de-rosa durante o recreio, fazendo-o parecer uma pintura de Renoir. Adorava 
o modo como girava o lpis nmero dois entre os lbios carnudos, deixando mordidinhas simtricas perto da borracha sempre que estava bastante concentrado. Adorava 
o modo como ficava animado e feliz quando brincava com as meninas (ele era o nico menino que jogava com a gente - os outros meninos preferiam beisebol e futebol). 
Adorava o modo como era sempre gentil com o garoto menos popular da sala, Johnnie Redmond, um sujeito terrivelmente gago que tinha o cabelo cortado em forma de cuia.
Darcy ficava intrigada, se no irritada, com a minha dissidncia, assim como tambm a nossa boa amiga Annalise Giles, que se mudou para a nossa rua dois anos depois 
da gente (esse atraso e o fato de ela j ter uma irm significavam que ela nunca poderia efetivamente se igualar e alcanar a condio de melhor amiga). Darcy e 
Annalise gostavam de Ethan, mas no daquele jeito, e insistiam em dizer que Doug era muito mais bonito e muito mais legal... dois atributos que podem meter voc 
em encrenca quando voc escolhe um garoto ou um homem - uma percepo que tive mesmo aos dez anos de idade.
Todos ns tnhamos certeza de que Darcy levaria o grande prmio Doug. No apenas porque ela era mais destemida do que as outras meninas, dirigindo-se a Doug toda 
empertigada na lanchonete ou no quintal, mas tambm porque ela era a menina mais bonita da sala. Com as mas do rosto salientes, os olhos grandes, harmnicos, e 
um nariz delicado, Darcy tinha um rosto que agradava a todas as idades, embora na 5a srie ningum soubesse dizer ainda exatamente o que faz uma pessoa ser bonita. 
No acho que aos dez anos eu chegasse a compreender o significado de ma do rosto e estrutura ssea, mas sabia que Darcy era bonita e sentia inveja da aparncia 
dela. Annalise tambm, e sempre que tinha uma chance dizia isso abertamente a Darcy, o que me parecia totalmente desnecessrio. Darcy j sabia que era bonita e, 
em minha opinio, no precisava que essa informao fosse reforada todos os dias.
Ento, naquele ano, no Halloween, Annalise, Darcy e eu nos reunimos no quarto de Annalise para improvisarmos nossas fantasias de ciganas - Darcy havia insistido 
que seria uma excelente desculpa para usarmos bastante maquiagem. Enquanto ela apreciava seus brincos que imitavam brilhantes, recm-adquiridos, olhou-se no espelho 
e disse:
- Sabe de uma coisa, Rachel? Acho que voc est certa.
- Certa sobre o qu? - perguntei, sentindo uma onda de satisfao, imaginando a que discusso anterior ela estava se referindo.
Darcy colocou um dos brincos e olhou para mim. Nunca vou esquecer aquele sorrisinho debochado no rosto dela, apenas uma leve insinuao de um sorriso de escrnio.
- Voc est certa sobre o Ethan. Acho que tambm vou gostar dele.
- O que voc quer dizer com "vou gostar dele"?
- Estou cansada de Doug Jackson. Agora eu gosto do Ethan. Gosto das covinhas dele.
- Ele s tem uma covinha - rebati.
- Bem, ento eu gosto da covi-nha dele.
Olhei para Annalise em busca de apoio, de palavras que explicassem que uma pessoa no podia simplesmente decidir gostar de outra pessoa. Mas  claro que ela no 
disse nada, apenas continuou passando seu batom cor de rubi, fazendo biquinho para um espelho de mo.
- No acredito em voc, Darcy!
- Qual  o seu problema? - perguntou ela. - A Annalise no ficou chateada comigo quando eu gostava do Doug. Ns dividimos o Doug com toda a nossa srie durante meses. 
No , Annalise?
- Mais tempo do que isso. Comecei a gostar dele no vero. Lembra? Na piscina? -concordou Annalise, sempre incapaz de enxergar todo o quadro.
Olhei na direo dela, que abaixou o olhar com remorso.
Aquilo era diferente. Aquilo era Doug. Ele j havia cado em domnio pblico. Mas Ethan era exclusivamente meu.
Naquela noite eu no disse mais nada, mas o passeio pela vizinhana em busca de doces estava arruinado. No dia seguinte, na escola, Darcy mandou um bilhete para 
Ethan, perguntando a ele se gostava de mim, dela ou de nenhuma das duas - com quadradinhos ao lado de cada opo e instrues para que ele assinalasse uma delas. 
Ele deve ter assinalado o nome de Darcy, porque na hora do recreio eles j tinham se tornado um casal. O que significa dizer que eles anunciaram que "estavam namorando", 
mas nunca passavam nenhum tempo de verdade juntos, a no ser que voc conte alguns telefonemas  noite, freqentemente combinados com antecedncia e com direito 
a Annalise dando risadinhas ao lado dela. Eu me recusei a participar ou discutir seu novo romance.
Na minha cabea, no fazia diferena que Darcy e Ethan nunca tivessem se beijado, ou que fosse apenas a 5a srie, ou que eles tivessem "terminado" duas semanas depois, 
quando Darcy perdeu o interesse e decidiu que voltaria a gostar de Doug Jackson. Ou, como minha me disse para me consolar, que a imitao era a mais sincera forma 
de lisonja. S o que contava era que Darcy tinha roubado Ethan de mim. Talvez ela tenha feito isso porque realmente tenha mudado de idia a respeito dele; foi isso 
que disse a mim mesma para poder parar de odi-Ia. Mas o mais provvel  que Darcy tenha ficado com Ethan apenas para me mostrar que era capaz de faz-lo.

Ento, senhoras e senhores do jri, Darcy Rhone merecia isso. Aqui se jaz,
aqui se paga. Talvez esse seja o seu castigo merecido.
Fico imaginando as expresses dos jurados. Eles no esto convencidos. Os representantes masculinos do jri parecem perplexos, como se no entendessem nada do que 
est sendo dito. No  sempre a garota bonita que fica com o garoto?  esse precisamente o modo como o mundo deveria funcionar. Uma mulher mais velha, num vestido 
discreto, aperta os lbios. Ela est enojada pela simples comparao - um noivo comparado a uma paixo da 5a srie! Pelo amor de Deus! Uma mulher impecvel, quase 
bonita, vestindo um terninho Chanel amarelo-canrio, j identificou Darcy como aliada. No h nada que eu possa dizer para mudar a opinio dela ou atenuar minha 
ofensa.
A nica jurada que parece sensibilizada pela histria de Ethan  uma garota meio gordinha, de cabelos bem curtos, cor de caf aguado. Ela se apia com desleixo na 
borda da bancada e de vez em quando empurra os culos para cima do nariz adunco. Essa garota est a meu favor, inspirei seu senso de justia. Ela est secretamente 
satisfeita com o que fiz. Talvez porque ela tambm tenha uma amiga como Darcy, uma amiga que sempre consegue tudo o que quer.
Penso nos tempos do segundo grau, quando Darcy seguiu conquistando todos os garotos que quis. Posso v-la beijando Blaine Conner perto do nosso armrio no corredor 
e recordar a inveja que brotava em mim quando eu, sem namorado, era forada a testemunhar a desavergonhada demonstrao pblica de afeto dos dois. Blaine tinha sido 
transferido para a nossa escola vindo de Columbus, Ohio, no outono do nosso terceiro ano, e imediatamente se tornou um sucesso em todos os lugares, menos na sala 
de aula. Apesar de no ser muito brilhante, ele era a estrela do nosso time de futebol, o armador titular do nosso time de basquete e,  claro, nosso principal arremessador 
do time de beisebol na primavera. E, com aquele jeito bonito de namorado da Barbie, as meninas o adoravam. Doug Jackson, parte dois. S que, infelizmente, ele tinha 
uma namorada chamada Cassandra, l em Columbus, com quem alegava ser "110% comprometido" (uma expresso do jargo esportivo que sempre me incomodou por sua bvia 
impossibilidade matemtica). Ou pelo menos costumava ser, antes de Darcy entrar na histria, depois de assistirmos a um jogo em que Blaine no permitiu nenhuma rebatida 
vlida contra o Central e ela decidir que ele tinha de ser dela. No dia seguinte ela o convidou para assistir ao musical Os miserveis.  de se esperar que um atleta 
que pratica trs modalidades de esporte como o Blaine no seja muito chegado a musicais, mas ele concordou em acompanh-la, e com bastante entusiasmo. Depois o espetculo, 
na sala de estar de Darcy, Blaine carimbou um baita chupo no pescoo dela. Na manh seguinte, uma certa Cassandra de Columbus, Ohio, levou um tremendo p na bunda.
Eu me lembro de conversar com Annalise sobre a vida privilegiada que Darcy levava. Discutamos Darcy com muita freqncia, o que me levava a imaginar o quanto elas 
fofocavam a meu respeito. Annalise argumentava que no era apenas o visual ou o corpo perfeito dela, era tambm a sua segurana, o seu charme. Sobre o charme eu 
no sei, mas, olhando em retrospecto, concordo com Annalise quanto  segurana. Era como se Darcy tivesse a perspectiva de uma mulher de trinta anos, s que ainda 
no segundo grau. Tinha a compreenso de que nada daquilo importava, de que s se vive a vida uma vez e de que vale a pena ir  luta. Ela nunca se intimidava, nunca 
ficava insegura. Incorporava aquilo que todo mundo diz quando recorda os anos de ginsio: "Se eu soubesse disso naquela poca."
Mas se h uma coisa que posso dizer sobre Darcy e seus namoros  isto: ela nunca nos dispensou por um cara. Sempre colocava as amigas em primeiro lugar - o que  
incrvel para uma menina no segundo grau. s vezes ela chegava mesmo a dispensar o namorado, porm mais freqentemente apenas nos inclua nos programas. Formvamos 
uma fila de quatro no teatro. O namorado da vez, depois Darcy, Annalise e eu. E Darcy sempre sussurrava seus comentrios em nossa direo. Ela era impetuosa e independente, 
ao contrrio da maioria das meninas da esola, que permitiam que seus sentimentos por um rapaz as engolisse. Naquela poca eu achava que ela simplesmente no os amava 
o suficiente. Talvez Darcy quisesse apenas manter o controle, e, sendo a pessoa que amava menos, era isso o que conseguia. No sei se ela realmente se importava 
menos ou apenas fingia, mas sei que mantinha cada um deles  sua merc, mesmo depois de dispens-los. Veja Blaine, por exemplo. Ele est morando em Iowa com a esposa, 
trs filhos, dois labradores e ainda manda e-mails para Darcy no aniversrio dela. Isso sim  que  poder.
At hoje Darcy fala com nostalgia sobre os bons tempos do ginsio. Eu me encolho todas as vezes que ela diz isso.  claro, tenho algumas boas lembranas daqueles 
dias e desfrutei uma popularidade razovel - um bom benefcio adicional por ser a melhor amiga de Darcy. Adorava ir aos jogos de futebol com Annalise, pintar nossos 
rostos de laranja e azul, ficar enrolada em cobertores nas arquibancadas e dar tchau para Darcy enquanto ela animava a torcida l no campo. Adorava nossas idas aos 
sbados  noite at a sorveteria Colonial, onde sempre pedamos a mesma coisa - um sundae de baunilha com calda de caramelo e chocolate, uma torta de caramelo, chocolate 
e amendoim e um brownie de chocolate duplo - e depois dividamos tudo entre ns trs. E eu adorava o meu primeiro namorado, Brandon Beamer, que me chamou para sair 
durante nosso ltimo ano. Brandon tambm gostava de respeitar regras, uma verso catlica de mim. Ele no bebia ou usava drogas e ficava culpado s de conversar 
sobre sexo. Darcy, que perdeu a virgindade quando estava no segundo ano, com um espanhol que fazia intercmbio e se chamava Carlos, ficava sempre me instruindo a 
corromper Brandon. "Segure o pnis dele assim e eu garanto, no tem erro." S que eu estava perfeitamente feliz com as nossas longas sesses de agarramentos na caminhonete 
da famlia dele e nunca tive de me preocupar com sexo seguro e com dirigir embriagada. Portanto, se as minhas lembranas no eram glamourosas, pelo menos eu me divertia 
razoavelmente.
Tive meus momentos ruins tambm: os dias em que o cabelo ficava horroroso, as espinhas, as infernais fotos de turma, nunca usava as roupas certas, ficava sem par 
para danar nas festas, no conseguia me livrar do excesso de gordurinhas dos tempos de beb, era cortada dos times, perdia eleies para tesoureiro da classe.Alm 
de uma avassaladora angstia que ia e vinha  minha revelia (ou, mais precisamente, uma vez por ms), aparentemente fora do meu controle. Coisas tpicas da adolescncia, 
realmente. Clichs, porque isso acontece com qualquer um. Qualquer um menos Darcy, isto , Darcy que pairou por esses tumultuados quatro anos de escola sem sofrer 
rejeies, intocada pela maldio da feira adolescente.  claro que Darcy adorava a escola, e a escola adorava Darcy.
Muitas garotas com essa viso de seus anos de adolescncia costumam se dar mal mais tarde na vida. Elas aparecem nas reunies de dez anos de formatura dez quilos 
mais gordas, divorciadas e saudosas de seus longnquos dias de glria. Mas a mar dos dias de glria ainda no acabou para Darcy. Ela no sofreu nenhuma grande derrota 
ou decepo. De fato, a vida s fica cada vez mais doce com ela. Como minha me disse um dia, no muito ao estilo dela, o mundo come na mo de Darcy. Essa costumava 
ser - e ainda  - a melhor definio. Darcy sempre consegue o que quer. E isso inclui Dex, o noivo dos sonhos.

Deixo uma mensagem no celular dela, que vai estar desligado durante o filme. Digo que estou cansada demais para sair para jantar. S de conseguir me livrar do programa 
j me sinto menos enjoada. De fato, de repente, estou morrendo de fome. Procuro meus cardpios e telefono para pedir um hambrguer com queijo eheddar e batata frita. 
Acho que no vou conseguir perder dois quilos at o feriado do Memorial Day. Enquanto espero pela minha entrega, lembro de quando Darcy e eu brincamos com a agenda 
todos aqueles anos atrs, imaginando o futuro e o que os trinta anos trariam.
E aqui estou eu, sem o meu marido boa-pinta, sem a bab responsvel e sem os dois filhos. Em vez disso, meu aniversrio mais importante est manchado para sempre 
por um escndalo ... Mas, afinal, no faz sentido ficar me martirizando por isso. Aperto o boto de rediscagem do telefone e acrescento ao meu pedido um milk-shake 
de chocolate grande. Posso ver minha garota no canto da bancada dos jurados piscando para mim. Ela acha que o milk-shake  uma excelente idia. Afinal de contas, 
no  verdade que todos tm direito a alguns momentos de fraqueza no dia do seu aniversrio?

TRS

Quando acordo na manh seguinte, aquela garota despreocupada tomando um milk-shake j foi embora, corroda pela culpa e por trinta anos de obedincia. No consigo 
mais racionalizar o que fiz. Cometi um ato deplorvel contra uma amiga, violei um preceito fundamental da fraternidade. No h justifIcativa.
Ento, Plano B: vou fingir que nada aconteceu. Minha transgresso foi to grande que no tenho escolha, a no ser desejar que toda a coisa desaparea. E, continuando 
com os negcios de sempre, abraando minha rotina das manhs de segunda-feira,  isso que pretendo fazer.
Tomo um banho, seco o cabelo, visto o meu terninho preto mais confortvel com sapatos de salto baixo, pego o metr at Grand Central, compro um caf e o jornal na 
minha banca de sempre, depois subo dois lances de escadas rolantes e pego um elevador at o meu escritrio no prdio da MetLife. Cada parte da minha rotina me leva 
um passo mais longe de Dex e do Incidente.
Chego ao escritrio s 8h30, cedo demais para os padres dos escritrios de advocacia. Os corredores esto silenciosos. Nem mesmo as secretrias chegaram. Estou 
passando para a seo de notcias locais do jornal, bebericando meu caf, quando noto a luz vermelha de mensagens piscando no meu telefone - geralmente um sinal 
de que h mais trabalho  minha espera. Algum daqueles scios imbecis do escritrio deve ter me telefonado durante o nico fim de semana da histria recente em que 
deixei de checar minhas mensagens. Aposto todas as minhas fichas em Les, o homem que domina minha vida e o advogado mais imbecil de todos os que povoam estes seis 
andares de escritrios. Digito minha senha, espero ... 
"Voc tem uma nova mensagem de um telefone externo. Recebida hoje, s 7h42...", a gravao me informa. Odeio essa mulher automatizada. Com bastante freqncia ela 
 portadora de ms notcias e faz isso com uma voz alegre. Eles deveriam ajustar essas gravaes nos escritrios de advocacia, adotar uma voz mais sbria: "-" 
- com a msica ameaadora do filme Tubaro ao fundo - "voc tem quatro mensagens novas ...".
O que  desta vez?, penso enquanto aperto o play.
- Oi, Rachel... Sou eu... Dex... Quis telefonar para voc ontem para conversar sobre sbado  noite, mas ... simplesmente no deu. Acho que a gente deveria conversar 
sobre isso, voc no acha? Telefona para mim quando puder. Devo estar por aqui o dia todo.
Meu corao sucumbe. Por que ele no adota a boa e velha tcnica de evitar e ignorar o assunto, nunca mais falar nisso? Essa era a minha ttica de jogo. No  de 
se estranhar que eu odeie meu trabalho. Sou uma advogada da rea de litgios, detesto confrontao. Pego uma caneta e fico batendo na beirada da mesa. Ouo minha 
me me dizer para parar com isso. Largo a caneta e fico olhando para a luz piscando. A mulher exige que uma deciso seja tomada a respeito desta mensagem - posso 
ouvir outra vez, armazenar ou apagar.
Sobre o que ele quer conversar? O que h para ser dito? Coloco a mensagem para tocar mais uma vez, na expectativa de que as respostas me ocorram com o som da voz 
dele, com sua cadncia, mas Dex no deixa transparecer nada. Ouo vezes e mais vezes at que a voz dele comea a soar distorcida, exatamente como uma palavra soa 
na sua boca quando voc a repete o bastante. Ovo, ovo, ovo, ovo. Essa costumava ser a minha favorita. Eu a repetia vrias vezes, at parecer que eu estava dizendo 
a palavra errada para a substncia amarela que eu logo comeria no caf da manh.
Ouo Dex uma ltima vez antes de apag-la. A voz dele definitivamente soa diferente. Isso faz sentido porque, de certa maneira, ele est diferente. Ns dois estamos. 
Porque mesmo que eu tente esquecer o que aconteceu, mesmo que Dex no mencione mais o Incidente depois de um telefonema rpido e sem jeito, ns estaremos para sempre 
na Lista um do outro - aquela lista que todo mundo tem, seja registrada num caderno espiral secreto ou guardada num canto da memria. Seja curta ou longa. Seja organizada 
por desempenho, importncia ou data. Seja completa com primeiro nome, nome do meio e sobrenome ou meras descries, como na lista de Darcy: "Delta Sig com msculos 
deltides de matar ...".
Dex est para sempre na minha Lista. De repente, sem querer, penso em ns dois juntos na cama. Durante aqueles momentos passageiros, ele foi apenas Dex - destacado 
de Darcy. Algo que h muito tempo ele no era. Algo que ele no era desde o dia em que apresentei os dois.
Conheci Dex durante o meu primeiro ano no curso de Direito na Universidade de Nova York. Diferente da maioria dos alunos que vai direto para o curso de Direito quando 
no consegue pensar em nada melhor para fazer com histricos escolares brilhantes, Dex Thaler era mais velho, com experincia de vida de verdade. Ele havia trabalhado 
como analista de mercado na Goldman Sachs, o que superava em muito os meus estgios de 9h s 17h durante o vero e os trabalhos de escritrio, preenchendo formulrios 
e atendendo telefonemas. Dex era seguro, relaxado e to bonito que era difcil parar de olhar para ele. Eu estava certa de que se transformaria no Doug Jackson e 
no Blaine Conner do curso de Direito. Como era de se esperar, estvamos apenas na nossa primeira semana de aula quando comeou um zunzunzum a respeito dele: as mulheres 
especulavam sobre seu estado civil, notando que seu dedo anular esquerdo no tinha nenhum adorno ou, por outro lado, preocupando-se que ele fosse bem vestido e bonito 
demais para ser heterossexual.
Mas descartei Dex de cara, convencendo a mim mesma de que sua aparente perfeio era entediante. Uma postura que foi at melhor para mim, porque tambm sabia que 
ele no era para o meu bico. (Odeio essa expresso e a presuno de que as pessoas escolhem seus parceiros baseadas to fortemente na aparncia, mas  difcil negar 
esse princpio quando voc d uma olhada em volta - num casal, os dois parceiros geralmente se caracterizam por um poder de atrao semelhante e, quando
isso no acontece, salta aos olhos.) Alm do mais, eu no estava tomando um emprstimo de trinta mil dlares por ano s para arranjar um namorado.
E, para falar a verdade, provavelmente teria mesmo passado trs anos sem falar com ele, se por acaso no tivssemos acabado sentando perto um do outro na aula de 
Responsabilidade Civil, uma aula com lugares marcados, ministrada pelo sardnico professor Zigman. Apesar de muitos professores na Universidade de Nova York usarem 
o mtodo socrtico, apenas Zigman o utilizava como uma ferramenta para humilhar e torturar seus alunos. Dex e eu nos unimos pelo dio que sentamos por nosso cruel 
professor. Enquanto eu tinha um medo irracional de Zigman, a reao do Dexter era mais de repugnncia.
- Que babaca - resmungava ele depois da aula, geralmente depois de Zigman ter levado algum colega s lgrimas. - Eu adoraria tirar esse sorrisinho afetado da cara 
pedante dele.
Aos poucos, nossas lamentaes se transformaram em conversas mais demoradas na sala dos alunos ou durante passeios pelo parque. Comeamos a estudar juntos uma hora 
antes da aula para nos prepararmos para o inevitvel - o dia em que Zigman se dirigiria a ns. Eu tinha pavor de que chegasse a minha vez, porque sabia que seria 
um massacre, mas no ntimo no via a hora de Dexter ser chamado. Zigman ia atrs
dos fracos e daqueles que se intimidavam e Dex no se encaixava em nenhuma dessas duas categorias. Tinha certeza de que ele no se renderia sem lutar.
Ainda me lembro muito bem. Zigman de p, atrs do pdio, examinando o mapa da turma - um esquema com nossos rostos recortados do livro do primeiro ano -, praticamente 
salivando ao escolher sua presa. Ele espiou por sobre os culos pequenos e arredondados (do tipo que quase poderia ser chamado de pincen), na direo dos alunos 
em geral, e disse:
- Senhor Thaler.
Zig tinha pronunciado errado o nome de Dex, fazendo com que rimasse com "talher".
-  "Thaa-ler" - Dex disse, sem hesitar.
Perdi o flego; ningum corrigia Zigman. Agora Dex ia se dar mal.
- Bem, perdo, senhor Thaa-ler - Zigman disse, com uma pequena reverncia fingida. - Palsgraf versus companhia ferroviria de Long Island.
Calmo, Dex no se mexeu na cadeira e manteve o livro fechado, enquanto o resto da classe nervosamente folheava o material em busca do caso que havamos sido instrudos 
a ler na noite anterior.
O caso envolvia um acidente ferrovirio. Enquanto corria para entrar num trem, um funcionrio da ferrovia derrubou um pacote de dinamite que estava na mo de um 
passageiro, causando ferimentos em outro passageiro, a senhora Palsgraf. O juiz Cardozo, como na maior parte das decises precedentes, sustentou que a senhora Palsgraf 
no era uma "vtima previsvel" e, como tal, no poderia ser indenizada pela companhia ferroviria. Talvez os funcionrios da companhia pudessem ter previsto o dano 
para a pessoa que portava o pacote, a Corte explicou, mas no o dano para a senhora Palsgraf.
- O senhor acha que a vtima tem direito a ser indenizada? - perguntou Zigman para Dex.
Dex no disse nada. Por uma frao de segundo fiquei em pnico imaginando que ele tivesse paralisado, como outros antes dele. Diga no; pensei, mandando para ele 
ondas cerebrais intensas. Siga a mesma linha das sentenas anteriores. Mas quando olhei para sua expresso e para o modo como seus braos estavam cruzados sobre 
o peito, percebi que estava apenas sem pressa, num contraste marcante com o modo como a maioria dos estudantes de primeiro ano oferecia respostas rpidas e nervosas 
sem pensar, como se o tempo de reao pudesse compensar a dificuldade de compreenso.
- Na minha opinio? - indagou Dex.
- Estou me dirigindo ao senhor, senhor Thaler. Portanto, sim, estou pedindo sua opinio.
- Eu diria que sim, a vtima deveria ser indenizada. Concordo com o voto divergente do juiz Andrew.
- Ohhhh,  mesmo? - a voz de Zigman era alta e nasalada.
- Sim.  mesmo.
Fiquei surpresa com a resposta dele, j que havia me dito um pouco antes da aula que no sabia que as pessoas j fumavam crack em 1928, porque o juiz Andrew certamente 
estava drogado quando deu seu voto divergente. Fiquei ainda mais surpresa pelo descarado " mesmo" atrelado ao final da resposta, como se para atingir Zigman.
O peito magricela de Zigman se expandiu visivelmente.
- Ento voc acha que a segurana deveria ter previsto que um inofensivo pacote medindo quarenta centmetros de comprimento, embrulhado em jornal, continha explosivos 
e causaria danos  vtima?
- Era certamente uma possibilidade.
- Ser que ela deveria ter previsto que o pacote causaria dano a qualquer pessoa no mundo? - perguntou Zigman, com um crescente sarcasmo.
- Eu no disse "qualquer pessoa no mundo". Eu disse " vtima". Na minha opinio, a senhora Palsgraf estava em zona de perigo.
Zigman aproximou-se da nossa fileira todo empertigado e jogou seu jornal sobre o livro fechado de Dex.
- O senhor se importaria de me devolver o meu jornal?
- Preferiria no fazer isso - disse Dex.
O estado de choque que se instalou na sala era quase palpvel. O resto de ns teria simplesmente cooperado e devolvido o jornal, mero objeto de cena no interrogatrio 
de Zigman.
- O senhor preferiria no devolver? - disse Zigman erguendo a cabea.
- Correto. Poderia haver dinamite embrulhada dentro dele.
Metade da sala engoliu em seco, a outra metade teve de fazer fora para no rir. Obviamente, Zigman tinha alguma carta escondida na manga, alguma forma de reverter 
os fatos contra Dex. Mas Dex no mordeu a isca. Zigman estava visivelmente frustrado.
- Bem, vamos supor que o senhor de fato tenha escolhido me devolver o jornal e que o pacote de fato contenha uma banana de dinamite e que de fato cause algum ferimento 
ao senhor. E ento, senhor Thaler?
- Ento eu processaria o senhor e provavelmente ganharia.
- E essa indenizao seria consistente com a fundamentao do juiz Cardozo, que seguia a mesma linha das sentenas anteriores?
- No, no seria.
-  mesmo? E por que no?
- Porque eu processaria o senhor por delito intencional, e Cardozo falava de negligncia, no ? - Dex levantou a voz para ficar no mesmo tom de Zigman.
Acho que parei de respirar quando Zigman juntou as palmas das mos e aproximou-as com cuidado contra o peito, como se estivesse rezando.
- Sou eu quem faz as perguntas nesta sala. Se o senhor no se importa, senhor Thaler.
Dex deu de ombros, como se dissesse que Zigman podia fazer como
bem entendesse, que para ele no fazia diferena.
- Bem, vamos supor que acidentalmente eu tenha deixado cair o jornal sobre a sua mesa e o senhor tenha me devolvido e se machucado. Ser que o juiz Cardozo lhe concederia 
indenizao total?
-  claro.
- E por qu?
Dex suspirou para mostrar que o exerccio era maante e a disse rpida e claramente:
- Porque era inteiramente previsvel que a dinamite pudesse me causar ferimentos. Sua ao de deixar cair o jornal sobre meu espao pessoal violou meu interesse 
protegido por lei. Sua negligncia ocasionou um risco aparente aos olhos da vigilncia comum.
Consultei as partes destacadas no meu livro. Dex estava citando literalmente a opinio do juiz Cardozo, sem nem ao menos dar uma olhada no livro. A classe inteira 
estava maravilhada - ningum tinha se sado to bem, ainda mais com Zigman to perto.
- E se a senhorita Myers processasse - Zigman perguntou, apontando para uma trmula Julie Myers do outro lado da sala, sua vtima do dia anterior -, ser que ela 
teria direito  indenizao?
- De acordo com o que sustenta Cardozo ou com o voto divergente de Andrew?
- Do juiz Andrew. J que  a opinio com a qual o senhor compartilha.
- Sim.  dever de todos evitar atos que coloquem em risco a vida de outras pessoas alm do aceitvel- disse Dex, numa outra citao completa do voto divergente.
O interrogatrio prosseguiu dessa maneira por quase uma hora, Dex distinguindo nuanas em pequenos detalhes dos fatos modificados pelo professor, nunca hesitando, 
sempre respondendo de forma conclusiva.
Por incrvel que parea, quando j havia se passado uma hora completa, Zigman disse:
- Muito bem, senhor Thaler.
Era a primeira vez que isso acontecia.
Sa da sala exultante. Dex havia triunfado por todos ns. A histria se espalhou por todas as turmas de primeiro ano, rendendo a ele mais pontos com as garotas, 
que h muito tempo j tinham decidido que ele estava totalmente disponvel.
Contei a histria para Darcy tambm. Ela havia se mudado para Nova York na mesma poca que eu, s que sob circunstncias completamente diferentes. Eu estava l para 
me tornar advogada; ela veio sem trabalho, sem plano e sem dinheiro suficiente. Deixei que ela dormisse num futon no meu dormitrio at ela encontrar algumas garotas 
para dividir um apartamento - trs aeromoas da American Airlines em busca de algum para espremer um quarto corpo no j to dividido conjugado delas. Darcy pediu 
dinheiro emprestado aos pais para pagar o aluguel enquanto procurava um trabalho e finalmente se estabeleceu como garonete no Monkey Bar. Pela primeira vez na histria 
da nossa amizade eu estava mais feliz com a minha vida em comparao com a dela. Eu era to pobre quanto ela, mas pelo menos tinha um plano. As perspectivas de Darcy 
no eram to boas, j que a sua mdia final na Universidade de Indiana no era das melhores.
- Voc  to sortuda - Darcy resmungava enquanto eu tentava estudar.
No, sorte  o que voc tem, pensava eu. Sorte  comprar um bilhete de loteria e ficar rica. Nada na minha vida tem a ver com sorte - tudo  uma questo de trabalho 
duro, uma luta ladeira acima. Mas,  claro, eu nunca disse isso. Disse apenas que as coisas logo, logo iriam mudar para ela.
E como era de se esperar, mudaram. Mais ou menos duas semanas depois, um homem entrou no Monkey Bar, pediu um whiskey sour e comeou a bater papo com Darcy. Quando 
acabou o seu drinque, j tinha prometido a ela um trabalho numa das melhores empresas de Relaes Pblicas de Nova York. Ele lhe disse para aparecer para uma entrevista, 
mas que ele (duas piscadelas) tomaria providncias para que ela conseguisse o cargo. Darcy pegou o carto dele, me pediu para revisar o currculo dela, foi para 
a entrevista e recebeu uma oferta na hora. O salrio inicial era de 70 mil dlares. Mais uma verba de representao. Praticamente o que eu conseguiria ganhar se 
me desse bem e arranjasse um trabalho num escritrio de Nova York.
Ento, enquanto eu suava a camisa e acumulava dvidas, Darcy comeava sua glamourosa carreira como RP. Planejava festas, promovia as ltimas tendncias da moda da 
estao, ganhava um monte de coisas de graa e saa com uma srie de homens bonitos. Em sete meses, deixou as aeromoas comendo poeira e foi morar com uma colega 
de trabalho chamada Claire, uma garota esnobe e bem relacionada de Greenwich.
Darcy tentou me incluir em sua vida acelerada, embora eu raramente tivesse tempo de comparecer aos eventos, festas ou encontros s cegas que ela armava para mim 
com caras que jurava ser "totalmente gatos", mas que eu sabia que eram apenas as sobras dela.
O que me traz de volta ao Dex. Falei muito bem dele para Darcy e Claire, disse a elas como ele era incrvel- inteligente, bonito, engraado. Em retrospecto, no 
sei bem por que fiz isso. Talvez porque fosse verdade. Mas talvez porque tivesse um pouco de cime da vida glamourosa que elas levavam e quisesse apimentar um pouco 
a minha. Dex era o que havia de melhor no meu arsenal.
- Ento por que voc no gosta dele? - perguntava Darcy.
- Ele no faz o meu tipo - dizia eu. - Somos apenas amigos.
O que era verdade. Claro, houve momentos em que senti um lampejo de interesse ou o corao disparar um pouco quando sentava perto dele. Mas me mantive alerta para 
no me apaixonar, sempre me lembrando que caras como Dex saam apenas com garotas como Darcy.
Foi s no semestre seguinte que os dois se conheceram. Um grupo da faculdade, incluindo Dex, planejou uma sada de ltima hora numa quinta-feira  noite. H muitas 
semanas Darcy vinha me pedindo para conhecer Dex, ento telefonei a ela e disse que era para ela estar no Red Lion s 20h. Ela apareceu, mas Dex no. Pude perceber 
que Darcy encarou a sada como um esforo em vo, reclamando que o Red Lion no tinha nada a ver com ela, que ela j tinha passado da poca desses bares encardidos, 
cheios de jovens universitrios (lugares que ela freqentava at alguns meses antes), que a banda que estava tocando era uma droga e ser que ns poderamos, por 
favor, ir para algum lugar mais agradvel, onde as pessoas valorizassem uma aparncia bem-cuidada?
Naquele exato momento, Dex apareceu caminhando bar adentro com um casaco preto de couro e uma bela suter bege de cashmere. Ele veio em minha direo e me deu um 
beijo no rosto, coisa com a qual eu ainda no estava acostumada - o pessoal do Meio-Oeste no cumprimenta desse jeito. Apresentei-o a Darcy e ela apertou o boto 
do charme, dando risadinhas, brincando com o cabelo e balanando a cabea enftica todas as vezes que ele dizia alguma coisa. Dex foi agradvel com ela, mas no 
pareceu interessado demais e, num dado momento, enquanto ela despejava uma lista de nomes de pessoas da Goldman - Voc conhece esse ou aquele cara? -, Dex de fato 
pareceu estar fazendo fora para no bocejar. Ele foi embora antes da gente, dando tchau para o grupo e dizendo para Darcy que tinha sido legal conhec-la.
No caminho de volta para o meu quarto perguntei o que ela tinha achado dele.
- Ele  bonitinho - disse, oferecendo o mnimo de aprovao. Sua resposta indiferente me irritou. Ela no podia elogi-lo porque ele no havia ficado deslumbrado 
por ela o suficiente. Darcy esperava ser a pessoa a ser conquistada. E era isso que eu tinha passado a esperar tambm.
No dia seguinte, quando Dex e eu tomamos um caf, imaginei que ele fosse mencionar Darcy. Tinha certeza de que era isso o que ele faria, mas no fez. Uma pequena 
- est bem, uma grande - parte de mim gostou de contar a Darcy que o nome dela no tinha sido mencionado. Pela primeira vez algum no se desdobrava para estar com 
ela.
Eu deveria ter adivinhado.
Uma semana depois, do nada, Dex me perguntou qual era a da minha amiga.
- Que amiga? - perguntei me fazendo de boba.
- Voc sabe, aquela morena do Red Lion?
- Oh, Darcy - respondi. Depois fui direto ao assunto. - Voc quer o telefone dela?
- Se ela for solteira.
Dei as notcias para ela naquela noite. Ela sorriu fazendo charme.
- Ele  bem bonitinho. Vou sair com ele.
Dex levou mais duas semanas para telefonar a ela. Se ele esperou de propsito, a estratgia fez maravilhas. Ela estava num frenesi quando ele a levou ao Union Square 
Caf. O encontro obviamente transcorreu bem, porque no dia seguinte eles foram tomar um brunch no Village. Logo depois disso, Darcy e Dex estavam ambos fora do mercado.
No comeo o romance deles foi turbulento. Eu sempre soube que Darcy adorava brigar com os namorados - no tinha graa, a no ser que envolvesse muito drama -, mas 
eu via Dex como uma criatura racional e calma, superior a esse tipo de coisa. Talvez ele tivesse sido assim com outras garotas, mas Darcy o havia sugado para o seu 
mundo de caos e altas emoes. Ela achava um nmero de telefone num dos seus cadernos de faculdade (ela era uma bisbilhoteira assumida), fazia a pesquisa, chegava 
at uma antiga namorada e,se recusava a falar com ele. Um dia ele foi para a aula de Responsabilidade Civil com uma expresso meio acanhada, com um corte na testa, 
bem acima do olho esquerdo. Darcy tinha lanado um cabide de arame nele num acesso de cime.
O contrrio tambm acontecia. Ns saamos juntos e Darcy ficava de papo com um outro cara no bar. Eu observava enquanto Dex dava umas olhadas furtivas na direo 
deles, at que no conseguia mais suportar. Ia at l para busc-Ia, parecendo furioso, mas sem perder a compostura, e eu a escutava justificando seus flertes por 
conta de ligaes sem muita importncia com o cara:
- O que eu quero dizer  que estava apenas conversando sobre os nossos irmos, e como eles eram da mesma porra de fraternidade estudantil. Meus Deus, Dex! Voc no 
precisa reagir dessa forma!
Mas finalmente o relacionamento deles se estabilizou, as brigas se tornaram menos intensas e menos freqentes e ela se mudou para o apartamento dele. Ento, no inverno 
passado, Dex a pediu em casamento. Eles marcaram a data para um fim de semana em setembro e ela me escolheu como madrinha.

Eu o conheci antes, agora digo para mim mesma. No  mais inexpugnvel do que a defesa no caso Ethan, mas eu me agarro nisso por uns momentos. Imagino minha jurada 
compreensiva se inclinando para frente enquanto absorve essa informao. Ela at mesmo levanta a questo durante as deliberaes.
- Se no fosse pela RacheI, Dex e Darcy nunca teriam se encontrado. Portanto, de certa forma, Rachel merece um tempo com ele.
Os outros jurados olham para ela incrdulos, e a Terninho Chanel fala para ela no ser ridcula. Que isso no tem nada a ver com nada.
- De fato, pode at ser que funcione ao contrrio - retruca Terninho Chanel - Rachel teve sua chance de estar com Dex, mas essa oportunidade j passou h muito tempo. 
E agora ela  a madrinha. A madrinha! Trata-se da traio mxima!
Trabalho at tarde naquela noite, adiando retornar a ligao de Dex. Considero at mesmo esperar at amanh de manh, at o meio da semana, ou nem telefonar. S 
que quanto mais eu esperar, mais estranho ser quando inevitavelmente me encontrar com ele. Ento eu me foro a sentar e ligar. Toro para que caia na secretria 
eletrnica. So 22h30. Com o mnimo de sorte ele j vai ter ido embora, vai estar em casa ao lado da Darcy.
- Dex Thaler - responde ele, o tom  todo profissionaL Dex est de volta  Goldman Sachs, tendo sabiamente optado. por trilhar o caminho dos bancos em vez do caminho 
dos escritrios de advocacia. O trabalho  mais interessante e o dinheiro  melhor.
- Rachel! - Ele parece genuinamente feliz que eu tenha telefonado, embora um pouco nervoso, a voz meio alta demais. - Obrigado por ter ligado. Estava comeando a 
achar que voc no ia telefonar.
- Eu ia.  s que ... estava muito ocupada ... um dia louco. Gaguejo. Minha boca est completamente seca.
- , aqui tambm est uma loucura. Segunda-feira tpica - diz ele, soando um pouco mais relaxado. 
- ...
H uma pausa incmoda - bem, pelo menos eu acho incmoda. Ser que ele espera que eu mencione o Incidente?
- Ento? Como  que voc est se sentindo? - a voz dele est mais baixa.
- Como estou me sentindo? - meu rosto est pegando fogo, estou
suando, no consigo afastar a idia de vomitar o sushi que comi no jantar.
- Quer dizer, o que voc acha do que aconteceu sbado? - a voz dele fica ainda mais baixa, quase um sussurro. Talvez ele esteja apenas sendo discreto, certificando-se 
de que ningum no escritrio o escuta, mas o tom  de intimidade.
- No sei o que voc est me perguntando ...
- Voc est se sentindo culpada?
-  claro que estou me sentindo culpada. Voc no?
Olho pela janela para as luzes de Manhattan, na direo do seu escritrio no Centro.
- Bem, , eu me sinto - ele diz com sinceridade. - Obviamente no deveria ter acontecido. No h dvidas a esse respeito. Foi errado ... e eu no quero que voc 
pense que, voc sabe, que isso  uma coisa que fao sempre. Eu nunca tinha trado a Darcy antes. Nunca ... voc acredita, no?
Digo a ele que  claro que sim. Quero acreditar nele.
Outro silncio.
- Pois , para mim essa foi a primeira vez - diz ele. Mais silncio. Imagino Dex com os ps em cima da mesa, o colarinho desabotoado, a gravata jogada sobre o ombro. 
Ele fica bem de terno. Quer dizer, ele fica bem com qualquer coisa. E sem nada tambm.
- Ah - digo. Estou segurando o telefone com tanta fora que os meus dedos doem. Troco de mo e enxugo a mo suada na saia.
- Eu me sinto muito mal que voc seja amiga to antiga da Darcy, e essa coisa que aconteceu entre ns dois ... deixa voc numa posio pavorosa - ele pigarreia e 
continua. - Mas, ao mesmo tempo, no sei...
- O que voc no sabe? - pergunto, contra minha deciso sensata de que  melhor colocar um ponto final na conversa, desligar o telefone, usar meu instinto e fugir.
- No sei. Eu s... bem, de alguma maneira ... bem, falando objetivamente, sei que o que fiz foi muito errado. Mas simplesmente no me sinto culpado. Isso no  
horrvel? ... Voc acha que sou pior por causa disso?
No tenho a menor idia de como responder a essa pergunta. "Sim" parece cruel e crtico; "no" pode dar bandeira. Encontro um meio-termo seguro.
- No tenho como julgar ningum, tenho? Eu estava l... eu tambm fiz.
- Eu sei, Rachel. Mas a culpa foi minha.
Penso no elevador, a sensao do cabelo dele entre os meus dedos.
- Ns dois estvamos errados ... Ns dois estvamos bbados. Devem ter sido aquelas doses ... simplesmente me pegaram de jeito e eu no tinha comido muito naquele 
dia - fui falando na esperana de que a conversa acabasse.
Dex me interrompe.
- Eu no estava to bbado assim - diz ele com todas as letras, quase desafiador.
Voc no estava to bbado?
Como se tivesse lido meus pensamentos, ele continuou.
- Quer dizer,  verdade, tomei alguns drinques, estava mais desinibido, mas sabia o que estava fazendo e, de certa forma, acho que quis que aquilo acontecesse ... 
Bem, suponho que essa seja uma declarao um tanto bvia ... Mas o que eu quero dizer  que conscientemente eu quis que aquilo acontecesse. No que tivesse sido 
premeditado. Mas j tinha passado pela minha cabea vrias vezes antes ...
Vrias vezes antes? Quando? Na faculdade? Antes ou depois de voc conhecer Darcy?
De repente, lembro de uma ocasio pr:-Darcy quando Dex e eu estvamos estudando para as nossas provas de Responsabilidade Civil na biblioteca. Era tarde e ns estvamos 
meio grogues, quase delirantes por falta de sono e excesso de cafena. Dex comeou a imitar Zigman, citando certas frases preferidas dele, e eu ri tanto que cheguei 
a chorar. Quando finalmente me recompus, ele se inclinou sobre a mesa estreita e enxugou uma lgrima do meu rosto com seu polegar. Exatamente como numa cena de filme, 
com a diferena que nos filmes as lgrimas geralmente so de tristeza. Ficamos olhando fixamente um para o outro.
Fui a primeira a desviar o olhar, voltando para o livro, as palavras pulando por toda a pgina. No pude, por mais que me esforasse, me concentrar em negligncia 
ou causa imediata, apenas na sensao de seu dedo em meu rosto. Mais tarde, Dex se ofereceu para me acompanhar de volta ao meu dormitrio. Educadamente disse que 
no precisava, que estaria bem sozinha. Naquela noite, quando comeava a dormir, decidi que tinha apenas imaginado sua inteno, que Dex nunca me consideraria mais 
do que uma amiga. Ele estava apenas sendo gentil.
Ainda assim, s vezes imagino o que teria acontecido se eu no tivesse ficado to na defensiva. Se eu tivesse dito sim  oferta dele naquela noite. Neste momento 
estou pensando intensamente nisso.
Dex continua falando.
-  claro que estou bem consciente de que isso nunca mais vai poder acontecer - diz ele com convico. - Certo? - Essa ltima palavra  sincera, ele est quase sem 
defesas.
- Certo. Nunca mais, em tempo algum - digo e na mesma hora me arrependendo da minha juvenil escolha de palavras. - Foi um erro.
- Mas no me arrependo. Eu deveria, mas simplesmente no me arrependo - diz ele.
Isso  to estranho, penso, mas no digo nada. Apenas fico parada, esperando que ele fale novamente.
- Enfim, Rachel, sinto muito por ter colocado voc nesta posio. Mas achei que deveria saber como me sinto - Dex conclui e depois ri nervosamente.
Digo tudo bem, agora eu sei, e acho que devemos seguir em frente e deixar isso para trs e todas essas coisas que achei que Dex tinha ligado para dizer. Ns nos 
despedimos, ento desligo o telefone e fico olhando pela janela, atordoada. A ligao que deveria representar um ponto-final apenas trouxe mais desassossego. E uma 
minscula inquietao dentro de mim, uma inquietao que decido sufocar.
Levanto, apago a luz do escritrio e deso at o metr, tentando tirar Dex da cabea. Mas enquanto espero na plataforma, volto a me lembrar do nosso beijo no elevador. 
A sensao do cabelo dele. E a forma como ele dormiu na minha cama, coberto s em parte por meus lenis. Essas so as imagens das quais eu me lembro mais. So como 
fotografias de ex-namorados: voc quer desesperadamente jogar fora, mas no tem coragem de se livrar delas. Ento, em vez de jogar fora, guarda numa caixa de sapato 
velha, no fundo do armrio, e decide que no h mal nenhum em guard-las. S para o caso de querer abrir a caixa e lembrar alguma coisa dos bons tempos.

Quatro

Estamos a apenas alguns dias do comeo oficial do vero e Darcy no fala de outra coisa que no seja os Hamptons. Ela telefona e me manda e-mails o tempo todo, encaminhando 
informaes sobre festas no feriado do Memorial Day, reservas em restaurantes e lojas com vendas especiais de peas usadas em desfiles ou mostrurios, onde ns certamente 
vamos achar as roupas mais bonitas do vero.  claro, estou absolutamente em pnico com tudo isso. Como nos ltimos quatro veres, vou ficar numa casa com Darcy 
e Dex. Este ano tambm vo com a gente Marcus, Claire e Hillary.
- Voc acha que deveramos ter alugado por toda a temporada? pergunta Darcy pela vigsima vez. Nunca conheci algum que refletisse tanto sobre decises j tomadas. 
Ela se arrepende das compras que faz at quando sai de uma sorveteria.
- No, meia temporada  o suficiente. Voc acaba no usando toda a temporada - digo, o telefone enfiado entre a orelha e o ombro, enquanto sigo revisando meu memorando 
que resume a diferena entre a regulamentao de seguro suplementar na Flrida e em Nova York.
- Voc est digitando? - indaga Darcy, sempre esperando receber ateno total.
- No - minto, digitando ainda mais silenciosamente.
-  melhor que no esteja ...
- No estou.
- Bem, acho que voc tem razo, meia temporada  melhor ... E, de qualquer jeito, ns temos muitas providncias a tomar para o casamento aqui na cidade.
O casamento  o nico assunto que desejo evitar mais do que os Hamptons.
- Ah.
- E ento? Voc vai de carro com a gente ou vai pegar o trem?
- O trem. No sei se vou conseguir sair daqui num horrio decente - digo, pensando que no quero ficar presa dentro de um carro com ela e Dex. No vejo Dex desde 
que ele saiu do meu apartamento. No vejo Darcy desde a traio. 
-  mesmo? Porque eu estava pensando que ns definitivamente, definitivamente devemos ir dirigindo ... No seria melhor estar de carro no primeiro fim de semana 
fora? Sabe como , especialmente porque vai ser um fim de semana prolongado. No queremos ficar dependendo de txis e coisas do tipo ... Ah, vai, vem de carro com 
a gente!
- Vamos ver - respondo, como uma me que diz a uma criana para mudar de assunto.
- Nada de "vamos ver". Voc vem com a gente.
Suspiro e digo a ela que realmente preciso voltar ao trabalho.
- Certo, certo. Vou deixar voc fazer o seu "oh, to importante" trabalho... E a? Nosso programa de hoje  noite est de p?
- O que tem hoje  noite?
- Al? Senhorita Esquecidinha. Nem venha me dizer que precisa trabalhar at tarde. Voc prometeu. Biqunis? Isso te faz lembrar de alguma coisa?
- Est bem - respondo. Tinha esquecido completamente da minha promessa de sair para comprar biqunis com ela. Uma das tarefas mais desagradveis do mundo. Bem l 
no alto da lista, ao lado de limpar banheiros e fazer tratamento de canal. - Ah, claro. Vamos sim.
- timo. Encontro voc no balco do iogurte no subsolo da Bloornie' s. Voc sabe, perto das roupas para mulheres gordas. s 19h em ponto.
Chego  estao da rua 59 com 15 minutos de atraso e corro nervosa at o subsolo da Bloomingdale's, imaginando que quela altura Darcy j estaria fazendo beicinho. 
No estou muito a fim de ficar me esforando para acabar com um dos seus momentos de mau humor. Mas ela parece satisfeita, sentada no balco com um copinho de sorvete 
de iogurte de morango. Ela sorri e acena para mim. Respiro fundo me lembrando de que no h nenhuma letra escarlate no meu peito.
- Oi, Darce.
- Ei, voc chegou! Oh, meu Deus! Vou ficar to gorda para experimentar biqunis! Ela aponta para o estmago com sua colher de plstico. - Pacincia, estou acostumada 
a ser cheinha.
Reviro os olhos.
- Voc no  gorda.
Todos os anos a gente conversa sobre a mesma coisa quando chega a poca de usar biqunis. Que inferno, a gente fala nisso quase todos os dias. O peso da Darcy  
uma fonte constante de energia e discusso. Ela me diz o quanto est pesando: sempre algo em torno de 57 quilos, sempre gorda demais para seus rigorosos padres. 
Seu objetivo  chegar aos 54 - o que insisto que  muito pouco para quem mede 1,74m. Ela me manda um e-mail enquanto come um saco de batata frita: "Faa eu parar! 
Socorro! Liga pra mim assim que puder!" Ligo de volta e ela pergunta:
- Quinze gramas de gordura  muito?
Ou ento:
- Uma libra corresponde a quantos gramas?
O que me irrita, entretanto,  que ela  sete centmetros mais alta do que eu, mas trs quilos mais magra. Quando comento isso, ela diz: " verdade, mas os seus 
peitos so maiores." Ento eu respondo: "No trs quilos maiores." Ao que ela retruca: ''Ainda assim, voc fica tima do jeito que est." Sempre sobra pra mim.
Estou longe de ser gorda, mas quando Darcy me usa como parmetro nesse assunto  como se eu fosse reclamar para uma mulher cega que tenho de usar lentes de contato.
- Estou to gorda. Estou sim, completamente! E eu comi na hora do almoo. Enfim, seja l o que for. Desde que eu no fique gorda como uma vaca no meu vestido de 
casamento ... - diz, dando sua ltima colherada no sorvete e jogando o copinho no lixo. - S preciso que voc me diga que tenho tempo de perder peso antes do casamento.
- Voc tem tempo suficiente - digo a ela.
E eu tenho tempo suficiente antes do casamento para parar de pensar que fui para a cama com o seu futuro marido.
- Preciso me controlar, sabe como , do contrrio vou ter de vir fazer compras aqui. -Darcy aponta para a seo de roupas largas sem verificar se h por perto alguma 
mulher acima do peso.
Digo a ela para no ser ridcula.
- Bem, enfim - continua Darcy, enquanto subimos para o segundo andar pela escada rolante -, Claire disse que estamos ficando velhas demais para biqunis. Que mais 
so mais classudos. O que voc acha disso?
A expresso dela e o tom deixam claro o que ela pensa da opinio de Claire sobre roupas de banho.
- No acredito que haja limite de idade quanto a biqunis - explico. Claire  cheia de regras exaustivas. Uma vez ela me disse que caneta preta s deve ser usada 
para cartes de psames.
- E-xa-to! Foi o que eu disse a ela. Alm do mais, ela provavelmente s est dizendo isso porque no fica to bem de biquni, voc no acha?
Fao que sim com a cabea. Claire faz ginstica religiosamente e h anos no come frituras, mas est destinada a fazer o tipo cheinha. Ela se redime, entretanto, 
por ser super bem-cuidada e usar roupas carssimas. Chega  praia com um mai de trezentos dlares, uma canga combinando, um chapu chique, culos de algum designer 
e tudo isso para disfarar um pneuzinho na cintura.
Percorremos a loja em busca de biqunis razoveis. A certa altura, percebo que ns duas separamos o mesmo modelo preto bsico de Anne Klein. Se acabarmos as duas 
escolhendo esse modelo, Darcy ou vai insistir que viu primeiro ou dir que podemos levar o mesmo. Ento o prximo passo  ela passar o vero inteiro ficando melhor 
no biquni do que eu. No, obrigada.
Isso me lembra da vez em que ela, Annalise e eu samos para comprar mochilas, uma semana antes do incio da 4a srie. Ns nos interessamos de cara pela mesma mochila. 
Era roxa, com estrelas prateadas no compartimento de fora - muito mais legal do que as outras. Annalise sugeriu que comprssemos mochilas iguais e Darcy disse que 
no, que combinar era coisa de bebezinho, coisa de gente da 3a srie.
Ento jogamos pedra, papel e tesoura para ver quem ficava com a mochila. Escolhi pedra (notei que era a opo que saa ganhando na maior parte das vezes). Bati meu 
punho cheio de jbilo sobre as tesouras estendidas e arrastei minha mochila roxa para dentro do carrinho que estvamos dividindo. Annalise recuou, resmungando que 
ns sabamos que roxo era sua cor favorita.
- Pensei que voc gostasse mais de vermelho, Rachel!
Annalise no era preo para mim. Simplesmente disse a ela que sim, preferia vermelho, mas como ela podia muito bem observar, no havia mochilas vermelhas. Ento 
Annalise optou por uma amarela com uma daquelas carinhas sorridentes no compartimento da frente. Darcy agonizou entre as opes que restavam e finalmente disse a 
ns que iria pensar e voltar no dia seguinte com a me. No pensei mais no assunto, at o primeiro dia de aula. Quando cheguei ao ponto de nibus l estava ela, 
com uma mochila roxa exatamente igual  minha.
Apontei para a bolsa sem conseguir acreditar.
- Voc est com a minha mochila.
- Eu sei - disse Darcy. - Decidi que queria esta. Quem se importa se a gente est igual?
No foi ela quem disse que mochila igual era coisa de beb?
- Eu me importo - respondi, sentindo o dio crescendo dentro de mim.
Darcy revirou os olhos e estalou a lngua.
- Ah, Rachel, como se isso fizesse diferena. No fim das contas  apenas uma mochila.
Annalise tambm estava chateada, por suas prprias razes.
- Como  que vocs duas acabaram ficando iguais e eu fui deixada de fora? Minha mochila  muito espalhafatosa.
Darcy e eu a ignoramos.
- Mas voc disse que no deveramos ficar iguais - acusei Darcy, enquanto o nibus surgia na esquina e parava na nossa frente com um barulho forte do freio.
- Ah, eu disse, ? - falou Darcy enquanto passava os dedos pelo cabelo cortado em camadas e todo duro pela quantidade de spray que ela tinha acabado de passar. - 
Bem, quem se importa com isso?
Darcy costumava usar a expresso "quem se importa com isso" (substituda mais tarde por "seja l o que for") como resposta que tendia mais para uma agressividade 
passiva. Naquele momento no reconheci sua ttica como tal; apenas sabia que ela sempre dava um jeito de fazer as coisas a seu modo e que eu me sentiria idiota se 
tentasse revidar.
Entramos no nibus, Darcy primeiro. Ela sentou e eu fiquei logo atrs dela, ainda furiosa. Observei que Annalise hesitou e depois decidiu sentar comigo, reconhecendo 
que era eu quem tinha razo. Todo esse assunto de mochila roxa poderia ter evoludo para uma luta descomunal, mas eu me recusei a permitir que a traio de Darcy 
arruinasse o primeiro dia de aula. No valia a pena guerrear com ela. O resultado final raramente era satisfatrio.

A caminho das longas filas dos provadores, devolvo discretamente o biquni de Anne Klein para o cabide. Quando uma das cabines fica livre, Darcy decide que ns devemos 
dividi-la para economizar tempo. Ela fica s com uma calcinha preta e um suti combinando, tentando decidir qual biquni experimentar primeiro. Dou uma olhada discreta 
para ela no espelho. Seu corpo est ainda melhor do que no vero passado. Os msculos de seus longos braos e pernas esto definidos por causa da rotina de exerccios 
preparatrios para o casamento, e sua pele j est morena por conta das aplicaes freqentes de creme bronzeador e de algumas sesses adicionais de bronzeamento 
artificial.
Penso em Dex. Ele certamente comparou nossos corpos depois da nossa noite juntos (ou mesmo durante, j que ele "no estava to bbado"). O meu no chega nem perto 
de estar to bem. Sou mais baixa, mais mole, mais branca. E embora meus peitos sejam maiores, os dela so melhores. So mais empinados, com a proporo ideal entre 
bico, aurola e peito.
- Pare de olhar para as minhas gordurinhas - reclama Darcy com uma voz esganiada, flagrando meu olhar no espelho.
Agora sou obrigada a elogi-la.
- Voc no est gorda, Darce. Voc est tima. D para perceber que voc tem malhado.
-  mesmo? Qual parte do corpo voc acha que melhorou? - Darcy gosta de elogios especficos.
- Ah, todos os lugares. Suas pernas esto alongadas ... que timo. Isso  tudo o que ela vai levar de mim.
Ela estuda as pernas, franzindo o rosto para o reflexo no espelho.
Tiro a roupa, notando minha calcinha de algodo e meu suti descombinando, um pouco gasto. Rapidamente experimento minha primeira opo, um duas-peas branco e azul-marinho 
que revela apenas cinco centmetros entre o trax e o abdome. Fica no meio do caminho entre o mai de Claire e a preferncia de Darcy por biqunis.
- Oh, meu Deus! Este fica to bem em voc! Voc tem de levar este - insiste Darcy. - Voc vai levar?
- Acho que sim - respondo. No est sensacional, mas no est maL Durante esses anos todos tenho estudado revistas sobre roupas de banho e imperfeies do corpo 
para saber que modelos vo ficar decentes em mim. Este passa.
Darcy experimenta um biquni pretinho, mnimo, com a parte de cima triangular e a parte de baixo mal cobrindo qualquer coisa. Ela fica simplesmente sexy.
- Voc gosta?
- Est legal - digo, pensando que Dex vai adorar.
- Voc acha que devo levar?
Digo a ela para experimentar os outros antes de tomar uma deciso. Ela obedece tirando o prximo do cabide. Obviamente, todos os biqunis ficam maravilhosos nela. 
Darcy no se encaixa em nenhuma dessas categorias de imperfeies que se v nas revistas. Depois de muita discusso, fico com o duas-peas e Darcy se decide por 
trs pequenos biqunis - um vermelho, um preto e um modelo cor da pele que vai faz-la parecer estar nua a qualquer distncia.
Quando estamos indo pagar pelos biqunis, Darcy agarra o meu brao.
- Oh, merda! Quase esqueci de dizer!
- O qu? - pergunto amedrontada por sua repentina exploso, embora saiba que ela no vai falar: "Esqueci de dizer que sei que voc foi para a cama com o Dex!"
- O Marcus gosta de voc!
Ns poderamos muito bem estar na 10a srie. Tanto pelo seu tom quanto pela escolha da palavra "gosta".
Fico me fazendo de desentendida.
- Gosto dele tambm - digo. - Ele  um cara legal. - E um libi dos diabos.
- No, sua boba. Quero dizer que ele gosta de voc. Voc deve ter feito um bom trabalho na festa, porque ele ligou para o Dex e pediu seu telefone. Acho que ele 
vai chamar voc para sair neste fim de semana.  claro, eu queria que ns fssemos juntos, mas o Marcus disse que no, que ele no quer testemunhas.
Ela deixa cair os biqunis sobre o balco e vasculha a bolsa em busca da carteira.
- Ele conseguiu meu telefone com o Dex? - pergunto, pensando que esse  um desdobramento interessante.
- . Dex foi uma graa quando me falou sobre isso. Ele foi... - ela olha para cima buscando a palavra certa. - Ele foi meio protetor a seu respeito.
- O que voc quer dizer com "protetor"? - pergunto, muito mais interessada no papel de Dex nessa troca do que nas intenes de Marcus.
- Bem, ele deu o nmero, mas quando desligou o telefone me fez um monte de perguntas, se voc estava saindo com algum e se eu achava que voc iria gostar do Marcus. 
E, voc sabe, se ele era inteligente o suficiente para voc. Coisas desse tipo. Foi realmente uma graa.
Fico digerindo essas informaes enquanto a vendedora registra os biqunis de Darcy.
- E a? O que foi que voc falou para ele?
- Eu apenas disse que voc era totalmente solteira e que obviamente estaria interessada no Marcus. Ele  to fofo. Voc no acha?
Dou de ombros. Marcus se mudou de So Francisco para Nova York alguns meses atrs. Sei muito pouco sobre ele, a no ser que ele e Dex se tornaram amigos na Georgetown, 
onde Marcus ficou famoso por ter se formado em ltimo lugar. Aparentemente, Marcus nunca ia s aulas e sempre ficava bbado. A histria mais infame  que ele perdeu 
a hora no dia da prova final de Estatstica, apareceu com vinte minutos de atraso e ainda descobriu que, em vez da calculadora, havia jogado o controle remoto dentro 
da mochila. Ainda no consegui determinar se ele  um cara que no se prende a convenes ou um fanfarro.
- E a, animada? Se voc sair com ele antes da nossa viagem vai levar vantagem em relao a Claire e Hillary.
Eu rio e balano a cabea.
-  srio. - Darcy assina o papel do carto e abre um sorriso rpido para a funcionria. - Claire adoraria dar uns bons arranhes nele.
- Quem disse que vou sair com ele?
- Oh, pooor favooor. Nem comea com essa merda. Voc vai. (A) ele  uma gracinha. E (B), Rachel, sem ofensa, voc no pode se dar ao luxo de ser toda exigente, Senhorita 
No-Fica-Com-Ningum-H-Mais-De ... o qu? H mais de um ano?
A funcionria da loja olha para mim solidria. Olho para Darcy enquanto empurro meu duas-peas sobre o balco. , isso... um ano.
Samos da Bloomingdale's e procuramos um txi na Terceira Avenida.
- E ento, voc vai sair com o Marcus?
- Acho que sim.
- Promete? - pergunta ela, tirando o telefone da bolsa.
- Voc quer que eu faa um juramento de sangue? Sim, eu vou - digo. - Para quem voc est telefonando?
- Dex, ele apostou vinte pratas que voc no iria.

Darcy tem razo: no h mais nada acontecendo na minha vida. Mas o verdadeiro motivo para eu dizer sim a Marcus quando ele me telefona convidando para sair  Dex 
ter dito que eu no iria. E apenas no caso de ele ter pensado que tinha lanado alguma maldio sobre mim, e que eu iria rejeitar Marcus por estar preocupada com 
o Incidente, vou sair com Marcus.
Mas logo que digo sim, comeo a ficar paranica a respeito do que Marcus realmente sabe. Ser que Dex disse alguma coisa a ele? Preciso telefonar para Dex e descobrir. 
Desligo trs vezes antes de conseguir completar O nmero todo. Meu estmago est dando voltas quando ele atende no primeiro sinal.
- Dex Thaler.
- Ento, o que Marcus sabe sobre o que aconteceu no sbado passado? - digo de repente, meu corao disparado.
- Bem, ol para voc tambm - ele diz.
Relaxo um pouquinho.
- Oi,Dex.
- Sbado passado? O que aconteceu no sbado passado? Refresque a minha memria.
- Estou falando srio. O que voc disse a ele? - Estou horrorizada de me pegar falando daquele jeito menininha resmungo na que Darcy to bem aperfeioou.
- O que voc acha que eu disse a ele? - pergunta Dex.
- Dexter, diga para mim!
- Oh, relaxa - diz ele, no tom de quem ainda est se divertindo. - No disse nada a ele... O que voc acha que  isso?Um vestirio de escola? Por que eu contaria 
a algum o que s interessa a ns?
S interessa a ns. Ns. Ns dois.
- Eu s estava imaginando o que ele sabia. Quer dizer, voc disse a Darcy que estava com ele naquela noite ...
- , eu disse: "Marcus, eu estava com voc na noite passada e depois tomamos caf da manh juntos, certo?" E isso foi tudo. Sei que no  assim que as coisas funcionam 
com vocs meninas ... mulheres.
- O que voc quer dizer com isso?
- Quero dizer que voc e Darcy compartilham exaustivamente cada detalhe uma com a outra. Como o que vocs comeram em tal dia e que marca de xampu planejam comprar.
- E quando uma dorme com o noivo da outra? Esse tipo de detalhe? 
Dex ri.
- , esse seria um outro exemplo.
- Ou coisas como voc ter apostado que eu diria no para o Marcus?
Ele ri outra vez, sabendo que se deu mal.
- Ela contou isso para voc, no foi?
- , ela me contou.
- E isso ofendeu voc?
Percebo que estou comeando a relaxar, quase me divertindo com a conversa.
- No, mas me fez dizer sim.
- Oh - ri Dex. - Agora entendo como a coisa funciona. Ento voc est dizendo que se ela no tivesse compartilhado essa informao com voc, voc teria dispensado 
o meu amigo?
- Ah, voc est querendo saber? - pergunto fazendo charme, quase no me reconhecendo.
- Na verdade, quero. Por favor, me livre da ignorncia.
- No tenho certeza ... Por que voc achou que eu diria no?
- Ah, voc est querendo saber? - retruca ele.
Sorrio. Isso  flertar descaradamente.
- Tudo bem. Achei que voc diria no porque Marcus no parece ser o seu tipo - diz ele afinal.
- E quem ? - pergunto e logo me arrependo. Flertar assim no leva ao caminho da redeno. No  a maneira de consertar o que fiz de errado.  isso o que meu crebro 
me diz, mas meu corao dispara enquanto espero a resposta.
- No sei, h sete anos venho tentando descobrir.
Fico imaginando o que ele quer dizer com essa afirmao. Enrolo o fio do telefone no dedo e no consigo pensar em nada para dizer em resposta. Ns deveramos desligar 
agora. Isto est tomando um rumo ruim.
- Rach? - a voz dele est baixa e num tom de intimidade.
Fico sem flego, ouvindo-o dizer meu nome dessa forma. Soa familiar, caloroso.
- Sim?
- Voc ainda est a? - ele sussurra.
Consigo dizer:
- Sim, ainda estou aqui.
- O que voc est pensando?
- Nada - minto.
Tenho de mentir. Porque o que estou pensando : Talvez voc faa mais o meu tipo do que j cheguei a pensar.

CINCO

Talvez eu no tenha mesmo um tipo. Quando considero os relacionamentos que tive, no d para formar uma imagem. No que a amostra possa ser considerada estatisticamente 
significante: alm de Brandon, no segundo grau, tive apenas trs namorados.
A verdadeira histria dos meus namoros comeou no primeiro semestre da faculdade na Duke. Eu morava num dormitrio misto e todas as noites nos reunamos na sala 
para estudar (ou fingir que estudvamos), para ficar por ali e ver programas de TV como Barrados no Baile e Melrose Place. Foi naquela sala que comeou minha grande 
paixo por Hunter Bretz, do Mississippi. Hunter era um nerd magricela, mas eu era maluca por ele. Adorava sua inteligncia, sua fala suave e arrastada e o modo como 
seus olhos castanhos se fixavam no nosso olhar quando falvamos com ele, como se realmente se importasse com o que tnhamos a dizer. Minha colega de quarto, Pam, 
uma garota de Jersey que tinha um cabelo, declarou que, apesar de os meus sentimentos serem "um mistrio fodido", ela me dava fora para convid-lo para sair. No 
foi o que fiz, mas realmente me esforcei para estabelecer uma amizade, vencendo a barreira da sua casca de timidez para conversar com ele sobre poesia e literatura. 
Acreditava estar realmente fazendo progressos com Hunter quando Joey Merola entrou na jogada.
Joey era o oposto de Hunter: um cara ligado em esportes, todo agitado, com uma risada alta. Ele participava de todos os esportes de quadra disponveis e estava sempre 
chegando  sala dos alunos todo suado, com uma histria sobre o time dele ter se recuperado nos ltimos segundos para acabar ganhando uma partida. Ele era o tipo 
de cara que se orgulhava do quanto comia e do fato de ser capaz de passar em literatura sem nunca chegar a ler um livro. 
Numa quinta  noite, Joey, Hunter e eu fomos os ltimos a sair da sala porque ficamos conversando sobre religio, pena de morte e sentido da vida - assuntos que 
eu imaginava que discutiria na faculdade, longe de Darcy e de suas aspiraes mais superficiais. Joey era ateu e a favor da pena de morte. Como eu, Hunter era meto 
dista e contra a pena de morte. Nenhum de ns estava bem certo a respeito do sentido da vida. Conversamos sem parar e eu estava disposta a permanecer ali at Joey 
ir embora, para acabar ficando com Hunter. Mas, um pouco depois das duas, Hunter jogou a toalha.
- Est bem, pessoal, tenho uma aula amanh cedo.
- O que  isso, cara. Mata essa aula. Eu nunca vou  aula das oito - declarou. Joey todo orgulhoso.
Hunter sorriu.
- Acho que se estou pagando pela aula, no devo faltar.
Essa era uma outra coisa que eu gostava no Hunter. Era ele quem pagava por seus estudos, ao contrrio da maioria dos meninos ricos da Duke. Ento ele disse boa-noite 
e eu melancolicamente o observei saindo com seu andar relaxado e vagaroso para fora da sala. Joey no perdeu nem um minuto, continuou apenas tagarelando, voltando 
a mencionar o fato de ns dois sermos de Indiana - a duas cidades de distncia um do outro - e de tanto o meu pai quanto o dele terem estudado na Universidade de 
Indiana (o dele tinha jogado no time de basquete). Atiramos nomes para l e para c e conseguimos acertar dois. Joey conhecia Blaine, o ex-namorado de Darcy, das 
pginas do jornal de esportes local. E ns dois sabamos quem era Tracy Purlington, uma menina promscua de uma cidade vizinha s nossas.
Finalmente, quando eu disse que tinha mesmo de ir dormir, Joey subiu comigo e me beijou embaixo da escada. Pensei em Hunter, mas ainda assim retribu o beijo, animada 
de estar vivendo algum tipo de experincia universitria de verdade. quela altura, Annalise j havia encontrado Greg, seu atual marido (e perdido a virgindade com 
ele), e, na ltima vez que eu tinha parado para contar, Darcy j se envolvera com uns quatro caras.
Na manh seguinte, me arrependi de ter beijado Joey. Ainda mais quando encontrei Hunter sentado entre as estantes da biblioteca, debruado sobre um livro de estudos. 
Mas meu arrependimento no foi suficiente para me impedir de beijar Joey novamente no fim de semana, dessa vez na lavanderia, enquanto espervamos nossas roupas 
secarem. E isso continuou at que todo mundo no nosso dormitrio, inclusive Hunter, j soubesse que eu e Joey tnhamos alguma coisa. Pam ficou super entusiasmada 
por mim: disse que Joey deixava Hunter no chinelo e que tinha a bunda mais bonita do dormitrio. Escrevi para Darcy e Annalise contando sobre meu novo namorado, 
sobre como no me interessava mais por Hunter (apenas parcialmente verdade) e como estava feliz (razoavelmente feliz). Ambas fizeram uma pergunta: estaria eu disposta 
a tudo com Joey?
Eu estava incerta quanto ao sexo. Um lado meu queria esperar at estar profundamente apaixonada, talvez at casada. Mas eu tambm estava bastante curiosa para descobrir 
o que era isso de que tanto falavam, e queria desesperadamente ser sofisticada e experiente. Portanto, depois de seis respeitveis semanas ao lado de Joey, dirigi-me 
at a clnica de sade da universidade e voltei para o meu quarto com uma receita para uma plula anticoncepcional que Darcy garantia no provocar aumento de peso. 
Um ms depois, com a proteo adicional de um preservativo, Joey e eu realizamos o grande feito. Era a primeira vez dele tambm. A Terra no saiu do lugar durante 
aqueles dois minutos e meio, como Darcy havia dito na primeira vez dela com Carlos. Mas tambm no doeu tanto quanto Annalise avisou que doeria. Eu estava aliviada 
de ter tirado isso do caminho e feliz de me juntar s amigas da minha terra natal em toda a sua glria feminina. Joey e eu nos abraamos na cama de baixo do beliche 
do meu quarto e dissemos que nos amvamos. A nossa foi uma primeira vez melhor do que a maioria.
Mas naquela primavera havia duas bandeiras indicando que Joey no era o homem dos meus sonhos. Em primeiro lugar ele se juntou a uma fraternidade estudantil e levou 
a coisa toda muito a srio. Uma noite, quando brinquei com ele a respeito do aperto de mo secreto da fraternidade, ele me disse que, desrespeitando sua irmandade, 
o desrespeitava tambm. Por favor. Em segundo lugar, Joey comeou a ficar obcecado com o basquete da Duke, dormindo em barracas para conseguir ingressos para os 
grandes jogos, pintando o rosto de azul e pulando para cima e para baixo em torno da quadra com os demais "Cameron Crazies". A cena toda era um pouco demais, mas 
acho que no teria me importado com o seu entusiasmo se ele tivesse vindo de New Hampshire ou de um outro estado sem maiores ligaes com o basquete. Acontece que 
ele era de Indiana. Da regio das dez grandes universidades. O pai dele havia jogado nos Hoosiers, pelo amor de Deus. E l estava ele, aquele tipo repentino de f 
radical que dizia coisas como "Gosto da Duke desde o incio dos tempos e me amarro em Bobby Hurley porque uma vez ele bebeu na minha fraternidade". Mas olhei alm 
dessas imperfeies e seguimos em frente durante o segundo e o terceiro anos de faculdade.
Ento uma noite, depois que Wake Forest venceu Duke no basquete, Joey apareceu no meu quarto num humor pssimo. Comeamos a discutir por nada e por tudo. No princpio 
eram questes pequenas: ele disse que eu roncava e me esparramava na cama (como  que voc faz para no se esparramar numa cama de solteiro?). Reclamei que ele constantemente 
confundia nossas escovas de dente (quem comete esse tipo de erro?). A discusso evoluiu para assuntos mais complicados e no teve mais volta quando ele me chamou 
de intelectual ente diante e eu o chamei de vira-casaca infame que realmente acreditava que o rosto pintado de azul contribua para os campeonatos da Duke. Antes 
de ir embora todo exaltado, ele me disse para pegar leve e ter algum orgulho da escola.
No dia seguinte, voltou com uma cara sria e sua ensaiada introduo "precisamos conversar", seguida da concluso "seremos sempre prximos". Eu fiquei mais chocada 
do que triste, mas concordei que talvez devssemos ter uma experincia universitria mais diversificada, o que na verdade significava namorar outras pessoas. Combinamos 
que seramos sempre amigos, mesmo que eu soubesse que no tnhamos muita coisa em comum para que isso acontecesse.
No derramei uma lgrima sequer at que o encontrei numa festa, de mos dadas com Betsy Wingate, que tambm tinha sido do nosso dormitrio no primeiro ano. No queria 
estar segurando a mo dele, por isso soube que minha reao era apenas um misto de nostalgia e orgulho ferido. Me arrependi de no ter lutado por Hunter, que h 
muito j fora fisgado por uma outra universitria sensata.
Telefonei para Darcy num raro caso de inverso de papis, buscando conforto da expert dos relacionamentos. Ela me disse para no olharpara trs, que eu tinha algumas 
boas e bem animadas lembranas universitrias com Joey, alguma coisa que no viveria com Hunter, que socialmente teria me puxado para baixo.
- Alm do mais - disse ela, compenetrada -, Joey ensinou a voc o bsico do sexo previsvel e o estilo papai-mame. E isso vale alguma coisa, certo?
Isso era o que ela entendia por levantar o moral. Acho que ajudou um pouquinho.
Fiquei um tempo desejando que Hunter e sua namorada terminassem, mas isso nunca aconteceu. Nunca mais namorei ningum na Duke, e tambm durante a maior parte do 
curso de Direito. O longo perodo de seca finalmente acabou com Nate Menke.
Conheci Nate no nosso primeiro ano do curso de Direito, numa festa, mas pelos trs anos seguintes a gente mal se falou, s dizamos ol de passagem. Ento acabamos 
matriculados na pequena turma de uma matria chamada A Valorizao do Eu: Direito e Sociedade na Era do Individualismo. Nate falava em sala com freqncia, mas no 
apenas para ouvir a si prprio falando, como acontecia com metade das pessoas no curso de Direito. Ele realmente tinha coisas interessantes para dizer. Um dia, depois 
de eu ter defendido uma idia de forma decente, ele me perguntou se eu no queria tomar um caf para discutir um pouco mais o assunto. Ele pediu um caf preto e 
eu me lembro de copi-la, porque me pareceu mais sofisticado do que despejar leite e acar na minha xcara. Depois do caf, demos uma longa caminhada pelo Village, 
parando em lojas de CDS e de livros usados. Depois disso, fomos jantar, e, l pelo final da noite, j estava claro que nos tornaramos um casal.
Eu estava maravilhada de ter um namorado novamente e logo fiquei encantada com todas as coisas a respeito de Nate. Gostava, por exemplo, do rosto dele. Ele tinha 
olhos lindos demais. Eram ligeiramente puxados, o que o faria parecer um oriental, no fosse por seu colorido claro. Gostava tambm da personalidade dele. Tinha 
um jeito manso de falar, mas sabia impor sua vontade, ser politicamente ativo de um jeito desafiador e enfurecido. Era difcil acompanhar todas as causas que ele 
defendia, mas tentei e at me convenci de que me sentia da mesma forma. Comparado a Joey, capaz somente de nutrir uma paixo por um time de basquete, Nate parecia 
to real. Ele tambm era muito intenso na cama. Apesar de no ter tido muitas parceiras antes de mim, parecia bastante experiente, sempre me conclamando a tentar 
alguma coisa nova. "Que tal isso?","Que tal aquilo?", perguntava ele e ento memorizava a posio e fazia igualzinho na prxima vez.
Nate e eu nos formamos no curso de Direito e passamos o vero na cidade, estudando para o Exame da Ordem. Todos os dias amos para a biblioteca juntos, fazendo intervalos 
apenas para as refeies e para dormir. Hora aps hora, dia aps dia, semana aps semana, entulhvamos nossos j abarrotados crebros com milhares de regras, fatos, 
leis e teorias. Tanto eu quanto ele estvamos movidos menos por um desejo de vencer do que pelo medo avassalador de falhar, coisa que Nate atribua ao fato de sermos 
filhos nicos. O interminvel martrio nos aproximou. Estvamos ambos arrasados, mas felizes juntos em nosso arraso.
S que naquele outono apenas um de ns permanceu arrasado. Nate comeou a trabalhar como promotor substituto no Queens e eu comecei meu trabalho num escritrio de 
advocacia em Midtown. Ele amava o trabalho dele e eu detestava o meu. Enquanto Nate entrevistava testemunhas e se preparava para julgamentos, eu ficava relega da 
 produo de documentos: a tarefa mais desprezvel da profisso. Passava as noites sentada em salas de reunio, estudando pilhas de papel em interminveis caixas 
de papelo. Olhava para as datas naqueles documentos e pensava: Eu tinha acabado de tirar minha carteira de motorista quando esta carta foi datilografada e aqui 
est ela, ainda em meio a um ciclo interminvel de litgios.Tudo parecia to sem sentido.
A no ser pelo meu relacionamento com Nate, minha vida estava sem perspectivas. Comecei a me valer mais e mais dele como minha nica fonte de felicidade. Freqentemente 
dizia a ele que o amava e sentia mais alvio que alegria quando ele me dizia de volta a mesma coisa. Comecei a pensar em casamento, at mesmo conversava sobre nossos 
filhos hipotticos e onde todos ns poderamos viver.
Ento, uma noite, Nate e eu fomos a um bar no Village para assistir a uma cantora de msica folk do Brooklyn chamada Carly Weinstein. Depois da apresentao, Nate, 
eu e algumas outras pessoas ficamos conversando com a cantora enquanto ela se desvencilhava do violo, com a mesma delicadeza que uma me tem com o seu beb.
- Suas letras so lindas ... de onde voc tira inspirao? - Nate perguntou a ela, os olhos arregalados.
Naquele exato momento fiquei preocupada. Me lembrei daquele olhar do nosso primeiro encontro, quando samos para um caf. Fiquei ainda mais ansiosa quando ele comprou 
um CD dela. Ela no era to boa assim. Acho que Nate e Carly saram juntos na semana seguinte, porque houve uma noite em que no consegui descobrir onde ele estava, 
e em que ele s atendeu ao celular depois da meia-noite. Tive muito medo de perguntar onde ele estava. Alm do mais, eu j sabia. Ele tinha mudado. Olhava para mim 
de um modo diferente, uma sombra sobre o rosto, o pensamento em outro lugar.
Logo depois disso, como era de se esperar, tivemos a conversa definitiva. Nate foi bem direto.
- Estou interessado em outra pessoa - declarou. - Sempre prometi que contaria a voc.
Me lembro muito bem dessas conversas, me lembro de gostar da minha fora e confiana quando dizia a ele que se algum dia conhecesse algum, deveria simplesmente 
me contar, que eu saberia lidar com a situao.  claro, naquela poca eu no imaginava que isso pudesse ultrapassar a esfera do hipottico. Quis retirar todas as 
minhas declaraes altivas e dizer no lugar delas que preferia enormemente uma mentira delicada sobre estar precisando de espao ou de um tempo sozinho.
- Por acaso  a Carly? - perguntei com um n na garganta.
Ele ficou chocado.
- Como  que voc sabe?
- Simplesmente percebi - respondi, incapaz de controlar o choro.
- Sinto muito - disse Nate me abraando. - Machucar voc assim desse jeito me mata. Mas eu tinha de ser honesto. Devia isso a voc.
Ento ele tinha uma nova garota e tinha de ser nobre. Tentei ficar com raiva, mas como  que voc pode ter raiva de algum porque esse algum no quer ficar com 
voc? Em vez disso, fiquei apenas na maior fossa, engordei alguns quilos e renunciei solenemente aos homens.
Nate continuou telefonando alguns meses depois do nosso rompimento. Sabia que ele estava apenas sendo gentil, mas seus telefonemas me davam falsas esperanas. No 
conseguia deixar de perguntar sobre a namorada dele.
- Carly vai bem - dizia meio acanhado. Ento uma vez ele respondeu:
- Vamos morar juntos ... e acho que vamos ficar noivos ... - a voz dele foi sumindo.
- Parabns. Isso  timo. Estou muito feliz por vocs - disse.
- Obrigado, Rachel. Ouvir isso significa muito para mim.
- ... Boa sorte para vocs e tudo o mais, mas acho que no quero mais que voc me telefone, certo?
- Entendo - disse ele, provavelmente aliviado de ser dispensado.
Desde ento no ouvi mais falar nele. No tenho certeza se eles se casaram, ou quando se casaram, mas s vezesainda procuro por Carly Weinstein quando vou comprar 
CDS. Por enquanto ela ainda no fez sucesso.
Olhando em retrospecto, me questiono se realmente amava Nate, ou apenas a segurana do nosso relacionamento. Fico imaginando se na verdade meus sentimentos por ele 
no tinham muito a ver com o fato de odiar meu trabalho. Do Exame da Ordem at aquele ano infernal como funcionria de um escritrio, Nate foi minha vlvula de escape. 
E s vezes isso pode se parecer muito com amor.
Um tempo razovel se passou depois dele. Perdi os quilos que havia ganhado no fim do namoro, fiz luzes no cabelo e aceitei uma srie de encontros s cegas. Nos piores 
casos eram terrveis. Nos melhores, apenas desconfortveis e nada memorveis. Ento conheci Alec Kaplan no Spy Bar, no Soho. Estava com Darcy e algumas das suas 
amigas do trabalho quando ele e seus amigos metidos nos abordaram. Alec,  claro, comeou investindo em Darcy, mas ela o empurrou para mim - literalmente, com as 
mos nas costas dele e instrues firmes do tipo: "Fala aqui com a minha amiga." Para ela, aquilo era o mximo da generosidade. Embora tivesse Dex, ela no era do 
tipo que dispensava ateno masculina.
- Ele  uma graa - sussurrava Darcy para mim. - Vai fundo.
Ela estava certa, Alec era uma graa. Mas era todo ligado em imagem. O tipo de cara que aposenta o uniforme de universitrio bacana - com bons de beisebol nojentos 
e intencionalmente invertidos, camisetas de festas de fraternidades estudantis e cintos de couro tranados - para troc-lo pelo uniforme do cara de vinte e poucos 
anos, urbano, bacana, que usa camisetas apertadas de tecido sinttico, calas pretas com um ligeiro brilho e toneladas de gel no cabelo. Ele exagerava na quantidade 
de piadas do tipo "um cara entra num bar" (nenhuma delas engraada) e histrias de guerra com os velhos personagens de sempre (nenhuma delas impressionante). Quando 
ele pagou uma bebida para mim naquela primeira noite, sacou uma nota de cem dlares e disse em voz alta para o barman que sentia muito, mas no tinha menor. Em resumo, 
era um tpico exemplo do que Darcy e eu chamvamos de MFD - Muito Forado Demais.
Mas Alec era inteligente o bastante, divertido o bastante e legal o bastante. Ento, quando pediu meu telefone, dei a ele. E quando ele telefonou e me convidou para 
jantar, eu fui. E quando ele quis transar comigo, quatro encontros depois, trazendo um preservativo texturizado, tremi, mas aceitei. Ele tinha um corpo e tanto, 
mas o sexo no foi nada de mais. Eu muitas vezes acabava pensando em trabalho e, uma vez, quando ouvi o noticirio esportivo na TV, cheguei a fazer de conta que 
ele era Pete Sampras, o tenista. Muitas vezes estive perto de acabar tudo com ele, mas Darcy vivia me dizendo para dar mais uma chance, que Alec era rico e uma gracinha. 
Muito mais rico e gracinha que Nate, ela destacava. Como se isso tivesse alguma coisa a ver.
Ento, uma noite, Claire viu Alec no Merchants, beijando uma loirinha meio vulgar. Quando a garota foi ao banheiro, Claire aproximou-se para tirar satisfaes, avisando 
que se ele no confessasse sua infidelidade, ela mesmo me contaria. Ento, no dia seguinte, Alec telefonou para despejar suas desculpas: disse que estava voltando 
para sua ex, que imaginei ser a garota no Merchants. Quase disse a ele que tambm tinha pensado em acabar, e isso era verdade, mas me importava to pouco que no 
fiz questo de esclarecer nada. Disse apenas tudo bem, boa sorte. E isso foi tudo.
De vez em quando esbarro com Alec na academia, perto do trabalho. Somos bastante cordiais um com o outro: teve uma Vez que cheguei a fazer bicicleta ao lado dele, 
sem me importar que minha pele estivesse toda cheia de espinhas ou que eu estivesse vestindo meu moletom mais surrado (Darcy diz que essa roupa jamais deveria ser 
usada em pblico). Nessa ocasio ficamos jogando conversa fora. Perguntei sobre a namorada dele, deixando ele tagarelar sobre a viagem para a Jamaica que eles estavam 
prestes a fazer. No me esforcei nem um pouco para ser legal, uma outra indicao clara de que eu no tinha investido realmente no nosso relacionamento. De certa 
forma,  verdade, nem deveria incluir Alec na categoria dos namorados srios. Mas porque dormi com ele (e me vejo como um tipo de mulher que dormiria apenas com 
algum numa relao legtima), eu o incluo nesse clube infelizmente exclusivo.
Fao uma reviso dos meus trs namorados, os trs homens com os quais dormi quando estava na faixa dos vinte anos, procurando um padro. Nada. Nenhum trao consistente, 
cor,estatura, personalidade. Mas um tema realmente surge: todos eles me escolheram. E depois me dispensaram. Representei o papel de passiva. Esperando por Hunter 
e ento ficando com Joey. Querendo sentir mais pelo Nate. Depois querendo sentir menos. Esperando que Alec fosse embora e me deixasse em paz.
E agora Dex. Meu nmero quatro. E ainda estou esperando.
Que tudo isso passe.
Que chegue o dia do casamento deles em setembro.
Que aparea algum que me d aquele frio na barriga quando, bem cedo, numa manh de domingo, eu o observe dormindo na minha cama. Algum que no esteja noivo da 
minha melhor amiga.

SEIS

No sbado  noite, vou de txi at Gotham Bar and Grill com a mente aberta e uma atitude positiva - meio caminho andado para o sucesso de qualquer encontro -, pensando 
que talvez Marcus possa ser a pessoa que estou procurando.
Entro no restaurante e logo o localizo, sentado no bar, usando um jeans folgado e uma camisa xadrez verde ligeiramente amassada, com as mangas dobradas de qualquer 
jeito - o oposto do MFD.
- Desculpe, eu me atrasei - digo, enquanto Marcus se levanta para me cumprimentar. - Foi difcil conseguir um txi.
- No se preocupe - diz ele, me oferecendo um banco ao seu lado.
Eu me sento. Ele sorri, revelando duas fileiras de dentes muito brancos e certinhos. Possivelmente sua melhor caracterstica. Isso ou uma covinha em seu queixo quadrado.
- E ento? O que pedimos para voc? - pergunta ele.
- O que voc est bebendo?
- Gim-tnica.
- Vou querer a mesma coisa.
Ele olha para o barman com uma nota de vinte esticada e ento de novo para mim.
- Voc est linda, Rachel.
Agradeo. Faz tempo que no recebo um bom elogio de um cara. Acaba me ocorrendo que Dex e eu no chegamos a trocar elogios.
Marcus finalmente consegue a ateno do barman e pede para mim um gim Bombay Sapphire com tnica. Em seguida ele diz:
- Na ltima vez que eu vi voc todos ns tnhamos bebido  bea ... Aquela foi uma noite divertida.
- . Eu estava bem fora do ar - respondo, esperando que Dex tenha me dito a verdade sobre no ter falado nada com Marcus. - Mas pelo menos consegui chegar em casa 
antes do sol nascer. Darcy me disse que voc e Dex ficaram fora at tarde naquela noite.
- , ns samos por a um tempo - Marcus diz, sem olhar para mim. Isso  um bom sinal. Ele est protegendo o amigo, mas tem dificuldade em mentir. Ele pega o troco 
do barman, deixa duas notas e algumas moedas sobre o bar e me passa a bebida. - Aqui est.
- Obrigada.
Sorrio, mexo e bebo pelo canudinho. 
Uma garota oriental esqulida, vestindo cala de couro e com os lbios excessivamente pintados, d um tapinha no ombro de Marcus e diz que a nossa mesa est pronta. 
Pegamos nossas bebidas, seguindo-a at a rea do restaurante que fica depois do bar. Enquanto sentamos, ela nos entrega dois cardpios gigantescos e uma carta de 
vinhos separada.
- O garom de vocs estar aqui em alguns minutos - diz, antes de virar seu longo cabelo preto e sair altiva e a passos largos pelo restaurante.
Marcus d uma olhada na carta de vinhos e pergunta se eu quero pedir uma garrafa.
- Claro - respondo.
- Tinto ou branco?
- Tanto faz.
- Voc acha que vai comer peixe? - ele diz olhando para o cardpio.
- Talvez. Mas no me importo de tomar vinho tinto com peixe.
- No sou muito bom para escolher vinhos - diz ele, estalando as juntas dos dedos sob a mesa. - Quer dar uma olhada?
- No, tudo bem. Voc pode escolher. Qualquer coisa est bem.
- Est certo, ento. Deixa comigo - diz ele, abrindo o sorriso de quem nunca esquecia de usar o aparelho para dormir.
Ficamos estudando o cardpio, discutindo o que deve estar mais gostoso. Marcus desliza sua cadeira para perto da mesa e sinto seu joelho contra o meu.
- Quase no chamei voc para sair. Afinal, a gente vai passar o vero na mesma casa e coisa e tal- Marcus diz, seus olhos ainda examinando o cardpio. - Dex me disse 
que essa  uma das principais regras por aqui. No se envolva com algum da sua casa. Pelo menos no at agosto.
Ele ri e eu arquivo o detalhe para uma anlise futura: Dex no deu fora para o nosso encontro.
- Mas a eu pensei, sabe como , que inferno: estou interessado nela, vou telefonar para ela. Quer dizer, desde que Dex nos apresentou, venho pensando em chamar 
voc para sair. Desde que me mudei para c. Mas eu estava com uma garota de So Francisco por um tempo e achei que deveria resolver tudo antes de telefonar para 
voc. Voc sabe, s para fazer as coisas direitinho, s claras. Ento, finalmente terminei tudo ... e aqui estamos ns - ele passa as costas da mo na testa, aliviado 
com a confisso.
- Acho que voc tomou a deciso correta.
- De esperar?
- No. De ligar.
Ofereo a ele o meu sorriso mais sedutor, lembrando-me rapidamente de Darcy. Ela no tem o monoplio da seduo feminina, penso. No tenho de ser sempre a sria, 
a sem graa.
Nossa garonete interrompe o momento.
- Ol, tudo bem com vocs hoje?
- Tudo bem - Marcus responde alegre e ento abaixa o tom de voz.
- Para um primeiro encontro.
Eu rio, mas nossa garonete apenas sorri duramente e com os lbios apertados.
- Posso apresentar nossos pratos especiais?
- V em frente - diz Marcus.
Ela olha fixo para o espao bem acima das nossas cabeas, recitando a lista de pratos especiais, chamando tudo de "delicioso" - "uma deliciosa garoupa", "um delicioso 
risoto" e assim por diante. Fao que sim com a cabea e escuto apenas parcialmente enquanto penso em Dex dizendo a Marcus para no me convidar para sair e fico imaginando 
o que isso significa.
- Ento? Vocs gostariam de comear com alguma coisa para beber?
- Pode ser... Acho que vamos querer uma garrafa de vinho tinto. O que voc recomenda? - ele aperta os olhos em direo ao cardpio.
- O pinot noir Marjorie est soberbo - ela aponta para a carta de vinhos.
- Est bem. Ento pode ser este a. Perfeito.
Ela abre mais um de seus sorrisos afetados em minha direo.
- Vocs esto prontos para fazer o pedido?
- , acho que sim - digo, e ento peo uma salada verde com legumes e atum.
- E como voc gostaria do seu atum?
- Ao ponto - respondo.
Marcus pede sopa de ervilha e cordeiro.
- Excelentes escolhas - diz nossa garonete, com um movimento afetado da cabea. Ela recolhe nossos cardpios e d meia-volta.
- Cara - diz Marcus.
- O qu?
- Essa garota no tem personalidade nenhuma.
Eu rio.
Ele sorri.
- Onde estvamos?... Ah , os Hamptons.
- Certo.
- Ento, Dex diz que no  uma boa idia sair com algum da sua prpria casa. E a eu respondo: "Meu irmo, eu no estou seguindo as regras idiotas da Costa Leste." 
Se a gente acabar se odiando, que seja.
- No acho que a gente vai se odiar - digo.
A garonete volta com o vinho, abre a garrafa e serve um pouco na taa dele. Marcus bebe de um gole s e anuncia que est timo, dispensando a cerimnia pretensiosa. 
Voc pode saber muito de um cara ao observ-lo tomando o primeiro gole de vinho. No  um bom sinal quando ele faz aquela coisa toda de girar, enterrando o nariz 
no copo, tomando um gole vagaroso e pensativo, fazendo uma pausa com o cenho franzido seguida de uma ligeira inclinao da cabea para no parecer entusiasmado demais, 
como se dissesse "este passa, mas j bebi muitos melhores". Se ele  um verdadeiro conhecedor, a  outra coisa. Mas geralmente  apenas exibicionismo, doloroso 
de se observar.
Enquanto a garonete me serve, pergunto a Marcus se ele sabe da aposta.
Ele faz que no com a cabea.
- Que aposta?
Espero at que estejamos sozinhos novamente, j basta que a garonete saiba que esta  a primeira vez que samos juntos.
- Dex e Darcy fizeram uma aposta para ver se eu aceitaria ou no sair com voc.
- Ah, no acredito - ele deixa cair o queixo para mostrar que ficou surpreso. - Quem achou que voc iria e quem achou que voc me dispensaria?
- Ah. No me lembro - finjo estar confusa. - Isto no importa. O que importa ...
- Que eles esto se metendo muito na nossa vida - ele balana a cabea. - Filhos-da-me.
- Eu sei.
Ele ergue a taa.
- A Dex e Darcy, aqueles bisbilhoteiros filhos-da-me com quem no vamos compartilhar os detalhes desta noite.
Eu rio.
- No importa o quo bom, ou ruim, seja o nosso encontro!
Nossas taas se encostam e bebemos ao mesmo tempo.
- Este encontro no vai ser ruim. Pode acreditar em mim.
Sorrio.
- Acredito em voc.
Realmente acredito nele, penso. H alguma coisa desconcertante a respeito do senso de humor, do estilo tranqilo das pessoas do Meio-Oeste. E ele no est noivo 
de Darcy. Um excelente bnus.
Ento, como que ensaiado, Marcus me pergunta h quanto tempo conheo Darcy.
- H uns vinte e poucos anos. Na primeira vez que a vi, ela estava toda arrumada, num daqueles vestidinhos de vero, e eu estava com um daqueles shorts idiotas do 
ursinho Pooh. Pensei, a est uma garota com estilo.
Marcus ri.
- Aposto que voc estava linda no seu shortinho do Pooh.
- Nem tanto.
- E foi voc quem apresentou os dois, certo? Dex disse que vocs eram grandes amigos no curso de Direito, no  mesmo?
Certo. Meu bom amigo Dex. A ltima pessoa com quem dormi.
- Ah. Conheci Dex no primeiro semestre do curso de Direito. Percebi de cara que ele e Darcy seriam uma tima combinao - digo. Um pouco de exagero, mas quero deixar 
claro que nunca considerei Dex para mim. Coisa que no fiz mesmo. E ainda no fao.
- Eles so mesmo parecidos ... No h mistrio sobre como os filhos deles vo ser.
- , eles vo ser lindos - sinto um n inexplicvel no peito, imaginando Dex e Darcy embalando seu recm-nascido. Por alguma razo, nunca havia pensado para alm 
do casamento em setembro.
- O que foi? - Marcus pergunta, obviamente notando minha expresso. O que no necessariamente significa que ele seja sensvel. Meu rosto  que no chega a ser inescrutvel. 
 uma maldio.
- Nada - respondo. Ento sorrio e me endireito na cadeira.  hora de uma transio. - Chega de falar de Dex e Darcy.
- - diz ele. - Eu tambm acho.
Damos incio a uma tpica conversa de primeiro encontro, discutimos nossos trabalhos, nossas famlias e nosso passado em geral. Falamos sobre sua experincia inicial 
na internet, que no passou de um incio, e de sua mudana para Nova York. Nossa comida chega. Comemos, conversamos e pedimos mais uma garrafa de vinho. H mais 
risos do que silncio. Sinto-me at  vontade o suficiente para pegar um pedacinho do seu cordeiro quando ele me oferece.
Depois do jantar, Marcus paga a conta.  sempre um momento estranho para mim, embora me oferecer para pagar (sinceramente ou com o falso gesto de pegar a carteira) 
seja ainda mais estranho. Agradeo e vamos andando em direo  porta, onde decidimos tomar mais alguma coisa.
- Voc escolhe onde - Marcus diz.
Me decido por um bar que acabou de abrir perto do meu apartameno. Entramos num txi e vamos conversando durante todo o caminho at o Upper East Side. Ento sentamos 
e conversamos ainda mais.
Peo a ele para me falar de sua cidade natal em Montana. Ele faz uma pequena pausa e ento diz que tem uma boa histria.
- Apenas 10% da minha turma do ltimo ano foi para a faculdade - comea ele. - Na minha escola a maioria dos alunos nem sequer se importava com as provas de admisso. 
Mas fiz o tal exame, me sa bem, me candidatei  Georgetown e consegui.  claro, no mencionei isso para ningum na escola. Fiquei cuidando da minha vida, saindo 
com a minha turma e coisa e tal. Ento os professores ficaram sabendo da Georgetown e um dia o meu professor de matemtica, o senhor Gilhooly, se incumbiu da misso 
de anunciar minha boa notcia para a sala.
Ele balana a cabea como se a lembrana fosse dolorosa.
- Ento todo mundo fica dizendo coisas do tipo "E ento? Grande merda". - Marcus cruza os braos e bate na boca com a mo aberta para imitar seus amigos de turma 
entediados. - Acho que a reao deles deixou o senhor Gilhooly furioso. Ele realmente queria que eles compreendessem a profundidade de suas inadequaes e o quanto 
estariam perdidos no futuro. Ento ele foi em frente e desenhou um enorme grfico no quadro mostrando meu potencial salarial com um diploma de faculdade versus o 
potencial deles trabalhando como garons no Shoney's. E como essa distncia iria aumentar cada vez mais com o tempo.
- No brinca.
- Verdade. Ento eles ficaram dizendo coisas como "Foda-se o Marcus", sabe? Como se eu achasse que era uma grande merda s porque iria ganhar um salrio de seis 
dgitos algum dia. Eu queria matar aquele cara - Marcus esbraveja jogando as mos para o alto. - Obrigado por nada, senhor Gilhooly. Boa maneira de arranjar uns 
amigos para mim.
Eu rio.
- Ento eu pensei, que porra eu fao agora? Tenho que lutar contra a imagem de bom aluno idiota, certo? Ento eu me desdobro para mostrar a todos que no dou a menor 
bola para o mundo acadmico. Comecei a fumar maconha todos os dias e no abandonei o hbito durante a faculdade. E a, bem, sabe como , fiquei em penltimo na Georgetown. 
Tenho certeza que voc ouviu falar da histria do controle remoto - diz Marcus enquanto remove o rtulo de sua cerveja Heineken.
Sorrio e bato de leve na mo dele.
- , conheo a histria. S que a verso que ouvi  a de que voc ficou em ltimo mesmo.
- Ahhhh! - Marcus balana a cabea. - Dex nunca conta essa histria direito. Minha nota final pelo menos foi maior do que a de uma outra pessoa! Penltimo, cara! 
Penltimo!
Depois de dois drinques, olho para o relgio e digo que est ficando tarde.
- Est bem. Posso acompanhar voc at sua casa?
- Claro.
Caminhamos pela Terceira Avenida e paramos em frente ao meu apartamento.
- Bem, boa noite, Marcus. Muito obrigada pelo jantar. Foi uma noite tima - digo, com sinceridade.
- . Para mim tambm. Foi timo - ele lambe os lbios rapidamente. Sei o que vem por a. - E acho timo que a gente esteja na mesma casa neste vero.
- Eu tambm.
Ento ele pergunta se pode me beijar. Uma pergunta de que geralmente no gosto. Apenas beije, penso sempre. Mas por alguma razo isso no me incomoda vindo de Marcus.
Fao que sim com a cabea, ele se aproxima e me d um beijo meio longo.
Ns nos separamos. Meu corao no est acelerado, mas me sinto satisfeita.
- Voc acha que Darcy e Dex tambm apostaram sobre isso? - ele pergunta.
Rio, porque estava pensando a mesma coisa.

- Como  que foi? - grita Darcy ao telefone na manh seguinte.
Estou acabando de sair do chuveiro, toda encharcada e pingando.
- Onde voc est?
- No carro, com Dex. Estamos voltando para a cidade - diz ela. - fomos comprar antigidades. Lembra?
- Ah,  - respondo. - Eu me lembro.
- Como  que foi? - pergunta Darcy mais uma vez estalando a lngua. Ela no consegue nem esperar at chegar em casa para saber os detalhes do meu encontro.
No respondo.
- E ento?
- A ligao est ruim. Seu celular est entrecortando - digo. - no consigo ouvir voc.
- Bela tentativa. Conte as boas.
- Que boas?
- Rachel, no se faa de desentendida comigo. Me conta sobre o seu encontro! Estamos loucos para saber.
Escuto Dex ecoar ao fundo.
- Simplesmente loucos!
- Foi uma noite adorvel - digo, tentando enrolar uma toalha em volta da cabea sem deixar o telefone cair.
Ela d uns gritinhos.
- Eu sabia. Ento, detalhes! Detalhes!
Digo a ela que fomos ao Gotham Bar and Grill, que pedi atum e ele cordeiro.
- Rachel, v direto ao que interessa. Vocs ficaram juntos?
- No posso contar isso.
- Por que no?
- Tenho minhas razes.
- Isso significa que aconteceu - diz ela. - Do contrrio voc teria apenas dito que no.
- Pense o que quiser.
- Ah, vai, Rachel.
Digo a ela que de jeito nenhum, no vou ser o passatempo da sua viagem. Ela reproduz minhas palavras a Dex e eu o escuto dizer:
- Bruce  o nosso passatempo. Diga isso a ela.
Tunnel of Love est tocando ao fundo.
- Diga ao Dexter que este  o pior disco do Bruce.
- Eles so todos ruins. Springsteen  um saco - Darcy comenta.
- Ela disse que este disco  ruim? Foi isso que ela acabou de dizer? - escuto Dex perguntando a Darcy.
Darcy diz que sim e alguns segundos depois "Thunder Road" est a todo volume. Darcy grita para ele diminuir. Eu sorrio.
- E ento? - Darcy pergunta. - Voc vai contar ou no?
- No.
- E se eu prometer no contar ao Dex?
- Ainda assim, no.
Darcy faz um som exasperador. Ento ela diz que vai descobrir de uma maneira ou de outra e desliga.

S volto a falar com Dex na quinta  noite, na vspera da viagem aos Hamptons.
- Voc quer uma carona? A gente tem espao para mais um - diz ele. - Claire vem com a gente, e o seu amigo tambm.
- Bem, neste caso, adoraria uma carona - digo, tentando soar leve e casual. Preciso mostrar a ele que estou em outra. Eu estou em outra.

s cinco horas do dia seguinte, estamos reunidos no carro de Dexter, com esperana de conseguir fugir do engarrafamento. Mas as ruas j esto entupidas. Levamos 
uma hora para chegar ao tnel de Midtown e quase quatro horas para completar os 170 quilmetros at East Hampton. Sento no banco de trs entre Claire e Marcus. Darcy 
est desinibida e agitada, passa a maior parte da viagem olhando para ns trs no banco de trs, puxando vrios assuntos, fazendo perguntas e geralmente conduzindo
a conversa. Ela faz com que as coisas paream celebraes. O bom humor dela  to infeccioso quanto o mau humor  contagioso. Marcus  O segundo mais falante do 
grupo. Por mais ou menos cinqenta quilmetros, ele e Darcy ficam de piadinhas, de gozao um com o outro. Ela diz que ele  preguioso, ele diz que ela d trabalho. 
Claire e eu fazemos algum comentrio apartes de vez em quando. Dex no diz praticamente nada. Ele fica to quieto que a certa altura Darcy grita para ele parar de 
ser to chato.
- Estou dirigindo - Dex diz -, preciso me concentrar.
Ento ele olha para mim pelo espelho retrovisor. Fico imaginando no que ele est pensando. Os olhos dele no entregam nada.
Est ficando escuro quando paramos para fazer um lanche e tomar uma cerveja num posto de gasolina na rodovia 27. Claire se aproxima de mim perto das batatas fritas, 
passa o brao atravs do meu e diz:
- D para notar que ele realmente gosta de voc.
Por um segundo fico em estado de choque, pensando que ela est se referindo ao Dex. Ento me dou conta de que ela est falando do Marcus.
- Marcus e eu somos apenas amigos - digo enquanto escolho uma lata de Pringles Light.
- Ah, por favor. A Darcy me contou sobre o encontro de vocs - insiste ela.
Claire sempre sabe de tudo - a ltima tendncia, a inaugurao de um bar legal, a prxima grande festa. Ela mantm os dedos de unhas bem-cuidadas na pulsao da 
cidade. E saber dos detalhes a respeito dos solteiros tambm faz parte do pacote.
- Foi s um encontro - explico, feliz que Darcy no tenha determinado o que aconteceu com Marcus, apesar de um bombardeio de perguntas. Ela chegou at mesmo a interrog-lo 
por e-mail. Ele me encaminhou a mensagem com o seguinte ttulo: "bisbilhoteiros filhos-da-me."
- Bem, o vero  longo - diz Claire com sabedoria. - Voc faz bem em no se comprometer at saber o que mais est vindo por a.

Chegamos  nossa casa de veraneio, uma casinha sem muito charme. Foi Claire quem a encontrou em meados de fevereiro, quando veio sozinha at aqui, revoltada por 
no termos sacrificado um fim de semana para sair em busca de uma casa. Ela organizou tudo, providenciando inclusive quem alugasse a outra metade da temporada. Enquanto 
samos em excurso pela casa, ela se desculpa mais uma vez que no haja uma piscina e se lamenta que as reas comuns realmente no sejam grandes o suficiente para 
festas maiores. Asseguramos a ela que o quintal dos fundos, com uma pequena churrasqueira e muito espao, compensa isso. Alm do mais, estamos perto o bastante para 
ir a p at a praia, o que, na minha opinio,  o que h de mais importante numa casa de veraneio.
Descarregamos o carro e samos em busca dos nossos quartos. Darcy e Dex ficam com o que tem a cama king-size. Marcus tem seu prprio quarto, o que pode vir a ser 
conveniente. E Claire tambm - uma recompensa por seus esforos. Eu divido um quarto com Hillary, que matou o trabalho hoje e veio de trem na noite passada. Hillary 
est sempre matando o trabalho. No conheo ningum mais despreocupada nesse
sentido, particularmente num escritrio grande como o nosso. Todos os dias ela chega tarde - a cada ano que passa, cada vez mais perto de onze horas - e se recusa 
a fazer como os outros funcionrios, que deixam um palet na cadeira ou uma xcara cheia de caf sobre a mesa antes de ir embora, para que os colegas pensem que 
saram apenas para um rpido intervalo. Ela faturou menos de dois mil dlares no ano passado e por isso no recebeu bnus.
- Faa as contas e voc vai perceber que ganhar um bnus representa menos por hora do que fritar hambrgueres no McDonald's - disse ela este ano, no dia em que os 
cheques foram distribudos.
Agora telefono a ela do celular.
- Onde voc est?
- Cyril's - grita ela por sobre o falatrio dos freqentadores. - Querem que eu fique aqui ou que v encontrar vocs em algum lugar?
Transmito a pergunta para Darcy e Claire.
- Diga a ela que vamos direto para o Talkhouse - diz Darcy. - J  tarde.
Ento, como eu esperava, Claire e Darcy insistem em trocar de roupa. E Marcus, que ainda est com a roupa do trabalho, faz a mesma coisa. Ento Dex e eu ficamos 
sentados na salinha de TV, um de frente para o outro, esperando. Ele pega o controle remoto, mas no liga a TV.  a primeira vez que ficamos sozinhos desde o Incidente. 
Estou consciente do suor se acumulando nas minhas axilas. Por que estou nervosa? O que aconteceu ficou para trs. Acabou. Tenho de relaxar, agir com naturalidade.
- Voc no vai se embonecar para o seu amiguinho? - Dex pergunta calmamente, sem olhar para mim.
- Muito engraado.
Agora,mesmo a mera troca de palavras parece ilcita.
- Voc no vai mesmo?
- Estou bem assim - digo, olhando para o meu jeans favorito e para a minha blusa preta de malha. O que ele no sabe  que j passei muito tempo pensando nesta roupa 
quando me troquei depois do trabalho.
- Ento voc e Marcus formam um casal formidvel- ele olha furtivamente para a escada.
- Obrigada. Voc e Darcy tambm.
Trocamos um olhar demorado, to carregado de possveis significados que no d nem para comear a interpretar. E a, antes que ele possa responder, Darcy desce as 
escadas saltitante, num vestido de noite verde-amarelado, bem colado no corpo. Ela entrega a Dex uma tesoura e se agacha a seus ps, erguendo o cabelo.
- D para voc cortar a etiqueta, por favor?
Ele corta. Ela se levanta e gira.
- Bem, que tal estou?
- Legal - responde ele e depois olha para mim meio acanhado, como se aquele elogio de apenas uma palavra para sua noiva pudesse me chatear.
- Voc est deslumbrante - digo para mostrar que no estou chateada. Nem um pouco.

Pagamos o servio de mesa e abrimos caminho pela multido que lota o Stephen's Talkhouse, nosso bar favorito em Amagansett, dizendo ol para todas as pessoas que 
a gente conhece, de diferentes grupos l da cidade. Encontramos Hillary no bar com uma Budweiser, de short jeans, uma camiseta branca com decote em V e um tipo de 
chinelo de dedo que Darcy e Claire usariam apenas para ir fazer as unhas dos ps. No h sequer uma gota de pretenso no corpo de Hillary e, como sempre, estou muito 
feliz em v-la.
- Ei, pessoal! - grita ela. - Por que vocs demoraram tanto?
- O trnsito estava uma merda - Dex diz. - E, depois, certas pessoas tiveram que se arrumar.
- Bem,  claro que ns tnhamos de nos arrumar! - diz Darcy, olhando para baixo para admirar sua roupa.
Hillary insiste que precisamos de um pontap inicial para a nossa noite e pede uma rodada de bebidas. Ela distribui os copos enquanto ficamos de p numa roda apertada, 
prontos para beber juntos.
- Ao melhor vero de todos! - diz Darcy, jogando os longos cabelos com cheiro de xampu de coco para trs dos ombros. Ela sempre diz isso no comeo de cada vero. 
Ela sempre tem expectativas tremendamente altas com as quais nunca compartilho. Mas talvez neste vero ela esteja certa.
Todos ns viramos nossas bebidas, que tm gosto de vodca pura. Ento Dex pega uma nova rodada e me entrega uma cerveja, os dedos dele roam os meus. Fico imaginando 
se fez isso de propsito.
- Obrigada - digo.
- Disponha - murmura ele, sem tirar os olhos de mim, como no carro.
Conto mentalmente at trs e depois desvio o olhar.
A noite passa e percebo que estou observando Dex e Darcy interagirem. Fico surpresa com as pontadas de um sentimento de posse que experimento ao observar os dois 
juntos. No  exatamente cime, mas algo relacionado a isso. Noto algumas pequenas coisas que no costumava registrar. Como uma vez, quando ela escorregou os quatro 
dedos na parte de trs do jeans dele, bem na altura do cs. E uma outra vez, quando ele estava em p atrs de Darcy e segurou todo o cabelo dela numa mo e meio 
que o ergueu numa espcie de rabo-de-cavalo antes de largar de volta sobre os ombros.
Neste exato momento, ele se inclina para dizer alguma coisa a ela. Ela faz que sim com a cabea. Imagino que as palavras dele sejam "quero voc hoje  noite", ou 
alguma coisa por a. Fico pensando se eles transaram desde que eu e ele estivemos juntos. Certamente. E isso me incomoda de uma maneira estranha. Talvez isso acontea 
sempre que voc v algum da sua Lista com outra pessoa. Digo a mim mesma que no tenho direito de ter cime. Que para incio de conversa no tinha nada que ter 
acrescentado Dex  minha Lista.
Tento me concentrar em Marcus. Fico perto dele, converso com ele, rio de suas piadas. Quando ele me chama para danar, digo sim sem hesitar. Vou atrs dele em direo 
 pista de dana lotada. A gente sua bastante, danando e rindo. Percebo que apesar de no haver muita qumica, estou me divertindo. E, quem sabe? Talvez ele d 
em alguma coisa.
- Eles esto loucos para saber o que aconteceu no nosso encontro - diz Marcus no meu ouvido.
- Por que voc diz isso? - pergunto a ele.
- Darcy perguntou mais uma vez. 
-  mesmo?
- .
- Quando?
- Hoje  noite. Bem depois de chegarmos aqui.
Hesito um pouco e ento pergunto:
- Dex disse alguma coisa?
- No, mas ele estava de p, bem ao lado dela, parecendo bastante interessado.
- Que petulncia - digo num tom brincalho.
- Eu sei, esses bisbilhoteiros filhos-da-me ... E no olhe agora, mas eles esto de olho na gente.
O rosto dele toca o meu, um princpio de barba roando minha pele.
Ponho os braos em torno de seus ombros e movimento meu corpo junto ao dele.
- Bem, sendo assim - digo -, vamos dar a eles motivo para olhar.

SETE

- E a? Que histria  essa entre voc e o Marcus? - pergunta Hillary na manh seguinte, enquanto mexe na pilha de roupas que j se acumulou ao lado da cama dela. 
Resisto  vontade de dobr-las para ela.
- Histria nenhuma, srio.
Levanto e logo comeo a fazer a cama.
- Algum potencial? - Ela veste um moletom e amarra o cadaro altura dos quadris.
- Talvez.
No ano passado, Hillary terminou com Corey, que foi namorado dela por quatro anos, um cara bacana, legal, inteligente, todo dinmico. Ela estava convencida de que, 
apesar de a relao ser muito boa, no era boa o suficiente. "Ele no  o cara", ela no parava de dizer. Me lembro de Darcy falando que ela acabaria revendo essa 
idia quando tivesse em seus trinta e poucos anos, uma afirmao longamente discutida por mim e Hillary mais tarde. Um Darcycismo clssico e sem tato. Entretanto 
com o passar do tempo, no consigo deixar de imaginar que Hillary possa ter cometido um erro. Aqui est ela, um ano depois, em plena infrutfera cena dos encontros 
s cegas, enquanto, dizem por a, o ex-namorado mudou-se para um loft em Tribeca com uma estudante de medicina de 23 anos, que  a cara da Cameron Diaz. Hillary 
diz que no se importa. Acho muito difcil de acreditar, mesmo para algum com a coragem dela. De qualquer forma, ela no parece estar com pressa de encontrar um 
substituto para Corey.
- Um potencial de vero ou um potencial de longo prazo? - pergunta ela, passando as mos pelo cabelo curto, de um tom louro-acinzentado.
- No sei. Talvez de longo prazo.
- Bem, vocs pareciam mesmo um casal na noite passada - diz ela. - L na pista, danando.
-  mesmo? - pergunto, pensando que se a gente estava parecendo um casal, Dex deve saber que no estou pensando nele.
Ela faz que sim, encontra sua camiseta "Desafio Empresarial", de uma corrida de rua que ela participou, e cheira embaixo do brao antes de jogar em cima de mim.
- Ser que isto aqui est limpo? D uma cheirada para mim, vai. 
- No vou cheirar a sua camiseta - digo, jogando de volta para ela. - Voc  nojenta.
Ela ri e veste a camiseta, obviamente limpa o suficiente.
- ... vocs dois estavam l, cochichando e rindo. Achei que certamente ficariam juntos na noite passada e que eu teria o quarto s para mim.
Rio.
- Sinto desapont-la.
- Voc o desapontou mais do que a mim.
- Que nada. Ele apenas disse boa-noite quando chegamos em casa. Nem mesmo um beijo.
Hillary sabe do primeiro beijo.
- Por que no?
- No sei, acho que estamos avanando com cuidado. Vamos ter bastante contato entre agora e setembro ... Voc sabe, ele tambm vai estar no casamento. Se as coisas 
no derem certo, pode ser bem desagradvel.
Ela parece considerar meus motivos. Por um segundo fico tentada a contar a ela tudo a respeito do Dex. Confio nela. Mas no conto, ponderando que poderia contar, 
mas nunca voltar atrs e apagar a informao da cabea dela. Quando estivermos todos juntos vou me sentir ainda mais desconfortvel, sempre achando que ela est 
pensando nisso. E de qualquer forma ... acabou. No h realmente nada sobre o que conversar.
Descemos as escadas. Nossos companheiros de casa j esto reunidos em volta da mesa da cozinha.
- O dia est lindo l fora - anuncia Darcy, ficando de p, se alongando e mostrando a barriga sarada sob uma camiseta cortada. Ela senta novamente e continua a jogar 
pacincia.
Claire pra de mexer em seu Palm Pilot e olha para cima.
- Tempo perfeito para praia.
- Tempo perfeito para jogar golfe - Hillary diz, olhando para Dex e Marcus. - Algum se habilita?
- Hum, talvez - Dex diz, olhando por cima da pgina de esportes do jornal. - Quer que eu telefone e veja se a gente consegue um horrio?
Darcy bate as cartas na mesa e olha em volta com um ar desafiador.
Hillary parece no notar a objeo de Darcy a uma partida de golfe, porque diz:
- Ou podemos simplesmente dar um pulo na rea de treino.
- No! No! No! Nada de golfe. - Darcy bate na mesa mais uma vez, dessa vez com o pulso. - No no nosso primeiro dia! Temos que ficar juntos! Todos ns. Certo, 
Rachel?
- Acho que isso significa nada de golfe por hoje - diz Dex, antes que eu seja forada a me envolver na grande discusso sobre o golfe. Ordens da Darcy.
Hillary se levanta da mesa com um ar enojado.
- S quero que a gente fique junto na praia - diz Darcy usando de benevolncia para disfarar seu egosmo.
- E voc faz as perspectivas parecerem to agradveis. - Dex se levanta, caminha at a pia e comea a fazer caf.
- Qual  o seu problema, seu bundo rabugento? - questiona Darcy, como se fosse ele quem tivesse acabado de dizer a ela como passar o dia. - Voc est agindo como 
uma velha erva fedorenta. V se fica quieto.
- O que  uma erva fedorenta? - Marcus pergunta, coando a orelha. Essa  a primeira contribuio dele para a conversa matinal. Ele ainda parece estar meio sonolento. 
- Nunca ouvi falar.
- Veja s uma delas agora - diz Darcy apontando para Dex. - Ele est de mau humor desde que chegamos aqui.
- No, no estou - responde Dex. Quero que ele se vire para que eu possa interpretar a expresso do seu rosto.
- Est sim. No ? - pergunta Darcy exigindo uma resposta do resto de ns, olhando especificamente para mim. Ser amiga de Darcy me ensinou a arte de suavizar as 
coisas. Mas dormir com o noivo dela enfraqueceu meus instintos. No estou a fim de entrar na discusso. E ningum mais quer se envolver no que deveria ser uma discusso 
particular. Encolhemos os ombros ou desviamos o olhar.
Na verdade, entretanto, Dex foi, de certa forma, subjugado. Fico imaginando se tenho alguma coisa a ver com o humor dele. Talvez ele no tenha gostado de me ver 
com Marcus. No um cime escancarado, apenas as pontadas do sentimento de posse que experimentei. Ou talvez esteja apenas pensando em Darcy, observando o quanto 
ela pode ser controladora. Sempre tive conscincia das exigncias de Darcy -  impossvel deixar de not-las -, mas ultimamente tenho sido menos tolerante com ela. 
Estou cansada das coisas sempre serem do jeito que ela quer. Talvez Dex esteja se sentindo da mesma forma.
- O que voc est preparando para o caf da manh? - pergunta Marcus em meio a um sonoro bocejo.
Claire olha para o seu Cartier cravejado de brilhantes.
- Voc est querendo dizer brunch.
- Seja l o que for. O que voc estiver preparando para comer - diz Marcus.
Discutimos nossas opes e decidimos evitar a tumultuada cena de East Hampton. Hillary diz que comprou o essencial no dia anterior.
- Por essencial voc est se referindo quelas guloseimas para esquentar na torradeira? - pergunta Marcus.
- Aqui est. - Hillary arruma os pratos, as colheres e uma caixa de cereal sobre a mesa. - Bom apetite.
Marcus abre a caixa e despeja um pouco no prato. Ele olha para mim do outro lado da mesa.
- Quer um pouco?
Fao que sim com a cabea e ele prepara o meu prato. No pergunta se mais algum quer, apenas empurra a caixa para a mesa.
- Banana? - me oferece.
- Sim, por favor.
Ele descasca e fatia a banana sobre o meu prato e sobre o dele, alternando um tanto de fatias para cada um. Ele fica com a parte mais madura. Estamos compartilhando 
uma banana. Isso significa alguma coisa. Os olhos de Dex movem-se rpidos em minha direo, enquanto Marcus deixa cair a ltima rodela no meu prato, guardando o 
finalzinho nojento na casca.

Algumas horas depois, estamos finalmente prontos para ir  praia. Claire e Darcy surgem de seus quartos com bolsas de lona estilosas, cheias at a borda de toalhas 
novas e macias, revistas, loes, garrafas trmicas, telefones celulares e maquiagem. Hillary leva apenas uma pequena toalha da casa e um frisbee. Fico no meio do 
caminho: levo uma toalha de praia, meu discman e uma garrafa de gua. Ns seis andamos em fila, os chinelos de dedo estalando na calada com aquele agradvel som 
de vero. Claire e Hillary caminham nas pontas e no centro esto Dex e Darcy e o possvel futuro casal. Cruzamos o estacionamento da praia e escalamos a duna, hesitando 
por um segundo at darmos nossa primeira olhada coletiva para o mar. Estou satisfeita de no morar mais em Indiana, um lugar cercado de terra, onde as pessoas chamam 
o lago Michigan de "praia". A viso  emocionante. Quase me faz esquecer que dormi com Dex.
Dex lidera o caminho pela praia lotada, encontrando um lugar entre as dunas e a gua, onde a areia ainda  macia, mas plana o suficiente para podermos espalhar nossas 
toalhas. Marcus estende a dele perto da minha. Darcy est do meu outro lado, Dex perto dela. Hillary e Claire se instalam na nossa frente. O sol brilha, mas no 
faz muito calor. Claire nos alerta sobre os raios uv e sobre os cuidados que se deve tomar em dias como este.
- Voc pode ter queimaduras de sol serissimas e s perceber quando j  tarde demais - diz ela.
Marcus se oferece para passar bronzeador nas minhas costas.
- No, obrigada - digo. Mas enquanto me esforo para alcanar o meio das costas, ele tira o frasco da minha mo e passa a loo, espalhando meticulosamente, fazendo 
as manobras em torno das bordas do meu biquni.
- Dex, passa para mim - pede Darcy toda alegre, tirando seu short branco e agachando em frente a ele com seu biquni preto. - Aqui, use o meu leo  base de coco, 
por favor.
Claire lamenta a falta de FPS no leo, diz que estamos velhas demais para continuar nos bronzeando e que Darcy vai se arrepender quando as rugas aparecerem. Darcy 
revira os olhos e diz que no se importa com as rugas, que vive o momento. Sei que mais tarde Darcy vai me dizer que Claire est simplesmente com cime porque sua 
pele clara passa direto do branco para o rosa.
- Voc vai se arrepender quando tiver quarenta anos - diz Claire, o rosto sombreado por um enorme chapu de palha.
- No, no vou. Vou simplesmente fazer peeling a laser. - Darcy ajeita a parte de cima do biquni e ento aplica mais uma camada de leo na panturrilha, com movimentos 
rpidos e eficientes. H 15 anos assisto Darcy se besuntando de leo. Todo vero o objetivo dela  adquirir um bronzeado radical. Muitas vezes a gente ficava deitada 
no quintal dos fundos da casa dela com um tubo enorme de margarina, um frasco de clareador de cabelos e uma mangueira de jardim para um certo alvio de tempos em 
tempos. Era uma tortura completa. Mas eu enfrentava, acreditando que a pigmentao escura fosse uma espcie de virtude. Minha pele  alva como a de Claire; ento, 
todos os dias Darcy disparava na minha frente.
Claire adverte que cirurgia cosmtica no cura cncer de pele.
- Oh, pelo amor de so Pedro! - exclama Darcy. - Ento fique embaixo do seu maldito chapu.
Claire abre a boca e logo fecha de novo, parecendo magoada.
- Desculpa. Eu estava apenas tentando ajudar.
Darcy dispara um sorriso conciliatrio na direo dela.
- Eu sei, querida, no quis ofender voc.
Dex olha para mim e faz uma careta, como se dissesse que gostaria que as duas calassem a boca.  a primeira vez no dia que nos comunicamos. Eu me permito sorrir 
de volta para ele. Seu rosto se desmancha num glorioso sorriso. Ele  to bonito que di. Como olhar para o sol. Ele fica de p por um momento para ajeitar a toalha 
que dobrou com o vento. Olho para suas costas, depois para a barriga da perna e sou tomada por uma onda de nostalgia. Ele esteve na minha cama. No que eu queira 
uma repetio da performance. Mas, oh, ele tem um corpo bonito - magro, mas largo. No sou uma pessoa ligada em corpos, mas ainda assim aprecio um corpo perfeito. 
Ele volta a sentar exatamente quando olho para o outro lado.
Marcus pergunta se algum quer jogar frisbee. Digo que no, estou muito cansada, mas o que estou pensando  que a ltima coisa que quero fazer  ficar correndo por 
a com a minha barriga mole e branca saindo para fora do meu duas-peas. Mas Hillary no nega fogo e l vo eles, o retrato de dois freqentadores de praia bem ajustados, 
deixando o resto de ns entregues  inrcia.
- Passa a minha camiseta - pede Darcy a Dex.
- Por favor?
- O "por favor" est subentendido - explica Darcy.
- Diga - Dex insiste, enquanto pe na boca uma balinha de canela.
Darcy d um soco forte no estmago dele.
- Ai - diz ele, bem calmo, para indicar que no doeu nem um pouco.
Ela respira fundo para atingi-lo mais uma vez, mas ele agarra o pulso dela.
- Procure se comportar, voc  to infantil- diz ele afetuosamente. A impacincia dessa manh desapareceu.
- No sou - diz ela, deslizando para a toalha dele. Ento aperta os dedos contra o peito dele, pronta para um beijo.
Ponho os culos e olho para o outro lado. Dizer que o que estou sentindo no  cime no seria verdade.
 noite, vamos todos a uma festa em Bridgehampton. A casa  enorme, com uma linda piscina em L, cercada de belos jardins e de pelo menos umas vinte tochas. Dou uma 
olhada nos convidados que esto no jardim dos fundos, notando todos os vestidos e saias de cor roxa, rosa-shocking e laranja. Parece que todas as mulheres andaram 
lendo a mesma matria que eu: "cores vivas na moda, preto j era." Segui o conselho e comprei um vestido bem vero, verde-limo, muito "cheguei" e marcante demais 
para ser usado novamente antes de agosto, o que significa que vai me custar mais ou menos 150 dlares por cada vez que eu vestir. Mas continuo satisfeita com a minha 
escolha at ver o mesmo vestido, mais ou menos dois tamanhos menor, numa loura esguia. Ela  mais alta do que eu, ento o vestido fica mais curto nela, expondo um 
interminvel pedao bronzeado de coxa. Fao um esforo consciente para ficar no lado da piscina oposto ao dela.
Vou at o banheiro e, no caminho de volta, para encontrar Hillary, fico presa conversando com Hollis e Dewey Malone. Hollis trabalhava no mesmo escritrio que eu, 
mas pediu demisso um dia depois de ficar noiva de Dewey. Dewey no  nada atraente e no tem o menor senso de humor, mas  dono de um bom patrimnio. Da o interesse 
dela. Foi divertido ouvir Hollis explicando para a gente que Dewey tem um "corao to grande", blablabl, tentando em vo disfarar suas verdadeiras intenes. 
Tenho inveja de Hollis ter escapado da sucursal do inferno, mas prefiro ficar empacada fazendo cobranas do que casada com o Dewey.
- Minha vida est to melhor agora - ela diz em tom bem alegre. - Aquele escritrio era um veneno! Era to sufocante! Achei que fosse acabar perdendo a curiosidade 
intelectual... mas no perco. Agora tenho tempo para ler os clssicos e pensar.  timo. To libertador.
- Ah... Que bom - digo, fazendo anotaes na memria para dividir com Hillary mais tarde.
Hollis prossegue contando sobre a cobertura deles no parque, como tem tido trabalho com a decorao e como teve de dispensar trs decoradores por no aderirem  
viso dela. Dewey no contribui em nada para a conversa, apenas mastiga seu gelo e faz cara de entediado. Num dado momento, eu o surpreendo olhando para a bunda 
de Darcy, bem delineada numa cala capri vermelha.
De repente, Marcus est ao meu lado. Apresento-o a Dewey e Hollis. Dewey aperta a mo dele e depois continua a respirar pela boca e dar impresso de que no est 
interessado na conversa. Hollis logo pergunta a Marcus onde ele mora e em que trabalha. Aparentemente, seu endereo em Murray Hill e seu trabalho na rea de marketing 
no esto  altura do casal, porque eles acham uma desculpa para ir ao encontro de outros convidados.
Marcus ergue a sobrancelha.
- E ento? Est se divertindo?
- Acho que sim. E voc?
Ele d de ombros.
- As pessoas aqui se levam muito a srio, no ?
- Nos Hamptons  assim.
Dou uma pesquisada na festa. No tem nada daqueles churrascos da vizinhana em Indiana. Uma parte de mim fica satisfeita de ter expandido horizontes. Mas uma parte 
ainda maior se sente desconfortvel toda vez que vem a uma festa como esta. Sou uma pessoa fingindo ser o que no , tentando me misturar com aqueles que consideram 
Indiana um lugar de passagem - um territrio que precisa ser cruzado a caminho de Aspen ou Los Angeles. Observo Darcy fazendo suas rondas com Dex ao lado. No sobrou 
nela nenhum vestgio de Indiana. Quem olha imagina que ela cresceu na Avenida Park. Seus filhos vo crescer em Manhattan, com certeza. Quando eu tiver filhos, se 
tiver, pretendo me mudar para os arredores da cidade. Olho para Marcus e tento imagin-lo arrastando para fora da rua o velocpede do nosso filho. Ele olha para 
baixo em direo ao nosso garoto, que est com o rosto sujo de picol, e o ensina a permanecer na calada. O menino tem as mesmas sobrancelhas curtas de Marcus: 
apontam para cima, uma em direo  outra, como um V de cabea para baixo.
- Vamos l - diz Marcus. - Vamos pegar mais alguma coisa para beber.
- Est certo - respondo, sem tirar o olho da loura com vestido igual ao meu.
Enquanto nos dirigimos para o bar da piscina, penso em Indiana mais uma vez, imaginando Annalise e Greg com seus vizinhos, todos espalhados na grama recm-cortada 
do Meio-Oeste. Se algum estivesse usando o mesmo short cqui da Gap ningum se incomodaria.

Depois vamos a uma outra festa e ento partimos para a saideira de sempre no Talkhouse, onde mais uma vez dano com Marcus. Por volta das trs horas, nos amontoamos 
no carro e vamos para casa. Hillary e Claire vo direto para a cama, enquanto os casais permanecem na sala de televiso. Darcy e Dex ficam de mos dadas num dos 
sofs de dois lugares. Marcus e eu sentamos prximos um do outro no sof ao lado, mas sem nos encostarmos.
- Est bem, crianas, j passou da minha hora de dormir - diz Darcy, levantando-se repentinamente. Ela olha para Dexter. - Voc vem?
Meus olhos encontram os de Dexter. Desviamos ao mesmo tempo.
- Vou - diz. - J estou indo.
Ns trs conversamos por mais alguns minutos at ouvirmos Darcy chamando Dex do alto da escada.
- Vem logo, Dex, eles querem ficar sozinhos!
Marcus sorri com escrnio, enquanto examino umas sardas no meu brao.
Dex pigarreia, tosse. Est srio.
- Tudo bem, ento. Acho que vou subir. Boa noite.
- Est bem, cara. Vejo voc amanh - diz Marcus.
Eu apenas murmuro um boa-noite, desconfortvel demais para olhar para cima enquanto Dex sai da sala.
- Finalmente - Marcus diz. - Enfim ss.
Sinto uma inesperada angstia por causa de Dex e isso  de certa forma um resqucio do que aconteceu com Hunter quando ele me deixou sozinha com Joey na sala da 
Duke. Mas logo afasto esse pensamento e sorrio para Marcus.
Ele se aproxima e me beija, dessa vez sem pedir permisso.  um beijo bom o bastante, talvez at mesmo melhor do que o primeiro. Por alguma razo, penso no episdio 
de um antigo seriado, no qual um personagem chamado Bobby v estrelas depois de beijar Millicent (que, por sua vez, sem que Bobby soubesse, estava com caxumba). 
Quando vi o episdio pela primeira vez tinha mais ou menos a idade de Bobby, ento aquele beijo parecia coisa sria. Algum dia eu vou ver estrelas desse jeito, lembro 
de ter pensado. At hoje, no aconteceu. Mas Marcus chega to perto quanto qualquer outro antes dele.
Nosso beijo evolui para o nvel seguinte e ento eu digo:
- Bem, acho que a gente deve ir para a cama.
- Juntos? - pergunta ele. D para perceber que est brincando.
- Muito engraado - respondo. - Boa noite, Marcus.
Beijo Marcus mais uma vez antes de ir para o meu quarto, passando no caminho pela porta fechada do quarto de Darcy e Dex.

Na manh seguinte, verifico minha secretria eletrnica. Les me deixou trs recados. Ele poderia muito bem ser Testemunha de Jeov pelo tanto que se importa com 
feriados. Diz que quer "discutir algumas coisas amanh, no comeo da tarde". Eu sei que ele  vago de propsito, no especificando um horrio ou deixando instrues 
para encontr-lo no escritrio ou para telefonar. Dessa forma ele pode ter certeza de que meu feriado fica cortado pela metade. Hillary me diz para ignor-lo, fingir 
que no recebi o recado. Marcus diz para eu mandar uma outra mensagem recomendando a ele "bater umazinha -  feriado nacional". Mas,  claro, obediente, checo o 
horrio do trem e do nibus e decido que vou embora esta tarde para fugir do engarrafamento. No fundo sei que o trabalho  apenas uma desculpa para ir embora - para 
mim j chega de toda essa dinmica bizarra. Gosto de Marcus, mas  exaustivo ficar em volta de um cara que, como Hillary diria, "tem potencial". E  ainda mais exaustivo 
evitar Dex. Eu o evito quando est sozinho, eu o evito quando est com Darcy. Evito ficar remoendo Dex e o Incidente.
- Eu realmente preciso voltar - suspiro, como se fosse a ltima coisa que quisesse fazer.
- Voc no pode ir embora! - protesta Darcy.
- Tenho de ir.
Enquanto ela faz cara feia, tenho vontade de dizer que 90% das vezes em que estamos nos Hamptons ela fica a mil, em ritmo de badalao. Mas simplesmente digo mais 
uma vez que tenho de ir.
- Voc  uma estraga-prazeres.
- Ela tem de trabalhar, Darcy - diz Dex. Talvez ele diga isso porque muitas vezes ela tambm o chama de estraga-prazeres. Por outro lado, talvez ele apenas queira 
que eu v embora pela mesma razo que eu quero ir embora.
Depois do almoo, arrumo minhas coisas e vou at a salinha, onde esto todos de bobeira, vendo TV.
- Ser que algum pode me dar uma carona at o ponto de nibus? - pergunto, esperando que Darcy, Hillary ou Marcus se ofeream.
Mas  Dex quem reage primeiro.
- Eu levo voc - diz. - Quero mesmo comprar umas coisas.
Me despeo de todos. Marcus aperta meu ombro e diz que vai me telefonar na semana seguinte.
Ento Dex e eu vamos embora. Sozinhos por seis quilmetros.
- Voc teve um bom fim de semana? - pergunta ele, enquanto damos a r pela sada de carros. No sobrou nenhum vestgio daquele tom de brincadeira que surgiu logo 
aps o Incidente. E ele, como Darcy, parou de perguntar sobre Marcus, talvez porque tenha ficado bastante eviente que nos tornamos uma espcie de casal.
- , foi legal - respondo. - E voc?
- Claro - diz ele. - Foi muito legal.
Depois de um pequeno silncio, conversamos sobre trabalho e amigos do curso de Direito, coisas a respeito das quais conversvamos antes do Incidente. A situao 
parece ter voltado ao normal novamente, na medida do possvel depois de um erro como o nosso.
Chegamos ao ponto do nibus antes da hora. Dex estaciona, vira-se no banco e me observa com seus olhos verdes, de uma maneira que me faz desviar o olhar. Ele pergunta 
o que vou fazer na tera  noite.
Acho que sei o que ele est perguntando, mas no estou certa, ento apenas balbucio.
- Vou trabalhar. O de sempre. Tenho uma audincia na sexta e ainda nem comecei a me preparar. A nica coisa que tenho no meu rascunho  "Voc pode soletrar seu ltimo 
nome para o estengrafo?" e "Voc est tomando alguma medicao que possa comprometer sua capacidade de responder perguntas nesta audincia?".
Rio nervosamente.
O rosto dele permanece srio. Ele obviamente no tem o menor interesse na minha audincia.
- Olha, eu quero me encontrar com voc, Rachel. Vou passar na sua casa s oito. Na tera.
E o modo como ele diz isso - afirmando, mais do que perguntando - me faz sentir uma dor de estmago. No  exatamente a dor de estmago que tenho antes de um encontro 
s cegas. No  o nervosismo antes de uma prova final. No  aquela sensao de quem "vai se dar mal por alguma coisa que fez". E no  a sensao de tontura que 
acompanha uma paixo por um cara quando ele apenas cumprimenta voc com um sorriso ou um ol casual.  alguma coisa a mais.  uma dor conhecida, mas no consigo 
decifr-la com preciso.
Meu sorriso se desfaz para combinar com a cara sria dele. Gostaria de poder dizer que o pedido dele me surpreendeu, me pegou desprevenida, mas acho que parte de 
mim j achava que isso fosse acontecer, ou at mesmo esperava que fosse acontecer, quando Dex se ofereceu para me levar. No pergunto por que ele quer me ver, ou 
sobre o que quer conversar. No digo que tenho de trabalhar ou que no  uma boa idia. Simplesmente balano a cabea afirmativamente.
- Tudo bem.
Digo a mim mesma que a nica razo pela qual concordo em me encontrar com ele  que precisamos esclarecer de vez o que aconteceu entre a gente. Portanto, no estou 
fazendo nada de errado com Darcy. Estou apenas tentando consertar o estrago que j foi feito. E digo a mim mesma que se de fato quero ver Dex  apenas porque tenho 
saudade do meu amigo. Penso no meu aniversrio, os momentos no 7B antes de termos ficado juntos, lembrando o quanto apreciei ficar sozinha com ele, como gostei de 
Dex longe das exigncias de Darcy. Sinto falta da amizade dele. Quero apenas conversar com ele. Isso  tudo.
O nibus chega e as pessoas comeam a fazer fila para entrar. Deslizo para fora do carro, no trocamos mais nenhuma palavra.
Enquanto me instalo num assento perto da janela, atrs de uma loura empertigada que fala alto demais no celular, percebo, de repente, o que h com o meu estmago. 
Foi assim que me senti depois do sexo com Nate naqueles ltimos dias antes de ele me trocar por uma violonista que gostava de abraar rvores.  uma mistura de emoo 
genuna por uma outra pessoa e de medo. Medo de perder alguma coisa. Neste momento sei que, permitindo que Dex venha  minha casa, estou arriscando alguma coisa. 
Arriscando amizade, arriscando meu corao.
A menina continua falando, usando em excesso as palavras "incrvel" e "impressionante" para descrever o seu fim de semana dramaticamente abreviado. Ela relata que 
est com uma "enxaqueca perversa" por ter "cado na farra" numa "festa fabulosa". Tenho vontade de dizer a ela que se diminuir um pouquinho o volume da voz pode 
ser que a dor de cabea melhore. Fecho os olhos e espero que a bateria do celular dela esteja acabando. Mas sei que mesmo que ela pare sua conversinha esganiada, 
no h a menor chance de eu conseguir dormir com essa sensao crescendo dentro de mim.  bom e ruim ao mesmo tempo, como beber caf
demais no Starbucks.  ao mesmo tempo estimulante e assustador, como esperar que uma onda quebre na sua cabea.
Alguma coisa est prestes a acontecer e no estou fazendo nada para evitar que acontea.

 tera  noite, vinte minutos para as oito. Estou em casa. Dex no me ligou durante todo o dia, ento imagino que nosso encontro esteja de p. Uso fio dental e 
escovo os dentes. Acendo uma vela na cozinha para o caso de ainda restar algum cheiro da comida tailandesa que pedi ontem  noite no meu jantar solitrio de feriado. 
Troco minha roupa, visto uma lingerie preta de renda - apesar de saber, saber e saber que nada vai acontecer -, uma cala jeans e uma camiseta. Passo um pouco de 
blush e de brilho nos lbios. Estou com um ar casual e confortvel, o oposto do que sinto.
Exatamente s oito, Eddie, que est no lugar de Jos, me chama pelo interfone.
- Voc tem visita - ele grita.
- Obrigada, Eddie, pode deixar subir.
Segundos depois, Dex aparece no meu hall de entrada, de terno risca e giz, camisa azul e gravata vermelha.
- Seu porteiro veio com um sorriso sarcstico para cima de mim diz enquanto entra em meu apartamento e olha em volta hesitante, como se fosse a primeira vez que 
me visitasse.
- Impossvel - digo. - Isso est na sua cabea.
- No est na minha cabea. Conheo um sorriso sarcstico quando vejo um.
- Aquele no  Jos. Porteiro errado. Quem est trabalhando hoje  noite  Eddie. Voc est com a conscincia pesada.
- J disse a voc. No me sinto assim to culpado sobre o que a gente fez - ele olha fixo nos meus olhos.
Sinto que estou sendo sugada por seu olhar, fraquejando na minha deciso de ser uma boa pessoa, uma boa amiga. Desvio nervosa, pergunto se ele quer alguma coisa 
para beber. Ele diz que um copo d'gua seria timo. Sem gelo. Estou sem gua mineral em casa, ento abro a torneira e deixo a gua sair bastante at que esteja fria. 
Encho um copo para cada um de ns e sento com ele no sof.
Ele d vrios goles grandes e depois deixa o copo sobre a mesa de centro, num porta-copo. Dou uns goles na minha gua. Sinto que ele est olhando para mim, mas no 
olho de volta. Fico olhando para frente, na direo da minha cama - o cenrio do Incidente. Preciso de um apartamento que tenha um quarto separado, ou pelo menos 
uma divisria para separar minha alcova do resto.
- Rachel- diz ele -, olha pra mim.
Olho para ele e depois para a mesa de centro.
Ele pe a mo no meu queixo e vira meu rosto em direo ao dele.
Sinto que fIquei vermelha, mas no me desvencilho dele.
- O qu? - Deixo escapar uma risada nervosa. Ele no muda a expresso.
- Rachel.
- O qu?
- Temos um problema. 
-  mesmo?
- Um problema enorme.
Ele se inclina, o brao esquerdo apoiado no encosto do sof. Dex me beija delicadamente e depois com mais urgncia. Sinto gosto de canela. Penso nas balas de canela 
que estiveram com ele durante todo o fim de semana. Retribuo o beijo.
E se eu pensava que Marcus beijava bem, ou Nate antes dele, ou qualquer outra pessoa de modo geral, pensei errado. Em comparao, qualquer um dos outros foi apenas 
competente. Este beijo do Dex faz a sala girar. E desta vez no por causa dos efeitos do lcooL Este beijo  como aquele dos livros e flimes. Aquele que eu no tinha 
certeza de existir na vida reaL Nunca me senti desse jeito antes. Estrelas e tudo o mais. Exatamente como Bobby Brady e Millicent.
Ns nos beijamos por um longo tempo. Sem nos separarmos nem uma vez. Nem mesmo para trocar de posio no meu sof, apesar de estarmos a uma distncia no muito natural 
para um beijo to intenso. No posso falar por ele, mas sei por que no me mexo. No quero que este beijo acabe nunca, no quero que chegue o prximo momento incmodo, 
quando nos perguntaremos o que estamos fazendo. No quero
falar de Darcy, nem mesmo ouvir o nome dela. Ela no tem nada a ver com este momento. Nada. Este beijo se sustenta sozinho. Est deslocado do tempo e da circunstncia 
ou do casamento deles em setembro.  isso o que tento dizer para mim mesma. Quando Dex finalmente se desvencilha de mim  apenas para se aproximar ainda mais, me 
envolver em seus braos e sussurrar no meu ouvido:
- No consigo parar de pensar em voc.
Eu tambm no.
Mas posso controlar o que estou fazendo. H a emoo e ento o que voc faz com ela. Eu me afasto, mas nem tanto, e balano a cabea.
- O que foi? - pergunta ele gentil, os braos me envolvendo parcialmente.
- No deveramos estar fazendo isso - digo. Trata-se de um protesto insignificante, mas pelo menos  alguma coisa.
Darcy pode ser irritante, controladora e enervante, mas  minha amiga. Sou uma boa amiga. Uma boa pessoa. No estou sendo eu mesma. Tenho de parar. No vou me reconhecer 
se no parar.
Ainda assim, no me afasto. Em vez disso, espero at ser convencida do contrrio, at que ele consiga me persuadir. E, como era de se esperar:
- Sim, ns deveramos - diz ele. As palavras de Dex esto cheias de certeza. Nada de suposies, dvidas e preocupaes. Ele segura meu rosto em suas mos e olha 
fixo nos meus olhos. -  isso que ns temos de fazer.
No h nenhum tom de esperteza em suas palavras, apenas sinceridade. Ele  meu amigo, o amigo que conheci e com quem me importava antes de Darcy t-lo sequer conhecido. 
Por que no reconheci meus sentimentos antes? Por que coloquei os interesses de Darcy acima dos meus? Dex se aproxima e me beija outra vez, suavemente, mas com uma 
sensao de absoluta certeza.
Mas est errado, protesto silenciosamente, sabendo que  tarde demais, que j me rendi. Acabamos de atravessar uma fronteira. Porque apesar de j termos dormido 
juntos, isso realmente no conta. Estvamos bbados, inconseqentes. Nada havia realmente acontecido at este beijo de hoje. Nada que no pudesse ser empurrado para 
dentro de um armrio, confundido com um sonho, at mesmo completamente esquecido. 
Agora tudo isso mudou. Para o bem ou para o mal.
OITO

O chuveiro  o lugar onde sempre consigo organizar melhor minhas idias. A noite  hora de preocupaes, reflexes e anlises. Mas de manh, debaixo da gua quente, 
vejo as coisas com clareza. Ento, enquanto lavo o cabelo, sentindo o cheiro de grapefruit do meu xampu, reduzo tudo a uma verdade essencial: o que Dex e eu estamos 
fazendo  errado.
Ns nos beijamos por um longo tempo ontem  noite e depois ele me segurou por ainda mais tempo, poucas palavras ditas entre ns. Meu corao bateu forte contra o 
dele quando disse para mim mesma que ao evitarmos que a coisa evolusse tnhamos emplacado uma espcie de vitria. Mas nesta manh, acho que ainda assim foi errado. 
Simplesmente errado. Tenho de parar. Vou parar. A partir de agora.
Quando era pequena, costumava contar mentalmente at trs quando queria me proporcionar um novo comeo. Se eu estivesse roendo as unhas, arrancava os dedos da boca 
e contava. Um. Dois. Trs. J. Ento eu zerava minha ficha. Daquele momento em diante no era mais uma pessoa que roa as unhas. Usava essa ttica com muitos dos 
meus maus hbitos. Ento, depois de contar at trs, vou me livrar do hbito Dex. Vou ser uma boa amiga novamente. Vou apagar tudo, consertar tudo.
Conto lentamente at trs e uso a tcnica de visualizao que Brandon me disse que usava durante a temporada de beiseboL Ele me explicou que imaginava o taco batendo 
na bola, ouvia o estalo e via a poeira subir enquanto deslizava em segurana para a base. Ele se concentrava apenas nas boas jogadas, e no nas vezes em que se dava 
mal. 
Ento  isso o que fao. Me concentro na minha amizade com Darcy, mais do que nos meus sentimentos por Dex. Imagino um filme na minha cabea, com cenas de Darcy 
ao meu lado. Vejo ns duas instaladas na cama dela num dia em que dormi em sua casa, quando ainda estvamos no primrio. Discutimos o futuro, quantos filhos vamos 
ter e como se chamaro. Vejo Darcy aos dez anos, apoiada nos cotovelos, os dedos mindinhos na boca, explicando que se voc tem trs filhos, o do meio deve ter sexo 
diferente dos outros, de forma que cada um deles tenha alguma coisa especial. Como se fosse possvel controlar essas coisas.
Vejo ns duas nos halls da escola em Naperville, trocando bilhetes entre as aulas. Seus bilhetes, dobrados das formas mais intrincadas, como origamis, eram muito 
mais divertidos dos que os de Annalise, que apenas relatavam o quanto ela estava entediada em sala. Os de Darcy eram repletos de observaes interessantes sobre 
os colegas de sala e comentrios mordazes a respeito dos professores. Tinham tambm pequenos jogos para que eu me divertisse. Ela escrevia citaes do lado esquerdo 
da pgina e os nomes das pessoas do lado direito para que eu correlacionasse as duas colunas. Eu morria de rir enquanto traava uma linha de, por exemplo, "Belos 
faris, meu chapa" at o nome do pai de Annalise, que fazia esse comentrio sempre que um motorista esquecia o farol alto ligado. Ela era engraada. s vezes dura, 
at mesmo completamente m. Mas isso s a tornava mais engraada.
Enxguo meu cabelo e lembro de mais uma coisa, uma lembrana que ainda no tinha vindo  tona.  como encontrar uma foto sua que voc no sabia que havia sido tirada. 
Darcy e eu estvamos no primeiro ano do segundo grau, de p, ao lado dos nossos armrios, depois da aula. Becky Zurich, uma das garotas mais populares do ltimo 
ano (no daquele tipo popular legal, mas da espcie m e temida) passou por ns ao lado do seu namorado, Paul Kinser. Com seu quase inexistente queixo e lbios para 
l de finos, ela realmente no tinha nada de bonita, embora naquela poca tenha de alguma forma convencido muitas pessoas, inclusive eu, de que era. Ento, quando 
Paul e Becky passaram por ns, olhei para eles, porque eram pessoas populares do ltimo ano e eu ficava impressionada, ou no mnimo curiosa. Tenho certeza de que 
queria ouvir o que eles estavam falando de forma que pudesse ter uma idia do que significava ter 18 anos (to mais velha!) e ser legal. Acho que foi apenas um olhar 
casual na direo deles, mas talvez eu os tenha encarado.
De qualquer maneira, Becky me retomou um olhar exagerado, fazendo os olhos ficarem esbugalhados, como nos desenhos animados. A esse olhar ela acrescentou uma risada 
tipo hiena, e, com os lbios retorcidos, disse:
- O que voc est olhando?
Paul contribuiu:
- Por acaso voc est caando moscas?
(Tenho certeza de que namorar Becky fez Paul se tornar mais perverso, ou talvez ele tenha apenas chegado  concluso de que ser perverso movimentava mais a vida 
dele.)
Como era de se esperar, meu queixo caiu. Mortificada, tratei de fechar a boca de uma vez. Becky riu, orgulhosa de ter intimidado uma garota do primeiro ano. Ento, 
retocou seu batom rosa cintilante, colocou um outro pedao de chiclete de canela em sua boquinha perversa e me fez ainda mais uma careta, s para garantir.
Darcy estava mexendo em alguns livros no nosso armrio, mas obviamente captou o significado da interao. Virou-se e lanou um olhar de repulsa para a dupla, um 
olhar que ela j havia treinado e aperfeioado. Ento imitou a risada esganiada de Becky, esticando exageradamente o pescoo para trs e pondo os lbios para dentro 
at torn-los invisveis. Ela ficou pavorosa - e parecida com Becky em meio quela gargalhada.
Segurei o riso enquanto Becky pareceu momentaneamente desorientada. Ento ela se recomps, deu um passo  frente em direo  Darcy e cuspiu nela a palavra "piranha".
Darcy ficou impassvel enquanto olhou de volta para a dupla de veteranos e disse:
-  melhor do que ser uma piranha feia. Voc no concorda, Paul?
Foi a vez de Becky encarar com a boca escancarada sua adversria recm-descoberta. E antes que ela pudesse formular qualquer contra-ataque, Darcy disparou mais um 
insulto, s para garantir:
- E, a propsito, Becky, este batom que voc est usando?  to ano passado ...
De repente, todos os detalhes daquele momento entram em foco. Posso ver nosso armrio enfeitado com fotografias de Patrick Swayze em Dirty Dancing - Ritmo quente. 
Posso sentir aquele cheiro caracterstico de carne cozida que vem do refeitrio prximo dali. E posso ouvir a voz de Darcy, enrgica e confiante.  claro, Paul ficou 
sem resposta para a pergunta dela, j que estava claro para ns quatro que Darcy tinha razo - ela era a mais bonita das duas. E isso, na escola, s vezes d a voc 
a ltima palavra, mesmo que voc seja do primeiro ano. Becky e Paul se mandaram e Darcy simplesmente ficou conversando comigo sobre qualquer coisa, como se Becky 
e Paul fossem totalmente insignificantes. O que eles realmente eram. S que no  fcil se dar conta disso quando se tem 14 anos.
Desligo o chuveiro, enrolo meu corpo numa toalha e pego outra para a cabea. Vou telefonar a Dex assim que chegar ao trabalho. Vou dizer a ele que isso tem de parar. 
Desta vez  para valer. Ele est se casando com Darcy e eu sou a madrinha. Ns dois a amamos. Sim, ela tem defeitos. Ela pode ser mimada, egocntrica e mandona, 
mas tambm  leal, bondosa e muito divertida. E ela  para mim o que mais se aproxima de uma irm.
Durante o trajeto para o escritrio treino o que dizer a Dex, chegando at mesmo a falar em voz alta no metr. Quando chego ao trabalho, j tenho minha fala to 
decorada que nem soa mais como uma coisa roteirizada. Inseri as pausas apropriadas na minha declarao de Disposies e Futuras Intenes. Estou pronta.
Exatamente quando estou prestes a fazer a ligao, noto que tenho um e-mail do Dex. Abro, esperando que ele tenha chegado  mesma concluso. O ttulo da mensagem 
 "Voc".

Voc  uma pessoa incrvel e eu no sei de onde vm os sentimentos que
desperta em mim. O que sei  que estou completa e totalmente na sua e
quero que o tempo congele para eu poder estar sempre ao seu lado e no ter
de pensar em mais nada. Gosto literalmente de tudo a seu respeito, inclusive
a forma como o seu rosto revela tudo o que voc est pensando e especialmente
o modo como fica quando estamos juntos e seus cabelos esto para
trs, seus olhos fechados e seus lbios entreabertos. Certo, isso era tudo o
que eu queria dizer. Apague isto.

Estou sem ar, tonta. Ningum jamais escreveu palavras como essas para mim. Leio mais uma vez, absorvendo cada uma delas. Tambm gosto literalmente de tudo a seu 
respeito, penso.
E, assim, minha resoluo vai por gua abaixo. Como posso acabar uma coisa que nunca experimentei antes? Uma coisa pela qual tenho esperado por toda a minha vida? 
Ningum antes de Dex jamais tinha feito eu me sentir assim. E se eu nunca mais encontrar isso? E se isso for o fim?
Meu telefone toca. Atendo pensando que pode ser Dex e torcendo para que no seja Darcy. No posso falar com ela agora. No posso pensar nela agora. Estou entorpecida 
pela minha carta de amor eletrnica.
- Saudaes, baby.
 Ethan, telefonando da Inglaterra, onde mora h dois anos. Estou to feliz em ouvir a voz dele. Ele tem uma voz sorridente, sempre soando como se estivesse prestes 
a rir. Na maioria das coisas, Ethan ainda  como aquele menino da 5a srie. Ainda  cheio de compaixo, ainda tem bochechas de querubim que ficam vermelhas no frio. 
Mas a voz mudou. Surgiu no segundo grau, com a puberdade, tempos depois de a amizade ter tomado o lugar da minha paixo colegial.
- Oi, Ethan!
- O que diz o regulamento sobre desejar a algum feliz aniversrio atrasado? - pergunta ele. Desde que comecei o curso de Direito, ele adora ficar disparando termos 
legais para cima de mim, freqentemente deturpando o significado. "Dolo de morango"  o seu favorito.
Rio.
- No se preocupe, foi apenas o meu trigsimo.
- Voc me odeia? Voc deveria ter me telefonado e me lembrado. Depois de 18 anos sem esquecer, estou me sentindo um completo imbecil. Merda. Minha cabea est falhando 
e ainda nem fiz trinta anos, sem querer Jogar isso na sua cara.
- Voc tambm esqueceu o meu aniversrio de 27 anos - interrompo.
- Esqueci?
- Esqueceu.
- Acho que no.
- Esqueceu, voc estava com Bran ...
- Pare. No diga esse nome. Voc est certa. Esqueci o de 27 anos. Isso faz esta infrao parecer menos egrgia, certo? No quebrei um padro... E ento? Como  
que esto as coisas? - Ethan assobia. - No consigo acreditar que voc esteja com trinta anos. Voc ainda deveria ter 14. Est se sentindo mais velha? Mais inteligente?Mais 
experiente? O que voc fez na grande noite? - Ele dispara suas perguntas de um jeito frentico como se tivesse transtorno do dficit de ateno.
-  a mesma coisa. Eu continuo a mesma - minto. - Nada mudou.
-  mesmo? - pergunta.  a cara dele insistir na pergunta. Como se soubesse que estou escondendo alguma coisa.
Fao uma pausa, minha mente est a mil por hora. Conto a ele? No conto? O que ele vai pensar de mim? O que ele vai dizer? Ethan e eu nos tornamos bem prximos no 
segundo grau, embora nosso contato seja espordico. Mas sempre que conversamos, retomamos de onde paramos. Ele daria um bom confidente nesta saga principiante. Ethan 
conhece todos os principais jogadores. E o mais importante: ele entende de chutar o balde.
As coisas comearam bem para ele. Teve um bom resultado nas provas de admisso das universidades, formou-se em segundo lugar na nossa turma e foi eleito o que tinha 
mais chance de ser bem-sucedido, concorrendo com Amy Choi, nossa colega que tirou primeiro lugar e era muito quieta e tmida para receber votos para o que quer que 
fosse. Ele foi para Stanford e depois de se formar conseguiu um trabalho num banco de investimentos, apesar de a nfase de seus estudos ter sido histria da arte 
e de ele no ter interesse por finanas. Ethan instantaneamente passou a desprezar toda a cultura dos bancos. Disse que virar a noite trabalhando no era natural 
e se deu conta de que preferia sono a dinheiro. Ento trocou o terno por uma jaqueta confortvel e passou os anos seguintes subindo e descendo a Costa Oeste, tirando 
fotos de lagos, rvores, fazendo amigos pelo caminho. Teve aulas de criao literria, arte e fotografia, financiadas pelos empregos temporrios em bares e pelos 
veres que passava trabalhando com pesca no Alaska.
Foi l que ele conheceu Brandi - "Brandi com i", como eu a chamava antes de perceber que ele realmente gostava dela e que ela no era apenas uma aventura passageira. 
Eles j namoravam h alguns meses quando Brandi ficou grvida (insistindo que fazia parte dos 0,05% de mulheres terrivelmente sem sorte que usam a plula como mtodo 
anticoncepcional, embora eu tivesse minhas dvidas). Ela disse que um aborto estava fora de cogitao, ento Ethan fez o que achava ser a coisa certa e se casou 
com ela no centro de Seattle, na prefeitura. Ethan e Brandi enviaram convites de casamento artesanais e incluram uma foto em preto e branco dos dois numa caminhada. 
Darcy debochou do curtssirno e apertadssimo short jeans de Brandi.
- Quem diabos faz caminhadas com shorts  moda Daisy Dukes? perguntou ela. Mas Ethan parecia bem feliz.
E, naquele vero, Brandi deu  luz um menininho ... um adorvel e robusto beb esquim, com olhos que logo se tomaram escuros como carvo. Brandi, de olhos azuis 
como Ethan, implorou por perdo. Ethan anulou o casamento na hora e Brandi voltou a morar no Alaska. Provavelmente para localizar seu amante nativo.
Acho que Brandi desanimou Ethan dessa coisa de pr o p na estrada e viver ao ar livre. Ou talvez ele tenha apenas desejado alguma coisa nova. Porque ele se mudou 
para Londres, onde escreve para uma revista e trabalha num livro sobre a arquitetura londrina. Um interesse que ele no havia adquirido at botar os ps em solo 
britnico. Mas  assim que Ethan . Ele vai decidindo as coisas pelo caminho, sempre pronto a recuar e comear de novo, nunca se rendendo a presses ou expectativas. 
Gostaria de poder ser mais como ele.
- Ento? O que voc fez no seu aniversrio? - pergunta Ethan.
Fecho a porta do escritrio e desabafo.
- Darcy fez uma festa-surpresa para mim, bebi demais e acabei ficando com Dex.
Acho que  isso o que acontece quando voc no est acostumado a ter segredos. Voc no tem experincia na arte de no contar. De fato, estou surpresa de ver o quanto 
demorei. D esttica na linha enquanto as notcias atravessam o Atlntico. Entro em pnico e desejo poder sugar as informaes de volta.
- Ah, vai se foder. Voc est brincando comigo, certo?
Meu silncio diz a ele que estou falando srio.
- Ohhh, merda.
A voz dele ainda est sorrindo.
- O qu? O que voc est pensando? - Preciso saber se ele est fazendo julgamentos. Preciso saber o que ele pensa de mim, se ele est do lado da Terninho Chanel.
- Espera a. O que voc quer dizer com ficou com o Dex? Voc no dormiu com ele, dormiu?
- Hum. Sim. Na verdade dormi.
Estou aliviada de ouvir sua risada, apesar de dizer a ele que no tem graa, que este  um assunto srio.
- Oh, pode acreditar em mim. Isto  engraado.
Consigo imaginar a covinha na bochecha esquerda dele.
- E o que exatamente  to divertido assim?
- A senhorita toda metida a boazinha traou o noivo da amiga. Isso  comdia pura, da melhor qualidade.
- Ethan!
Ele pra de rir tempo suficiente para perguntar se eu poderia estar grvida.
- No, ns tomamos cuidado.
- Ento no houve nenhum dano, certo? Foi um erro. Merdas acontecem. As pessoas cometem erros, especialmente quando esto bbadas. Veja s o meu exemplo com a Brandi 
com i.
- Acho que sim. Mas ainda assim ...
Ethan assobia e ento diz o bvio: que Darcy iria enlouquecer se algum dia descobrisse.
Minha outra linha est tocando.
- Voc precisa atender? - pergunta Ethan.
- No, vou deixar entrar na secretria eletrnica.
- Tem certeza? Pode ser o seu novo namorado.
- Voc acha que me ajuda desse jeito? - digo, apesar de estar aliviada que ele no esteja sendo moralista e srio. Esse no  o estilo de Ethan, mas nunca se sabe 
quando algum vai apelar para padres morais. E definitivamente aqui h padres morais em questo por toda a parte, ainda mais considerando que Darcy  amiga dele 
tambm. No to prxima quanto ns dois, mas eles ainda se falam de vez em quando.
- Desculpe, desculpe - diz ele, prendendo o riso. - Est bem, s mais uma perguntinha. 
- O qu?
- Foi bom?
- Ethan! Eu no sei. Ns estvamos bbados!
- Ento foi tudo de qualquer jeito?
- Ah, Ethan - protesto, como se no estivesse pensando nos detalhes. Enquanto isso, flashes do Incidente vm  minha cabea, meus dedos apertados contra as costas 
de Dex.  uma imagem perfeita, desenhada com aergrafo. No h nada "de qualquer jeito" nela.
- E a? Voc falou com ele depois?
Conto sobre o fim de semana nos Hamptons e sobre Marcus.
- Bela jogada. Investindo no amigo dele. Deste jeito, se voc casar com Marcus, vocs podem fazer um suingue.
Eu o ignoro e continuo com o resto da histria: a carona at o nibus, a noite passada, um resumo do e-mail.
- Hum, merda. Ento ... voc tambm sente alguma coisa por ele?
- Eu no sei - respondo, apesar de saber que a resposta  sim.
- Mas o casamento est de p?
- Est - confirmo. - Que eu saiba.
- Que voc saiba?
- Sim. Est de p.
Silncio. Ele no est mais rindo, ento minha culpa volta com toda a fora.
- O que voc est pensando agora?
- S estava pensando no rumo que voc quer que essa histria tome - diz ele. - O que voc quer disto?  uma aventura ou voc quer que ele cancele o casamento?
Eu me encolho toda ao ouvir a palavra "aventura". No se trata disso de maneira nenhuma, mas, ao mesmo tempo, no sei se quero que Dex cancele o casamento. No posso 
me imaginar fazendo isso com Darcy. Digo a Ethan que no sei, no estou certa.
- Hum ... Bem, ele chegou a mencionar o casamento?
- No, realmente no.
- Hum.
- O qu? O que esse "hum" significa.
- Significa que eu acho que ele deveria cancelar essa merda.
- Por minha causa? - Meu estmago di s de imaginar que eu possa ser responsvel pelo cancelamento do casamento de Darcy. - Talvez seja apenas falta de coragem.
Ouo minha voz se elevando esperanosa diante da sugesto de uma mera falta de coragem. Por que um lado meu quer que isso seja to simples? E como posso ficar to 
emocionada ao estar ao lado de Dex, to profundamente comovida pelo e-mail dele e ainda assim querer, de certa maneira, que ele se case com Darcy?
- Rach...
- Ethan, sei o que voc vai dizer.
No sei exatamente o que ele vai dizer, mas pelo tom dele tenho um palpite de que tem a ver com como as coisas vo terminar se eu no parar e desistir. Que de algum 
modo a histria vai explodir. Que algum - provavelmente eu - vai se machucar. Mas no quero ouvi-lo dizer nada disso.
- Certo. Apenas tenha cuidado. No deixe ningum pegar voc. Que merda.
Percebo que ele est rindo novamente.
- O que foi?
- S estou pensando em Darcy ... de certa forma  gratificante.
- Gratificante como?
- Ah, por favor. No vai me dizer que um lado seu no gosta de dar uma sacaneada nela. H uma certa justia potica aqui. H anos Darcy tem pisado em voc.
- Do que voc est falando? - pergunto, genuinamente surpresa de ouvi-lo descrever nossa amizade dessa maneira. Sei que venho me sentindo mais irritada com ela ultimamente 
e sei que ela nunca foi das amigas mais generosas, mas nunca pensei nela como algum que pisasse em mim. - No  verdade.
-  sim.
- No, no  - digo com mais firmeza. No estou bem certa de quem estou defendendo: a mim mesma ou a Darcy. Sim, havia voc, Ethan. Mas voc no sabe nada disso.
- Ah, por favor. Lembra de Notre Dame? As provas de admisso?
Lembro-me do dia em que recebemos da direo nossos resultados, em envelopes brancos lacrados. Estvamos todos de boca fechada, mas loucos para saber os resultados 
uns dos outros. Finalmente, na hora do almoo, Darcy disse:
- Est bem, quem se importa com isso? Vamos apenas dizer quanto tiramos e pronto. Rachel?
- Por que tenho de ser a primeira? - perguntei. Estava satisfeita com meu resultado, mas ainda assim no queria ser a primeira.
- No seja criana - disse Darcy -, simplesmente diga pra gente.
- Est bem: 1.300 - respondi.
- Quanto voc tirou na parte verbal? - perguntou ela.
Disse a ela: 680.
- timo - avaliou. - Parabns.
Ethan foi o prximo: 1.410.Nenhuma surpresa. No me lembro quanto Annalise tirou ... pouco mais de 1.100.
- E ento? - perguntei a Darcy.
- Oh. Est bem. Tirei 1.305.
Soube na hora que ela no tinha tirado 1.305. As notas eram sempre mltiplos de dez, no de cinco. Ethan tambm sabia, porque me chutou por baixo da mesa e escondeu 
um sorriso com seu sanduche de presunto.
No me importei com a mentira em si. Darcy era clebre por florear as coisas. Mas o fato de ela ter mentido sobre o resultado para ganhar de mim por cinco pontos 
... essa parte realmente foi demais. Mas no tiramos satisfaes. No fazia sentido.
Mas a ela disse:
- Bem, ento talvez ns duas entremos para Notre Dame.
Era a repetio da jogada que ela havia feito na 5a srie para conquistar Ethan.
Como vrias pessoas do Meio-Oeste, eu sonhava em entrar para a Notre Dame. No somos irlandeses, nem mesmo catlicos, mas eu quis ir para l desde que os meus pais 
me levaram para assistir a um jogo de futebol da Notre Dame quando eu tinha oito anos. Para mim era o modelo ideal de faculdade - construes imponentes em pedra, 
gramados impecveis, muita tradio. Queria fazer parte disso. Darcy nunca demonstrou o menor interesse por Notre Dame e me irritava que ela estivesse violando os 
limites do meu territrio. Mas no me preocupava com a possibilidade de ela pegar o meu lugar. Minhas notas eram mais altas. Alm disso, mais de um aluno na nossa 
escola entrava para a Notre Dame todos os anos.
Naquela primavera as cartas de aceitao e recusa comearam a pingar aos poucos. Eu verificava a caixa do correio todos os dias, numa agonia danada. Mike O'Sullivan, 
que tinha trs geraes de ex-alunos em sua famlia e era o representante da nossa turma, foi o primeiro a entrar. Imaginei que seria a prxima, mas Darcy recebeu 
sua carta antes de mim. Eu estava com ela quando a correspondncia chegou, embora ela no tenha aberto o envelope na minha frente. Fui para casa esperando, muito 
culpada, que ela tivesse recebido ms notcias.
Uma hora depois ela me telefonou em xtase.
- No acredito! Consegui entrar! D para acreditar?
Em resumo, no. No dava para acreditar. Ainda consegui dizer parabns, mas estava arrasada. As notcias podiam significar duas coisas: que ela tinha tirado o meu 
lugar ou que ns duas iramos para Notre Dame e ela continuaria roubando a cena por mais quatro anos. Por mais que eu soubesse que sentiria saudade de Darcy quando 
fosse embora, tive uma sensao muito forte de que precisava me estabelecer longe dela. Se ela estivesse junto, minha imagem nunca ficaria ntida de verdade.
Contudo, eu queria ser aceita na universidade mais do que qualquer coisa. E o meu orgulho estava em jogo. Esperei, rezei e at pensei em telefonar para o escritrio 
de admisses para implorar. Aps uma semana doentia, minha carta chegou. Era exatamente como a de Darcy. Corri para dentro, o corao na boca enquanto abria o envelope 
e desdobrava o papel que guardava meu destino. Quase ... voc  altamente qualificada... mas nada feito.
Fiquei muito mal e no dia seguinte nem consegui falar direito com as minhas amigas na escola, especialmente Darcy. Na hora do almoo, enquanto tentava segurar as 
lgrimas, ela me disse que de qualquer maneira estava indo para Indiana. Que ela no queria saber de estudar numa instituio que me recusasse. Sua caridade me incomodou 
mais ainda. Pela primeira vez Annalise se manifestou:
- Voc tirou o lugar de Rachel e nem ao menos quer ir para l?
- Bem, era a minha primeira opo. Mudei de idia. E como podia imaginar que aconteceria dessa forma? - disse ela. - Pensei que ela fosse entrar. Ganhei dela por 
apenas alguns pontos.
Para Ethan ela j tinha ido longe demais.
- Voc no tirou porcaria nenhuma de 1.305, Darcy. As notas so todas mltiplos de dez.
- Quem disse que eu tirei 1.305?
- Voc - Ethan e eu falamos juntos.
- No, no disse. Eu disse 1.310.
- Oh, meu Deus! - disse, olhando para Annalise em busca de apoio, mas a coragem dela tinha se esgotado. Alegou que no se lembrava do que Darcy havia dito.
Ficamos discutindo durante o resto do recreio sobre o que Darcy tinha dito e por que ela tinha se candidatado a uma vaga na Notre Dame se no queria ir para l. 
Ns duas acabamos chorando e Darcy saiu da escola mais cedo alegando  enfermeira que estava com clica. A coisa toda se acalmou quando entrei para a Duke e me convenci 
a ficar satisfeita com aquele resultado. A Duke tinha um jeito e um clima parecidos com os da Notre Dame - construes em pedra, um campus impecvel, prestgio. 
Era to boa quanto a Notre Dame e talvez fosse melhor expandir meus horizontes e sair de Indiana.
S que at hoje fico pensando por que Notre Dame escolheu Darcy em vez de mim. Talvez um subalterno qualquer deles tenha gostado da foto dela. Talvez tenha sido 
apenas a tpica sorte de Darcy.
De qualquer forma, estou satisfeita que Ethan tenha refrescado minha memria sobre Notre Dame. Assim, o episdio da confrontao com Becky Zurich deixa de ser a 
lembrana mais forte na minha mente. Sim, Darcy podia ser uma boa amiga - normalmente ela era -, mas tambm me sacaneou em alguns momentos cruciais da minha vida: 
primeiro amor, faculdade dos sonhos. Isso no era coisa sem importncia.
- Est bem - digo a Ethan. - Mas acho que voc est exagerando um pouco. Eu no usaria o termo "pisar".
- Certo, mas voc sabe o que quero dizer. H uma competio velada.
- Acho que sim, talvez - digo, pensando que no se trata exatamente de uma competio quando um dos lados perde sistematicamente.
- Ento, enfim, mantenha-me informado. Este assunto  quente.
Digo a ele que sim.
- Mais uma coisa - pede. - Quando voc vem me visitar?
- Logo, logo.
- Isso  o que voc sempre diz.
- Eu sei, mas voc sabe como . O trabalho est sempre uma loucura... logo, logo eu vou. Este ano, com certeza.
- Menos mal- diz Ethan. - Realmente estou com saudade de voc.
- Eu tambm.
- Alm do mais - diz ele -, pode ser que voc precise de umas frias quando tudo isso terminar.
Depois que desligamos, percebo satisfeita que Ethan no me disse nem uma vez para parar. Ele apenas falou para eu tomar cuidado. E vou fazer isso. Da prxima vez 
que me encontrar com Dexter, vou tomar cuidado.

NOVE

Passo trs dias evitando Darcy, uma coisa muito difcil de fazer. Nunca ficamos tanto tempo sem nos falar. Quando ela finalmente me encontra, atribuo minha ausncia 
ao trabalho, digo que tenho estado inacreditavelmente ocupada - o que  verdade -, embora tenha encontrado tempo mais do que suficiente para ficar sonhando acordada 
com Dex, para telefonar a ele e mandar e-mails. Ela me pergunta se estou livre para um brunch no domingo. Digo que sim, imaginando que dessa forma posso enfrentar 
de vez o encontro cara a cara. Combinamos no EJ's Luncheonette perto da minha casa.
No domingo de manh, chego primeiro ao EJ's e noto aliviada que o lugar est cheio de crianas. Seus gritos alegres me distraem e me deixam um pouco menos nervosa. 
Mas ainda fico muito ansiosa de pensar em estar com Darcy. Fui capaz de lidar com a minha culpa evitando qualquer pensamento a respeito dela, quase fazendo de conta 
que Dex  solteiro e que estamos de volta aos tempos do curso de Direito, antes de ter tido a grande idia de apresent-lo  Darcy. Mas essa ttica no vai ser possvel 
esta tarde. E estou com medo de que passar um tempo com ela acabe me forando a acabar tudo com Dex, coisa que eu desesperadamente no quero fazer.
Minutos depois, Darcy entra carregando sua grande bolsa preta da Kate Spade, aquela que ela usa quando tem muitas coisas para resolver, especialmente as relacionadas 
ao casamento. Como era de se esperar, noto sua familiar pasta laranja saindo da bolsa, lotada de recortes de revistas de noivas. Meu estmago di. Tinha mais ou 
menos me preparado para Darcy, mas no para o casamento. 
Ela me cumprimenta  moda europia, com um beijo em cada lado do rosto, enquanto sorrio e tento agir com naturalidade. Ento engrena numa historinha sobre o encontro 
s cegas de Claire na noite anterior, com um cirurgio chamado Skip. Darcy conta que no deu muito certo, que Skip no era alto o suficiente para Claire e deixou 
de perguntar se ela queria sobremesa, acionando com isso seu detectar de unhas-de-fome. Acho que talvez o nico detector a registrar qualquer coisa tenha sido o 
de Skip, contra "esnobes cansativas". Talvez ele apenas quisesse ir para casa e escapar dela. Entretanto, como Darcy no gosta que eu critique Claire, a no ser 
que ela critique primeiro, no menciono essa possibilidade.
- Ela  exigente demais - reclama Darcy enquanto somos levadas a uma mesa que fica entre dois bancos de encostos altos. -  como se ela procurasse defeitos.
- No vejo problema em ser exigente. Mas ela tem uma srie de critrios completamente equivocados.
- Como voc sabe?
- Ela s vezes  um pouco superficial.
Darcy olha para mim sem entender.
- O que eu quero dizer  que ela se preocupa demais com dinheiro, aparncias e o quanto o cara  bem relacionado. Ela est apenas limitando um pouco suas chances 
de encontrar algum.
- No acho que ela seja assim to exigente - diz Darcy. - Ela saiu com Marcus e ele no  bem relacionado.  de uma cidade obscura no Wyoming. E o cabelo dele est 
ficando meio ralo.
- Montana - digo, impressionada com o quanto Darcy pode soar superficial. Acho que ela tem sido assim desde que chegou a Manhattan, talvez at durante toda a nossa 
vida, mas s vezes, quando voc conhece muito uma pessoa, no v como ela realmente . Ento, honestamente, acho que consegui desconsiderar essa parte fundamental 
da personalidade dela, talvez no querendo ver minha amiga mais prxima sob essa luz. Acontece que desde a minha conversa com Ethan ficou difcil ignorar sua tendncia 
 superficialidade e  agressividade.
- Montana, Wyoming, seja onde for - diz ela, balanando as mos no ar como se ela prpria no tivesse vindo do Meio-Oeste. A mim incomoda muito o modo como Darcy 
deprecia nossas razes, chegando at mesmo a debochar de Indiana, chamando o estado de atrasado e feio.
- E eu gosto do cabelo dele - digo.
Ela sorri sarcstica.
- Vejo que voc est defendendo Marcus. Interessante.
Eu a ignoro.
- Tem falado com ele ultimamente?
- Algumas vezes. Na maior parte por e-mail.
- Algum telefonema?
- Alguns.
- Voc se encontrou com ele?
- Ainda no.
- Porra, Rachel. V se no perde o impulso - ela tira o chiclete da boca e embrulha num guardanapo. - Quero dizer, no vai deixar esse escapar ... Voc no vai conseguir 
nada melhor.
Examino o cardpio e sinto a raiva e a indignao crescendo dentro de mim. Que coisa mais grosseira de se dizer! No que eu ache que haja alguma coisa errada com 
Marcus, mas por que no posso conseguir nada melhor? Afinal de contas, o que isso significa? Durante toda a nossa amizade, sempre esteve implcito que Darcy  a 
bonita, a sortuda, a charmosa. Isso  uma coisa. Mas simplesmente dizer isso desta forma - voc no vai conseguir nada melhor -  bem diferente. A audcia dela  
realmente de tirar o flego. Fico formulando possveis respostas, mas engulo tudo. Ela no sabe o quanto a observao  sacana e fruto de sua inata falta de considerao. 
Alm do mais, levando-se em conta a situao, realmente no tenho direito de ficar com raiva dela.
Olho por sobre o cardpio e dou uma espiada em Darcy, preocupada que ela seja capaz de ler tudo no meu rosto. Mas ela no est nem a. Minha me sempre diz que sou 
transparente, mas, como Darcy no olha com ateno, no enxerga nada.
Nosso garom se aproxima e guarda de memria nossos pedidos, coisa que sempre me impressiona. Darcy pede uma torrada e um cappuecino e eu peo um omelete grego, 
substituindo o queijo feta pelo cheddar, e batatas fritas. Que ela seja a magra.
Darcy pega sua pasta laranja e comea a tirar vrias listas.
- Certo. Temos muito mais a fazer do que eu imaginava. Minha me telefonou ontem  noite e estava toda "Voc j fez isso? Voc j fez aquilo?", ento comecei a entrar 
em pnico.
Digo a ela que temos tempo de sobra. Gostaria que tivssemos mais.
- Faltam trs meses, Rach. Vai chegar antes que a gente perceba.
Meu estmago chega a doer quando penso quantas vezes mais vou ver Dexter nestes trs meses. Em que momento vamos parar?  melhor que seja o quanto antes. Melhor 
que seja agora.
Fico olhando para Darcy enquanto ela prossegue mexendo na pasta, fazendo pequenas observaes nas margens, at que o garom traz nossa comida. Dou uma espiada no 
meu omelete - queijo cheddar. Ele acertou. Comeo a comer, enquanto Darcy tagarela sobre sua tiara.
Fao que sim com a cabea, escutando apenas em parte, ainda me sentindo magoada por suas palavras grosseiras.
- Voc est me ouvindo? - pergunta Darcy finalmente.
- Estou.
- Bem, ento o que foi que acabei de dizer?
- Voc disse que no fazia idia de onde encontrar a tiara.
Ela d uma mordida na torrada, ainda em dvida.
- Certo. Ento voc realmente estava me ouvindo.
- Eu te disse - falo, botando sal nas batatas.
- Voc sabe onde posso conseguir uma?
- Bem, ns vimos algumas na Vera Wang, numa vitrine do primeiro andar, no foi? E tenho quase certeza de que a Bergdorf tem.
Fico lembrando do comeo do noivado de Darcy, quando, pelo menos de certa forma, me envolvi de corao na histria. Embora tivesse inveja de que a vida dela estivesse 
se organizando to perfeitamente, me sentia feliz por ela e era uma madrinha dedicada. Me lembro da nossa longa busca pelo vestido dela. Acho que vimos todos os 
modelos disponveis em Nova York. Percorremos o caminho at Kleinfeld, no Brooklyn. Fomos s lojas de departamentos e s pequenas butiques no Village. Chegamos a 
tentar os grandes estilistas da Madison - Vera Wang, Carolina Herrera, Yumi Katsura, Amsale.
Mas Darcy nunca tinha a sensao que se espera de uma noiva, aquela sensao em que voc  tomada pela emoo e cai no choro em pleno provador. Finalmente identifiquei 
o problema. Era o mesmo de quando experimenta biqunis. Ela ficava deslumbrante em todos os vestidos. Os modelos colados no corpo valorizavam seus quadris estreitos 
e sua altura. Os grandes vestidos de baile estilo princesa enfatizavam sua minscula cintura. Quanto mais vestidos ela experimentava, mais confusas ficvamos. Ento, 
finalmente, depois de um longo e cansativo sbado, quando chegamos ao nosso ltimo compromisso na Wearkstatt, no Soho, decidi que aquela seria nossa parada final. 
Uma garota no frescor da juventude, cujo rosto ainda no fora desgastado pela vida e pelo amor, perguntou a Darcy o que ela imaginava para o grande dia. Darcy deu 
de ombros, desamparada, e olhou para mim esperando que eu respondesse.
- O casamento dela vai ser na cidade - comecei.
- Eu simplesmente adoro casamentos em Manhattan.
- Sei. E vai ser no comeo de setembro. Ento estamos contando com um tempo quente ... E acho que Darcy prefere vestidos simples, sem muitos babados.
- Mas no muito sem graa - acrescentou Darcy.
- Certo. Nada muito despojado demais - eu disse. Deus nos livre.
A garota pressionou o dedo contra a tmpora, deu uma sada rpida da sala e voltou com quatro vestidos, justos no corpete e que iam se alargando em direo ao cho, 
todos praticamente iguais. E foi ento que decidi que iria escolher um dos modelos para ser o vestido. Quando Darcy experimentou o segundo deles, de um branco suave 
com cintura baixa e bordado de contas no corpete, respirei fundo e disse:
- Oh, Darcy, est lindo em voc - disse. (Estava,  claro.) -  este!
- Voc acha? - A voz dela tremia. - Tem certeza?
- Absoluta - confirmei. - Voc precisa comprar este aqui.
Momentos depois, encomendamos o vestido e falamos sobre as datas das provas. Darcy e eu somos amigas h anos, mas acho que foi a primeira vez que me dei conta da 
influncia que exero sobre ela. Escolhi seu vestido de casamento. A roupa mais importante que ela vai usar na vida.
- Ento voc no se importa em resolver algumas coisas comigo hoje? - pergunta ela agora. - A nica coisa que eu realmente fao questo de encontrar  o sapato. 
Preciso do sapato para a prxima prova do vestido. Acho que podemos olhar na Stuart Weitzman e depois dar um pulo na Barney's. Voc pode vir comigo, no pode?
Mergulho uma garfada de omelete no ketchup.
- Claro ... mas realmente tenho que trabalhar hoje - minto.
- Voc sempre tem que trabalhar! Eu no sei quem  pior: voc ou Dex - diz ela. - Ultimamente ele anda trabalhando num projeto grande. Nunca est em casa.
Continuo olhando para baixo, procurando a melhor entre as batatas fritas que ainda restam no meu prato .
-  mesmo? - pergunto, pensando nas noites recentes em que Dex e eu ficamos no trabalho at tarde, falando no telefone. - Que droga.
- Nem me fale. Ele nunca est disponvel para ajudar com as coisas do casamento. Isso est realmente comeando a me dar nos nervos.
Depois de comermos e conversarmos ainda mais sobre casamentos, caminhamos at a Madison e viramos  esquerda em direo  Stuart Weitzman. Quando entramos na loja, 
Darcy admira uma dzia de sandlias, dizendo para mim que a modelagem dos sapatos  perfeita para seus ps estreitos e de calcanhar pequeno. Ns finalmente chegamos 
ao setor de sapatos forrados de cetim, no fundo da loja. Darcy examina cada um deles, escolhendo quatro pares para experimentar. Fico observando enquanto ela anda 
toda empertigada pela loja, estilo passarela, antes de escolher o par com o salto mais alto. Quase pergunto se ela tem certeza de que o sapato  confortvel, mas 
consigo me segurar. Quanto mais cedo ela tomar uma deciso, mais cedo vou estar dispensada para o resto do dia.
Mas Darcy ainda no desistiu de mim.
- J que estamos por aqui, ser que a gente pode ir at a Elizabeth Arden para dar uma olhada nos batons? - pergunta, enquanto paga pelo sapato.
Concordo, relutante. Vamos andando at a Quinta Avenida, e vou tolerando a lengalenga sobre rmel  prova d'gua e sobre precisar lembr-la de comprar um para o 
dia do casamento, porque no h possibilidade de ela conseguir passar a cerimnia toda sem chorar.
- Claro - digo -, vou lembrar voc.
Digo a mim mesma para encarar essas tarefas com objetividade, mais como uma organizadora de casamentos desprendida que mal conhece a noiva do que como a amiga mais 
antiga e desleal da noiva. Afinal, se eu conseguir ser especialmente til a Darcy, pode ser que a minha culpa diminua. Imagino Darcy descobrindo minhas maldades 
e eu dizendo: ", tudo isso  verdade. Voc me pegou. Mas deixe-me lembr-la de que NUNCA, NEM UMA VEZ ABANDONEI MINHAS OBRIGAES COMO MADRINHA!"
- Posso ajud-las, senhoritas? - pergunta a mulher atrs do balco da Elizabeth Arden.
- Sim, estamos procurando um batom rosa. Um batom rosa-vivo, mas ainda assim suave, inocente, adequado para uma noiva - explica Darcy.
- E voc  a noiva?
- Sim. - Darcy d um de seus sorrisos falsos de quem trabalha como Relaes Pblicas.
A mulher retribui o sorriso e faz suas recomendaes decisivas, escolhendo prontamente cinco opes e expondo sobre o balco  nossa frente.
- Aqui est. Perfeito.
Darcy diz a ela que vou precisar de um tom complementar, que sou a madrinha.
- Que bom. Vocs so irms? - A mulher sorri. Seus dentes grandes e quadrados me lembram aqueles chicletes quadradinhos.
- No - respondo.
- Mas  como se fosse - diz Darcy, de forma sincera e simples.
Sinto-me vil. Fico me imaginando num programa de auditrio, o tema do dia: "Minha melhor amiga tentou roubar meu noivo." A platia vaia e assobia enquanto balbucio 
minhas desculpas e justificativas. Explico que no pretendia fazer mal a ningum, simplesmente no pude evitar. Eu costumava imaginar como eles conseguiam encontrar 
pessoas to desleais e desprezveis (e como conseguiam fazer essas pessoas se confessarem em rede nacional). Agora estava aderindo  baixaria. Oferecendo  Brandi 
com i uma excelente competidora.
Isto precisa parar. Agora. Neste segundo. At agora ainda no dormi com Dex conscientemente, sbria. E da que ns nos beijamos de novo? Foi s um beijo. O momento 
da virada vai ser o da escolha do batom da noiva. Agora. Um, dois, trs, j!
Ento eu penso no cabelo macio de Dex, nos lbios de canela e em suas palavras - Gosto literalmente de tudo a seu respeito. Ainda no consigo acreditar que Dex tenha 
esses sentimentos por mim. E o fato de eu tambm me sentir da mesma maneira  demais para ser ignorado. Talvez tivesse que ter acontecido. Palavras como "destino" 
e "almas gmeas" rodopiam pela minha cabea, palavras que me faziam rir quando eu estava l pelos meus vinte anos. Percebo a ironia - as pessoas no deveriam ficar 
menos romnticas com a idade?
- Voc gosta deste aqui? - Darcy vira-se para mim fazendo beicinho com os lbios carnudos.
-  legal - respondo.
- Voc acha que  muito brilhante?
- No, no acho.  bonito.
- Acho que talvez seja muito brilhante. No se esquea de que vou estar de branco. Vai fazer diferena. Lembra como ficou a maquiagem de Kim Frisby no casamento 
dela? Como ela ficou parecendo uma prostituta? Quero estar sensual, mas doce tambm. Voc sabe. Como uma virgem, mas ainda assim sensual.
De repente, e inesperadamente, estou quase chorando, no posso suportar nem mais um segundo dessa conversa sobre casamento.
- Darce, eu realmente preciso trabalhar. Sinto muito mesmo.
O lbio inferior dela se projeta.
- Ah, vai, s mais um pouquinho. No consigo fazer isso sem voc. - E ento ela diz para a vendedora: - Sem ofensas.
A garota sorri como se entendesse perfeitamente e no se ofende. Ela reconhece a verdade do que Darcy est dizendo e provavelmente imaginando que tipo de madrinha 
abandona a noiva num momento to crucial.
Respiro fundo e digo a ela que posso ficar mais alguns minutinhos. Ela experimenta mais alguns batons, usando uma loo removedora de maquiagem para limpar os lbios 
entre um tom de rosa e outro.
- Que tal esta aqui?
- Legal - sorrio sinceramente.
- Bem, legal no serve - ela dispara. - Tem de ser perfeito. Tenho de estar perfeita!
Enquanto observo seus lbios malcriados que parecem ter sido manchados de framboesas ou picados por uma abelha, qualquer vestgio de remorso desaparece. Tudo o que 
sinto  um ressentimen,to profundo, gigantesco.
Por que tudo tem de ser perfeito para voc? Por que tudo deve ser entregue a voc num embrulho perfeito, todo enfeitado com laos ao estilo Martha Stewart? O que 
voc fez para merecer Dex? Eu o conheci antes. Fui eu quem o apresentou a voc. Eu deveria ter ido  luta por ele. Por que foi mesmo que eu no fui? Ah, j sei, 
porque pensei que no fosse boa o bastante para ele. Bem, eu estava enganada. Obviamente fiz um julgamento errado da situao. Isso acontece ... especialmente quando 
se tem uma amiga como voc, uma amiga que parte do princpio de que tem o direito ao melhor de tudo, uma amiga que  to implacvel em sua busca para se sobressair 
que voc at comea a se subestimar, a diminuir suas expectativas. Isso  culpa sua, Darcy, por tomar o que para incio de conversa deveria ser meu.
Estou presa e absolutamente desesperada para escapar dela. Olho para relgio e suspiro, quase acreditando que realmente preciso ir para o trabalho e que Darcy no 
est tendo considerao, que est, como sempre, tirando vantagem do meu tempo. Acho que meu trabalho  um pouco mais importante do que o batom para um evento que 
s vai acontecer daqui a alguns meses.
- Desculpe, Darce ... no  minha culpa se preciso trabalhar.
- Est bem.
- No  minha culpa - digo mais uma vez.
No  minha culpa.
E os sentimentos dele por mim - e sei que so reais - no so culpa dele.
Antes que eu consiga escapar, Darcy telefona para Claire no celular. J tentou Bobbi Brown? Ouo Claire perguntar e ento declarar com autoridade que eles tm uma 
linda linha para noivas e que os batons deles so bem cremosos, mas no tm muito brilho.
- Voc vem me encontrar agora? - Darcy implora ao telefone. A idia de que ela tem direito a tudo no tem limites.
Ela desliga o telefone e me diz que estou livre para partir, que Claire j vai chegar. Ela acena para mim. Estou sendo dispensada.
- Tchau - digo. - Falo com voc mais tarde?
- Claro. Pode ser. Tchau.
Enquanto me viro para ir embora ela ainda deixa um aviso final:
- Se no tomar cuidado, vou ser obrigada a rebaixar voc  madrinha secundria e dar para Claire sua honrada posio.
Isso tudo porque somos como irms.

Ligo para Dexter logo que me afasto dela. Trata-se de um golpe baixo, telefonar enquanto Darcy toma as providncias para o casamento, mas estou movida a indignao. 
 isso que ela ganha por ser to exigente, dominadora e egocntrica.
- Onde voc est?
- Em casa.
-Oh.
- Onde voc est? Pensei que vocs estivessem fazendo compras.
- Eu estava, mas disse que precisava trabalhar.
Percebo que estamos os dois evitando mencionar Darcy diretamente.
- Bem, voc precisa trabalhar? - pergunta Dex meio hesitante.
- Na verdade, no.
- timo. Eu tambm no. Posso ver voc?
- Vou estar em casa em vinte minutos.

Dex chega ao meu prdio antes de mim e me espera no hall de entrada, jogando conversa fora com Jos sobre o time do Mets. Estou to feliz de encontr-lo, to aliviada 
de estar longe de Darcy. Sorrio e digo ol, imaginando se Jos reconhece Dex de visitas passadas com Darcy. Espero que no. No  s dos meus pais que eu quero aprovao. 
Quero aprovao at mesmo do meu porteiro.
Dex e eu entramos no elevador e caminhamos pelo corredor at o meu apartamento. Estou nervosa de tanta expectativa, ansiosa pelo seu toque. Sentamos no sof. Ele 
segura minha mo e comeamos a nos beiiar com a urgncia de quem est tendo um caso. Trata-se de uma palavra sria, uma palavra assustadora. Evoca imagens das aulas 
de religio e os Dez Mandamentos. Mas no se trata de adultrio. Ningum  casado. Ainda. Tiro tudo isso da cabea e dou um beijo em Dex. No haver mais culpa. 
No pelas prximas horas.
De repente, ficar empoleirado no sof parece ridculo. Minha cama seria to mais confortvel. S porque estamos numa cama no significa que algo mais tenha de acontecer. 
Essa  uma percepo adolescente. Sou uma mulher crescida, com experincia de vida (apesar de limitada), e poso me controlar em minha prpria cama. Levanto e conduzo 
Dex at o outro lado do apartamento. Ele me segue, ainda segurando minha mo. Sentamos na beira da cama. Dex escorrega os ps para fora do mocassim. Ele no est 
de meia. Mexe o dedo para cima e para baixo e ento esfrega um p no outro. Ele tem o arco do p alto e gracioso e tornozelos delgados.
- Venha c - diz, me puxando para junto dele e nos levando para o alto em direo aos travesseiros. Ele  forte, sua pele  quente. Agora estamos de lado, nossos 
corpos juntos um do outro. Ele me beija mais e camos na direo dele. De repente, ele pra de me beijar, d uma tossidinha e diz:
-  to estranho. Estar com voc desta forma. E ao mesmo tempo parece to natural. Talvez por sermos amigos h tanto tempo.
Digo que sei exatamente o que ele quer dizer. Penso nos tempos do curso de Direito. No ramos grandes amigos naquela poca, mas ramos prximos o bastante para 
aprender muito a respeito um do outro, coisas que vm  tona mesmo quando sua ateno est voltada para sonegao de impostos e maneiras de rescindir um contrato. 
Catalogo mentalmente tudo que aprendi sobre Dex na era pr- Darcy. Que ele cresceu em Westchester. Que  catlico. Que jogava basquete na escola e que
considerou entrar no time da Georgetown. Que ele tem uma irm mais velha chamada Tessa,que estudou em Cornell e agora ensina ingls numa escola em Buffalo. Que seus 
pais se divorciaram quando ele ainda era bem pequeno. Que o pai dele casou pela segunda vez. Que a me dele sobreviveu a um cncer de mama.
E ento havia tudo que eu aprendera atravs de Darcy, detalhes da vida pessoal dele que me peguei evocando e ponderando nos ltimos dias. Como, por exemplo, que 
Dex  mal-humorado de manh. Que faz pelo menos cinqenta flexes todas as noites antes de ir para a cama e que nunca deixa pratos sujos na bancada da cozinha. Que 
ele ficou arrasado quando o av morreu, a nica vez em que ela o viu chorar. Que ele teve duas namoradas srias antes de Darcy e que uma delas, Suzanne Cohen, que 
trabalhava como analista de mercado na Goldman Sachs, deu um fora nele e partiu seu corao.
Quando somo tudo isso, sei bastante. Mas quero mais.
- Conta pra mim tudo sobre voc - digo, parecendo uma garota de 18 anos.
Dex toca meu rosto e ento desenha uma linha imaginria ao longo do meu nariz e em torno da minha boca, apoiando o dedo no meu queixo.
- Voc primeiro.  voc quem  a misteriosa.
Rio.
- Nem um pouco - digo, pensando que ele est confundindo ser tmida com ser misteriosa.
- , sim. Voc foi um livro fechado durante todo o curso de Direito. Toda quieta, sem querer sair com ningum, apesar de vrios caras tentarem... nunca consegui 
arrancar muito de voc.
Rio outra vez.
- O que voc quer dizer com isso? Contei muita coisa para voc durante o curso de Direito.
- Como o qu, por exemplo?
Tagarelo sobre alguns detalhes autobiogrficos.
- No estou falando dessas coisas - diz ele. - Estou falando das coisas importantes. Como voc se sentia a respeito das coisas.
- Eu detestava Zigman - digo sem muita convico.
- Eu sei, o seu medo era desgastante. E a o resultado foi muito bom quando ele finalmente chamou voc.
- Eu no ... - digo, lembrando dos trancos e barrancos de um longo e doloroso interrogatrio.
- Sim, voc se saiu bem. Apenas no achou que tinha ido bem. Voc no se enxerga do jeito que .
Desvio o olhar, focalizo uma mancha de tinta no meu edredom.
Ele continua.
- Voc se enxerga como mediana, comum. E no h nada de comum em voc, Rachel.
No consigo olhar de novo para ele. Meu rosto est em chamas.
- E sei que voc fica vermelha quando est com vergonha - ele sorri.
- No, no fico! - cubro meu rosto com a mo e reviro os olhos.
- Fica sim. Voc  adorvel. E, no entanto, no sabe disso, o que  a parte mais adorvel.
Ningum, nem mesmo minha me, jamais me chamou de adorvel.
- E voc  linda. Absoluta e inacreditavelmente bonita da maneira mais original e natural. Voc se parece com uma daquelas garotas do sabonete Ivory. Lembra daqueles 
anncios? ...Voc  provavelmente muito jovem para lembrar. Voc  como uma modelo da J. Crew. Completamente natural.
Digo a ele para, por favor, parar. Apesar de adorar o que acabou de
dizer.
-  verdade.
Quero acreditar nele.
Ele beija meu pescoo, a mo esquerda pousada no meu quadril.
- Dex.
- Hummm?
- Quem disse que eu nunca queria sair com ningum no curso de Direito?
- Bem, voc no queria, queria? Voc estava l para aprender, no para namorar. Isso ficava bem claro.
- Sa com Nate.
- S no finalzinho.
- Ele no me chamou antes.
- Um cara corajoso.
Reviro os olhos.
- Quase chamei voc para sair, sabia?
Acho graa.
-  verdade - diz ele, parecendo um pouco magoado.
Lano a ele um olhar meio incrdulo.
- Lembra daquela vez em que estvamos estudando para as nossas ltimas provas de Responsabilidade Civil?
Lembro do polegar dele no meu rosto, enxugando minha lgrima. Ento aquilo tinha representado alguma coisa.
- Voc sabe exatamente do que estou falando, no sabe?
Meu rosto fica quente enquanto fao que sim com a cabea.
- Acho que sim. .
- E quando pedi para levar voc em casa, voc disse no. Aquilo acabou comigo.
- Eu no acabei com voc.
- Voc era muito sria.
- No. Eu s no achava naquela poca ... - minha voz vai diminuindo.
- . E ento voc me apresentou a Darcy. Naquele momento soube que voc no estava nem um pouco interessada.
- Eu apenas no achava ... no sabia que voc me via dessa forma.
- Eu adorava sua companhia - diz Dex. - Ainda adoro. - Ele olha para mim, sem piscar.
Digo que ele pisca menos do que qualquer um que j conheci. Ele sorri, diz que nunca perdeu um concurso de quem pisca primeiro. Eu o desafio, abrindo meus olhos 
tanto quanto os dele. Percebo que ele tem uma pintinha escura em sua ris esquerda, como uma sarda no olho.
Segundos depois, pisco. Ele exibe um sorriso rpido, exultante, e depois me beija mais. Ento muda a intensidade, a presso e a quantidade de lngua, os ideais de 
beijo que freqentemente so abandonados quando se estabelece uma relao duradoura. Beijar Dex nunca perderia a graa. Ele nunca pararia de me beijar assim.
- Me fala da Suzanne - peo quando finalmente nos separamos. - E da sua namorada do segundo grau.
- Alice? - Dex ri e puxa um tanto do meu cabelo para trs da orelha.- O que tem ela? Isso  histria antiga.
Todo mundo sabe que no se discute sobre ex-namoradas quando se est no incio de um relacionamento. Mesmo que se esteja louca para saber todos os detalhes desde 
o comeo, isso  uma coisa que s se deve trazer  tona mais tarde no jogo. Para saber disso voc nem precisa ser uma garota que acredita que h regras para tudo, 
como  o caso de Claire. O incio de um relacionamento com algum representa um novo comeo para ambos. Resgatar velhas relaes - e por definio relaes que no 
deram certo - no traz nenhum benefcio. Entretanto, comparado ao fato de ele estar noivo, ex-namoradas so um assunto inofensivo. No h necessidade de usar estratgias 
aqui na segurana do meu apartamento. As regras no se aplicam. Pode ser que essa seja a nica vantagem da nossa situao.
- Voc foi apaixonado por elas? - Por alguma razo preciso saber.
Ele rola na cama e fica deitado de barriga para cima, olhando para o teto, se concentrando. Gosto que ele esteja pensando na minha pergunta, exatamente como fazia 
nas provas da faculdade. Lembro dele olhando para o nada durante os primeiros 45 minutos da prova. No escrevendo nenhuma palavra em sua folha de respostas enquanto 
no terminava de refletir a questo toda.
Ele pigarreia.
- No pela Alice. Mas pela Suzanne, sim.
No  de se estranhar que Suzanne tenha sempre incomodado tanto Darcy. Ela quer ser o nico amor da vida dele. Me lembro dela na escola, vencendo Blaine pelo cansao: 
"Voc no amava Cassandra, amava? Amava?", at que ele finalmente apenas dizia no. "S voc, Darcy."
- Por que no pela Alice? - pergunto. Prefiro ouvir primeiro sobre a que ele no amava.
- No sei. Ela era uma menina meiga. Mais meiga impossvel. No sei por que no a amava.  uma coisa que voc realmente no pode controlar.
Dex est certo. No tem nada a ver com o valor inerente da pessoa, com a soma de seus atributos.  uma coisa que voc no pode se obrigar a sentir. Ou a no sentir. 
Embora eu tenha realizado um trabalho razovel ao longo dos anos. Veja s Joey. Namorei Joey durante dois anos e nunca senti nem um dcimo do que estou sentindo 
agora.
-  claro, ainda estvamos no segundo grau - prossegue Dex. Quem consegue ser srio nessa idade?
Concordo com a cabea, pensando no doce e pequeno Brandon. Ento pergunto a Dex sobre Suzanne.
- Ento voc a amava?
- , mas a longo prazo a coisa no ia funcionar. Ela  judia e sempre foi muito franca a respeito das expectativas dela em relao a mim. Ela queria que eu me convertesse 
e educasse nossos filhos como judeus, com direito a tudo o que isso envolvia. E talvez eu at levasse isso numa boa ... no sou muito religioso ... mas no achava 
legal que ela tivesse transformado aquilo numa regra clara. Imaginei uma vida onde ela me transformaria num merda. Exatamente como a me dela faz com o pai dela. 
Alm disso, ramos jovens demais para um compromisso ... Ainda assim, fiquei muito mal quando ela terminou tudo.
- Ela se casou?
- Engraado voc perguntar isso. Acabei de saber por um amigo em comum que ela ficou noiva. Um ms depois ... - Dex interrompe a fala, parece desconfortvel.
- Depois de voc?
-  - sussurra ele. Dex me puxa para junto dele e me beija com fora, apagando qualquer pensamento relacionado a Darcy. Ns nos despimos e deslizamos para baixo 
das cobertas.
- Voc est com frio - diz ele.
- Sempre fico com frio quando estou nervosa.
- Por que voc est nervosa? No fique assim.
- Dex - digo junto ao pescoo dele.
- O que , Rach?
- Nada.
Seu corpo cobre o meu. No estou mais com frio.
Nos beijamos por um longo tempo, nos tocando em todos os lugares.
No sei que horas so, mas est comeando a escurecer.
Quase tento impedi-lo, por todas as razes bvias. Mas tambm porque acho que deveramos esperar at podermos passar uma noite juntos. Por outro lado, isso pode 
no acontecer nunca. E provavelmente jamais vou tomar um banho com ele, observ-lo enquanto faz a barba de manh. Ou ler o jornal de domingo enquanto tomamos caf, 
matando o tempo. Nunca vamos andar pelo Central Park de mos dadas ou ficar aninhados sobre uma coberta na grama do Sheep's Meadow. Mas posso t-lo agora. No h 
nada nos detendo neste momento. 
Consigo ver apenas uma frao de Dexter enquanto nos movimentamos juntos - a costeleta com alguns fios grisalhos, o ombro forte, a orelha como uma concha. As pontas 
dos meus dedos roam seu peito, ento o apertam com mais fora.

DEZ

No consigo parar de pensar em Dex. Sei que no vamos acabar juntos, que ele vai se casar com Darcy em setembro, mas estou satisfeita de viver o momento e me permitir 
o prazer dirio desta pequena obsesso. Nada dura para sempre, digo a mim mesma. Especialmente as coisas boas. Embora no seja muito comum uma pessoa se deparar 
com prazos assim to definidos. Penso em outros eventos com finais concretos e predeterminados. A universidade, por exemplo. Sabia que me afastaria por quatro anos, 
acumularia amigos, lembranas e conhecimento, e que tudo isso terminaria abruptamente numa data marcada. Sabia que nessa data ganharia meu diploma e empilharia meus 
pertences num caminho alugado com destino a Indiana, e que assim minha experincia na Duke estaria terminada. Um captulo encerrado para sempre. Mas a conscincia 
do fim no me impediu de viver bons momentos, sugando desse acordo toda a alegria possvel.
 isso que estou fazendo com Dex. No vou ficar pensando no fim e esquecer do aqui e agora.
Esta noite estou em casa quando Dex telefona do trabalho para dar um oi e dizer que sente saudade de mim.  o tipo de ligao que um namorado faz para a namorada. 
Nada de secreto ou complicado. Fao de conta que estamos juntos para valer. Assim que desligamos, o telefone toca novamente.
- Ei - digo, com o mesmo tom meigo, pensando que  Dex ligando para dizer mais alguma coisa.
- Que voz  essa?- pergunta Darcy, me trazendo de volta  realidade.
- Como assim que voz? - pergunto. - Estou apenas cansada. O que houve?
Ela comea a listar uma srie de detalhes de sua ltima crise profissional, que em geral no passa de um papel que ficou preso na impressora. Desta vez no  exceo: 
um erro de digitao no flyer de inaugurao de uma casa noturna. Resisto  vontade de dizer que o pblico-alvo no vai notar um erro de ortografia e em vez disso 
pergunto quem vai aos Hamptons no fim de semana. Ansiosa por ouvir o nome de Dexter, percebo meus sentidos se aguarem. Ele j havia me dito que ia e me convencido 
de que eu tambm deveria ir. Vai ser meio estranho, mas vai valer a pena, ele me disse. Ele precisa me ver.
- No tenho certeza. Parece que Claire talvez receba uns amigos aqui na cidade. O Dex vai.
-  mesmo? Ele no precisa trabalhar? - pergunto, soando meio falsa e surpresa demais. De repente fico preocupada, mas Darcy no nota meu tom de voz.
- No, ele acabou de fazer um grande negcio - disse ela.
- Que negcio?
- No sei, algum negcio.
O trabalho de Dex deixa Darcy entediada. J percebi como ela  capaz de cort-lo, interrompendo-o no meio de uma histria e mudando o foco para suas prprias preocupaes 
insignificantes. Voc acha que estou gorda? Isso fica bem em mim? Voc vem comigo? Faz isso para mim. Faa eu me sentir segura. Eu. Eu. Eu.
Como se tivesse ouvido meus pensamentos, ela me diz que est considerando a idia de mandar uma fita para o Big Brother, que seria divertido participar do programa. 
Divertido para quem  exibicionista. Poucas coisas podem ser mais aterrorizantes do que estar em rede nacional de televiso, exposta a julgamentos e crticas de 
todo mundo.
- Voc acha que eu seria escolhida? - pergunta ela.
- Teria grandes chances.
Ela  bonita o bastante e tem personalidade forte, exatamente o que eles buscam nos reality shows. Estudo meu prprio rosto no espelho, penso em Dex dizendo que 
pareo uma modelo da J. Crew. Talvez eu seja atraente. Mas estou longe de ser to bonita quanto Darcy, com seus traos precisos, as belas mas do rosto e os lbios 
em forma de lacinho.
Agora ela est gargalhando no telefone, contando mais uma histria sobre seu dia. Ela fere meus ouvidos. A palavra "estridente" me vem  cabea e, enquanto estudo 
meu reflexo de novo, percebo que apesar de estar longe de ser bonita, talvez eu tenha uma suavidade que ela no tem.

Estamos numa tera-feira, a um dia da partida para os Hamptons. Dex est aqui em casa. Havamos planejado esperar at a semana que vem para nos encontrarmos sozinhos, 
mas acabamos o trabalho cedo. E, bem, aqui estamos, juntos novamente. J fizemos amor uma vez. Agora estou recostada no peito dele. Quando ele respira, seu peito 
levanta ligeiramente o meu rosto. Por um bom tempo, nenhum de ns fala nada. Ento, de repente, ele pergunta:
- O que estamos fazendo?
A est. A Pergunta.
J pensei nisso umas cem vezes, verbalizei o questionamento exatamente da mesma forma, com a mesma entonao, a mesma nfase na palavra "fazendo". Mas a cada vez 
encontro uma resposta diferente.
Estamos seguindo nossos coraes.
Estamos nos arriscando.
Somos loucos.
Somos autodestrutivos.
Somos devassos.
Estamos confusos.
Estamos nos rebelando.
Ele est com medo do casamento.
Eu estou com medo de ficar sozinha.
Estamos nos apaixonando.
J estamos apaixonados.
E a mais freqente de todas: no fazemos a menor idia.
Esta  a que ofereo:
- No sei.
- Nem eu - diz ele com suavidade. - Ser que devemos conversar sobre isso?
- Voc quer?
- Na verdade, no - responde ele.
Estou aliviada que ele no queira conversar. Porque eu no quero. Tenho muito medo do que possamos decidir. As opes so assustadoras.
- Ento no vamos conversar. No agora.
- Ento quando? - pergunta ele.
Por alguma razo digo:
- Depois do feriado de Quatro de Julho.
Parece arbitrrio, mas esse feriado sempre foi uma espcie de marco, o meio do vero. Embora ainda reste mais da metade da estao depois do Quatro de Julho, a parte 
que se segue passa mais rpido,  a parte que sempre voa. Junho, apesar de ter um dia a menos, parece muito mais longo que agosto.
- Est bem - diz ele.
- No vamos conversar sobre nada at o Quatro de Julho - deixo as regras bem claras, exatamente como faria no incio de uma prova do curso de Direito. Minha voz 
est firme, embora eu no tenha certeza do que acabei de decidir. Que terminaremos no Quatro de Julho? Ou talvez... no, ele no pode ter pensado que essa seria 
a data em que ele diria a Darcy que no pode mais levar adiante o casamento. No, no foi isso que acabamos de decidir. Apenas decidimos no decidir nada. S isso.
Ainda assim, escolher a data  uma coisa assustadora. Fico imaginando uma gigantesca contagem regressiva de dias, horas, minutos, segundos. Como os relgios da contagem 
regressiva para o novo milnio. Me lembro de observar os segundos passando em relgios como esses no correio, perto da estao Grand Central, em meados de dezembro. 
Aquele relgio me deixou nervosa, frentica. Eu tinha vontade de atacar minha lista de pendncias, dar todos os telefonemas adiados, acabar tudo imediatamente. Ao 
mesmo tempo, ficar olhando aqueles nmeros piscando me paralisava. Eu tinha tanto o que fazer, ento por que deveria fazer qualquer coisa?
Tento calcular o nmero de horas que ainda restam antes do Quatro de Julho. Quantas noites ainda vamos ter juntos. Quantas vezes ainda vamos fazer amor.
Meu estmago est roncando. Ou talvez seja o dele. No d para dizer, porque estou deitada sobre ele.
- Voc est com fome? Podemos pedir alguma comida - digo e beijo seu peito. - Ou posso fazer alguma coisa para a gente.
Me imagino preparando um lanche rpido e saboroso. No sei cozinhar, mas aprenderia. Eu daria uma esposa excelente e dedicada.
Ele me diz que no quer perder tempo comendo. Pode comprar alguma coisa no caminho de casa. Ou apenas ir para casa com fome. Diz que quer me sentir junto dele at 
a hora de ir embora.

No dia seguinte pergunto a Dex se houve algum problema quando ele chegou em casa.  uma pergunta vaga, mas ele sabe do que estou falando. Ele diz que Darcy no estava 
em casa quando ele chegou, ento teve tempo de tomar um banho, contrariado por lavar um pouco de mim do seu corpo. Diz que Darcy deixou um recado para ele: "So 
onze horas e voc no atende nem o celular, nem o telefone no trabalho. Voc provavelmente est de caso com algum. Vou sair com Claire."
Trata-se de sua tradicional brincadeirinha acusatria quando Dex trabalha at tarde. Ela pergunta se ele est tendo um caso, sem jamais acreditar que ele seja capaz 
de uma coisa dessas. Todas as vezes ela muda a pessoa, escolhendo o nome qualquer de alguma mulher do escritrio. Quanto menos atraente a mulher, mais ela se diverte.
- Sei que voc est apaixonado pela Nina - ela diz, sabendo que Nina  uma digitadora rechonchuda de Staten Island, de unhas postias enfeitadas com pinturas cintilantes.
Penso em Dex voltando para casa na noite passada. Uma cena completa se revela em minha cabea: Dex chegando em casa de mansinho, correndo para entrar no chuveiro 
e ir para a cama, esperando a chave girar na fechadura, fingindo dormir quando Darcy entra no quarto. Ela se debrua sobre ele, examinando-o no escuro.
- Como foi o seu encontro com Nina? - pergunta Darcy com uma voz debochada e alta.
Ele esfrega os olhos com os pulsos, como fazem as pessoas na televiso quando acordadas de um sono profundo.
- Oi - diz ele cansado, e ento faz de conta que volta a dormir.
Ela se aconchega na cama, jogando um "eu te amo" em sua direo. Ele vacila, mas diz a mesma coisa de volta. Que escolha tem ele? Depois pega no sono pensando em 
mim. Pensando que o queixo dela  pontudo demais sobre o peito dele.

Observo os dois na praia, l na gua.
Darcy e Dex lado a lado, em p, sob o sol ameno de junho. Este fim de semana  o primeiro em que vejo os dois juntos desde que eu e Dex fizemos amor sbria e intencionalmente. 
Estou usando culos escuros, ento posso estud-los de onde estou, sem que isso fique muito bvio, enquanto Claire tagarela comigo sobre - o que mesmo? - o casamento. 
E se a noite for fria? Ser que deveramos comprar umas mantas combinando, uns casaquinhos bem leves e esvoaantes? Fao que sim com a cabea e murmuro que  uma 
boa idia.
Dex acabou de dar um mergulho rpido, embora a gua esteja congelante. Agora os dois esto conversando, juntos um do outro. Talvez sobre a temperatura da gua. Hesitante, 
ela se aproxima do mar, apenas o suficiente para deixar a gua cobrir os ps. Os dois sorriem. Dex chuta a gua nas pernas dela, ela solta uns gritinhos, vira e 
se afasta um pouco dele. Posso ver os msculos dela se esticando nas pernas alongadas e bronzeadas. Ela est usando o biquni cor da pele. a cabelo solto fica caindo 
em seu rosto. Ele ri e ela ergue o indicador em sua direo, como se fosse lhe dar uma bronca, e a caminha para junto dele novamente. Esto na maior galinhagem. 
 uma viso dolorosa, mas no consigo evitar. No consigo desviar o olhar.
Sinto como se estivessem apresentando um espetculo. Bem, Darcy est sempre apresentando um espetculo. Mas Dex participa cheio de disposio. Certamente ele sabe 
que estamos todos observando. Que eu estou observando.  sempre assim quando se est num grupo e algum decide ir nadar ou andar at a gua. a mar  como um palco 
gigante.  natural que os outros olhem, nem que por apenas um momento. Dex deve estar consciente disso; ainda assim, parece bem  vontade fazendo o gnero casal 
brincalho. Ele deveria estar pensativo em sua toalha, cochilando ou lendo um livro - alguma coisa sombria, para me dar a impresso de que est confuso, chateado, 
dividido. Em vez disso, ele joga gua em Darcy e sorri.
Marcus pe as mos em concha e grita para eles:
- A gua est muito fria?
- Fria pra caramba! - anuncia Darcy, batendo nas costas de Dex enquanto ele solta um comentrio bem msculo:
- Que nada, est tima. Vem para c!
A raiva se mistura  mgoa. Pela primeira vez, me arrependo completamente de ter transado com Dex. Eu me sinto idiota, de repente tenho certeza de no significar 
quase nada para ele. As lgrimas comeam a embaar meus olhos, enquanto me esforo para no olhar para eles, refugiando-me nos fones de ouvido. Probo a mim mesma 
de chorar.
Quando vou apertar o play, Marcus me pergunta o que estou ouvindo. S o encontrei uma vez desde a nossa sada e mesmo assim para um rpido almoo no meio da semana, 
numa delicatessen perto do meu escritrio, mas nos falamos algumas vezes e uma dessas conversas durou mais de uma hora. A nica razo aparente para o encontro nmero 
dois no ter acontecido, ao menos pelo que sei,  meramente circunstancial. Ele est ocupado, eu tambm. O trabalho tem sido enlouquecedor. Toda essa rotina. Ento 
a porta ainda est bem aberta, felizmente. Preciso me concentrar mais nele. Os sentimentos podem surgir uma vez que eu deixe Dex para trs. Sorrio e digo:
- Tracy Chapman. Este CD  timo. Quer escutar?
Passo a ele o meu fone de ouvido enquanto Darcy e Dex vm em nossa direo. Marcus ouve por alguns segundos.
- Legal - ele me devolve o fone e pega uma Coca do isopor. Quer um gole? - pergunta, exatamente quando Darcy e Dex chegam.
Digo que sim, pego a Coca e, depois de beber, limpo a lata com a ponta da toalha.
Ele diz com um ar intencionalmente pateta:
- Eu no me importo com seus germes. Se  que voc me entende.
Rio e balano a cabea como se dissesse: "Marcus, seu maluquinho."
Marcus pisca. Rio novamente.
O momento no poderia ser melhor. Dex percebe toda a interao. No olho para ele. No vou olhar.
- Mais algum vai entrar na gua? - pergunta.
Claire d a resposta padro.
- Ainda no. Ainda no estou quente o bastante.
Marcus diz que odeia nadar, especialmente em guas geladas.
- Por favor, voc pode me explicar como isso pode ser divertido?
Darcy d umas risadinhas.
- No  divertimento.  tortura!
No digo nada, aperto o play no meu discman.
- E voc, Rachel? - pergunta Dex, ainda perto de mim.
Eu o ignoro, fingindo que o volume est alto demais para conseguir escut-lo.
Ele e Darcy voltam para suas toalhas, do outro lado de Claire. Darcy tira a areia dos ps e dos tornozelos, enquanto Dex senta de pernas cruzadas olhando o mar. 
De esguelha, posso ver seus ombros e suas costas. Tento no pensar em sua pele suave e na sensao de estar encostada nele. No vou mais sentir isso. Digo a mim 
mesma que no  o fim do mundo. Que  melhor assim.

Nesta noite, antes do jantar, enquanto estou me vestindo, Darcy vem at o meu quarto perguntar se eu trouxe um delineador de clios. Digo a ela que no, que no 
tenho um delineador de clios. Talvez Hillary tenha, mas ela est no banho. Ela senta na minha cama e suspira, o rosto retomando uma expresso meio sonhadora.
- Acabei de sair de uma transa espetacular - diz.
Fao fora para manter a compostura.
-  mesmo? - Sei que estou abrindo a porta para ela compartilhar ainda mais detalhes, mas no sei o que dizer. Meu rosto est pegando fogo. Espero que Darcy no 
note.
- , foi fenomenal. Deu para ouvir a gente?
Fazer esse tipo de comentrio  a cara da Darcy. Ela sempre foi muito explcita em seus relatos sexuais. Chega a contar que palavras foram ditas durante o orgasmo. 
Eu costumava ouvir, geralmente ria, s vezes at me divertia com as histrias. Mas esses dias h muito ficaram para trs.
- No, eu devia estar tomando banho - respondo.
- , ns tambm estvamos no chuveiro - ela penteia o cabelo molhado com os dedos, depois balana a cabea para um lado e para o outro. - Uau, h meses no transo 
assim.
Penso em seus corpos molhados e abraados e no consigo decidir qual dos dois odeio mais.

J  tarde, passa das duas da madrugada. Evitei Dex durante toda a noite, na casa e depois no jantar. Agora estamos no Talkhouse. Acabo de pedir duas cervejas, uma 
para mim e outra para Hillary, quando Dex me encontra no bar.
- Oi, Rach - diz ele.
Estou meio alta e mais atrevida. O lcool curou minhas mgoas, deixando ressentimento e raiva. So emoes mais fceis de administrar mais simples.
- Sim?
- O que est acontecendo? - pergunta ele bem casual.
- Nada - disparo antes de me virar para ir embora.
- Espera um segundo. Onde  que voc est indo?
- Levar a cerveja para Hillary.
- Quero falar com voc.
- Sobre o qu? - Fao uma voz bem indiferente.
- O que houve?
- Nada - respondo, desejando ser mordaz e vingativa. No tenho muita prtica em ser m, mas meu tom de voz ajuda, porque Dex parece magoado. No to magoado quanto 
eu na praia, ou durante o relato sexual de Darcy. No magoado o bastante. Levanto minhas sobrancelhas olhando para ele com um certo nojo, como se dissesse: "Pois 
no? Posso fazer alguma coisa por voc?"
- Voc por acaso est ... est brava comigo? - pergunta ele.
Rio... no, na verdade bufo.
- Est? - pergunta ele novamente.
- No, Dex, no estou brava com voc - respondo. - Realmente no estou nada preocupada com voc. Ou com o que voc faz com Darcy.
Agora ele sabe que eu sei.
- Rachel... - comea ele, todo agitado. Depois tenta se justificar, dizendo que ela comeou.
- Ela disse que foi a melhor trepada da vida dela - digo enquanto me afasto, deixando-o sozinho no bar. - Bom trabalho. Meus parabns.
Mesmo meio bbada, sei que no tenho o direito de reclamar desse jeito. Ele s transou com a noiva dele, no me prometeu nada - nem era para a gente discutir nada 
antes do Quatro de Julho. No houve nenhuma promessa quebrada. De fato, nenhuma falsidade, de maneira alguma, de nenhum tipo. Estou nesta situao por livre e espontnea 
vontade, no fui tapeada. Mas ainda assim eu o odeio.
Olho em volta para ver se acho Hillary. Dex vai atrs de mim e segura meu brao, bem abaixo do cotovelo. Deixo cair uma das cervejas. A garrafa se quebra.
- Otimo, est vendo o que voc fez - digo, olhando para o estrago.
- Vou buscar outra.
- Deixa pra l.
- Rachel, por favor... No deu para evitar. Foi a Darcy, juro.
De repente Hillary aparece atrs da gente.
- O que houve?
No tenho certeza se ela ouviu nossa conversa.
- Nada - Dex se apressa em responder. -  que Rachel est furiosa comigo porque derrubei a sua cerveja.
- Voc pode ficar com a minha - oferece Hillary.
- No, fica com essa - digo, entregando a ela a garrafa.
Ela aceita relutante e pergunta onde est Darcy.
- Ns estvamos justamente procurando por ela - digo.
Olho para Dex. Ele est tentando disfarar, mas no consegue muito. Seus olhos esto arregalados, a boca esticada num sorriso apreensivo. Garanto que ele no fez 
essa cara no chuveiro.
Acabou, digo para mim mesma, com o tom dramtico de uma mulher injustiada. Ento eu me viro e encontro Marcus. O doce Marcus, que me ofereceu sua Coca na praia 
e no est comprometido com ningum.

ONZE

- Ah. O velo truque do coelhinho na panela - Ethan diz quando, na segunda-feira de manh, o atualizo sobre o que aconteceu. 
- No foi nada de coelhinho na panela! - protesto, lembrando a cena de Atrao fatal. Darcy criticava toda a premissa do filme. No parou de dizer o quanto era irrealista: 
nenhum homem trairia a mulher com outra menos atraente. Acho que estou derrubando essa teoria. 
- Ah, no? - Ethan retruca, imperturbvel. - Bem, talvez uma variao do tema. Mais sutil, entretanto. Voc fez apenas uma leve presso... e o informou que  inaceitvel 
ele continuar a se relacionar com a prpria noiva. 
- Bem, de qualquer forma... est tudo acabado - digo, me dando conta de que essas trs palavras me colocam lado a lado com uma horda de mulheres ingnuas que negam 
a relao enquanto rezam para mant-las. Essas mulheres tentam se agarrar a qualquer pontinha de esperana, insistem em terminar quando na verdade esto querendo 
uma ultima conversa dissimulada, se esforando para manter as portas abertas para ainda mais. E a verdade pattica  que realmente eu quero mais. Gostaria de poder 
desfazer aquela cena do Talkhouse. No deveria ter dito nenhuma palavra a Dex. Sinto uma preocupao repentina de que ele me evite para sempre. Ele provavelmente 
vai decidir que no vale a pena, que a situao  simplesmente muito complicada. 
- Acabou, no ? - Ethan pergunta meio ctico.
- , acabou.
- Bravo - diz ele, com o mais perfeito sotaque britnico. -  assim que se faz.
- Enfim - digo, como se fosse fcil para mim ficar longe de Dex.
- . Enfim. Voc vem para Londres na semana do Quatro de julho? - indaga Ethan.
Eu havia mencionado essa possibilidade num email recente, antes de Dex e eu termos estabelecido nossa data. Agora no quero ir embora. S para o caso das coisas 
no terem terminado completamente.
- Hum, acho que no. J combinei de ir aos Hamptons - respondo. 
- Dex no vai estar l?
- Vai, mas eu ainda quero fazer valer o dinheiro que gastei pela casa.
- Sei, ah.
- No fala assim.
- Tudo bem - diz ele mudando de tom. - Mas voc vem me visitar algum dia? Voc tambm me deu bolo depois de seu Exame da Ordem. Por causa daquele cara, Nate.
- Vou visitar voc. Prometo. Talvez em Setembro.
- Est bem, mas o Quatro de Julho seria divertido.
- Nem  feriado a - lembrei.
- ,  engraado, os ingleses no comemoram a nossa independncia deles... mas no meu corao  um feriado, Rachel. 
Rio e digo que vou me informar sobre os vos para o outono.
- Certo. Vou mandar um email para voc com todos os meus fins de semana livres... todas as infos.
Ele sabe que detesto a palavra "infos". Da mesma forma que odeio pessoas que fazem reserva para o jantar no "findi". Ou as que usam "vc" em vez de "voc". 
Sorrio.
- Excelente idia.
- timo ento. 
Logo depois de falar com Ethan, meu telefone toca. O nome de Les aparece no identificador de chamadas. Considero a possibilidade de no atender, mas aprendi que 
esse tipo de coisa no funciona bem num escritrio de advocacia. Apenas faz os colegas ficarem ainda mais irritados quando voc finalmente fala com eles. 
- Como voc notificou os documentos da IXP? - esbraveja Les, quase latindo pelo telefone assim que atendo. Les sempre dispensa a cordialidade.
- Como assim?
- A modalidade de entrega. Pelo correio? Em mos?
Preguei na porta da cabana dele, seu babaca, penso, lembrando da velha forma de notificao usada pela Ordem dos Advogados de Nova York. 
- Por e-mail - digo, olhando para minha cpia j bastante gasta do Compndio de Regras de Processo Civil de Nova York. 
- Excelente, porra, excelente- diz ele, arrogante como sempre. 
- O qu?
- O qu? O qu? - Grita ele no telefone. Afasto o aparelho do ouvido, mas agora ouo sua voz em estreo, tomando conta do corredor. - Voc fodeu tudo. Isso foi o 
que aconteceu! Os documentos precisam ser entregues em mos! Voc no se deu ao trabalho de ler o mandato judicial? 
Dou uma lida rpida na carta do juiz. Droga, ele tem razo.
- Voc tem razo - digo solenemente. Ele odeia desculpas e eu no tenho absolutamente nenhuma. - Pisei na bola.
- O que  voc? Uma advogadazinha estreante?
Olho fixo para a escrivaninha. Ele sabe muito bem que este  o meu quinto ano no escritrio. 
- O que eu quero dizer, Santo Cristo,  que isso  negligncia - resmunga ele.- O escritrio vai ser processado por sua causa e voc vai ser despedida se no parar 
de fazer merda.
- Desculpe - digo, e logo me lembro que ele odeia ainda mais quando algum pede desculpas.
- No pea desculpas! D um jeito nessa merda! - Ele desliga na minha cara. Acho que Les nunca terminou uma conversa com um apropriado at logo, mesmo quando ele 
est de bom humor.
No, eu no sou caloura, seu babaca. Por isso a sua falao no funciona. V em frente, pode me demitir. Quem se importa com isso?Lembro de quando comecei a trabalhar 
no escritrio. Quando um dos scios levantava a sombrancelhas eu era capaz de voltar para a minha sala com lgrimas nos olhos, em pnico crescente de perder o emprego 
ou me sair mal na avaliao. Com o passar dos anos eu amadureci, e neste momento eu no dou a mnima. Tenho problemas maiores do que este escritrio e a minha carreira 
como advogada. 
No, risque a palavra "carreira". Carreiras so para pessoas ambiciosas. Eu quero apenas sobreviver, ter um contracheques no final do ms. Isto  um mero trabalho. 
Posso ficar ou ir embora deste lugar. Considero pedir demisso e seguir com paixo uma carreira que eu ainda no sei qual . Poderia dizer a mim mesma que, apesar 
de no ter um relacionamento significativo e intenso, tenho o meu trabalho.
Telefono para o advogado do outro escritrio e quem atende  um sujeito ponderado de uns quarenta e poucos anos, que tem um pequeno problema na fala e deve ter sido 
preterido da disputa pela vaga de scio na sua empresa. Digo a ele que nossos documentos foram entregues de maneira incorreta, que vou entreg-los em mos, mas que 
eles chegaram com um dia de atraso. Ele me interrompe com uma risada contida e simptica e diz com sua lngua presa que no tem problema, que obviamente ele no 
iria contestar a validade da notificao. Aposto que ele odeia seu trabalho tanto quanto eu. Se ele gostasse, no perdoaria esse lapso, cheio de vontade. Les festejaria 
se por acaso o outro escritrio perdesse o prazo.
Mando um e-mail para Les com apenas uma pequena frase: "O advogado da outra parte diz que no se importa em receber os papis hoje, em mos." Isso vai mostrar a 
ele que posso ser breve e grosseira como qualquer um.
Por volta de 13:30, depois de imprimir e despachar uma nova leva de papis, recebo Hillary, que vem at minha sala e pergunta se tenho planos para o almoo.
- Nenhum plano. Voc quer ir almoar?
- Quero. Ser que a gente poderia ir a algum lugar legal? Fazer uma boa refeio? Comer uma carne, ou uma comida italiana? 
Sorrio e fao que sim com a cabea, pegando minha carteira sob a mesa. Hillary seria capaz de comer muito todos os dias, mas eu no, fico muito sonolenta  tarde. 
Uma vez, depois de pedir um sanduche com pur de batata e vagem, eu realmente precisei pegar o metr e ir para casa tirar um cochilo. Quando voltei, havia seis 
mensagens de voz para mim, incluindo uma enfurecida de Les. Aquele foi o meu ltimo cochilo, a no ser que voc conte s vezes em que viro minha cadeira para a janela 
e equilibro um jornal no colo. A tcnica  infalvel - se algum entra na sala, parece que estou apenas lendo.
Penduro minha bolsa no ombro quando Kenny, do setor de correspondncias, surge na minha porta entreaberta. 
- Oi, Kenny, pode entrar.
- Ra-chelle - ele pronuncia meu nome com um sotaque francs. - Isto aqui  para voc - Ele abre um sorriso e exibe um vaso cheio de rosas vermelha. Muitas rosas. 
Mais do que uma dzia. Mais para duas dzias, embora eu no tenha contado. Ainda. 
- Puta-que-pariu! - os olhos de Hillary se arregalam. D pra ver que ela faz um esforo enorme para no pegar o carto.
- Onde devo coloc-las? - pergunta Kenny.
Abro espao sobre a minha mesa e indico para ele.
- Aqui est bom. 
Kenny faz um meneio, exagerando o peso do vaso, assobia e diz: 
- Uau, Rachel, algum est a fim de voc. 
Tento disfarar, mas no h como negar que as flores so de algum com interesses romnticos. Se no fossem vermelhas, poderia atribu-las a alguma ocasio de famlia, 
dizer a eles que aquele era algum dia especial para mim ou que meus pais souberam do erro que cometi no escritrio e estavam tentando me reconfortar. Mas estas no 
so apenas rosas, so rosas vermelhas. E abundantes. Com certeza no so de algum parente. 
Kenny vai embora depois de fazer um comentrio final sobre o preo das rosas. Tento caminhar atrs dele em direo  porta, mas no h nenhuma chance de irmos a 
qualquer lugar antes de Hillary obter todas as informaes.
- De quem so?
Dou de ombros.
- No fao a menor idia.
- Voc no vai ler o carto?
Estou com medo. As rosas devem ser do Dex... e se ele tiver assinado?  muito arriscado.
- J sei de quem so - digo.
- De quem?
- Marcus.
Ele  a nica outra possibilidade.
- Marcus? Vocs mal ficaram juntos nesse fim de semana. Que histria  essa? Voc est escondendo alguma coisa de mim?  melhor que no esteja!
Digo a ela para no falar alto, que no quero todo mundo do escritrio sabendo da minha vida.
- Est bem, ento vai, me conta. O que diz o carto? 
Ela est em ritmo de interrogatrio. Por mais que odeie o escritrio, ela  uma advogada das boas.
Sei que no posso me safar de ler o carto. Alm do mais, tambm estou louca para saber que est escrito. Arranco o envelope branco do vaso e abro bem lentamente, 
enquanto minha mente voa para inventar uma histria sobre Marcus. Deslizo o carto e mentalmente leio as duas frases: "SINTO MUITO. POR FAVOR, ME ENCONTRE HOJE A 
NOITE."  a letra de forma de Dexter, o que significa que ele foi  floricultura pessoalmente. Melhor ainda. Ele no assinou, provavelmente imaginando uma cena como 
esta. Meu corao dispara, mas tento evitar um sorriso escancarado na frente de Hillary. As rosas me emocionam. O carto me emociona ainda mais. Sei que no vou 
recusar o convite dele. Vou encontr-lo hoje a noite, embora esteja mais apavorada do que nunca de me machucar. Passo a lngua nos lbios e tento permanecer calma.
- , so do Marcus. - digo
Hillary olha fixo para mim. 
- Deixa eu ver - diz ela, tentando puxar o carto.
Tiro o carto de perto dela e enfio na bolsa.
- Diz apenas que ele est pensando em mim.
Ela pe o cabelo atrs da orelha e pergunta desconfiada:
- Vocs saram mais de uma vez? Qual  a histria toda?
Suspiro e me dirijo ao corredor, totalmente preparada para usar o pobre Marcus.
- Est bem, tivemos um encontro na semana passada sobre o qual no falei com voc - comeo enquanto caminhamos em direo ao elevador. - E, bem, ele disse que seus 
sentimentos estavam cada vez mais fortes...
- Ele disse isso?
- , alguma coisa assim.
Ela digere a informao.
- E o que foi que voc falou?
- Disse a ele que no tinha certeza de como estava me sentindo e, bem, que achava que devamos pegar leve durante o fim de semana.
Frieda, da contabilidade, corre para o elevador atrs da gente. Fico com a esperana de que Hillary guarde o interrogatrio para quando chegarmos ao trreo, mas 
no, quando a porta fecha, ela continua.
- Vocs ficaram juntos?
Fao que sim disfaradamente, de modo que Frieda, de costas para a gente, no veja. Eu teria dito no, mas rosas vermelhas fariam menos sentido ainda se no tivesse 
acontecido nada entre ns. 
- Mas vocs no dormiram juntos, dormiram?
Pelo menos isso ela fala sussurrando.
- No - respondo e depois peo com o olhar para ela ficar quieta. A porta do elevador se abre e Frieda sa apressada para seu destino.
- Ento me conta mais - Hillary pede.
- No foi nada demais. Ah, vai, Hil. Voc  implacvel!
- Bem, se voc tivesse me contado toda a histria desde o incio, eu no precisaria ser implacvel.
Ela faz cara de quem est acreditando. Pronto, me safei.
Conversamos sobre outras coisas na nossa breve caminhada at a Segunda Avenida, mas ento, quando j estamos comendo nossos fils no Palm Too ela diz:
- Lembra quando voc deixou cair quela cerveja no sbado a noite, enquanto voc e Dex estavam conversando?
- Quando? - pergunto j em pnico.
- Voc sabe, quando vocs estavam conversando e eu apareci, bem no final da noite?
- Ah , acho que sim. O que  que tem? - Fao a expresso mais neutra possvel.
- O que estava acontecendo? Por que Dex estava to chateado?
- Ele estava chateado? No me lembro - olho para o teto, testa franzida. - No acho que ele estava chateado. Por que voc est perguntando? 
Quando se est encurralada, responder uma pergunta com outra  uma ttica que sempre se pode confiar.
- Por nada. S me pareceu estranho, s isso.
- Estranho?
- No sei.  loucura...
- O qu?
-  loucura, mas... vocs pareciam um casal. 
Rio de nervoso:
- Isso  loucura! 
- Eu sei. Mas enquanto observava vocs dois conversando, pensei que voc ficaria melhor com o Dex. Voc sabe, melhor do que ele fica com a Darcy.
- Ah, que nada - digo. Mais umas risadas nervosas. - Eles ficam muito bem juntos.
-  claro. . Eles tm todo esse negcio superficial, mas alguma coisa no se encaixa - ela leva o copo d'gua at a boca enquanto me examina.
Escolheu a profisso certa, Hillary.
Digo que ela  maluca. Apesar de ter adorado o que ela acabou de me dizer. Tenho vontade de perguntar porque pensa assim. Por que ns dois somos formados em Direito? 
Por que temos algumas caractersticas em comum - mais profundidade e dignidade do que Darcy? 
Mas no digo nada, porque  sempre sbio dizer o menos possvel quando se  culpado.
Les entra em meu escritrio depois do almoo para me perguntar sobre um outro assunto relacionado ao mesmo cliente. Ao longo dos anos, percebi que essa  a sua estranha 
maneira de pedir desculpas. Ele s vem ao meu escritrio depois de uma exploso, como essa de hoje de manh.
Giro na cadeira e atualizo as informaes dele.
- Chequei todas as causas em Nova York. E as federais tambm. 
- Est bem. Mas tenha em mente que o nosso quadro factual  peculiar - diz Les. - No estou bem certo se a Corte vai dar muita importncia  precedentes. 
- Pois , mas at onde sei, o consenso em que nos baseamos na Seo I do nosso arrazoado ainda  o bom Direito. Ento esse  um bom primeiro passo.
Agora engole essa.
- Bem, certifique-se de checar tambm antecedentes judiciais em outras jurisdies - diz ele. - Precisamos antecipar todos os argumentos deles.
- Est bem - respondo.
Quando j est indo embora, ele se vira para comentar:
- Bonitas rosas.
Fico perplexa. Les e eu no jogamos conversa fora e ele nunca fez nenhum outro comentrio que no fosse a respeito do meu trabalho, nem mesmo um "Como foi o seu 
fim de semana?", numa segunda-feira de manh, ou um "Muito frio l fora?", quando subimos juntos no elevador num dia de neve.
Talvez duas dzias de rosas faam eu me tornar mais interessante. Eu estou mais interessante, penso. Esse caso com Dex me deu uma nova dimenso.

***

Estou desligando o computador, prestes a ir embora do trabalho, com planos de encontrar Dexter. Ainda no nos falamos, apenas trocamos uma srie de mensagens conciliatrias, 
incluindo uma minha agradecendo-o pelas belas flores.
Hillary aparece na minha porta antes de sair.
- Voc tambm est indo embora agora?
- Estou - digo, desejando conseguir escapar antes dela. Muitas vezes ela me pergunta se quero beber alguma coisa depois do trabalho, mesmo na segunda-feira, considerada 
por quase todo mundo como o dia de ficar em casa. No  que ela seja festeira, como Darcy, mas ela no  do tipo que fica em casa sem fazer nada.
Como era de se esperar, ela pergunta se eu no quero tomar uma margarita no Tequilaville, nosso lugar favorito perto do trabalho, apesar - ou talvez por causa- das 
batatas fritas murchas e da grande quantidade de turistas.  sempre uma escapada bem-vinda da previsvel cena de Nova York. 
Digo que no, no posso.
 claro que ela quer uma desculpa. Todas as que me ocorrem podem e vo ser refutadas por ela: estou cansada (vamos l, uma s); tenho de ir para a ginstica (chuta 
o balde!); estou tentando beber menos (um olhar sem expresso e incrdulo). Ento digo a ela que tenho um encontro. O rosto dela se ilumina.
- Ento as flores de Marky Mark funcionaram, no ?
- Voc me pegou - digo olhando para o relgio, s para garantir. 
- Onde voc est indo? Ou vai ficar em casa?
Digo a ela que vamos sair.
- Para onde?
- Nobu - digo, porque comi l recentemente. 
- Nobu numa segunda-feira  noite, ? Ele est mesmo a fim de voc. 
Me arrependo da minha escolha. Deveria ter optado pelo restaurante italiano desconhecido da vizinhana. 
- Se o encontro terminar antes das duas, me telefona e me d notcias - pede Hillary. 
- Com certeza - respondo.
Vou para casa e esqueo tudo sobre Marcus e Hillary.

***

- Muito obrigada por se encontrar comigo - diz Dex quando abro a porta. Ele veste um terno escuro e uma camisa branca. Est sem gravata, provavelmente a guardou 
dentro da pasta, que deixou ao cho, bem ao lado da minha porta. Ele est visivelmente cansado. - Achei que voc no a querer se encontrar comigo.
Nunca considerei no me encontrar com ele. Digo isso, percebendo o risco que corro. No me importo.  a verdade.
Comeamos a nos desculpar, nos aproximamos meio sem jeito, acanhados. Ele pega minha mo, aperta forte. Seu toque, ao mesmo tempo que me acalma, me energiza. 
- Sinto muito por tudo. - diz lentamente.
Fico imaginando se ele sabe que deveria sentir muito pela praia tambm, se isto est includo no "tudo". J pensei na cena vezes e mais vezes, quase sempre em tons 
de spia. Pisco, expulsando a imagem da cabea. Quero fazer as pazes. Quero seguir em frente.
- Eu tambm sinto muito - digo. Pego sua outra mo, mas ainda h muito espao entre ns. O suficiente para caber uma ou duas pessoas. 
- Voc no tem motivo para isso.
- Tenho sim. No tinha o direito de ficar com raiva de voc. Eu me comportei to mal... No amos discutir nada antes do Quatro de Julho. Esse era o acordo...
- No  justo com voc - diz ele. -  um acordo fodido.
- Estou bem do jeito que as coisas esto. - explico. Isso no  exatamente a verdade, mas tenho medo de perd-lo se pedir mais.  claro, tambm estou aterrorizada 
de ficar verdadeiramente com ele. 
- Preciso falar com voc sobre aquela tarde com Darcy - diz.
Sei que ele est se referindo ao episdio do chuveiro e no posso suportar ouvir essa histria. A cena em spia na praia  uma coisa, a cena pornogrfica em close 
e colorida  outra bem diferente. No quero nem um nico detalhe do ponto de vista dele. 
- Por favor, no - digo. Voc realmente no precisa explicar.
-  s que... quero que voc saiba que foi ela quem comeou... srio...
Eu vinha evitando aquilo h muito tempo e simplesmente no podia fugir. - Seu rosto treme, assume uma expresso desconfortvel de culpa.
- Voc no precisa explicar - digo novamente, com mais firmeza. - Ela  sua noiva.
Ele balana a cabea parecendo aliviado.
- Sabe quando vocs dois estavam na praia? - pergunto calmamente, surpresa em mencionar isso. 
- Sei - diz ele consciente, depois olha para baixo. - Quando voltei para a toalha percebi que voc estava chateada. 
- Como voc soube?
- Voc me ouviu chamar seu nome e me ignorou. Estava to fria. Gelada. Odiei aquilo.
- Desculpe.  s que voc parecia to feliz com ela. E eu me senti to... to... - luto para encontrar a palavra certa. - To obsoleta, usada.
- Voc no  obsoleta, Rachel. Penso em voc o tempo inteiro. Ontem  noite no consegui dormir. Hoje no consegui trabalhar. Voc  tudo, menos obsoleta.
A voz dele diminui at se tornar um sussurro e acabamos na posio de duas pessoas que danam uma musica lenta, meus braos em torno do pescoo dele.
- E voc precisa saber que eu no estou usando voc - diz ele no meu ouvido. Sinto arrepios.
- Eu sei - respondo junto ao ombro dele. - Mas  to estranho. Observar voc com ela. Acho que eu no deveria mais ir aos Hamptons com vocs.
- Sinto muito - diz ele outra vez. - Eu sei. Eu s queria passar um tempo com voc.
Ns nos beijamos.  um beijo suave, de bocas fechadas, nossos lbios mal se tocando. No h nenhuma conotao de desejo, sexo ou paixo.  o outro lado de um caso 
de amor, a parte que eu mais gosto.
Vamos para a minha cama. Ele senta na beira e eu cruzo as pernas ao seu lado.
- S quero que voc saiba - diz ele, olhando bem dentro dos meus olhos - que nunca faria isso se voc no fosse muito importante para mim.
- Eu sei - respondo.
- E eu estou... voc sabe... levando essa coisa toda muito  srio.
- No vamos conversar sobre isso antes do Quatro de Julho - apresso-me em dizer. - Isso era o combinado.
- Tem certeza? Por que ns podemos conversar sobre isso agora se voc quiser. 
- Tenho. Certeza absoluta.
E tenho certeza mesmo. Estou com medo de qualquer vislumbre do nosso futuro. No consigo suportar a idia de perd-lo, mas ainda preciso considerar o que representaria 
perder Darcy. Um erro enorme e irreversvel contra a minha melhor amiga. 
Ele me diz que fica assustado com o quanto significo para ele. Ser que sei o quanto significo para ele? 
Balano a cabea afirmativamente. Eu sei.
Ele me beija mais uma vez, ainda mais intensamente. Ento eu experimento verdadeiramente o meu primeiro inacreditvel sexo de reconciliao.
Na manh seguinte, Hillary me faz uma visita quando est a caminho da sua sala. Ela me pergunta como foi o encontro. Digo que foi timo. Ela se joga numa das cadeiras, 
colocando sobre a mesa uma garrafa de gua mineral e seu po com gergelim em forma de rosquinha. Hillary reclina a cadeira e bate a porta com o cotovelo. Seu rosto 
est srio.
O que acabou acontecendo foi que Marcus de fato optou pelo restaurantezinho italiano desconhecido da vizinhana. O mesmo restaurantezinho italiano desconhecido que 
por alguma razo tambm atraiu Hillary na noite passada. Uma cidade de milhes, e Marcus e Hillary a apenas duas mesas de distncia, jantando ravili em plena noite 
de segunda-feira.
Bem-vindo a Manhattan, uma ilha menor do que jamais se poderia lmagmar.
- A nica coisa sobre a qual voc no mentiu para mim - diz Hillary, apontando o dedo - que Marcus estava realmente num encontro. S que no com voc, sua bundona 
mentirosa ... embora a menina lembrasse voc em termos de boca e queixo.
- Voc est maluca?
- No, maluca no.
- O qu, ento?
- Bem, para comear, estou chocada. Nunca pensei que voc fosse capaz de me enganar assim - ela parece mesmo muito abalada pela revelao. - E tambm estou magoada 
por perceber que voc no confia em mim. Gosto de pensar em mim como sua melhor amiga, no alguma figura decorativa, um retrocesso aos tempos de segundo grau, sua 
melhor amiga hoje em dia. O que me leva a outra questo ... - ela
diz cheia de moral e depois espera que eu quebre o silncio.
Olho para o meu grampeador, depois para o meu teclado e depois para o meu grampeador novamente.
Embora tenha muitas vezes me imaginado sendo descoberta,  sempre Darcy que d o flagrante. Porque, afinal de contas, quando soltamos nossa imaginao, optamos pelo 
pior cenrio possvel, no por um cenrio mediano.  como se preocupar com a possibilidade de seu namorado ter sofrido um acidente de carro por causa de bebida - 
voc no o imagina batendo numa caixa de correio e cortando o lbio. Voc imagina
lrios ao lado de um caixo aberto.
Ento eu vi imagens de Darcy nos flagrando. No do tipo na-cama-sem-roupa-em-pleno-ato - isso  muito improvvel, especialmente num prdio com porteiro -, mas algo 
mais sutil. Darcy aparece inesperadamente e Jos a deixa subir sem tocar o interfone (lembrete mental: dizer a ele para nunca permitir isso). Atendo a porta imaginando 
que  apenas o cara que veio entregar a comida chinesa, caixas de rolinho primavera e de sopa de bolinho de carne para mim e para Dex, compreensivelmente esfomeados 
por causa de nossas escapadas (lembrete mental
nmero dois: sempre olhe antes pelo olho mgico). E ali est ela. Seus grandes olhos captando tudo. Sem palavras em seu estado de horror. Ela abandona a cena. Dex 
vai para o corredor vestindo apenas sua cueca samba-cano xadrez, gritando o nome dela, como Marlon Brando em Um bonde chamado desejo.
Prxima cena: Darcy, em meio a caixas de papelo, empacotando seus CDS com a sempre to solidria Claire oferecendo a ela lenos de papel a todo momento. Pelo menos 
Dex ficaria com os lbuns do Springsteen, at mesmo Greetings from Asbury Park, que algum deu a Darcy de presente. A maior parte dos livros tambm ficaria, j que 
Darcy quase no trouxe livros para o apartamento. Apenas alguns poucos itens vistosos para colocar sobre as mesas de centro.
Uma vez eu li - ironicamente, numa das revistas de Darcy - que uma pessoa que est tendo um caso deve se engajar num tal de exerccio de visualizao que consiga 
se imaginar sendo flagrada e depois sofrendo as terrveis conseqncias, Essas imagens deve trazer a pessoa de volta  realidade, faz-la pensar melhor, faz-la 
se dar conta do que est perdendo.  claro, o artigo pressupunha um caso movido pelo desejo incontrolvel e no era dirigido  pessoa desimpedida do triangulo, mas 
sim ao participante comprometido. Alm disso, pressupunha tambm que a terceira pessoa envolvida no fosse madrinha do casamento prestes a se realizar. As nossas 
circunstancias claramente no se encaixam no esquema tpico de adultrio. 
De qualquer modo, no sei como me sentiria se Darcy descobrisse tudo e nossa amizade terminasse. No consigo imaginar. O fato  que Darcy era 100% por fora e ela 
e Dex ainda esto bastante comprometidos. E provavelmente as coisas vo permanecer assim. Eles vo se casar e ela nunca vai descobrir a verdade.
Ser flagrada por Hillary  uma histria diferente.
- Ento? - pergunta ela.
- Ento o qu?
- Com quem voc realmente se encontrou ontem  noite? Quem realmente mandou isso para voc? - Ela aponta para as minhas rosas. 
- Uma outra pessoa.
- No me venha com essa merda.
Engulo em seco.
- Est bem, olha s, no nasci ontem. Voc se envolve numa briga com Dex no Talkhouse, os dois param de falar quando eu chego. Depois voc vai embora dos Hamptons 
bem cedo no dia seguinte, toda deprimida, mentindo sobre prazos prestes a expirar... Conheo seus prazos, Rach, e voc no tinha nada para entregar ontem. E a essas 
flores chegam.
Ela aponta para as minhas rosas, ainda em perfeito estado.
- Voc menciona o nome do Marcus, a quem ignorou todo o fim de semana. O que  estranho, mesmo que voc tenha decidido pegar leve. Ento voc me diz que tem um encontro 
com Marcus e eu o encontro sem voc, com uma outra mulher!
Ela termina a enumerao das evidencias com um sorriso jubiloso.
- Ela era bonitinha?
- A mulher?
- , a companhia do Marcus.
- Na verdade sim, ela era bem atraente. Como se voc se importasse.
Ela tem razo, no me importo.
- Agora pare de enrolar e v direto ao ponto - diz.
- Que ponto?
- Rachel!
- Realmente parece terrvel - digo, relutando em confessar.
- Rachel. Para quem voc acha que eu vou contar? Sou sua amiga, no da Darcy. Que diabos, eu nem gosto dela tanto assim...
Pego minha fita adesiva, arranco cinco centmetros e seguro entre o dedo indicador e o polegar. Por alguma razo essa  uma confisso mais difcil do que a que fiz 
para Ethan. Talvez porque seja cara a cara. Talvez porque o passado dela no tenha sido to aventureiro quanto o de Ethan.
- Est bem - Hillary tenta novamente. - Deixe-me falar por voc, simplesmente faa que sim com a cabea. - A voz dela  de uma me falando com uma filha.
Brinco nervosamente com a fita, enrolando-a em volta do meu dedo. Ela esta prestes a descobrir tudo e eu tenho duas escolhas: admitir ou negar. Admitir pode ser 
um grande alvio. Negar me foraria a fazer uma expresso indignada e responder uma saraivada de perguntas do tipo: "Como  que voc pode ter pensado isso? Voc 
est maluca?" etc. No estou bem para fingimento dessa natureza.
- Dex est traindo Darcy - diz ela - com voc.
Som de tambores.
Ergo meu queixo e olho de volta para ela. Depois balano a cabea o menos possvel, mal me mexendo.
- Eu sabia!
Penso em interromper o interrogatrio, mas na verdade eu realmente quero conversar sobre isso. Quero que ela me diga que no sou uma pessoa terrvel. Quero que ela 
discorra sobre aquela afirmao anterior de que combinaria mais com ele do que ele com Darcy. E, acima de tudo, quero apenas conversar sobre Dex.
- Quando tudo comeou?
- Na noite da minha festa.
Ela olha para o teto e balana a cabea, como se agora tudo fizesse sentido.
- Est bem, comece do comeo. No esconda nada. - Ela se instala na cadeira e morde e morde um pedao do po.
- Na primeira vez que eu dormi com ele foi um acidente.
- Na primeira vez? Voc dormiu com ele? Muitas vezes?
Dou uma olhada para ela.
- Desculpe, v em frente. Simplesmente no consigo acreditar nisso!
- Certo. Na noite da festa fomos os ltimos a sair... fomos tomar uns drinques, uma coisa levou a outra e dormimos juntos no meu apartamento. Foi um acidente. Quer 
dizer, ns estvamos bbados. Eu pelo menos estava.
- , eu me lembro, voc estava de pilequinho naquela noite.
- , eu estava. Mas o interessante  que Dex diz que no estava bbado. Esse detalhe no apenas desloca a responsabilidade para o lado dele, mas ao mesmo tempo torna 
a origem do relacionamento mais significativa.
- O qu? Ele tirou vantagem de voc?
- No, eu no quis insinuar isso... eu sabia o que estava fazendo.
- Tudo bem - ela faz um sinal para eu continuar.
Conto a ela sobre o dia seguinte, as mensagens frenticas de Darcy, nosso pnico e Dexter usando Marcus como libi. 
- Ento foi isso - concluo.
- O que voc quer dizer com "foi isso"?  claro que no foi s isso - ela d uma olhada significativa nas rosas.
- Quero dizer que foi isso por um tempo. Ns estvamos arrependidos e...
- O quanto arrependidos?
- Arrependidos, Hillary! Obviamente. - No ntimo recordo aquele primeiro dia e minha completa falta de remorso. Ento foi isso. Na minha cabea, estava tudo acabado.
- Mas no na dele, certo?
Escolho minhas palavras cuidadosamente e conto a ela sobre a ligao de Dex na segunda-feira e o que ele disse. E depois todas as coisas que aconteceram nos Hamptons. 
E sobre nosso primeiro beijo sbrio. O beijo decisivo. Ter dormido com ele verdadeiramente pela primeira vez. 
Ela d mais uma grande mordida no po.
- Ento isso ... o que? Apenas sexo? Ou voc realmente gosta dele?
- Eu realmente gosto dele - revelo.
Ela digere a informao.
- Ele vai terminar o noivado?
- Ainda no falamos disso.
- Como  que vocs podem no ter falado disso? Espere a, era por causa disso que vocs estavam brigando no Talkhouse?
Digo a ela que no estvamos exatamente brigando, mas que eu estava chateada por ele ter transado com Darcy. Por isso as rosas.
- Certo. Ento se ele lamenta por ter dormido com a noiva dele,  como se ele tivesse inclinado a terminar com ela, no ?
- No sei. Ns realmente ainda no discutimos isso.
Ela parece confusa.
- E quando vocs vo fazer isso?
- Ns dissemos que conversaramos l pelo Quatro de Julho.
- Por que essa data?
- Uma escolha arbitrria, no sei.
Ela bebe um gole d'gua. 
- Bem, voc acha que ele vai terminar com ela, certo?
- No sei. No sei nem se quero isso.
Ela me lana um olhar perplexo.
- Voc est se esquecendo de um detalhe importante da historia, Hillary. Darcy  minha amiga de anos, da vida inteira, e eu sou a madrinha dela.
Ela revira os olhos.
- Detalhes.
- Voc simplesmente no gosta dela.
- Darcy no  a pessoa de quem eu mais gosto nesse mundo, mas isso no vem ao caso.
- Na minha opinio esse  um detalhe importante. Ela  minha amiga. E, alm disso, mesmo que no fosse, mesmo que fosse uma mulher qualquer, voc no acha que eu 
teria de lidar com as conseqncias negativas de tudo isso?
Fico imaginando por que discuto contra mim mesma.
Ela se ajeita na cadeira e fala devagar.
- O mundo no  assim to preto no branco, Rachel. No h uma moral absoluta. Se voc tivesse dormido com Dex s de farra, ento talvez eu me preocupasse com as 
conseqncias negativas. Mas voc tem sentimentos por ele. Isso no faz de voc uma pessoa m.
Tento memorizar a fala dela. No h uma moral absoluta. Isso  bom.
- Se a situao fosse inversa - continua ela -, Darcy faria a mesma coisa sem pestanejar.
- Voc acha? - pergunto, considerando a idia.
- Voc no?
- Talvez voc tenha razo - digo. Afinal, Darcy tradicionalmente leva a melhor. As coisas sempre foram assim.
At agora.
Hillary sorri e faz que sim com a cabea.
- Vai fundo.
Mais ou menos a mesma coisa que Ethan disse. So dois votos para mim e nenhum para Darcy.
- Vou continuar me encontrando com ele o mximo que puder. Vamos ver o que acontece - digo, percebendo que "ver o que acontece"  a minha verso para "ir fundo".

DOZE

Darcy e eu estamos no avio com destino a Indianpolis, para o ch de-beb de Annalise, e eu estou imprensada no pavoroso assento do meio. Darcy tinha ficado com 
o do meio, mas  claro que brigou pelo meu lugar na janela alegando que se no pudesse olhar para fora ficaria enjoada. Quis dizer a ela que o princpio das viagens 
de carro no se aplica aos avies, mas nem me dei o trabalho, apenas me rendi s exigncias dela. Em outros tempos eu teria feito isso sem notar, mas agora fico 
ressentida. Penso em Ethan e Hillarye em suas recentes declaraes sobre Darcy. Ela  egosta, total e simplesmente. E essa  a verdade, independente dos meus sentimentos 
pelo Dex.
Um homem de uns quarenta e tantos anos, com o cabelo cortado bem curtinho, sentou na poltrona do corredor  minha esquerda. O tal sujeito grudou toda a extenso 
e largura de seu antebrao direito no descanso de brao entre ns dois, do cotovelo at a ponta do dedo. Para no perder o espao, ele bebe e vira as pginas de 
sua revista com a mo esquerda.
O piloto anuncia que o cu est limpo e que vamos pousar antes do horrio previsto. Darcy anuncia que est entediada. Ela  a nica pessoa que eu conheo que tem 
mais de 12 anos e diz com bastante regularidade que est entediada.
Olho por cima do meu livro.
- Voc j leu a coluna da Martha Stewart sobre casamentos?
- De ponta a ponta. No h nada de novo l. E, a propsito,  voc quem deveria estar lendo a revista. H uma matria sobre lembrancinhas. Voc prometeu que iria 
me ajudar a pensar numa idia original para lembrancinhas - diz ela, enquanto reclina o banco para trs e depois de volta  mesma posio.
- Que tal fsforos?
- Voc disse original! - Darcy cruza os braos. - Todo mundo oferece fsforos! Isso j est muito batido. Preciso de uma lembrancinha apropriada.
- O que a Martha sugere? - pergunto, marcando com o polegar onde parei a leitura do meu romance. 
- Num sei,  difcil. D muito trabalho - ela olha para mim com cara de vtima. - Voc tem de ajudar! Voc sabe que no tenho jeito para essas coisas artesanais.
-Nem eu.
- Voc  melhor do que eu.
Volto para o livro fingindo estar absorvida pela histria. Ela suspira e mastiga seu chiclete com mais vigor. E como isso no funciona, bate na lombada do meu livro.
- Raa-chel!
- Tudo bem, tudo bem!
Ela ri, sem a menor vergonha do que fez, como uma criana que no se importa em infernizar a vida da me, que s se preocupa em conseguir o que quer.
- Ento voc acha que deveramos fazer alguma coisa com d?
- "D"? - pergunto, me fazendo de boba.
- Voc sabe, um d... de Dex e Darcy. Ou isso  cafona?
-  cafona, sim - digo, e diria isso mesmo antes dos dias de DeR.
- Certo, ento o qu?
Ela checa as calorias do seu lanche antes de guard-l o no compartimento
s costas do banco da frente.
- Bem, voc pode optar pelas amndoas aucaradas, com fitas em tons pastis na embalagem ... ou balas de menta em uma latinha com a data do seu casamento - digo, 
enquanto tento exercer uma leve presso com meu cotovelo esquerdo, tentando abrir uma minscula fenda no meu descanso de brao. Em minha viso perifrica, noto o 
Cabelo  Escovinha flexionar o bceps em sinal de resistncia. - Tem tambm a opo de lembrancinhas permanentes, como os enfeites para rvores de Natal...
- No d. Temos muitos convidados judeus e... honestamente, acho que algumas pessoas que celebram o Kwanza - ela interrompe, orgulhosa da diversidade de sua lista 
de convidados.
- Tudo bem. Mas voc entendeu. Aquele gnero. Lembranas permanentes: enfeites, CDS caseiros com suas msicas favoritas.
Ela fica empertigada.
- Gosto da idia do CD! Mas isso no seria muito caro?
Olho para ela como se dissesse: "Tem razo, mas voc merece." Ela morde a isca.
- Mas o que so mais cem dlares no oramento geral, certo? - pergunta ela.
Tenho certeza de que os pais dela adorariam essa afirmao.
- Certo - defendo.
- Ento poderamos criar a Trilha Sonora Darcy e Dex e colocar nossas msicas favoritas de todos os tempos - diz ela.
Fao uma careta.
- Tem certeza de que no  cafona? Fala a verdade.
- No, eu gosto, eu gosto - quero mudar de assunto, mas fico preocupada que isso d incio a uma discusso sobre minhas deficincias como madrinha. Ento, em vez 
disso, fao uma pose pensativa e digo que, embora CDS sejam trabalhosos e caros, dariam uma lembrana especial e adorvel. Ento pergunto se ela acha que Dex gostaria 
da idia.
Ela olha para mim como se dissesse: "Quem se importa com o que Dex quer? Os noivos no importam."
- Est bem, agora me ajude a pensar em algumas msicas.
Ouo Shania Twain cantando "Whose Bed Have Your Boots Been Under?", ou talvez Diana Ross soltando a voz em "Stop! ln the Name of Love!".No, tudo errado, penso. 
Essas duas msicas colocam Darcy no papel da vtima digna de pena.
- No consigo pensar numa msica, me deu um branco. Vai, me ajuda a pensar - diz Darcy, a caneta a postos sobre o guardanapo. Talvez alguma coisa do Prince, do Van 
Halen?
- Tambm no consigo pensar em nenhuma - digo, na esperana de que Bruce Springsteen no seja includo.
- Tem certeza de que no  cafona? - indaga ela.
- No  cafona - respondo. Em seguida sussurro: - Este cara aqui do meu lado est me irritando. Ele no deixou nem uma pontinha do descanso de brao para mim. - 
Viro para reparar no perfil satisfeito do Cabelo  Escovinha.
- Com licena, senhor. - Darcy se debrua sobre mim e cutuca o brao dele. Uma, duas, trs vezes. - Senhor, senhor! Ele lana um olhar de desprezo na direo dela.
- Ser que o senhor poderia dividir o descanso de brao com a minha amiga aqui? - Ela oferece seu sorriso mais sedutor.
Ele move o brao um centmetro, eu resmungo um agradecimento.
- Est vendo? - Darcy me pergunta toda orgulhosa.
Esse  o momento em que ela espera que eu fique maravilhada com o modo como ela se relaciona com os homens.
- Voc apenas precisa saber como pedir aquilo que quer - sussurra ela. Minha conselheira em assuntos sobre o sexo masculino.
Penso no Dex e em Quatro de Julho.
- Talvez eu devesse experimentar isso - digo.


Logo aps a aterrissagem, meus pais me ligam no celular para confirmar se o pai de Darcy nos buscou e perguntar se comi no avio. Digo a eles que sim, o senhor Rhone 
apareceu, e no, h mais ou menos uns dez anos pararam de servir jantar no vo de Nova York para Indianpolis.
Quando chegamos  nossa rua sem sada, vejo meu pai esperando por mim na entrada da nossa casa de dois andares com acabamento em alumnio branco e venezianas verdes. 
Ele est vestindo uma camisa xadrez pssego e cinza de manga curta e uma cala Dockers cinza combinando. Trata-se, sem dvida, de um "traje", e tem a assinatura 
da minha me em todo ele. Agradeo ao senhor Rhone pela carona e digo a Darcy que telefono mais tarde. Fico aliviada que ela no tenha pedido para jantarmos todos 
juntos. J falei o suficiente sobre casamentos e sei que a senhora Rhone  incapaz de discutir sobre outro assunto.
Enquanto cruzo o jardim de Darcy em direo ao meu, meu pai ergue o brao e acena como se estivesse se comunicando com um navio distante.
- Ol, doutora! - grita ele, sorrindo. A novidade de ter uma filha advogada ainda no se esgotou.
- Oi, pai! - Dou um beijo nele e depois na minha me, ao lado dele, j de olho em possveis sinais de anorexia, o que  ridculo. Estou longe de ser magra demais, 
mas minha me no aceita a definio nova iorquina de magra.
Enquanto respondo s perguntas deles sobre o vo, noto que o papel de parede do corredor mudou. J tinha aconselhado minha me sobre papis de parede. Disse a ela 
que tinta era melhor para um visual mais moderno. Mas ela insiste no papel de parede, trocando de estampas florais bem midas para estampas florais ainda menores. 
O gosto dos meus pais no evolui desde a poca em que Ronald Regan levou um tiro.
Nossa casa ainda tem muito do estilo interiorano: expresses de boas-vindas bordadas em ponto de cruz dizendo coisas como ''Amigos que entram pela porta dos fundos 
so os melhores", uma srie de vaquinhas de madeira, porquinhos, abacaxis e pinturas por toda parte.
- Bonito papel de parede - digo, tentando soar sincera.
Minha me no engole essa.
- Sei que voc no gosta de papel de parede, mas seu pai e eu gostamos - diz ela, me levando para a cozinha. - E somos ns que moramos aqui.
- Nunca disse que gostava de papel de parede - meu pai fala piscando para mim.
Ela lana a ele o olhar de irritao de sempre.
- Certamente disse, John.
Ento ela me cochicha, com a inteno de que meu pai oua, que, na verdade, foi ele mesmo quem escolheu o novo papel. 
Ele faz para mim uma expresso de "quem, eu?".
Eles nunca se cansam desse showzinho. Ela faz o papel da lder destemida enquadrando o marido desregrado, o tolo boa-praa. Embora tenha passado a maior parte da 
minha adolescncia irritada com a monotonia disso, especialmente quando tinha amigos em casa, recentemente passei a apreciar o estilo. H algo de reconfortante na 
mesmice da interao deles. Tenho orgulho de que eles tenham permanecido juntos, quando tantos pais de amigos meus se divorciaram, casaram mais uma vez e juntaram 
duas famlias em uma com variados nveis de sucesso. 
Minha me aponta para um prato de queijo cheddar, cream-cracker e uvas vermelhas.
- Coma - diz ela.
- Estas daqui tm semente? - pergunto. Uvas com semente simplesmente no valem o esforo.
- No, no tm - responde minha me. - Agora, ser que eu cozinho qualquer coisa ou vocs preferem pedir uma pizza?
Ela sabe que prefiro pizza. Em primeiro lugar adoro a pizza do Sal e s posso comer quando venho visit-Ios. Em segundo lugar, "qualquer coisa"  uma descrio precisa 
da cozinha da minha me - sua definio de tempero  sal e pimenta, e a de receita  sopa de tomate e creamcrakers. Nada me d tanto medo como a imagem da minha 
me amarrando o avental.
- Pizza - responde meu pai por ns. - Queremos pizza!
Minha me tira um cupom do Sal que est pregado na geladeira e liga pedindo uma pizza grande de calabresa com cogumelos. Ela cobre o bocal do telefone.
-  isso, Rachel?
Fao sinal de positivo com o polegar. Ela sorri, orgulhosa de ter se lembrado da minha combinao favorita.
Antes mesmo de desligar o telefone, ela j est perguntando sobre minha vida amorosa. Como se todos os meus telefonemas anteriores fossem apenas um estratagema e 
eu estivesse guardando a verdade para este momento. Meu pai cobre os ouvidos se fingindo de envergonhado. Dou a eles um sorriso com os lbios apertados, pensando 
que esse interrogatrio  a nica parte chata de voltar para casa. Sinto que sou uma decepo. Eu os decepciono. Sou filha nica, a nica chance de terem netos. 
A matemtica  simples: se eu no tiver filhos nos prximos cinco anos,  pouco provvel que eles vejam seus netos se formando na faculdade. Nada como uma pressozinha 
a mais para uma busca j to estressante.
- Nenhum rapaz em vista? - pergunta minha me, enquanto meu pai procura cortar a fatia ideal de queijo. Os olhos dela esto arregalados, esperanosos. O interrogatrio 
pode parecer insensvel, mas ela realmente acredita que tenho uma dzia de opes, que a nica coisa que me impede de lhe dar netos  minha prpria neurose. Ela 
no entende que o amor correspondido simples e direto que ela sente pelo meu pai no  to fcil de encontrar.
- No - respondo baixando meus olhos. - Vou dizer a vocs,  mais difcil encontrar um cara legal em Nova York do que em qualquer outro lugar. - Trata-se do clich 
da vida de solteiro em Manhattan, mas  verdade.
- Sei - diz meu pai, balanando a cabea com sinceridade. - Muita gente ocupada com a correria do dia-a-dia. Talvez voc devesse voltar para casa. Pelo menos se 
mudar para Chicago. Uma cidade mais limpa. Chicago tem alamedas, voc sabe. - Todas as vezes que meu pai visita Nova York ele volta ao assunto da falta de alamedas 
na cidade.
Por que algum faria uma cidade sem elas?
Minha me concorda.
- Todo mundo nos arredores da cidade  casado e tem filhos. Ela no pode voltar.
- Ela pode, se quiser - retruca meu pai com a boca cheia de creamcrackers.
- Bem, ela no quer - diz minha me. - Quer, Rachel?
- No - respondo me desculpando. - Por enquanto eu gosto de Nova York.
Meu pai franze o rosto como se dissesse: "Bem, ento no h soluo." Um silncio toma conta da cozinha. Meus pais trocam um olhar pesaroso.
- Bem, tem mais ou menos uma pessoa... - deixo escapar, apenas para alegr-los um pouco. Eles se animam, endireitam-se na cadeira.
-  mesmo? Eu sabia! - Minha me aplaude toda animada.
- , ele  um cara bem legal. Bem inteligente.
- Aposto que  bonito tambm - diz ela.
- O que ele faz? - interrompe meu pai. - A aparncia dele no vem ao caso.
- Ele trabalha com marketing. Finanas - digo. No tenho certeza se estou falando de Marcus ou de Dex. - Mas...
- Mas o qu? - pergunta minha me.
- Mas ele acabou de sair de um relacionamento, ento talvez o momento no seja perfeito.
- Nada  perfeito - diz ela. - Depende de como voc encara.
Balano a cabea afirmativamente, com uma expresso sria, pensando que ela deveria bordar em ponto de cruz esse pedacinho de sabedoria e pendurar sobre a minha 
cama de solteira l em cima.


- Numa escala de um a dez, quanto voc teme esse ch-de-beb? Darcy me pergunta no dia seguinte enquanto dirigimos para o ch-de beb de Annalise, no Camry 86 da 
minha me, o carro com o qual aprendi a dirigir. - Dez  o desespero total, o tipo de desespero do dia do Juzo Final. Um  mal posso esperar, vai ser realmente 
divertido.
- Seis - respondo.
Darcy diz "hum" como quem j entendeu tudo e ento abre seu espelhinho para checar o batom.
- Para falar a verdade, achei que seria mais alto.
- Por qu? Quanto voc teme?
Ela fecha o espelho, examina seu anel de 2,3 quilates e diz:
- Hum ... no sei... quatro e meio.
Ohhh, j entendi, penso. Tenho mais razes para temer o ch-de-beb.
Sou eu quem vai entrar numa sala cheia de mulheres casadas e grvidas - muitas das quais colegas de segundo grau - sem nem ao menos ter um namorado. Apenas uma de 
ns tem trinta anos e est totalmente sozinha, uma combinao trgica em qualquer rea residencial familiar.  isso o que Darcy est pensando. Mas fao com que ela 
diga, pergunto por que ela supe que temo o ch-de-beb por um ponto e meio a mais.
Sem o menor acanhamento e sem pensar duas vezes para escolher palavras cuidadosas, ela me responde.
- Porque voc  solteira.
No tiro os olhos do caminho, mas percebo que ela est me observando.
- Voc ficou com raiva? Eu disse alguma coisa errada?
Fao que no com a cabea, ligo o rdio. Lionel Richie est gemendo numa das estaes de rdio preferidas da minha me.
Darcy diminui o volume.
- No disse que isso era ruim. Quer dizer, voc sabe que valorizo muito a condio de solteira. Nunca quis me casar antes dos 33. Estou falando delas. Elas so to 
bitoladas, voc entende?
Ela s piorou as coisas ao negar essa idia louca de noivado, ao dizer que preferiria mais uns trs anos como solteira. Mas, de repente, sem mais nem menos, a coisa 
simplesmente caiu no colo dela. O que mais ela poderia fazer?
- Elas so to bitoladas que nem percebem - continua Darcy.
 claro que ela est certa. Esse grupo de garotas, do qual Annalise faz parte desde que saiu da universidade, vive como as mulheres nos anos 1950. Elas escolheram 
os desenhos de suas louas antes de completarem 22 anos, casaram com o primeiro namorado, compraram casas de trs quartos a poucos quilmetros, se no a poucos quarteires, 
da casa dos pais, e passaram a se dedicar  atividade de estabelecer uma famlia.
-  - resmungo.
-  isso o que eu quero dizer - explica ela, inocente. - E bem l no fundo, elas tm inveja de voc. Voc  uma advogada importante, de um escritrio de uma grande 
cidade.
Retruco que isso  maluquice - nenhuma dessas garotas deseja uma carreira como a minha. Na verdade, a maioria delas nem trabalha.
- Bem, no  apenas a carreira. Voc  livre e solteira. Quer dizer, elas vem Sex and the Citr. Elas sabem como  a sua vida.  glamourosa, com muita diverso, 
caras atraentes, coquetis  base de vodca, emoo! Mas elas no vo deixar que voc veja o lado inseguro delas. Porque faria a vida delas parecer pattica, entende? 
- Darcy sorri, satisfeita com sua conversinha para levantar o moral. - , sua vida  totalmente Sex and the City.
-  verdade. Sou bem parecida com a Carrie Bradshaw - respondo categrica.
Com exceo dos sapatos maravilhosos, o corpo incrvel e uma melhor amiga bastante compreensiva.
- Exatamente! - diz ela. - Assim  que se fala.
- Olha, no me importo com o que elas estejam pensando - digo, sabendo que isso  verdade apenas em parte. S me importo com a minha conscincia. E uma parte de 
mim acredita que ter trinta anos e estar sozinha  triste. Mesmo com um bom trabalho. Mesmo em Manhattan.
- timo - diz ela, batendo nas coxas com entusiasmo. - timo. Esse  o esprito.
Chegamos bem na hora  casa de Jessica Pell- uma amiga menos importante dos tempos do segundo grau. Darcy olha o relgio e insiste para darmos uma voltinha pelas 
redondezas e assim chegarmos um pouco atrasadas, como fazem as pessoas modernas.
Digo que no  necessrio ser moderna e chegar atrasada a um ch de beb, mas acabo concordando e, a pedido dela, vamos at o drive through do McDonald's. Ela se 
debrua sobre mim e grita no microfone que adoraria uma Pepsi diet pequena. Sei que ela sabe que o McDonald's tem Coca, e no Pepsi. Ela j me disse uma vez que 
gosta de test-los, ver se vo perguntar. Que o pessoal da Pepsi sempre pergunta quando se pede uma Coca, mas que o pessoal da Coca nem sempre faz o mesmo. 
Acontece que para ela esta  uma oportunidade de sacudir um pouco as coisas, interagir. A periferia espinhenta encontra com a top model da cidade.
-  Coca light, tudo bem? - pergunta o garoto com uma voz preguiosa.
- Se no tem outro jeito - diz ela com uma risadinha compreensiva.
Ela termina o refrigerante quando chegamos  casa de Jessica.
- Bem, no tem jeito, l vamos ns - diz ela, afofando o cabelo, como se ela fosse a estrela do ch-de-beb, e no Annalise e o filho por nascer.
Quando chegamos, as outras convidadas j esto reunidas na sala de Jessica, pintada em tons de azul e amarelo. Annalise grita, vem bamboleando em nossa direo e 
nos rene num abrao grupal. Apesar da pouca afinidade, ainda somos suas melhores amigas. E est claro que somos as convidadas de honra, um papel com o qual no 
me sinto  vontade, mas que Darcy desempenha com todo o prazer.
- Que bom ver vocs, meninas! Muito obrigada por virem! - diz Annalise. - Vocs duas esto incrveis. Incrveis. Sempre que voltam esto ainda mais cheias de estilo.
- Voc tambm est tima - retribuo. - Fica muito bem grvida, fica com aquele brilho.
Como acontece na casa dos meus pais, Annalise resiste s mudanas. Ela ainda tem o mesmo penteado - na altura do ombro com uma franja enrolada para dentro. Isso 
foi moda nos anos 1980, horrvel l pela metade dos anos 1990 e, por pura sorte, ligeiramente menos horrvel hoje em dia. At passa como um corte num estilo maternal 
E seu rosto, sempre redondo como um caqui, no  mais gordinho, apenas faz parte do pacote da gravidez. Ela  o tipo de grvida para quem as pessoas no metr cedem 
o lugar com prazer.
Darcy passa a mo esquerda, enfeitada com o anel de noivado, na barriga de Annalise. A luz bate no brilhante e o reflexo vai direto no meu rosto.
- Oh, meu Deus - Darcy fala toda meiga. - Tem uma pessoinha nua a dentro!
Annalise ri e diz:
- Bem,  verdade, essa  uma forma de ver a coisa!
Ela nos apresenta a algumas convidadas, colegas professoras, orientadoras da escola onde ela d aula e outras amigas da vizinhana.
- E,  claro, o resto vocs j conhecem!
Trocamos abraos com Jess e outras amigas do segundo grau. Vemos Brit Miller (que descaradamente venerava e imitava Darcy nos tempos da escola).Tricia Salerno. Jennifer 
McGowan. Kim Frisby.
Com exceo de Kim, que era uma chefe de torcida animadssima e, milagrosamente, tambm aluna das turmas adiantadas de cincias e matemtica, nenhuma das meninas 
era particularmente inteligente, interessante ou popular no colgio. Mas como esposas e mes, a mediocridade delas no importa mais.
Kim desliza no sof e me oferece um lugar ao seu lado. Pergunto a ela como Jeff (que tambm se formou na nossa turma e jogava beisebol com Brandon e Blaine) e os 
meninos esto. Ela diz que esto todos timos: Jeff acabou de ser promovido, o que foi maravilhoso, eles esto comprando uma casa nova, os meninos so simplesmente 
perfeitos.
- O que  mesmo que o Jeff faz? - pergunto.
Ela responde que ele trabalha com vendas.
- E vocs tm gmeos, certo?
- , meninos, Stanley e Brick.
- Voc trouxe fotos deles? - fao a pergunta inevitvel.
- Sim, na verdade eu trouxe - diz Kim, sacando um pequeno lbum com uma capa em que se l "Livro da corujice'~ com letras em relevo, bem grandes e roxas. Sorrio, 
folheando, parando pelo tempo necessrio antes de passar  pgina seguinte. Brick na banheira. Stanley com uma bola de beisebol. Brick com vov e vov Brick.
- Nossa, eles so lindos - digo fechando o lbum e entregando de volta a ela.
- Ns tambm achamos - diz Kim, balanando a cabea e sorrindo.
- Tentaremos mant-Ios assim.
Enquanto ela guarda o lbum na bolsa, ouo Darcy contando a histria do seu noivado para Jennifer e Tricia.
Brit fica atiando.
- Conta a ela sobre as rosas - sugere.
Tinha me esquecido das rosas, talvez bloqueado a lembrana desde que ganhei as minhas.
- , uma dzia de rosas vermelhas - conta Darcy. - J estavam  minha espera no apartamento depois que ele fez o pedido.
No duas dzias.
- Onde ele fez o pedido? - Tricia quer saber.
- Bem, ns samos para um almoo bem gostoso e depois ele sugeriu
que fssemos andar pelo Central Park. ..
- Voc suspeitava disso? - duas das meninas perguntaram ao mesmo tempo.
- No mesmo ...
Isso  mentira.
Lembro que dois dias antes de Dex fazer o pedido ela me contou que sabia que isso iria acontecer. Mas admitir o fato seria banalizar sua historinha, alm de diminuir 
sua imagem de "desejada".
- O que ele disse ento? - pergunta Brit.
- Voc j conhece a histria! - Darcy ri. Ela e Brit se falam de vez em quando por conta de um empenho de Brit. O fascnio dela por sua herona de adolescncia nunca 
diminuiu.
- Conta de novo! - pede Brit. - A histria do meu noivado  to sem graa... eu mesma escolhi o anel no shopping. Tenho de viv-la indiretamente atravs de voc.
Darcy arma sua expresso de falsa modstia.
- Ele disse: "Darcy, no consigo pensar em nada que me fizesse mais feliz do que ter voc como esposa."
A no ser ficar com a sua melhor amiga.
- Ento ele completou: "Compartilhe sua vida comigo."
E compartilhe sua melhor amiga comigo.
Um coro de oohs e ahhs se seguiu. Sei que ela est floreando a histria e que ele apenas proferiu o tradicional: "Quer casar comigo?"
- Tira o seu anel - clama Brit. - Quero experimentar. Kim diz que no d sorte tirar o anel durante o noivado.
Tira!
Darcy d de ombros para demonstrar que seu esprito livre ainda est intacto. Ou talvez para salientar que quando se trata de Darcy Rhone no  preciso contar com 
a sorte. Ela escorrega o anel dos dedos e passa pelo crculo de mulheres impacientes. O anel pra na minha mo.
- Experimenta, Rach - pede Brit.
 uma brincadeira divertida das moas casadas. Fazer a solteira experimentar o anel de brilhante de forma que ela possa, nem que por um momento, se aproximar um 
pouco da euforia desconhecida do noivado. Fao que no com a cabea, educadamente, como se recusasse repetir um prato.
- No, obrigada - respondo.
- Rachel, alguma coisa em vista? - pergunta Tricia hesitante, como algum que deseja saber o resultado de uma tomografia computadorizada. 
Estou pronta para responder um no bem firme, quando Darcy responde por mim.
- Toneladas - diz ela. - Mas nenhum cara especial Rachel  muito exigente.
Ela est tentando ajudar. Mas de alguma forma isso tem o efeito inverso e eu me sinto desabrochando como solteirona. Alm do mais, no consigo deixar de pensar que 
ela s est sendo caridosa porque eu obviamente pareo a estranha do grupo, a perdedora. Se eu estivesse com o Brad Pitt, no haveria jeito de Darcy sair em minha 
defesa. Ela estaria se roendo num canto, com seu instinto de competitividade exacerbado, dizendo a Brit no banheiro que sim, Brad  Brad, mas Dex  to mais gatinho 
... s um pouquinho menos bonito.  claro, com isso eu concordaria.
- No diria que sou to exigente assim - retruco sem parecer muito preocupada.
Apenas sozinha, sem esperanas e tendo um caso com o futuro marido de Darcy. . Mas vocs por acaso j se deram conta de que eu me formei numa das dez maiores faculdades 
de Direito e ganho um salrio de seis dgitos? E que no preciso de um homem, porra! Mas quando encontrar um e tiver um beb, certamente vou escolher um nome melhor 
que Brick!
-  sim, voc  exigente - diz Darcy no apenas para mim, mas tambm para sua audincia. Ela toma um gole de ponche. - Tome Marcus como exemplo.
- Quem  Marcus? - pergunta Kim.
- Marcus  um cara que estudou na Georgetown com Dex. Legal, inteligente, engraado - Darcy conta, gesticulando bastante -, mas Rachel no d a menor bola para ele.
Se Darcy continuar, elas vo comear a achar que sou lsbica. O que me transformaria num verdadeiro show de horrores aos olhos de todas. A idia que elas tm de 
diversidade  a de algum que freqentou uma universidade de outro estado e no participou de uma fraternidade estudantil.
- O qu? No rola uma qumica entre vocs? - pergunta Kim, compreensiva.
- O casal precisa ter qumica. Jeff e eu tivemos uma qumica incrvel no segundo grau e isso nunca mudou.
- Certo - digo. - Precisa rolar uma qumica.
- Com certeza - murmura Brit.
O conselho unnime: no se acomode. Continue procurando. Encontre o cara certo. Foi o que todas elas fizeram. E, meu Deus, acho que acreditam nisso. Porque ningum 
que se case na madura idade de 23 anos est se acomodando.  claro. Isso  um fenmeno que s acontece com as mulheres l pelos seus trinta anos.
- E ento? J escolheu o nome do beb? - pergunto a Annalise, desesperada para mudar de assunto. Sei que ela pensa em Hanna ou Grace se tiver uma menina, e em Michael 
ou David se for um menino. Nomes saudveis, clssicos, consistentes. E no so muito pretensiosos.
- J - Annalise diz -, mas no vamos contar. - Ela pisca para mim. Sei que vai me dizer mais tarde, assim que chegar  lista de finalistas. Estou a salvo. Sou a 
amiga que nunca vai, que nunca poder roubar os seus nomes para bebs
Minha especialidade  roubar noivos.
Depois de algumas brincadeiras bobas tpicas de chs-de-beb, Annalise abre seus presentes. H muitas roupas amarelas porque ela ainda no sabe o sexo da criana. 
No h presentes cor-de-rosa, a no ser um cofrinho em forma de coelhinho, cortesia de Darcy, que diz ter certeza de que Annalise vai ter uma menina, porque ela 
tem timas intuies sobre gravidez. D para perceber o quanto Annalise espera que Darcy tenha razo.
- Alm do mais - Darcy diz -, mesmo que eu esteja errada, e eu no estou, vocs sabiam que na virada do sculo rosa era para meninos e azul para as meninas?
Todas dizemos que no. Fico imaginando se ela inventou essa histria.
Chega a hora de Annalise abrir meu presente. Ela abre o carto, murmurando para si mesma. Seus olhos se enchem de lgrimas enquanto ela l minhas palavras: que ela 
vai ser a me mais maravilhosa e que eu no vejo a hora de assistir a tudo isso. Ela me chama para junto dela, como fez com as outras meninas, e me d um grande 
abrao.
- Obrigada, querida - sussurra. - Isso foi to legal.
Ento abre o presente, uma manta de cashmere bem clarinha, cor de creme, com uma borda de ursinhos. Gastei uma fortuna nisso, mas fico satisfeita de ter feito a 
extravagncia ao observar a expresso de Annalise.
Ela fica sem flego enquanto desdobra a manta, aperta-a junto ao rosto e me diz que  perfeita, que vai usar quando trouxer o beb do hospital para casa.
- Quero voltar para o nascimento dela! - declara Darcy. - Espero no estar em lua-de-mel!
No sei se Darcy faz isso de propsito ou se  simplesmente o jeito dela, o fato  que no consegue evitar: est sempre se intrometendo em todos os momentos. Geralmente 
eu no me importo, mas depois de meses tentando encontrar o presente perfeito para a minha segunda melhor amiga, gostaria que ela calasse a boca e parasse de chamar 
ateno por pelo menos uma frao de segundo.
Sempre diplomtica, Annalise sorri rapidamente para Darcy e retoma a ateno para mim e o presente. Ela deixa que todas olhem a manta, to adorvel, to macia. Pelo 
menos  isso o que elas falam. Mas alguma coisa me diz que esto todas pensando: Nada mal para uma advogada com instintos maternais questionveis.

TREZE

Em casa, minha me me acompanha at a sala e me bombardeia com perguntas. Ofereo os detalhes mais importantes, mas ela  insacivel. Quer saber todos os pormenores 
individuais, os presentes, as conversas. Tenho um flashback dos tempos da escola, quando voltava para casa exausta de um dia de presses acadmicas e sociais e ela 
me perguntando sobre o desempenho de Ethan num debate, sobre o teste de Darcy para lder de torcida, ou sobre o que tnhamos falado na aula de ingls. Quando eu 
no estava muito a fim de cooperar, ela resmungava sobre seu trabalho num consultrio dentrio, ou sobre uma grosseria dita num programa de TV, ou ainda sobre seu 
encontro com a minha professora da terceira srie no supermercado. Minha me  um livro aberto e tagarela que espera que todo mundo seja exatamente igual a ela, 
especialmente sua filha nica.
Ela termina o interrogatrio sobre o ch-de-beb e passa para - o que mais? - o casamento.
- E a? Darcy j escolheu o vu? - Ela ajeita uma pilha de revistas na mesa de centro, esperando uma resposta detalhada.
-Sim.
Ela chega mais perto de mim no sof.
-Longo?
- At mais ou menos a metade do vestido.
Ela bate palmas animada.
- Oh, vai ficar lindo nela.
Minha me  e sempre foi uma grande f de Darcy. No fazia sentido na poca da escola, j que Darcy nunca valorizou os estudos e provocava um certo delrio pouco 
saudvel nos meninos. Mesmo assim, minha me simplesmente amava Darcy, talvez porque Darcy a suprisse com detalhes da nossa vida que ela tanto desejava saber. Ultrapassando 
as rotineiras cordialidades com que tratvamos os pais das amigas Darcy conversava com minha me como uma colega. Ela vinha depois da escola, encostava na bancada 
da cozinha e comia os biscoitos que minha me oferecia, enquanto falava sem parar. Darcy contava a ela sobre os meninos de quem ela gostava e das vantagens e desvantagens 
de cada um. Ela dizia coisas como: "Os lbios dele so muito finos, garanto que no sabe beijar." Minha me ficava maravilhada e a provocava ainda mais. Darcy continuava 
falando, enquanto eu saa da cozinha para comear meu dever de geometria. Agora me diga, o que est errado nesse quadro?
Lembro de uma vez, na stima srie, quando me recusei a participar do show anual de talentos, apesar de Darcy ter incessantemente me infernizado para ser uma das 
suas danarinas de apoio, numa verso nada convencional de "Material Girl".Apesar da prpria timidez, Annalise cedeu logo, mas eu me recusei. No me importei que 
Darcy precisasse de trs meninas para sua coreografia, nem mesmo quando ela disse que eu
estava arruinando suas chances de ganhar o primeiro prmio. Eu geralmente deixava Darcy me convencer, mas no daquela vez. Disse a ela para no gastar saliva, eu 
no tinha a menor inteno de algum dia colocar os ps num palco. Depois que Darcy finalmente desistiu e convidou Brit para ficar no meu lugar, minha me me passou 
o maior sermo porque achava que eu devia me envolver mais com esse tipo de atividades.
- Um boletim nota dez no  suficiente para voc? - perguntei.
- Eu s quero que voc se divirta, querida - ela respondeu.
Sa bruscamente da sala dizendo:
- Voc quer que eu seja a Darcy!
Ela me disse para deixar de ser ridcula, mas parte de mim acreditava naquilo. Agora eu me sinto da mesma maneira.
- Me, sem querer ofender voc ou a segunda filha que voc nunca teve, mas...
- Ah, no comea com esses absurdos! - ela ajeita o cabelo louro-acinzentado que h mais de vinte anos vem tingindo.
- Est bem - digo -, mas  srio, estou por aqui com o casamento da Darcy. - Ponho minha mo dez centmetros acima da cabea e depois a levanto ainda mais.
- Isso no  jeito de uma madrinha se comportar - ela contrai os lbios e aponta o dedo indicador na minha direo.
Dou de ombros.
Minha me ri,  a me boa-praa, que se recusa a levar a nica filha a srio.
- Bem. Eu devia ter adivinhado que Darcy daria um trabalho como noiva. Tenho certeza de que ela quer que tudo fique perfeito...
- , ela merece - digo sarcstica.
- Bem, ela realmente merece - minha me diz. - E voc tambm... sua hora vai chegar.
-Ah.
-  por isso que voc no agenta mais? - pergunta ela, com a convico de uma mulher que assistiu a muitos talk shows sobre como lidar com sentimentos e cuidar 
de relacionamentos.
- No exatamente - respondo.
- Ento, por que exatamente? Ela est sendo um p no voc-sabe-onde? Que bobagem minha, o que estou perguntando?  claro que est! Essa  a Darcy! - Outra risada 
contida e afetuosa. 
-.
-  o qu, queridinha? O que est passando pela sua cabea?
- , ela est sendo um p no saco - digo, alcanando o controle remoto para devolver o som  TV.
- O que ela est fazendo? - Minha me persiste calmamente.
- Ela est sendo Darcy - digo. - Tudo gira em torno dela.
Minha me me olha compreensiva.
- Eu sei, querida.
Ento eu digo de repente que ela no merece Dexter, que ele  bom demais para ela. Minha me olha para mim sria. Oh, merda, penso. Ser que ela sabe? Ethan e Hillary 
so uma coisa, minha me  outra bem diferente. Nunca tive vontade de contar a ela que garotos do segundo grau eu achava bonitos, ento este assunto est certamente 
fora de
questo. No consigo suportar a idia de decepcion-la. Tenho trinta anos, mas ainda sou do tipo que gosta de agradar aos pais. E minha me, uma mulher de sabedoria 
proverbial, nunca entenderia essa violao de amizade.
- Ela tambm est levando Dex  loucura. Estou certa disso - digo, tentando esconder.
- Por acaso Dexter disse isso a voc?
- No, eu no discuti isso com Dex. - Tecnicamente essa afirmao  verdadeira. - Mas d para perceber.
- Bem, seja paciente com ela. Voc nunca vai se arrepender de ser uma boa amiga.
Penso nessa prola da minha me.  difcil discordar disso. De fato, foi assim que vivi durante toda a minha vida. Evitando o arrependimento a todo custo. Sendo 
boa a todo custo. Boa aluna. Boa filha. Boa amiga. Entretanto, tive uma sbita epifania: o arrependimento  uma faca de dois gumes. Eu tambm posso me arrepender 
de me sacrificar, de sacrificar meus prprios desejos em nome de Darcy, em nome da nossa amizade, em nome de ser uma boa pessoa. Por que eu deveria ser a mrtir 
aqui? Fico me imaginando sozinha aos 35, sozinha aos quarenta. Ou pior, me comprometendo com uma verso do Dex sem graa, diluda. Dex com um queixo menos expressivo 
e vinte pontos a menos de Q.I. Eu seria obrigada a conviver com o "e se" para sempre.
-  me, eu sei. Faa como os outros e blblbl. Vou ser uma boa amiga para a preciosa Darcy.
Minha me olha para baixo, estica a saia. Eu a magoei. Digo a mim mesma que tentarei ser legal por mais uma semana.  o mnimo que posso fazer. No tenho um irmo 
para me substituir e ficar dando uma de bonzinho quando estou fora. Sorrio e mudo de assunto.
- Onde o papai est?
- Ele foi  loja de ferramentas de novo.
- Para o qu, dessa vez? - pergunto, deixando-a se deliciar com a piadinha do "Papai no se cansa de lojas de ferramentas e de compra e venda de carros".
- Quem sabe? Quem algum dia soube? - Ela balana a cabea, feliz novamente.

Estou quase dormindo, pensando em Dex, quando meu celular toca. Est perto da cama, a bateria totalmente carregada e a campainha bem alta, esperando o telefonema. 
O nmero dele acende a luz da tela. Levo o aparelho ao ouvido.
- Oi,Dex.
- Oi - diz ele, sua voz baixa. - Acordei voc?
- Mais ou menos, mas tudo bem.
Ele no se desculpa, gosto disso.
- Meu Deus, estou com saudade de voc - diz. - Quando voc volta?
Ele sabe quando eu volto, sabe que a noiva dele est fazendo o mesmo itinerrio. Mas no me importo que ele pergunte. Essa pergunta  para mim. Ele quer Rachel de 
volta ao seu fuso horrio, no Darcy.
- Amanh de manh. Chegamos s quatro.
- Vou passar na sua casa - diz ele.
- timo - respondo.
Silncio.
Pergunto onde ele est agora.
- No sof.
Imagino Dex no meu apartamento, no meu sof, apesar de saber que ele est num sof-cama, que Darcy planeja substituir por um modelo "mais sofisticado" logo que eles 
se casarem.
- Oh - digo. No quero desligar, mas no meu estado sonolento no consigo pensar em mais nada para falar.
- Como foi o ch-de-beb?
- Voc ainda no soube?

- . Darcy telefonou.
Fico satisfeita que ele me diga que Darcy ligou para ele, e imagino se ele acrescentou o detalhe de propsito.
- S que eu estou perguntando a voc como foi o ch-de-beb - diz ele.
- Adorei encontrar Annalise ... Mas foi terrveL
-Por qu?
- Os chs-de-beb simplesmente so assim.
Ento digo que gostaria que ele estivesse perto de mim.  o tipo de frase que eu geralmente no falo, a no ser que ele diga alguma coisa do tipo. Mas o escuro e 
a distncia me deixam audaciosa.
-  mesmo? - pergunta ele no mesmo tom que uso quando quero mais. Os rapazes no so to diferentes da gente, penso, e no importa quantas vezes eu pense, sempre 
parece uma revelao extraordinria.
- , eu queria que voc estivesse exatamente aqui comigo.
- Na sua cama, em casa, bem a com os seus pais no quarto ao lado? 
Rio.
- Eles so liberais.
- Ento eu gostaria de estar a.
- Embora eu tenha uma cama de solteiro - digo. - No tem muito espao.
- Uma cama pequena com voc  uma grande idia - a voz dele est baixa e sexy.
Sei que estamos pensando a mesma coisa. Posso ouvir a respirao dele. No digo nada, apenas toco meu corpo e penso nele. Quero que ele faa o mesmo. Ele faz. Meu 
telefone esquenta o meu rosto e, como sempre acontece quando estou no celular, penso na radiao que posso estar recebendo. S que hoje no me importo com um pouco 
de radiao. 

No dia seguinte, Darcy e eu rachamos um txi do LaGuardia at em casa. Salto primeiro. Telefono a Dex no exato instante em que ponho os ps na calada. Ele ainda 
est no escritrio, trabalhando, esperando o meu telefonema. Estou pronta para quando voc quiser, digo, satisfeita de j ter depilado as pernas em Indiana. Ele 
diz que no demora, que vai sair assim que ela telefonar para o escritrio. Voc sabe, ele comenta, soando meio envergonhado por suas tticas recm-adquiridas. Entendo. 
Por um segundo me sinto mal que a minha vida amorosa consista dessas estratgias desonestas e adlteras, mas apenas por um segundo. Ento digo a mim mesma que Dex 
e eu no estamos nesse campo. Que, nas palavras de Hillary, a vida no  assim, to preto no branco. Que s vezes os fins justificam os meios.

Nessa noite, depois de Dex e eu ficarmos juntos por algumas horas, percebo que nossas visitas comeam a se desenrolar numa deliciosa mistura de conversas, toques, 
cochilos, e um simples existir juntos num silncio caloroso e fciL Como as frias perfeitas na praia, onde o no fazer nada acontece de uma forma to feliz que 
quando voc volta para casa e os amigos perguntam como foi a viagem voc no consegue lembrar exatamente o que fez para preencher tantas horas. Esta  a sensao 
de estar com Dex. 
Parei de contar quantas vezes a gente j fez amor, mas s agora, quando j estamos para l de vinte. Imagino quantas vezes ele j esteve com Darcy. Penso nisso agora. 
Alegar que ela no tem nada a ver com a gente no  verdade. Dizer que no  uma disputa  risveL Ela  meu parmetro, tenho Darcy como referncia. Quando estamos 
na cama imagino, ser que ela faz isso assim? Ser que ela  melhor? A esta altura eles seguem um roteiro ou ela procura variar? (Meu voto, infelizmente,  "ela 
procurar variar". E ainda mais quando se tem um corpo nota dez, ser que realmente importa se o sexo  o previsvel papai-mame?). Tambm penso nela depois, quando 
freqentemente me sinto meio desconfortvel com o meu corpo. Encolho a barriga, ajeito meus peitos quando ele est de costas para mim e nunca circulo nua pelo apartamento. 
Fico imaginando quantas vezes teramos de ficar juntos at que eu desistisse do recurso da lingerie bonita em vez das suteres cinza ou da parte de baixo do pijama 
da Gap que uso quando estou sozinha. Ns provavelmente no teremos tempo para que esse estgio se desenvolva. Pelo menos no antes do casamento. O tempo est se 
esgotando. Digo a mim mesma para no entrar em pnico, para saborear o presente.
Acontece que recentemente pude notar uma mudana. Agora eu me permito pensar no futuro. Parei de me sentir mal quando imagino Dex cancelando o casamento. Parei de 
achar que minha lealdade a Darcy deve vir antes de qualquer coisa, principalmente daquilo que eu quero. Ainda no tenho certeza do que vai acontecer, que rumo esse 
caso vai tomar, mas o meu medo de quebrar as regras abrandou, assim como meu instinto de colocar Darcy acima de mim mesma.
Esta noite Dex fala sobre trabalho. Muitas vezes ele me fala de negcios e, apesar do meu interesse na mecnica da coisa, gosto mesmo  do colorido que ele oferece 
sobre as principais peas do jogo na sua empresa, as pessoas que preenchem o seu dia-a-dia. Por exemplo, sei que ele gosta de trabalhar para Roger Bollinger, o chefe 
do grupo dele. Dex  o menino de ouro de Roger e Roger  um exemplo para Dex. Quando ele conta uma histria sobre Roger, imita o sotaque dele de um jeito que me 
convence que se algum dia eu vier conhec-lo, o Roger vai ser como se ele estivesse imitando Dex imitando ele prprio. Roger no tem nem 1,65m (O que me intriga: 
os homens geralmente no do detalhes da aparncia de outros caras. Na maior parte das vezes apenas falam de sua sabedoria ou inteligncia), mas, segundo Dex, isso 
no o atrapalha com as mulheres. A propsito, Dex relatou esse detalhe com bastante naturalidade, sem muita admirao, o que s confirma que ele no tem tendncia 
a ser mulherengo. Os mulherengos ou se sentem impressionados ou competitivos em relao aos outros mulherengos.
Ele acaba de me contar uma histria sobre Roger e ento pergunta:
- J contei a voc que o Roger ficou noivo duas vezes?
- No - respondo, pensando que ele sabe que no contou. No  o tipo de coisa que voc esquece que contou, especialmente dadas as nossas circunstncias. De repente 
eu me sinto gelada e puxo as cobertas para cima de ns dois.
- . Nas duas vezes foi ele quem terminou. Ele vive me dizendo coisas como "s acaba quando termina" e "ainda falta o ltimo ato".
Imagino se Roger sabe alguma coisa a meu respeito, ou se ele est apenas com o tpico lero-lero de solteiro.
- Quando? - pergunto a Dex.
- Quando comea o ltimo ato? - Dex se encolhe todo ao meu lado.
- , mais ou menos isso... - Estamos pisando em campo minado e fico grata por ele no poder ver meus olhos. - Quando  que ele terminou os noivados?
- No tenho certeza da primeira vez, mas na segunda foi momentos antes da cerimnia.
- Voc est de brincadeira.
- No. A noiva estava se vestindo quando ele foi at o quarto dela, bateu na porta e deu a notcia bem na frente da me dela, da av e da bisav de 95 anos.
- Ela ficou surpresa? - pergunto, e logo me dou conta de que  uma pergunta idiota. Ningum espera que o noivo chegue de repente e cancele o casamento.
- Aparentemente. Mas ela no deve ter ficado assim to surpresa... Ela devia saber que ele j tinha feito isso antes.
- Tinha alguma outra pessoa? - pergunto hesitante.
- Acho que no. No.
- Ento por que ele fez isso?
- Ele disse que no conseguia ver o relacionamento durando para sempre.
- Oh.
- O que voc est pensando?
Ele deve saber o que estou pensando.
- Nada.
- Diz para mim.
- Nada.
- Diz.
Isso  um dilogo tpico de incio de relacionamento. Depois que um casal se estabelece, a pergunta se torna uma relquia.
- Estou pensando que no acredito muito em cenas como a do dia do casamento de Julia Roberts em Noiva em Fuga - ou noivo.
- Voc no acredita nisso?
Prossigo com cuidado:
- Eu s acho dispensvel...  ruim, desnecessrio - digo. - Se algum vai cancelar, deve fazer isso antes do dia do casamento.
Minha mensagem no  exatamente sutil.
- Bem, eu concordo, mas voc no acha melhor abandonar o barco do que cometer um erro? Voc no acha que deve isso  outra pessoa, "voc mesmo, a toda a instituio 
do casamento? Dizer alguma coisa. ainda que voc s se d conta disso tarde demais?
- No estou de modo algum defendendo esse tipo de erro. S estou dizendo que essa  uma concluso a que se deve chegar antes do dia do casamento.  para isso que 
servem os noivados. E, na minha opinio. quando chega o dia do casamento, no tem mais volta. Engula e faa o melhor que puder. Dizer  noiva quando ela j est 
com o vestido  um
golpe baixo.
Comeo a imaginar Darcy nesse cenrio humilhante e minha compaixo por ela  inequvoca.
- Voc acha? Mesmo que acabe tudo em divrcio? - pergunta ele.
- Mesmo assim. Pergunta quela garota se ela prefere se divorciar ou ser largada de vestido, na frente de todo mundo.
Ele faz um "hum" sem se comprometer, ento no consigo saber se ele concorda. Fico imaginando o que isso tudo vai significar para ns dois. Ou se ele nem mesmo est 
pensando na gente. Ele tem de estar. Sinto meus msculos tensos, meu p se contrai de to nervosa que estou. Lembro que ainda no estamos no Quatro de Julho. No 
quero mais pensar sobre isso de jeito nenhum. 
Estico meu corpo por cima de Dex e ligo o som. O Creedence Clearwater Revival est cantando "Lookin' Out My Back Door", Isso  que  msica animada. Exatamente o 
que eu precisava para bloquear as imagens do casamento de Darcy e Dex. Em vez disso, imagino uma viagem de carro com Dexter. Estamos num conversvel com a capota 
arriada, culos escuros, dirigindo sem pressa um longo trecho de estrada, sem nenhum outro carro por perto.

Quatorze

Todos os anos, no feriado de Quatro de Julho, h um xodo em massa de Manhattan. As pessoas vo para os Hamptons, para Cape, Martha's Vineyard, at mesmo New Jersey. 
Ningum fica. Nem mesmo Les. No vero do Exame da Ordem, quando Nate e eu permanecemos na cidade para estudar, fiquei impressionada com a diferena, a paz completa 
em todas aquelas pessoas.  claro, este ano planejo ficar em casa tambm. No consigo nem pensar em ver Darcy e Dex juntos. Telefono a Dex e digo isso a ele. Ele 
me fala que estava torcendo para que eu dissese isso.
- Eu tambm vou ficar.
- mesmo?
Meu corao dispara s de pensar em passar uma noite com Dex.
- , vamos fazer isso.
Ento traamos nosso plano: vamos "descobrir" de ltima hora que temos de trabalhar. Vamos praguejar e lamentar ruidosamente, mas insistir para que Darcy v e se 
divirta com os outros. At l ela j vai ter feito as unhas dos ps, comprado roupas novas, organizado uma lista de festas e reservado seus restaurantes preferidos. 
Ento no haver possiilidade de querer ficar em casa, e assim Dex e eu vamos poder passar dias e dias juntos, sem interrupes. Vamos pegar no sono juntos, acor 
dar juntos e fazer nossas refeies juntos. E, apesar de Dex no ter confirmado,em determinado momento vamos ter nossa grande conversa.
Compartilho meus planos com Hillary, que tem grandes expectavas. Ela est convencida de que o fim de semana prolongado vai ser um momento decisivo no meu relacionamento 
com Dex. No dia trs, quando est de sada do trabalho, passa pela minha sala e me deseja um timo fim de semana.
- Boa sorte.
Ela cruza os dedos no ar.
- O que voc quer dizer com isso? Voc acha que ns vamos ser descobertos?
- No, no foi isso que eu quis dizer. Quis desejar boa sorte com a sua conversa. Voc vai conversar com o Dex sobre o que est acontecendo, no vai?
- , acho que sim.
- Voc acha que sim?
- Tenho certeza. Esse  o plano.
- Certo, no deixem de fazer isso. - Ela lana um olhar srio para mim. -  o momento decisivo.
Fao uma careta.
- Rachel, v se no vai amarelar. Se voc quer ficar com ele, agora  a hora de soltar o verbo.
- Eu sei, j entendi - digo. E por um segundo me vejo como Hillary  forte, audaciosa e confiante.
- Telefono a voc se a sua garota suspeitar de alguma coisa.
Fao que sim com a cabea, sentindo uma pontada de culpa com toda essa trama contra Darcy.
Hillary sabe no que estou pensando.
- A gente faz o que tem de fazer - diz ela. - No vai amolecer agora.

s sete em ponto, exatamente como planejado, Dexter chega  minha casa com um novo corte de cabelo, que acentua ainda mais suas mas do rosto. Ele est com uma 
garrafa de vinho tinto na mo, uma pequena sacola preta e um buqu de lrios casablanca brancos, do tipo que se encontra em qualquer delicatessen coreana por trs 
dlares o ramo. Apesar de baratos e meio murchos, gosto tanto deles quanto das minhas caras rosas vermelhas.
- Estes so para voc - diz ele.- Desculpe, j esto quase morrendo.
- Adorei - digo. - Obrigada.
Ele me acompanha at a cozinha enquanto procuro um vaso para coloc-las. Aponto para o meu favorito, um azul que est no alto do armrio, fora do meu alcance.
- Voc pode pegar para mim?
Ele pega o vaso e o deixa sobre a bancada enquanto comeo a aparar os talos e arrumar as flores. Sou uma deusa dos trabalhos domsticos, pelo menos at onde ele 
sabe.
- Ns conseguimos - sussurra Dex no meu ouvido.
Sinto arrepios nos braos. Consigo colocar as flores no vaso e acrescentar um pouco de gua antes de me virar para beij-lo. O pescoo dele est quente, e a parte 
de trs do cabelo ainda molhada por causa do corte. Ele tem cheiro de colnia, que quase no usa.  claro, eu tambm me perfumei, o que raramente fao. Mas esta 
 uma ocasio especial.
Quando se est acostumada a apenas algumas pitadas de tempo, um feriado prolongado pode muito bem parecer uma eternidade. Me sinto como quando saa correndo do nibus 
no ltimo dia de aula antes das frias de vero. Nenhuma preocupao a no ser decidir o que fazer primeiro - andar de bicicleta, ir para a piscina ou brincar de 
jogo da verdade com Darcy e Annalise no meu poro frio e inacabado. Hoje sei o que quero fazer primeiro e tenho certeza de que logo estaremos fazendo. Beijo o pescoo 
de Dex, sinto o cheiro da sua pele doce e o aroma dos lrios.
- Este fim de semana vai ser uma loucura - diz ele, puxando minha camiseta sem ala por cima da cabea, deixando que ela caia aos nossos ps. Ele desabotoa meu suti, 
segura meus seios com as mos em concha e depois meu rosto. Seus dedos apertam minha nuca.
-  to bom que voc esteja aqui - digo. - Estou to feliz.
- Eu tambm - diz ele, dedicando-se aos botes da minha cala. 
Conduzo Dex at minha cama e tiro a roupa dele, admirando corpo de vrios ngulos diferentes, beijando-o em lugares novos. Na dobra da perna. No cotovelo. Ns temos 
tempo.
Fazemos amor vagarosamente, cada um provocando o outro at no conseguirmos
mais resistir, e ento passamos a um outro extremo, afoitos e sem flego. Hoje ele  mais meu do que nunca e sei por qu:  noite ele no vai voltar para casa para 
encontr-la. Ele no vai ter de se lavar, e checar se sobrou algum sinal do nosso encontro. Afundo minhas inhasnas costas dele e o puxo com fora para junto de mim.
Depois de fazermos amor, pedimos comida a um pequeno restaurante e comemos hambrgueres  luz de velas. Ento voltamos para a cama onde ficamos conversando e ouvindo 
msica, lutando contra o cansao para conseguir saborear nosso tempo juntos, no desperdi-lo com o sono.
Nossa nica interrupo acontece por volta da meia-noite, quando Dex diz que deveria ligar para Darcy. Digo a ele que  uma boa idia, pensando se  melhor deix-lo 
sozinho para falar com ela ou permanecer na cama ao seu lado. Decido ir ao banheiro, deixar ele fazer o que tem de fazer. Ligo a torneira de modo a no conseguir 
ouvir nem um pouco da conversa. Um minuto depois, Dex chama meu nome.
Abro um pouquinho a porta.
- J acabou?
- J. Vem c. Voc no precisava ter sado.
Volto para a cama com ele, procuro sua mo.
- Desculpe - diz ele.
- Sem problemas, eu entendo.
- Estou apenas me precavendo... acho que agora ela no vai mai telefonar. Disse que estava a caminho de casa, indo dormir.
- O que ela est fazendo?
- Eles esto no Talkhouse. Bbados e felizes. S que ns estamos sbrios e mais felizes ainda, embolados nos meu lenis, nossas cabeas apoiadas num nico travesseiro. 
Quando Dex se levanta para apagar a vela acesa no parapeito da janela, noto que alguns fios do cabelo dele se transferiram de seu pescoo para a minha fronha branca. 
Esses fiozinhos pretos me deixam to feliz que sinto vontade de
chorar.
Fecho meus olhos para me controlar.
Num dado momento, adormecemos.
E a manh chega.
Acordo, me lembrando da primeira manh em que despertamos juntos, o pnico que se instalou no meu corao naquele domingo em que fiz trinta anos. A sensao que 
tenho agora no poderia ser mais diferente. Uma alegria serena.
- Oi, Rachel.
-Oi, Dex.
Estamos os dois com sorrisos enormes.
- Feliz Quatro de Julho - diz ele, a mo pousada na parte interna da minha coxa.
- Feliz Quatro de Julho para voc tambm.
-Este no um Quatro de Julho tpico para voc. Nada de fogos, piqueniques, nada de praia. Voc no se importa com isso? - pergunta ele.
- No, no me importo - respondo.
Fazemos amor e depois tomamos uma ducha juntos. No comeo estou meio sem graa, mas depois de alguns minutos relaxo e deixo que ele esfregue minhas costas. Ficamos 
embaixo da gua quente (ele gosta da gua na mesma temperatura que eu) e passamos ali tempo o bastante para ficarmos com os dedos enrugados. Ento samos para o 
mundo, andando pela Terceira Avenida em direo ao Starbucks. O dia mido e cinza d a impresso de que vai chover. Mas no precisamos de tempo bom. A felicidade 
brota dentro de mim.
Estamos sozinhos na fila do caixa, Marvin Gaye tocando ao fundo. Peo um caf latte com leite desnatado. Dex diz:
- Para mim o mesmo, num copo grande com, hum ... apenas leite normaL
Gosto do modo como ele despreza as terminologias do Starbucks, ignorando as denominaes em italiano e pedindo seu caf como faria um cara metido a macho.
A menina empertigada atrs da mquina registradora grita nosso pedido para o colega, que imediatamente marca nossos copos com um pilot preto. Os funcionrios do 
Starbucks esto invariavelmente numa animao louca, mesmo durante as piores horas do rush matinal, quando tm de lidar com hordas de pessoas mal-humoradas esperando 
impacientes por sua dose de cafena.
- Oh, espere - a menina diz, sorrindo. - Os cafs so juntos ou separados?
Dex responde rpido:
- Ns estamos ... os cafs so juntos.
Sorrio diante de sua derrapada. Ns estamos juntos.
- Mais alguma coisa?
- Hum. Sim. Vou querer um bolinho de framboesa - diz Dex ento olha para mim. - Rachel?
- , eu tambm vou querer um - digo, resistindo  tentao de pedir um bolinho light. No quero ser parecida com a Darcy em nada.
- Ento, dois bolinhos.
Dex paga e deixa o troco na caneca de gorjetas em frente  caixa registradora.
A garota sorri para mim, como se dissesse: "O seu companheiro no s  um gato, mas tambm  generoso."
Dex e eu acrescentamos um saquinho de acar mascava ao caf, mexemos e encontramos um lugar no balco que d para a janela. As caladas esto desertas.
- Gosto de Nova York assim - digo, provando a espuma do meu caf. Observamos um txi solitrio desaparecendo pela Terceira Avenida.
- Escuta s... nenhuma buzina.
- , a cidade est realmente morta - diz ele. - Aposto que conseguiramos reservar qualquer lugar hoje  noite. Voc gostaria de sair?
Olho para ele.
- Ns no podemos.
Tomar um caf  uma coisa. Jantar  outra.
- Podemos fazer o que quisermos. Voc ainda no entendeu isso? Ele pisca e toma um gole do caf.
- E se algum nos vir?
- No tem ningum aqui - ele aponta para fora da janela. - E se eles virem? Podemos comer, no podemos? Que diabos! Eu poderia at dizer a Darcy que vamos comer 
qualquer coisa juntos. Ela sabe que estamos presos aqui, trabalhando, no ?
- Acho que sim.
-Vamos l. Quero levar voc para jantar. Nunca levei voc para um jantar apropriado. Isso me faz sentir mal. O que voc diz?
Levanto minhas sobrancelhas e dou um sorriso meio debochado.
- Que cara  essa? - Dex pergunta. Seus lbios carnudos tocam a
borda do copo.
-  s que "apropriado" no  a palavra que me vem  cabea quando penso em ns dois.
- Ah,  isso - Dex diz, fazendo trejeitos com a mo como se eu tivesse mencionado um detalhe insignificante da nossa relao. - Bem, isso realmente  inevitvel... 
quer dizer. .. , as circunstncias no so... ideais.
- Isso  abrandar a situao. Vamos deixar de rodeios, Dex, ns estamos tendo um caso.
Isso foi o mximo que cheguei a dizer sobre o nosso envolvimento.
Sei que Hillary no me daria nenhum prmio pela objetividade, mas mesmo assim meu corao dispara. Trata-se de um comentrio ousadovindo de mim.
-Acho que sim - diz ele hesitante. - Mas, quando estou com voc,
no fico pensando na impropriedade da nossa...relao. Estar com voc no me d a sensao de estar fazendo algo errado.
- Sei o que voc quer dizer - digo, pensando que algumas pessoas por a poderiam discordar.
Fico esperando para ver se ele vai falar mais alguma coisa sobre ns dois. Nosso futuro. Ou pelo menos nosso estratagema deste fim de semana. Ele no diz nada. Em 
vez disso sugere que a gente leve o caf para casa e leia o jornal na cama.
- tima idia - digo, imaginando que seo ele l primeiro. Quero saber cada pequeno detalhe a seu respeito.
A chuva vai e vem durante todo o dia, ento ficamos em casa, passando do sof para a cama, da cama para o sof e depois para a cama, conversando por horas e horas, 
nunca olhando o relgio. Falamos sobre tudo: segundo grau, faculdade, curso de Direito, nossas famlias, amigos, livros, filmes. Mas no a respeito de Darcy e da 
situao. Nem mesmo quando ela liga para o celular dele para dizer oi. Examino as minhas cutculas enquanto ele mente que acabou de sair do escritrio para comer 
e que sim, ele est conseguindo produzir bastante, tem trabalhado numa apresentao durante todo o dia. Ele murmura "eu tambm" no final da rpida conversa, por 
isso sei o que ele acabou de dizer a ela.
Penso que muitos casais pontuam suas ligaes com vrios "eu te amo" da mesma maneira automtica que outras pessoas dizem "tchau".No significa nada.
Quando Dex desliga o telefone meio acanhado, meu celular toca.  Darcy. Dex ri.
- Ela acabou de me dizer que precisava correr. Claro que precisa. Para ligar para voc!
No atendo, mas depois ouo a mensagem. Ela reclama do tempo, mas fala que de qualquer forma eles esto se divertindo. Diz que est com saudade de mim. Que a viagem 
no  a mesma sem Dex e eu. No vou me sentir culpada. No vou.
Nesta noite Dex e eu nos separamos por algumas horas para ele ir em casa e se trocar para o jantar, j que pusera na mala apenas jeans, shorts e produtos bsicos 
de higiene. Sinto saudade dele enquanto est fora, mas gosto do modo como a separao faz o jantar parecer mais um encontro especial. Alm disso, estou satisfeita 
com a chance de me arrumar sozinha. Sou capaz de fazer o tipo de coisa que um cara que voc acabou de conhecer no deveria ver voc fazendo - arrancar um fio de 
sobrancelha desgarrado, passar perfume em lugares estratgicos (atrs dos joelhos, entre os seios) e me maquiar de modo que parea que no estou usando quase nada.
Dex me busca s 19h45 e vamos de txi at um dos meus restaurante preferidos de Manhattan, o Balthazar, onde geralmente  impossvel conseguir uma reserva, a no 
ser que voc telefone com semanas de antecedncia, ou esteja disposto a aceitar uma mesa s seis da tarde ou s onze e meia da noite. Mas chegamos pontualmente s 
oito e somos encaminhados a uma mesa ideal, dessas que tm bancos com encosto alto. Pergunto a Dex se ele sabe que Jerry Seinfeld pediu Jessica Sklar em casamento 
no Balthazar. Talvez este tenha sido o exato lugar onde Jerry mostrou o anel.
- No sabia disso - Dex diz, olhando por cima da carta de vinhos.
- Voc sabia que ela deixou o marido com quem era casada h quatro meses para ficar com Jerry?
Ele ri.
- , acho que ouvi falar nisso.
- Ento ... o Balthazar deve ser o restaurante preferido dos escandalosos.
Ele balana a cabea e d um sorriso irritado.
- Por favor, pare de se referir assim  gente.
- Encare os fatos, Dexter. Isso  escandaloso ... Ns somos exatamente como Jerry e Jessica.
- Olha, a gente no pode reprimir o que sente - diz Dex srio.
. E talvez tenha sido isso que Jessica sussurrou para Jerry no celular, enquanto o marido, que de nada suspeitava, estava sentado na sala ao lado, dando gargalhadas 
homricas, assistindo a Seinfeld na TV.
Enquanto leio o cardpio, acabo me dando conta de que minha opinio sobre Jerry e Jessica pode estar mudando. Eu costumava pensar que ele era um homem sem corao 
e destruidor de lares, e ela uma interesseira sem-vergonha que friamente trocara o marido por outro mais rico e espirituoso quando teve a oportunidade. Li que a 
tal oportunidade se deu em uma academia de ginstica, a mesma freqentada por Darcy. Agora no tenho tanta certeza. Talvez tenha sido assim que tudo aconteceu.
Por outro lado, talvez Jessica tenha se casado antes por pensar que amava o ex-marido, considerando-se a experincia de vida que tinha at aquele momento. E ento 
conheceu Jerry, dias depois de voltar da lua-de-mel na Itlia, e logo percebeu que nunca havia amado de verdade, que seu sentimento por Jerry superava em muito o 
que quer que sentisse pelo marido.
O que ela podia fazer? Permanecer num casamento com o homem errado, em nome das aparncias? Jessica sabia a merda que ia ter de ageetar, no apenas os amigos, a 
famlia e o prprio marido, a quem ela prometera a unio eterna (e no apenas por meros 120 dias), mas todo mundo, ou pelo menos aqueles que ficam to entediados 
com as prprias vidas que devoram revistas de fofoca no exato instante em que chegam s bancas. Entretanto, ela foi  luta, concluindo que s se vive uma vez. Ela 
deu a cara a tapa e foi para um cafofo de seis milhes de dlares com vista para o Central Park. Jessica precisou mesmo de muita coragem e determinao para fazer 
isso. E talvez Jerry tambm merea crdito por ignorar a ira do mundo, seguindo seu corao a todo custo. Talvez o amor verdadeiro tenha simplesmente prevalecido.
Independentemente do que de fato tenha acontecido a Jessica, minhas noes de regras do amor esto se modificando.
- E ento? Voc sabe o que vai querer? - pergunta Dex.
Sorrio e digo que estou esperando para ouvir quais so os pratos especiais.
Depois do jantar Dex me pergunta se quero ir a outro lugar para tomar um drinque.
- Voc quer? - pergunto, querendo agrad-Io, dar a ele a respostacerta.
- Eu perguntei primeiro.
- Preferia apenas ir para casa.
- timo. Eu tambm.
O tempo melhorou um pouco e, da esquina da minha casa,  possvel ver fogos explodindo ao longe. Azuis, rosa e dourados iluminam o que para ns parece a nossa cidade 
particular. Ficamos de mos dadas olhando para o cu, observando em silncio por alguns minutos antes de entrar e dar boa-noite a Jos, que a esta altura acha que 
Dex  meu namorado.
Subimos, tiramos a roupa e fazemos amor. No  s minha imaginao: fica melhor a cada vez. Depois, nenhum de ns fala ou se mexe. Camos no sono, nossos braos 
e pernas entrelaados.
De manh, acordo exatamente quando o cu comea a clarear. Ouo a respirao de Dex e observo os ngulos bem marcados do seu rosto. Seus olhos se abrem de repente. 
Nossos rostos esto prximos.
- Oi, querida - a voz dele est rouca de sono.
- Oi - respondo com suavidade. - Bom dia.
- O que voc est fazendo acordada? Ainda  cedo.
- Estou olhando voc.
- Por qu?
- Porque adoro seu rosto - respondo.
Ele parece realmente surpreso com o meu comentrio. Como  possvel? Ele deve saber que  bonito.
- Tambm adoro o seu jeito - diz ele. Seus braos se movem em torno de mim, me puxando para junto do seu peito.
- Adoro sentir voc.
Sinto que fiquei vermelha.
- E o seu gosto - diz ele, beijando meu rosto e pescoo. Evitamos beijos na boca, o que  normal quando se acaba de acordar. - E acho que tudo isso faz sentido.
- Por que voc diz isso?
- Bem, porque ...
Agora ele respira forte e parece nervoso, quase com medo. Pego um preservativo na minha mesa-de-cabeceira, mas ele puxa minha mo de volta, chega para junto de mim 
e diz "porque" de novo.
- Por que o qu?
Talvez eu saiba por qu. Espero que eu saiba por qu.
- Porque, Rachel... - ele olha nos meus olhos. - Porque eu te amo.
Ele diz essas palavras exatamente da mesma maneira que penso nelas, lutando contra um impulso forte de dizer primeiro. E agora eu no tenho de lutar.
Tento memorizar toda a cena. Seu olhar, a sensao da sua pele. At mesmo o modo como a luz entra enviesada pelas persianas.  um momento para alm da perfeio, 
para alm de qualquer coisa que jamais senti. Quase demais para suportar. No me importo que Dex esteja noivo de Darcy e que nos esgueiremos por a como dois fora-da-lei. 
No me importo que meu dente precise de uma boa escovada e que meu cabelo esteja desgrenhado e cado em volta do rosto. Apenas sinto Dex e suas palavras e sei, sem 
dvida, que esse  o momento mais feliz da minha vida. Flashes pululam na minha cabea. Estamos jantando  luz de velas, bebendo um bom champanhe. Estamos aninhados 
junto ao fogo numa velha fazenda em Vermont, com assoalho de madeira que range e flocos de neve do tamanho de moedas caindo do lado de fora. Estamos num piquenique-almoo 
em Bordeaux, no meio de um campo repleto de flores amarelas, onde ele vai me oferecer um anel de brilhante antigo.
Isso pode muito bem acontecer. Ele me ama. Eu o amo. O que mais existe?/Ele certamente no vai se casar com Darcy. Eles no podem ser felizes para sempre. Busco 
minha voz e consigo dizer aquelas trs palavras de volta para ele. Palavras que eu no disse por um longo, longo tempo. Palavras que no significavam nada at agora.
Nenhum de ns fala sobre o que foi dito nesse dia, mas posso sentir a coisa no ar,  nossa volta.  mais palpvel do que a umidade espessa. Posso sentir na maneira 
como ele olha para mim e diz meu nome. Somos um casal e nossas palavras nos tornaram audaciosos. Por um instante, enquanto andamos no Central Park, ele me d a mo. 
So apenas alguns segundos, cinco ou seis passos, mas sinto uma descarga de adrenalina. E se algum nos vir? E ento? Uma parte de mim quer que isso acontea, quer 
dar de cara com uma conhecida da Darcy, uma colega presa na cidade por causa de trabalho, saindo para uma caminhada rpida no parque. Na segunda-feira de manh ela 
vai informar Darcy que viu Dex de mos dadas com uma garota. Vai me descrever em detalhes, mas sou genrica o suficiente para que Darcy no suspeite de mim. E se 
ela suspeitar, vou apenas negar, alegar que estava trabalhando durante todo o dia. Que eu nem tenho uma camisa rosa ( uma camisa
nova, ela nunca viu). Vou ficar terrivelmente indignada, ela vai pedir desculpas e depois voltar ao assunto da traio de Dex, vai decidir terminar tudo com ele 
e eu vou dar fora, dizer que est fazendo a coisa certa. Dessa forma, Dex no vai precisar decidir nada. Tudo vai se resolver por ns.
Caminhamos at o reservatrio, circulando e admirando todas as vistas da cidade. Passamos por um garoto vestindo uniforme militar dos ps  cabea, passeando com 
um beagle bem velhinho, e depois por uma mulher gorda esbaforida correndo em ritmo moderado, os cotovelos abertos de uma maneira estranha. Fora isso, temos s para 
ns dois um caminho geralmente cheio de gente. Ouo o barulho das pedrinhas estalando sob os nossos tnis enquanto andamos num ritmo perfeito. Estou satisfeita. 
O reservatrio, as vistas, a cidade e o mundo pertencem a Dex e a mim.
Nuvens escuras se aproximam quando finalmente samos do parque. Decidimos no trocar de roupa para jantar, indo direto para um restaurante prximo a meu apartamento. 
Ns dois queremos peixe, vinho branco e sorvete de baunilha. Depois do jantar corremos de volta para o meu apartamento debaixo de um aguaceiro, rindo enquanto atravessamos 
as ruas fora do sinal, chutando as poas d'gua na calada. Dentro de casa, tiramos nossas roupas molhadas e enxugamos um ao outro, ainda rindo. Dex veste sua cueca 
que parece um short. Eu visto a camiseta dele. Ento colocamos um CD da Billie Holiday para tocar e abrimos uma nova garrafa de vinho, tinto dessa vez. Ficamos largados 
no sof, onde conversamos por horas e horas, levantando apenas para escovar os dentes,deitar e dormir um sono prazeroso na companhia um do outro. Ento, de repente, 
como sempre, o tempo acelera. E da mesma forma que estar com Dex na nossa primeira noite parecia o comeo do vero, temer o fim do nosso tempo juntos me lembra o 
final de agosto. Era nessa poca do ano que aqueles pavorosos comerciais de material escolar substituam os estrelados por crianas alegres, de cabelos bem louros, 
tomando suco  beira da piscina. Lembro muito bem da sensao, uma mistura de tristeza e pnico.  assim que me sinto agora, sentada no meu sof em pleno sbado, 
enquanto a tarde avana noite adentro. Tento me convencer a no arruinar a ltima noite com tristezas. Digo a mim mesma que o melhor ainda est por vir. Ele me ama.
Como se lesse minha mente, Dex olha para mim e diz:
- Eu falei srio.
Essa  a primeira referncia ao nosso dilogo sagrado.
-Eu tambm.
Estou tomada por um forte anseio e tenho certeza de que nossa conversa est prestes a acontecer. Nossa conversa ps-feriado. Vamos discutir maneiras de lidar com 
essa situao maluca. Vamos falar sobre no suportar a idia de machucar Darcy, mas sobre precisar fazer isso. Espero que ele tome a iniciativa. Quem deve comear 
esta conversa  ele.
 quando ele fala:
- No importa o que acontea, o que eu disse  verdade.
Suas palavras soam como uma agulha arranhando um disco. A sensao de estar afundando e adoecendo toma conta de mim.  por isso que nunca se deve, jamais, criar 
altas expectativas.  por isso que se deve sempre ver o copo meio vazio. Ento, quando a coisa toda derrama, voc no fica to devastada. Quero chorar, mas mantenho 
meu rosto tranqilo, aplico em mim mesma uma injeo psicolgica de Botox. No posso chorar por diversas razes, e uma delas  que se ele perguntar o
motivo no serei capaz de articular uma resposta.
Luto para salvar a noite, trazer de volta a sorte grande. Ele me ama, ele me ama, ele me ama, repito a mim mesma. Mas no est ajudando. Ele olha para mim preocupado.
- O que houve?
Sacudo a cabea e ele pergunta de novo, a voz bem gentil.
- Ei, ei, ei... - ele ergue meu queixo, me olha nos olhos. - O que foi?
- Eu s estou triste - minha voz treme bastante. -  a nossa ltima noite.
- No  a nossa ltima noite.
Respiro fundo.
-No ?
-No.
Mas isso realmente no explica muito. O que o "no" significa? Que vamos continuar assim por mais algumas semanas? At a noite anterior ao jantar de ensaio do casamento? 
Ou ele quer dizer que  apenas o nosso comeo? Por que ele no pode ser mais especfico? Estou com medo da resposta dele.
- Rachel, eu te amo.
Seus lbios permanecem unidos at o final da ltima palavra, ento eu me aproximo para beij-lo. Um beijo  a minha resposta. No vou dizer o mesmo at o momento 
da nossa conversa.  assim que se faz!
Estamos nos beijando no sof, depois puxando zperes, desabotoando, tentando nos livrar dos nossos jeans com o mnimo de graa, o que  mpossvel. Tiramos do nosso 
caminho vrios cadernos do jornal, jogado-os no cho. Uma desculpa na certa ... o remdio para todos os males.Estamos fazendo amor, mas no consigo me concentrar, 
fico pensando, pensando, pensando. Posso sentir as engrenagens do meu crebro vibrando e girando como as engrenagens de um relgio suo. O que ele vai fazer? O 
que vai acontecer?
Na manh seguinte, quando acordo ao lado de Dex, ouo ele dizer "no importa o que acontea". Mas durante o sono minha mente reprocessou o significado de suas palavras, 
chegando a uma explicao perfeitamente lgica: Dexter quis dizer que seja qual for a merda que atingir o ventilador, no importa o que Darcy diga ou faa, se precisarmos 
de um tempo separados depois do massacre, ele vai esperar para me amar e tudo se ajeitar no final.  o que ele deve ter tido vontade de dizer. Mas
ainda assim. Quero que ele me diga isso. Com certeza ele vai falar mais alguma coisa antes de voltar para o Upper West Side.
Levantamos, tomamos banho juntos e vamos at o Starbucks. J temos uma rotina. So onze horas. Logo Darcy e os outros vo estar em casa de novo. S nos restam alguns 
minutos e ainda nada de conversa, nada de concluses. Terminamos nosso caf e depois paramos numa loja de brinquedos. Dex precisa comprar um presente para o beb 
de um de seus colegas de trabalho.
- Apenas uma pequena lembrana - diz ele.
No sei dizer se gosto dessa sensao de "casal estabelecido", do tipo que faz compras juntos, ou se me ressinto de desperdiar nossos momentos finais numa tarefa 
qualquer. Estou mais para a segunda opo. Quero apenas voltar para o apartamento e aproveitar mais alguns minutos juntos. Um tempo para ele compartilhar seu plano.
Mas Dex se demora olhando vrios brinquedos e livros, pedindo a minha opinio, pesando uma escolha que no tem assim tanta importncia. Finalmente ele se decide 
por um dinossauro verde de pelcia com uma expresso de desenho animado. No  o que eu escolheria para um recm-nascido, mas admiro sua convico. Espero que ele 
tenha uma similar a nosso respeito.
-  bonitinho. Voc no acha? - pergunta ele, entortando a cabecinha do bicho.
- Adorvel.
Ento, quando j est prestes a pagar pelo presente, Dex encontra um cesto de plstico cheio de dados de madeira. Ele pega dois vermelhos com bolinhas pintadas de 
dourado e os segura na palma da mo.
- Quanto custa esse par de dados?
- Quarenta e nove centavos cada um - o homem na caixa registradora diz.
- Uma pechincha, vou levar.
Samos da loja e andamos em direo ao meu apartamento. As pessoas voltam para a cidade em bandos; o trnsito retomou o ritmo normal. Estamos quase no meu quarteiro. 
Dex segura a sacola com o dinossauro na mo direita e os dados na esquerda. Ele veio sacudindo os dados pelo caminho. Penso se o estmago dele di tanto quanto o 
meu nesse instante.
- No que voc est pensando? - pergunto a ele. Quero uma resposta longa, articulando tudo que estou pensando. Quero palavras de conforto, alguma pontinha de esperana.
Ele d de ombros, passa a lngua nos lbios.
- Nada demais.
VOC VAI SE CASAR COM DARCY? As palavras rugem na minha cabea. Mas no digo nada, fico preocupada, achando que pression-Io podeno ser a melhor estratgia. Como 
se o que eu dissesse ou no dissesse nos minutos finais do nosso tempo juntos fizesse alguma diferena. Talvez seja tnue assim ... o destino de trs pessoas num 
equilbrio instvel.
- Voc gosta de apostas? - Dex pergunta, examinando os dados enquanto caminhamos.
- No - respondo. Surpresa, surpresa. Rachel no quer se arriscar.- Voc gosta?
-  - diz ele. - Gosto de jogo de dados. Meu nmero da sorte 
seis... um quatro e um dois. Voc tem uma jogada da sorte?
- No ... Bem, gosto de duplo seis - respondo, tentando mascarar meu desespero. Mulheres desesperadas no so atraentes. Mulheres desesperadas perdem.
- Por que duplo seis?
- No sei - respondo. No tenho vontade de explicar que isso tem origem no hbito de jogar gamo com meu pai quando era pequena. Eu anunciava que ia tirar duplo 
seis e quando conseguia ele me chamava de Boxcar Willy. Eu ainda no sei quem  Boxcar Willy, mas adorava quando ele me chamava assim.
- Quer que eu jogue duplo seis para voc?
- Quero - digo, apontando para a calada imunda, fazendo a vontade dele. - V em frente.
Paramos na esquina da 70 com a Terceira Avenida. Um nibus arranca perto da gente e uma mulher quase atropela Dex com o carrinho de beb. Ele parece ignorar todo 
mundo  sua volta, sacudindo os dados com as duas mos, uma expresso de intensa concentrao em seu rosto. Se eu o visse exatamente assim, mas em um cassino, vestindo 
polister e uma corrente de ouro, pensaria que a casa dele e as economias de uma vida estavam em jogo.
- O que estamos apostando? - pergunto.
-Apostando? Ns estamos no mesmo time, querida - diz antes de soprar forte os dados, suas bochechas suaves estufadas como as de um menino apagando as velas de seu 
bolo de aniversrio.
- Ento tire um duplo seis para mim agora.
- E se eu conseguir?
Penso comigo mesma: Se voc tirar duplo seis, ns ficamos juntos. Nada de casamento com a Darcy. Mas em vez disso eu digo:
- Vai significar boa sorte para ns dois.
- Ento est bem. Duplo seis saindo para voc. - Ele lambe os lbios e sacode os dados com mais fora ainda.
O sol brilha nos meus olhos enquanto ele lana os dados no ar, depois os pega com facilidade e ento abaixa o brao em direo ao cho dramaticamente, como se estivesse 
prestes a rolar uma bola de boliche. Ele abre as mos, os dedos bem separados, enquanto os cubos estalam sobre o concreto, bem ali,num movimentado cruzamento de 
Manhattan.
Um dos dados vermelhos pra no seis imediatamente. Meu corao acelera s de pensar, E se? Estamos agachados observando o dado parado ao lado do seu par, que ainda 
gira em torno do eixo, como se nunca fosse parar. Se a gente tenta fazer um dado girar tanto tempo, no consegue. Mas ali est o dado, girando, um borro de bolinhas 
douradas num fundo vermelho. E ento diminui, diminui, diminui e pra, bem do lado do outro. Duas fileiras de trs bolinhas.

Duplo seis.
Boxcar Willy.

Puta-que-pariu, penso... Nada de casamento com a Darcy! ... Ele queria
"no importa o que acontea", como se algum o controlasse l de cima... pronto, a est. Duplo seis..Nosso destino.
Tiro os olhos do dado e focalizo Dex, pensando se devo dizer a ele o motivo da tacada. Ele olha para mim com a boca ligeiramente aberta. Nossos olhos se voltam novamente 
para os dados, como se tivssemos visto errado.
Quais so as chances?
Hum, precisamente uma em 36. Apenas um pouco menos que 3%. 
Ento no estamos falando de uma chance em um milho. Mas as estatsticas podem confundir quando destacadas do contexto. Chegamos ao desfecho de um fim de semana 
crucial, significativo. Exatamente quando estamos a minutos de nos separar (por hoje? para sempre?), Dexter compra os dados por impulso, brinca com eles em vez de 
guard-las na sacola com o dinossauro de pelcia e assume sua personalidade
de menino apostador. Eu participo, apesar de no estar muito a fim de jogos. Ento decido, embora silenciosamente, os termos da jogada. E ele tira duplo seis! Como 
se dissesse: somos infalveis, querida.
Olho para os seus dados baratos com a reverncia de quem olharia para uma bola de cristal na sala luxuosa da maior vidente do mundo, urna mulher enrugada pelo sol 
da Prsia e que acabou de contar a voc como foi, como , e como vai ser a sua vida. E mesmo Dex, que no sabe o que acabou de selar para ns, est impressionado, 
dizendo que precisa me levar para Las Vegas, que daramos uma dupla dos diabos.
Exatamente.
Ele sorri para mim e diz:
- A est a sua boa sorte, querida.
No digo nada, apenas pego os dados e os enfio no bolso da frente do short.
- Voc est roubando os meus dados?
Nossos dados.
- Preciso deles - digo.
Voltamos para o meu apartamento, onde ele pega suas coisas e se despede.
- Obrigado por um fim de semana maravilhoso - diz ele, seu rosto agora espelhando o meu. Ele tambm est triste.
- . Foi maravilhoso. Obrigada - fao pose de garota confiante. Ele morde o lbio inferior.
- Melhor eu voltar. Por mais que eu no queira.
- ,  melhor voc ir.
- Telefono para voc logo, logo. Quando puder. Assim que puder.
- Tudo bem - fao que sim com a cabea.
- Certo. Tchau.
Depois de um ltimo beijo ele vai embora.
Sento no sof, segurando firme nos dados. Eles so um conforto - a jogada  quase to boa quanto uma conversa. Talvez melhor. No conversamos porque  tudo muito 
bvio. Estamos apaixonados, queremos ficar juntos e os lances confirmaram tudo. Ponho os dados com reverncia dentro da caixinha vazia de bala de canela, sobre o 
papel branco com os seis ainda virados para cima. Tateio as bolinhas douradas como se estivesse lendo em braile. Os dados me dizem que vamos ficar juntos. 
nosso destino. Tudo em mim acredita nisso. Fecho a tampa da caixinha e a empurro para junto do vaso com os lrios que ainda resistem. Os dados, a caixinha, os lrios 
- criei um altar para o nosso amor.
Olho em torno do meu apartamento limpo e arrumadinho, tudo perfeitamente
em ordem, a no ser pela cama desfeita. Os lenis tornaram diferentes formas contra o colcho, revelando um vago contorno do nossos corpos. Quero estar ali novamente, 
para me sentir mais prxima dele. Tiro minhas sandlias e caminho at a cama, deslizando para baixo das cobertas, frias por causa do ar-condicionado. Levanto, fecho 
as persianas e alcano o controle remoto do som. Billie Holiday canta. Volto para a cama, me movimento pelo colcho at meus ps o alcanarem.
Deixo que meus sentidos sejam tomados por Dex. Vejo seu rosto, sinto-o prximo de mim.
Imagino se ele chegou em casa, ou se ainda est preso no trnsito qu atravessa a cidade. Ser que vai beijar Darcy quando disser oi para ela? Ser que os lbios 
dela vo provocar uma sensao estranhae pouco familiar aps ele ter passado o fim de semana me beijando? Ser que ela vai perceber que h algo errado, incapaz 
de identificar exatamente o que mudou, nunca considerando, nem por um segundo, que sua madrinha e um par de dados possam ter alguma coisa a ver com uma expresso 
distante nos olhos do seu noivo?

Quinze

No dia seguinte, Hillary chega ao trabalho um pouco antes das onze, vestindo calas amassadas e sandlias pretas bem gastas. As unhas dos ps esto com o esmalte 
todo descascado, ento o dedo dela fica parecendo um daqueles pirulitos listrados de vermelho e branco em forma de bengala, s que achatados. Eu rio e sacudo a 
cabea enquanto ela senta na cadeira de sempre, com os ps sobre o assento, abraada aos joelhos.
- Qual  a graa?
- O seu figurino. Eles vo demitir voc.
Nosso escritrio trocou recentemente: do terno passou para o esporte fino, desde que no haja contato com clientes. Mas tenho certeza de que o conjuntinho de Hillary 
no era o que o superintendente tinha em mente quando escreveu em seu memorando "esporte fino apropriado".
Ela d de ombros.
- Gostaria que eles me demitissem ... Tudo bem. Ento me conta sobre o fim de semana. Fao questo de todos os detalhes.
Sorrio.
- Foi to bom assim?
Digo a ela que passamos dias maravilhosos. Conto sobre a ida ao Balthazar, ao Atlantic Grill, sobre nosso passeio pelo parque e como foi legal passar tanto tempo 
com Dex. Estou com a esperana de que falando bastante consiga evitar a pergunta bvia.
- E ento? Ele vai cancelar o casamento?
A est.
- Bem, no tenho certeza.
-Voc no tem certeza? Ento ele disse que est pensando no assunto?
-Bem, no.
- Ele no est pensando?
- Bem... O assunto no veio  tona por si. - Tento no dar a impresso de estar muito na defensiva.
Ela torce o nariz. Depois olha para mim com cara de quem no est entendendo nada. Fico imaginando se a reprovao dela tem mais a ver com a minha passividade do 
que com sua crescente suspeita de que Dex est me fazendo de boba. A primeira opo deve ser verdadeira, a segunda no.
- Pensei que vocs fossem ter uma discusso mais especfica - diz ela, fazendo uma careta.
- Eu tambm, mas ...
-Mas o qu? 
- Mas ele disse que me amava - conto a ela. No tinha planejado dividir esse detalhe ntimo, mas me sinto de certa forma obrigada a faz-lo.
A expresso de Hillary se modifica um pouco.
- Ele disse?
- Disse.
- Estava bbado?
- No! Ele no estava bbado - respondo de olho na tela do computador na esperana de receber um e-mail de Dex. A gente ainda no se falou desde a partida dele ontem.
Ela ainda no desistiu.
- E a? Voc tambm disse o mesmo para ele?
- Disse. Porque amo mesmo.
Ela me concede uns respeitosos minutos de silncio.
- Est bem, ento vocs dois se amam. E agora? Quando  que o rompimento acontece?
Eu discordo da caracterizao leviana do obstculo que ele tem pela frente.
- Cancelar um casamento e um relacionamento longo est longe de ser apenas um simples rompimento.
- Bem, seja l o que for. Quando ele vai fazer isso?
Meu estmago di quando digo mais uma vez que no sei. Estou tentada a contar para Hillary sobre os dados, mas guardo isso para mim mesma.  uma coisa minha com 
Dex. Alm do mais, ela no iria entender e provavelmente s acabaria enojada por eu ter confiado num lance de dados em vez de ser direta.
Pigarreio.
- E ento? Darcy chegou a falar nele?
- No mesmo ... Mas, tenho de admitir, eu meio que me descuidei do meu trabalho de montar guarda. Tenho uma boa desculpa.
Ela abre um sorriso.
- E qual  a sua desculpa?
- Conheci uma pessoa!
- No acredito. Quem? Eu sei quem ?
- No. Ele mora em Montauk. O nome dele  Julian. Rachel... antes de conhecer o Julian eu no acreditava nesse negcio de alma gmea.
- Comece do comeo - peo a ela. No h melhor ouvinte para uma pessoa apaixonada do que outra pessoa apaixonada.
Ela me conta que ele tem 37 anos,  escritor, nunca foi casado. Encontraram- se na praia. Ela tinha sado para caminhar, ele tambm. Ambos estavam sozinhos, indo 
na mesma direo. Ele parava toda hora para observar as conchas e ela finalmente o alcanou e se apresentou.
Eles acabaram caminhando de volta para a casa dele, onde ele preparou para ela uma salada de tomate, mozarela e manjerico. Tomates e manjerico do jardim dele, 
e mozarela fresca. Hillary diz que eles no conseguiam parar de falar... que ele  muito inteligente, bonito e sensvel.
- E ento? Voc se encontrou com ele depois desse dia?
-Ah, claro. Ns samos juntos durante todo o fim de semana ... Rach,  como se a gente tivesse pulado aquela besteirada toda.  difcil explicar... Ns simplesmente 
j estamos juntos. Ele  o mximo.
- Quando eu vou conhec-lo?
- Ele vem a neste fim de semana, vocs vo poder se encontrar.
- No vejo a hora!
Estou feliz por ela, mas com um pouco de inveja. Imagino que Julian no seja comprometido. Les telefona, interrompendo nosso papo. No respondo, sinto-me incapaz 
de lidar com ele. Hillary tambm parece incapaz de levantar da cadeira e ir para sua sala checar suas prprias mensagens. Nossa empresa e todos os seus parasitas 
podem esperar. Estamos conversando sobre amor.

***

Depois que Hillary deixa a minha sala, volto a pensar em Dex o tempo todo, esperando por um e-mail ou um telefonema. Quando o telefone finalmente toca, dou um salto 
na cadeira.
Mas  apenas Darcy, perguntando se estou livre para o almoo. Digo a ela que sim. Odeio a idia de um encontro, mas preciso saber o que est acontecendo. Talvez 
Dex tenha dito alguma coisa para ela.
A gente marca no Naples, um restaurante no lobby do prdio da MetLife. Como h uma fila, sugiro que a gente v para uma delicatessen do outro lado da rua. Ela diz 
que no, que est louca para comer uma pizza. Digo que tudo bem, a gente pode esperar uma mesa. Examino o rosto dela em busca de possveis sinais de um rompimento. 
Nada de novo, embora a cor do cabelo dela tenha se modificado um pouquinho por causa do sol. Ela est com um rabo-de-cavalo baixo e todo certinho.
Brincos de gua-marinha pendem de suas orelhas.
- Tem alguma coisa de errado no meu rosto? - Darcy pergunta, passando a mo nas bochechas.
- Darcy pergunta, passando a mo nas bochechas.
- Eu s estava olhando para os seus brincos. So bonitos. So novos?
- No. Dex me deu h muito tempo.
- Quando? No seu aniversrio?
- No ... no consigo me lembrar exatamente. Acho que foi s um presente qualquer.
Sinto uma onda de cime, mas digo a mim mesma que desde ento muita coisa mudou.
Darcy me pergunta como foi o meu fim de semana.
- Legal - respondo. Meu corao estremece s de pensar. - Sabe como , muito trabalho ... Como foi o seu?
- Maravilhoso. Voc deveria ter estado l. Altas festas. Altas bandas no Talkhouse. Oh, meu Deus, foi to divertido. Voc e Dex escolheram o fIm de semana errado 
para trabalhar.
Voc e Dex. Voc e Dex. Voc e Dex.
- O Dex teve de trabalhar o tempo todo? - pergunto s por garantia.
Ela revira os olhos.
- Grande novidade. Estou me casando com um viciado em trabalho.
- Ele no tem culpa dos horrios dele.
Ou de como ele se sente.
- , , eu sei - diz ela. - Mas aposto que  ele quem se oferece para metade das coisas e depois acaba ficando todo ato lado de trabalho. Tenho certeza de que ele 
gosta disso. Faz com que se sinta importante.
Percebo um tom de crtica na voz dela. Talvez esse seja o preldio da histria de uma briga feia entre eles.
-Voc acha?
- Eu sei - diz ela, enquanto somos levadas a uma mesa do lado de fora. - Voc j sabe que Hillary conheceu um cara, no?
- , ela me falou. Voc chegou a conhecer?
- Rapidamente.
- E a? O que voc achou?
- Ele no  nada feio. No faz meu tipo ... muito metido a artista. Mas ainda assim  bem bonitinho. No d para entender.
- O que voc quer dizer com isso? - pergunto, sabendo direitinho que ela acha improvvel Hillary conhecer um cara gatinho.
- D s uma olhada nela. Hillary no d a menor bola para a aparncia. Metade do tempo ela nem mesmo age como uma garota.
- Eu acho ela bonita.
Darcy me d uma olhada do tipo "cai na real'
Penso na cala amassada e nas unhas descasca das de Hillary.
- S porque ela no faz o gnero mulherzinha no significa que no seja atraente.
- Ela tem mais de trinta anos, precisa comear a usar maquiagem Essa bobagem de au naturel saiu de moda nos anos 1970.
- Bem, pelo visto Julian no concorda.
- , bem, vamos ver quanto tempo dura - diz ela, passando po num prato de azeite , vamos ver quanto tempo voc e Dex duram. Penso nos dados vermelhos, guardados 
em segurana na caixinha de bala, e o remorso instantaneamente toma conta de mim. No quero que ela fique magoada. Gostaria que houvesse um modo de Dex e eu ficarmos 
juntos e de Darcy no sofrer. Por que os finais felizes so to difceis? Tento me concentrar em Hillary e Julian.
- Acho que ela realmente est na dele - comento.
- Uau! - diz ela, revirando os olhos. - Voc sabia que o ex dela est com uma garota nova, no ?
- ,  claro que eu sei disso, mas ela no est nem a para o Corey. E foi ela quem dispensou ele, lembra?
- Bem, lembro. S que a ele comeou a sair com uma garota gostosona de 23 anos e a desfilar pelo Talkhouse com ela bem na frente da Hillary ... e ento ela fica 
toda convencida de que Julian  o homem da vida dela. Coincidncia? No creio.
Digo que acho que ela est sendo perversa.
- Pra de agourar!
- Tudo bem. No importa. Prximo assunto - diz Darcy, pousando o guardanapo de leve no canto da boca. - Quando voc falou com Marcus pela ltima vez?
- Em algum momento da semana passada.
Ela se debrua um pouco na mesa e diz que ele mencionou meu nome diversas vezes durante o fim de semana.
- Legal - digo, sem tirar os olhos do cardpio. Marcus soa como uma histria do passado.
Ela faz uma careta.
- Por que voc no se anima com ele? Voc no acha que ele  uma gracinha?
- , ele  uma graa - respondo.
O garom se aproxima da mesa para anotar nossos pedidos. Darcy pede uma pizza s para ela. Digo a ele que vou querer uma Caesar salad.
Darcy no acha uma boa idia.
- Voc quer apenas uma salada?
D para perceber que ela fica irritada porque estou pedindo uma salada e ela uma pizza. Darcy gosta de ser aquela que come com moderao.
Ento eu a tranqilizo:
- Essa salada  bem calrica e engordativa.
- Bem, voc vai ter de comer um pouco da minha pizza. No consigo comer uma pizza inteira sozinha.
Ela est falando comigo, mas na verdade quer que o garom escute. Ele sorri. Ento ela oferece a ele uma expresso amigvel e aberta. Percebo que est escondendo 
a mo esquerda sob a mesa de forma que ele no veja o anel dela.
Quando ele vira para ir embora ela diz:
- Ah, e ser que voc pode se certificar de que no vo queimar a minha pizza? s vezes queimam. E eu gosto das minhas pizzas ... como  que eu posso dizer ... "malpassadas"? 
- Ela traz o rabo-de-cavalo para a frente de um dos ombros.
Ele ri e pisca.
- Sem problema.
- Ele  muito novinho para voc - digo, sem me preocupar que ele ainda esteja perto o bastante para me ouvir.
- O qu? - diz ela toda inocente. - Ora, por favoooor, eu no estava paquerando o cara.
Antes que ela passe para outro assunto, preciso saber se h qualquer problema amoroso iminente. Uso o subterfgio do casamento.
- E ento? O que voc decidiu a respeito dos CDS?
- Dos CDS?- Ela parece confusa. - Ah, claro, as lembrancinhas.
- Ainda no voltei a pensar nisso. Tirei o fim de semana para no pensar em providncias para o casamento. Alm do mais, acho que os CDS vo dar muito trabalho. 
Talvez eu fique mesmo com as amndoas ou as balas de menta. Eles fazem caixas de bala em forma de corao que so uma gracinha. Talvez a gente providencie as caixinhas. 
Voc sabe como o Dex adora balinhas.
- Hum ... no sabia disso.
-  - confirma ela. - As de canela.
Nesta noite Dexter s telefona mais tarde e eu perco a ligao porque estou revisando documentos numa sala de reunies. A mensagem dele  curta: "O i, Rach. Desculpe 
por no ter ligado hoje ... O dia inteiro tem sido um verdadeiro 'treinamento de incndio', estou me preparando para aquela apresentao na quinta. Eu realmente 
deveria ter trabalhado nisso no fim de semana ... Mas eu no faria diferente. Valeu a pena estar com voc. Estou com saudade. Falo com voc logo, logo."
A mensagem me d uma sensao de vazio. Isso  tudo? Uma descrio do horrio de trabalho dele? E ainda por cima falando em "treinamento de incndio", uma expresso 
irritante de funcionrios de banco? Da prxima vez ele vai usar "atolado", outro desses termos odiosos, para dizer que est ocupadssimo. E o mais importante, ele 
no cita Darcy, mas tambm no diz quando vou encontr-lo outra vez, apenas que sente saudade. Tenho a impresso de que ele est escorregando para longe de mim, 
minha chance de ser feliz est se dissipando. Comeo a ficar em pnico, mas a digo a mim mesma para ser paciente. Dex vai tomar a deciso certa. No fim ele vai 
ficar comigo.
Finalmente nos encontramos na quinta-feira  noite. Ele chega  minha casa tarde, exausto do trabalho. Conversamos por uns minutos antes de ele pegar no sono com 
a cabea no meu colo, enquanto assisto a uma reprise de "Sopranos". Tony est traindo Carmella mais uma vez. Minha identificao com ela  grande e bem abrangente 
de uma forma irnica, porque, afinal, ela  a esposa e no a outra. Penso em Darcy, comparo nossos sentimentos por Dex. Ela no o ama tanto quanto eu. No  possvel. 
Esse vai ser meu argumento na reta final.
Quando j passa da meia-noite, dou uma sacudidela nele, digo que  melhor ir para casa. Ele concorda relutante e se desculpa novamente por seu horrio de trabalho 
maluco. Digo que entendo, sei como . Ele me beija e me d um abrao demorado. E ento sai para estar novamente com Darcy. Quando ele j est perto da porta, pergunto 
o que vai fazer no fim de semana.
Tento parecer despreocupada, mas por dentro me agarro  esperana de que ele me conceda algumas horas.
- Meu pai e sua mulher vm me visitar. No falei isso para voc?
- No, no. Voc no falou. Mas que legal. O que vocs vo fazer?
- Voc sabe... o de sempre. Jantares. Talvez um show.
Imagino os quatro pela cidade. Fico magoada de no poder conhecer o pai dele, e isso deixa tudo ainda mais claro: no estou com Dex. Sou a outra. Penso em todas 
as mulheres que tm de se contentar apenas com eventuais noites de quinta-feira. Nada de feriados, ocasies especiais de famlia ou jantares de trabalho importantes. 
Excludas quando realmente importa. Ento, penso comigo mesma que Dex nem chegou a me fazer qualquer promessa, falsa ou no, coisa que as outras mulheres sempre 
conseguem nos filmes. Nada a no ser dois "eu te amo" e alguns dados vermelhos.
No sbado  noite, Hillary me convence a sair com ela e Julian. Sinto-me culpada por invadir o jantar deles, mas concordo, sem querer ficar sozinha pensando em Dex. 
Tenho estado obcecada pelo seu aconchegante fim de semana familiar, ele sorrindo em meio a todas as inevitveis conversas sobre casamento, fingindo-se em dia com 
suas providncias nupciais. E talvez esteja mesmo. No tenho idia do que est acontecendo e, depois do nosso fim de semana juntos, esperar e imaginar  muito mais 
difcil.
Ento vou at Gramercy e encontro Hillary e Julian no I Trulli, um restaurante italiano. Nos sentamos numa pequena mesa redonda, no bonito ptio dos fundos, cercado 
de muros de pedras marrons, um pedao de cu azul bem acima da gente. O ptio est iluminado com velas, e pequenas luzes brancas enfeitam os galhos das rvores. 
O cenrio no poderia ser mais romntico. A no ser pelo fato de eu estar sobrando.
Passados 15 minutos, j sei que gosto de Julian. Ele no tem nenhuma afetao, fala devagar, escolhendo cuidadosamente as palavras: ele usa "prefiro" em vez de "gosto 
mais': "agradvel" em vez de "legal", "incio" em vez de "comeo". So alternativas simples e no expresses pomposas.
Ento sei que ele no est se exibindo. (Uma vez sa com um cara que usou as palavras "salubre", "sartorial" e "loquaz" numa nica noite. Recusei o convite para 
o encontro nmero dois com medo de que ele aparecesse usando um leno amarrado no pescoo e preso com um alfinete.)
E apesar de Julian no ter uma beleza tradicional, gosto de sua aparncia. Seu cabelo encaracolado meio comprido, sua pele queimado e seus olhos castanho-escuros 
me lembram um pescador portugus.
Observo enquanto ele ri de alguma coisa que Hillary acabou de dizer inclinando-se na direo dela. Ningum diria que eles se conheceram h apenas uma semana. A interao 
deles  fluida e natural, Hillary no est agindo como as mulheres costumam agir nos primeiros estgios de um relacionamento. Ela pergunta duas vezes a ele se est 
com espinafre no dentes, come at a ltima garfada de sua massa e depois insiste que a gente pea sobremesa.
Saboreando nossas fatias de cheesecake, Hillary e eu contamos a Julian o quanto detestamos nossos trabalhos. Ele pergunta por que a gente simplesmente no pede demisso. 
Explicamos que no  assim to fcil, h incentivos que perderamos ao deixar o escritrio, precisamos pagar nossos emprstimos, bl bl bl. E alm do mais, o que 
poderamos fazer?
Ele olha para mim e diz sim, o que vocs poderiam fazer? Olho para Hillary esperando que ela responda primeiro.
- Hill abriria uma loja de antiguidades - diz ele, colocando a mo na cintura dela. - Certo?
Hillary sorri. Eles j falaram dos seus sonhos. Minha aposta  que ela vai abrir a loja no centro de Montauk.
- E voc, RacheI? - pergunta Julian novamente, seus olhos escuros com uma expresso investigativa.
Essa  uma pergunta comum nas entrevistas de trabalho dos escritrios de advocacia, ao lado de "por que voc decidiu estudar Direito?".
 o momento em que se oferece a resposta apropriada sobre a busca pela justia, quando o que realmente se pensa : sou uma aluna exemplar, que tem timos resultados 
e no tenho a menor idia do que poderia fazer alm disso. Teria estudado Medicina, mas no tolero ver sangue.
Digo a ele que no sei, envergonhada com essa verdade.
- Se voc pedisse demisso, talvez fosse capaz de descobrir mais rapidamente
- Julian diz na sua voz calma. - Pobreza, fome ... essas coisas fazem voc pensar com mais clareza.
Meu celular toca.  um barulho estridente. Peo desculpas, digo que pensava ter desligado antes do jantar. Talvez seja Dex. Talvez ele tenha escapado para o banheiro 
para me telefonar.
- Quem ?- pergunta Hillary. Pelo visto ela tambm acha que  Dex.
- No tenho certeza.
- Bem, d uma olhada - diz ela. - A gente no se importa, no ?
Julian d de ombros.
- Nem um pouco.
No consigo resistir. Pego o telefone na bolsa e escuto a mensagem.  apenas Marcus. Ele diz que sabe que est tarde, mas queria saber o que eu estava fazendo.
- Marcus - digo, incapaz de esconder minha decepo.
Hillary lembra a Julian quem  Marcus, o cara que alugou a casa com a gente. Ele faz que sim com a cabea e diz que se lembra dele.
- Por que voc no telefona e diz para ele vir at aqui? - pergunta ela. - Ns pedimos uma outra garrafa de vinho.
 legal da parte dela o oferecimento, mas d para perceber que ela est pronta para terminar a noite acompanhada apenas de Julian. E eu no quero mais caridade. 
Digo que no, estou cansada, foi um jantar maravilhoso, mas tenho mesmo de ir para casa. Julian olha para a garonete e pede a conta fazendo um gesto de mo.
Quando samos do restaurante, Hillary me pergunta se vou pegar um txi. Digo a ela que no, que vou a p.
- Quarenta e poucos quarteires?
- A noite est gostosa.
Ns nos despedimos e Julian beija meu rosto. Ele tem mais ou menos a minha altura, seis centmetros menos que Hillary. Estou surpresa que Darcy no tenha mencionado 
isso.
Digo a Julian que foi um prazer conhec-lo. Ele retribui me convidando para visit-lo em Montauk. Abrao Hillary e sorrio para mostrar que sinceramente aprovo seu 
novo namorado. Quando comeo a caminhar em direo  minha casa, me dou conta de que apesar de me sentir feliz por Hillary, seu novo relacionamento me deixa ainda 
mais vazia, mais sozinha.
O simptico quarteto deve estar saindo do teatro agora, indo para um gostoso restaurante, andando pelas avenidas, rindo e cantando melodias mais marcantes do espetculo. 
O ressentimento toma conta de mim. Se eu estivesse com os dados agora, os jogaria na sarjeta.
Continuo andando e olho meu relgio. Passa um pouquinho das dez e de repente no quero ir para casa. Considero retomar a ligao de 'Marcus, mas fico preocupada, 
achando que no  justo us-lo para esquecer
Dex. Mas me sinto to mal e estou com tanta raiva que telefone para ele assim mesmo.
Ele atende de primeira.
- O que voc est fazendo? - pergunto.
- Ei, voc recebeu o meu recado?
- , recebi, eu estava jantando. Estou na sua rea. Quer me encontrar para um drinque?
- Adoraria. Onde voc est exatamente?
Digo a ele que estou na 27 com Terceira Avenida.
- Perto do Rodeo Bar?
Dou uma olhada. Ele est certo.
- , fica do outro lado da rua.
- Bem, entra e pede uma cerveja para mim, t? J estou chegando.
A voz dele est animada, alegre e me faz sorrir. Digo que vou estar no bar, esperando com a cerveja.
O Rodeo Bar  o que h de mais caipira em Manhattan. Placas de carro antigas emolduram o bar e h um enorme biso empalhado pendurado no teto. Cascas de amendoim 
cobrem o cho.
- Ei, bonitona - ouo Marcus dizendo atrs de mim. - Este lugar est ocupado?
Rio e digo que no, que ele  bem-vindo.
- Aqui est a sua cerveja.
- E ainda est gelada - diz ele, tomando um grande gole. - Obrigado.
-De nada.
- E a? Onde voc estava?
- No I Trulli.
Ele faz que sim com a cabea para mostrar que conhece o lugar.
- Que bom, voc estava num encontro?- pergunta fingindo cime.
Depois ergue o pulso como se prestes a agredir o cara que acabou de invadir seu territrio.
Rio.
- No, estava com Hillary e Julian, o novo namorado dela. Voc conheceu Julian no ltimo fim de semana, no foi?
- Ah , aquele sujeito que ela encontrou na praia.
Rio novamente.
- , mais ou menos.
- Foi isso mesmo. De verdade. Foi uma jogada ousada.
- De diversas maneiras, Hillary age mais como um cara do que como uma garota - digo e penso que jamais seria capaz de abordar um cara na praia daquele jeito.
-  - diz.ele. -  timo, eu ainda estou esperando voc se tornar agressiva comigo.
Sorrio.
- mesmo?
- ,  mesmo. Ele sorri olhando bem para mim.
- Ento - digo.
- Ento.
Ele encosta o brao no meu.
- Eu estou to branca - digo, comparando a cor de nossas peles.
- Gosto de pele clara - diz ele. -  feminino.
- Ento deixa eu entender - digo. - Voc gosta de mulheres agressivas que sejam bem femininas?
Ele estala os dedos no ar e aponta para mim.
- Isso mesmo. Ser que voc pode me ajudar?
Rio e tomo um gole da minha cerveja, imaginando se Marcus vai me beijar hoje  noite. Se ele me beijar,  possvel que eu retribua. Posso at mesmo gostar. Se voc 
no pode estar com quem ama ...
Acabamos nossas cervejas. Digo que estou cansada de msica country e pergunto se ele no quer ir embora. Ele concorda e me convida a ir a um outro bar.
- Voc j foi ao Aubette? - ele pergunta. - Fica a apenas alguns quarteires.
- , fica no mesmo quarteiro do I Trulli, certo?
- . Mas nunca fui l num sbado  noite, ento no sei se vai estar bom. Mas eles tm aqueles maravilhosos martnis com ma que combinam com voc. Quer ir?
Eu rio. Como ele sabe o que tem tudo a ver comigo? Dex  que tem tudo a ver comigo.
- Claro, vamos ..
Chegamos rpido ao Aubette e ultrapassamos a barreira do segurana musculoso e vestido de preto. Entramos.  difcil definir o perfil dos numerosos freqentadores 
...
O ambiente  bastante heterogneo. Acompanho Marcus em direo ao bar onde se pode fumar charutos, l nos fundos, e sento perto dele num sof forrado de couro, com 
acabamento em botes e braos altos.  aconchegante, mas seria ainda mais se fosse com Dex. Tento afast-lo do pensamento.
- O que voc quer?
- Um martni com ma.
Posso sentir o vinho tinto e as cervejas me subindo  cabea. Um
martni provavelmente no  uma boa idia, mas no me importo.
- Voc no vai se arrepender. Volto j, j.
Marcus volta com o meu martni e um copo de scotch para ele.
- Que tal? - pergunta depois que dou um gole.
-Bom.
Tomo mais um gole.
- Quer experimentar?
Ele toma um gole do meu copo, depois passa a lngua nos lbios e olha para mim.  um convite. Por um segundo, no meu estado semi bbado, me sinto confusa, sem saber 
o que fazer. Penso em Dex. Ele ainda no rompeu o noivado. Pode ser que nunca rompa. Enquanto isso posso beijar Marcus. Devo proteger meu corao. E algo me diz 
que Marcus no se importaria em ser usado dessa maneira. Vou me inclinando na direo dele e comeo um beijo.
- Hum - ele diz sorrindo. - Eu no reparei que isso vinha na minha direo.
Beijo mais uma vez.
- Nem isso - diz ele.
Fico imaginando se ele vai contar a Dex. Um lado meu espera que sim. Beijo-o uma terceira vez e acrescento um pouco de lngua s para garantir. Conversamos mais 
um pouco. Estou bbada e vagamente atrada por ele. Ele tem belos antebraos, a quantidade ideal de plos. Ns nos beijamos algumas outras vezes e  gostoso, mas 
nada muda dentro de mim. A cada vez que nossos lbios se tocam, tenho ainda mais saudade de Dexter.
Finalmente samos do Aubette e paramos na rua, meio sem jeito. Um txi aparece. Marcus no me impede de cham-Io e tambm no me convida para ir  casa dele. Estou 
aliviada, porque provavelmente teria dito sim. E isso seria um erro. Seria apenas por conta do martni de ma... do martni e tambm de um crescente ressentimento 
por estar, seis dias depois do lance de dados, de vela num jantar romntico e beijando o cara errado, num bar fechado, cheio de fumaa de charuto.

Dezesseis

Beijar Marcus  o que preciso para dar mais tempo a Dex. A lgica  meio complicada, mas sinto que essa pequena traio me iguala a Dex pelo menos por enquanto. 
Ele  noivo; eu beijei o amigo dele.
Hillary discorda dessa lgica. Ela est inquieta, dizendo para eu acabar logo com essa histria. Chega. J foi o suficiente.
- S mais um pouco - argumento. - Ainda estamos em julho.
Ela olha para mim, ctica.
- Ah, Hill - imploro. - A pacincia  uma virtude ... Quem espera sempre alcana ... O tempo cura tudo.
- Ah - diz ela. - Que tal "No deixe para amanh o que voc pode fazer hoje"? J ouviu essa?
- Vou conversar com ele logo, logo. Vou mesmo.
- Isso a. Voc realmente no pode adiar essa conversa por mais tempo.
Voc precisa definir tudo de uma vez por todas - diz ela. - Seguir em frente, de uma maneira ou de outra. Rach, essa coisa de ficar esperando eternamente no faz 
bem. Estou muito preocupada com voc ...
- Eu sei.Vou falar com ele. Voc deve lembrar que s estivemos juntos uma vez desde o nosso fim de semana. E isso foi tarde da noite, depois do trabalho. Ele dormiu 
no meu sof.
- Bem ... - diz ela com malcia.
-Bem o qu?
- Voc no acha que isso indica alguma coisa?
Sei o que ela est insinuando. Que se Dex me amasse o bastante passaria mais tempo comigo. Que perdi a empolgao inicial desde o Quatro de Julho.
- No, na verdade no indica nada - respondo na defensiva. - O trabalho tem sido uma loucura para ns dois. Les anda agitado o tempo todo. Voc sabe disso.A gente 
literalmente no teve tempo de se encontrar.
- Certo - diz ela. - Mas vou esperar s mais uma semana. Depois disso, no aceito nenhuma desculpa. 
- Mais duas semanas - negocio.
Explico que apenas uma pessoa muito insensvel cancelaria to facilmente um noivado. Que a situao  muito mais complicada do que ela imagina. Que Dex no ficaria 
me enganando s para se divertir. Que no mnimo ele preza nossa amizade. Que ele tambm considera minha amizade com Darcy. Que ele  ntegro. Que ele afirmou que 
me amava. E que, quando disse isso, falava srio. Falo pausadamente, tentando me convencer.
- Est bem, ento - diz ela. - Duas semanas. No mximo.
Sorrio e concordo aliviada, duas semanas sero suficientes. De um jeito ou de outro.

Enquanto isso, preciso encarar um outro obstculo: a despedida de solteira de Darcy. H sculos est marcada para o terceiro sbado de julho, mas, por razes bvias, 
ainda no planejei a noite. Claire me telefona de tarde para perguntar detalhes.
-  melhor comemorar nos Hamptons ou na cidade?
- No sei. O que voc acha?
Estou distrada, notando que minha secretria est prestes a encaminhar um fax que ainda no revisei. Se Les perceber isso, vai ficar furioso.
- Depende do que a Darcy quiser - diz Claire.
Naturalmente. Como sempre.
- Certo - respondo.
- E ento? O que ela quer fazer? - pergunta Claire insinuando que eu deveria saber disso, j que sou a madrinha.
Confesso que no sei.
- Vamos ligar para ela e descobrir - sugere Claire com a autoridade de quem j organizou muitos eventos na poca da faculdade. Ela me deixa esperando e retoma com 
Darcy na linha.
Apresentamos a ela duas opes: Manhattan ou os Hamptons. Claire enfatiza os prs e contras de cada lugar e garante que de qualquer maneira ser a melhor despedida 
de solteira de todos os tempos.
Darcy diz que tanto faz, as duas opes so timas. Ela est abatida.
Alguma coisa est errada. Talvez seja o incio de um problema no noivado, um atrito surgindo no relacionamento dos dois. Talvez Dex tenha contado alguma coisa para 
ela. Sinto uma onda de esperana, logo seguida de uma pontada de culpa. Como posso ser a causa da infelicidade da minha amiga?
- Para voc tanto faz? - pergunta Claire. - Isso  indito.
- Vocs decidam. Para mim est bom de um jeito ou de outro.
- O que Dex vai fazer? - pergunta Claire.
Estou imaginando a mesma coisa.
- No tenho certeza - responde Darcy. - Ele mencionou a possibilidade de ir aos Hamptons para jogar golfe.
- Bem, se ele vai para l, ento deveramos ficar na cidade. Voc no quer que ele esteja por perto na sua grande noite, quer? - pergunta Claire.
- No - responde Darcy. - Acho que no.
Algo est definitivamente errado. Ela no parece nem um pouco animada com sua prpria festa. Meu instinto de consol-la entra em ao.
- Claire e eu vamos organizar tudo e depois avisamos voc - digo.
- Que tal?
- , est timo - a voz dela mostra desnimo.
- Tudo bem com voc? - pergunta Claire.
- Tudo, s estou um pouco cansada.
- Est bem, ns cuidamos disso, Darce. Vai ser uma festa maravilhosa- digo.
Ns nos despedimos e desligamos. Claire me telefona em seguida.
- O que houve com ela? Parecia chateada.
-No sei.
- Voc acha que ela est aborrecida porque ainda no planejamos nada? Realmente fomos desleixadas - Claire diz, transparecendo preocupao.
Fico com medo s em pensar na hiptese de Darcy estar com raiva da gente.
- No, no pode ser isso. Ela sabe que j avisamos todo mundo semanas atrs ... Vo estar todos l. Falta s definir os ltimos detalhes. Vou conversar com ela - 
decido.
Desligo e telefono para Darcy. Ela atende, abatida.
- Tem certeza de que voc est bem? - pergunto, entrando em conflito comigo mesma, enquanto espero por uma resposta.
- Estou bem, apenas cansada ... Talvez um pouco pra baixo.
- Por qu? Como foi o fim de semana? - pergunto meio hesitante.
- Legal.
- Voc se divertiu com o pai do Dex?
- , ele  legal - diz ela.
- Voc gostou da madrasta dele?
- Ela  legal. Mas sabe ser um p no saco.
Os iguais se reconhecem.
- O que ela fez?
- Bem, ela no parava de reclamar do frio no teatro. Voc devia ter visto como ela insistiu nisso durante todo o intervalo, mesmo depois de o pai do Dex ter cedido 
seu prprio casaco a ela. Dex e eu concordamos que  isso que acontece quando se usa um vestido muito decotado.
Dex e eu ... Meu estmago di. Espero no ter que continuar ouvindo isso para sempre.
- Mas de modo geral o fim de semana foi bom?
Continuo investigando e grudo o telefone na orelha.
- , foi legal.
- Ento por que voc est pra baixo?
- Oh, eu no sei. Acho que  apenas TPM. Vou ficar numa boa.
Em outras pocas eu me esforaria para tirar Darcy desse baixo-astral, encontraria um modo de anim-la, mas em vez disso digo apenas:
- Bem, preciso desligar. Tenho de tomar algumas providncias para uma festa.
Ela ri.
- . Realmente. V se capricha.
- Est bem - respondo.
Mas sei que vou deixar Claire tomar a frente na organizao de tudo.Ela ficar feliz em armar essa despedida de solteira. Sei que ela acredita que  mais importante 
para Darcy, que seria a madrinha do casamento se eu no conhecesse Darcy h mais tempo. Ela provavelmente tem razo. O que Darcy e eu temos de mais significativo 
em comum  o passado.
O passado e Dex.
O restante da semana passa muito rpido. No vejo Dex, mas apenas porque ele est em Dallas, numa viagem de trabalho. Tento convencer Hillary a estender o prazo 
por trs dias, pois enquanto estiver no Texas ele no pode tomar nenhuma deciso (apesar de termos gastado mais de
quatro horas em telefonemas). Hillary diz que ele devia aproveitar a distncia para reavaliar seus sentimentos e estabelecer um plano. Afirmo que  isso o que ele 
est fazendo.
Na sexta-feira de manh, apenas algumas horas depois de voltar para Nova York, Dex telefona me convidando para almoar antes de ir aos Hamptons. Combinamos de nos 
encontrar num caf prximo ao meu apartamento para evitar as multides da hora do almoo no centro de Manhattan. Fico nervosa quando pego o metr. No o vejo h 
mais de uma semana - desde que beijei Marcus. Sei que beijar Marcus no foi um acontecimento significativo (para ele tambm no, j que mal nos falamos desde esse 
dia), mas me sinto estranha quando dou um beijo em Dex. No exatamente culpada, apenas hesitante.
- Senti tanta saudade de voc - diz ele, balanando a cabea. - Tive esperanas de que voc voaria at Dallas para me fazer uma surpresa.
Rio, porque essa idia realmente me passou pela cabea.
- Tambm tive muita saudade de voc - digo, me sentindo confortvel.
Ficamos na esquina, sorrindo feito loucos, antes de entrar no caf.
O lugar est lotado, um pretexto para tocarmos um no outro. Os dedos dele tocam os meus de leve, encostamos nossas pernas, a mo dele se apia nas minhas costas 
enquanto ele me conduz pela fila. Estou muito feliz perto de Dex, muito distrada para fazer o pedido. Deixamos trs pessoas passarem na nossa frente antes de escolhermos 
sanduches
de salada de ovo para viagem. Pagamos pela comida e pelos dois chs de limo, depois caminhamos em ritmo acelerado para o meu apartamento. Digo a mim mesma que devo 
manter o controle quando estivermos finalmente sozinhos. Eu realmente preciso falar com ele sobre Darcy antes da despedida de solteira. Preciso falar enquanto comemos 
nossos sanduches. A no ser,  claro, que ele comece a conversa.
No exato momento em que nos aproximamos do meu prdio, dou de cara com Claire vindo em nossa direo, a meio quarteiro de distncia.
Ouo Dex praguejar com a boca entreaberta, assim como percebo um olhar de incompreenso no rosto de Claire. No h tempo para inventar uma histria. Cinco passos 
depois ela est na nossa frente. Um tremendo flagra.
- Oi, Claire! - diz Dex com vigor.
- O que vocs dois esto fazendo aqui? - ela passa sua bolsa Prada cor de mostarda de um ombro para o outro e sorri intrigada.
Rio, nervosa.
- O que voc est fazendo aqui? -pergunto.
Trata-se de uma tentativa fajuta de ganhar tempo. Estou sob uma presso terrvel, um desastre. No deveria ser advogada, pelo menos no do tipo que trava embates 
num tribunal. Prefiro minhas grandes caixas de documentos em salas de reunies com ar-condicionado.
- Sa do trabalho mais cedo para me preparar para a festa amanh. Estava comprando um papel de presente e um carto para Darcy. - Ela v nossas sacolas. Estou segurando 
as bebidas, Dex os sanduches. Vocs vo almoar?
- No - Dex responde. Ele est perfeitamente controlado. - Bem, ns acabamos de comprar comida. Mas estou indo para o meu carro ... Vou para os Hamptons.
- Oh - diz Claire, sem parecer satisfeita. Por sorte, ela continua olhando para Dex. Levo mais f nele do que em mim.
- Vim deixar uma coisa para RacheI entregar a Darcy - explica Dex.
Ela inclina sua cabea para o lado.
- O qu?
Acho que ela no suspeita de nada. Ela simplesmente no percebe que o que estamos fazendo no  da conta dela. Ao seu ver, ela faz parte do crculo ntimo de amizades 
de Darcy, e por isso tem direito a saber tudo que diga respeito  amiga. E isso certamente inclui Dex e eu.
- Um bilhete - responde Dex. - Uma coisinha que quero entregar a Darcy antes de sua noitada.
- Ah - Claire sorri, sem ao menos imaginar por que Dex simplesmente no deixou o bilhete no apartamento deles por que ele precisaria me designar como mensageira. 
- Bem, vai ser mesmo o maior festo. Pode apostar.
- Imagino ... - diz Dex.
- E ento, Rachel? Voc tambm vai matar o trabalho hoje  tarde?
Eu gaguejo, hesito e digo no, sim, no tenho certeza, talvez.
- Ah, manda tudo pro espao. Aproveita pra me ajudar a tomar as ltimas providncias para a festa. Estou a caminho de uma loja de roupas ntimas para pegar umas 
coisinhas extras - diz ela. Ns decidimos fazer da noite de amanh uma mistura de festival de lingerie e despedida de solteira. - Por favor, vem comigo?
- Est bem. S preciso dar uma subidinha, trocar de roupa e telefonar. Encontro voc daqui a 15 minutos?
- timo! - responde Claire.
Espero que ela saia primeiro, torcendo para ter ainda um tempinho sozinha com Dex, mas ela est grudada na calada. Depois de alguns segundos, Dex desiste e se despede 
da gente. Tenho cuidado de no olhar para ele enquanto vai embora.
- Ento combinado - digo a Claire. - Encontro voc daqui a pouco.
Caminho para casa em pnico, me convencendo de que est tudo bem, de que Claire no suspeita de uma traio to cruel. Dex me liga assim que entro no apartamento. 
Atendo o telefone, minhas mos trmulas.
- Ei - diz Dex. - D para acreditar nisso?
- Oh, meu Deus - lamento. - Parece que vou desmaiar. Onde voc est?
- Virando a esquina ... Acha que ficou tudo bem?
- Espero que sim - digo, sentindo minha pulsao voltar ao normal.
- Voc se saiu bem ... Como conseguiu inventar aquela desculpa to rpido?
- No sei. Ela engoliu, no foi?
- Parece que sim ... E o bilhete?
- Estou escrevendo um agora ... Droga, nem sei o que escrever. Isto  ridculo ... Vou subir, est bem?
Digo que no  uma boa idia, tenho de me encontrar com Claire.
Ele suspira.
- Queria passar um tempo com voc. Ser que voc no consegue se livrar dela?
Sinto que vou ceder.
- Voc no acha que pode parecer estranho se eu der um bolo nela?
- Ah, vamos l, s por alguns minutos.
- Est bem - digo. - Sobe, mas s para me dar o bilhete. Depois eu realmente tenho de ir me encontrar com ela.
Ele chega ao meu apartamento alguns minutos depois e me entrega o sanduche e o bilhete dobrado. Coloco os dois na mesa de centro, perto das bebidas. Sentamos no 
sof.
- Incrvel como  fcil esbarrar em algum conhecido nesta cidade, no ? - pergunto.
- ,  mesmo - diz ele, segurando minha mo. Ele tenta me beijar, mas ainda estou muito abalada para retribuir. No consigo relaxar.  como se Claire ainda estivesse 
com a gente.
- Tenho mesmo de ir - digo, furiosa por Claire ter arruinado a chance de termos nossa grande conversa, mas ao mesmo tempo aliviada.
Ele me beija enquanto tira meu terninho e massageia meu ombro.
-Dex!
-O qu?
- Tenho de ir.
- S um minuto.
- No. Agora.
Mas quando ele acaricia meu pescoo, esqueo Claire. Em pouco tempo estamos fazendo amor.
Meu celular toca. Dou um salto.
- Merda. Deve ser Claire. Eu realmente tenho de ir - digo, sentando.
- Mas eu queria conversar sobre este fim de semana - diz ele.
- O que  que tem? - pergunto, evitando seu olhar enquanto aboto a camisa.
- Bem ... sinto muito pela despedida de solteira e tudo o mais ...
Eu o interrompo.
- Eu sei, Dex.
- Preciso tomar uma providncia logo. Simplesmente ainda no tive um momento livre. Ainda no tive uma chance ... mas quero que voc saiba que penso sobre isso, 
e sobre voc, o tempo todo. Quero dizer, o tempo todo ... - sua expresso  sincera, torturada. Ele espera que eu fale.
Esta  a minha deixa. As palavras vm na minha cabea. Esto na ponta da lngua, mas eu me calo, ponderando que este no  o melhor momento. No temos tempo para 
uma conversa de verdade. No sou
covarde, sou apenas paciente. Quero esperar a hora certa para discutir a
runa da minha melhor amiga. Ento sugiro um acordo.
- Eu sei, Dex - repito. - Vamos conversar na semana que vem, est bem?
Ele concorda meio melanclico e me abraa com fora.
Depois que ele vai embora, telefono para Claire e digo que fiquei presa numa ligao de trabalho e que j estou a caminho. Acabo de me vestir, bebo meu ch gelado 
e coloco o sanduche na geladeira. Vou para a porta e olho o bilhete dobrado. No consigo resistir. Volto, desdobro e leio:
DARCY,
S QUERIA QUE VOC RECEBESSE ALGUMA COISA MINHA ANTES DA SUA NOITADA.
ESPERO QUE VOC SE DIVIRTA COM AS SUAS AMIGAS.
COM AMOR, DEXTER

Por que ele tinha de incluir a palavra "amor"? Meu consolo  que ela no acabou de fazer amor com ele e que vamos conversar na semana que vem, ainda dentro do prazo 
estabelecido por Hillary. Ento, corro para encontrar Claire e ajud-la a preparar o grande fim de semana de Darcy.
A situao est completamente fora de controle, aquelas histrias que s acontecem com os outros. Nunca com a gente.

O misto de festival de lingerie e despedida de solteira  uma agonia do
incio ao fim, por razes bvias e tambm porque no tenho nada em comum com as amigas de trabalho da Darcy, todas materialistas, superficiais, umas vadias egocntricas. 
Claire  a melhor do lote, o que  assustador. Me conveno a sorrir e engolir.  apenas por uma noite.
Primeiro nos encontramos na casa de Claire, para dar a lingerie a Darcy, um arsenal incomparvel de rendas pretas e sedas vermelhas. Se ela resolver usar qualquer 
uma dessas peas antes do casamento, especialmente a cinta-liga com a meia arrasto, estou ferrada, a menos que ela use apenas o meu presente: uma camisola comprida, 
cor de marfim,
com um decote quase inexistente.  como se essa camisola gritasse "sou uma virgem inocente", ao contrrio dos outros presentes sensuais, que gritam "me joga na cama 
e me enche de amor". Darcy finge que gosta do meu presente, enquanto percebo uma troca de olhares maliciosos entre Claire e Jocelyn, uma amiga da Darcy que  ssia 
da Uma Thurman.
Paranica, acredito que Claire suspeita de tudo e est contando para Jocelyn. Mas logo percebo os cochichos: RacheI, a amiga antiquada de Darcy ataca novamente. 
Como ela pode ser a madrinha se no sabe nem escolher uma lingerie?
Depois do festival de lingerie vamos de txi para a Churrascaria Plataforma,
um restaurante brasileiro de rodzio de carnes perto dos teatros. Ali os garons servem interminveis pores de carne. Trata-se de uma escolha intrigante para um 
bando de mulheres magrrimas, metade das quais  vegetariana e sobrevive  base de aipo e cigarro. Nosso grupo desfila orgulhoso, atraindo os olhares da clientela 
predominantemente masculina.
Depois de uma dolorosa rodada de coquetis carssimos (debitados do meu carto de crdito), somos encaminhadas a uma mesa comprida, no centro do restaurante, onde 
as meninas continuam a provocar o ambiente, fingindo ignorar os olhares que vm de todas as direes.
Observo perto de ns um grupo de mulheres em trajes sbrios olhando para a gente com uma estranha mistura de inveja e condescendncia. Aposto que at o fim da noite 
elas vo reclamar com o garom que a nossa mesa est muito barulhenta. Ele vai pedir educadamente para falarmos
mais baixo. Ento as amigas de Darcy vo ficar ofendidas e chamar as mulheres de um bando de gordas fracassadas. Estou sentada na mesa errada, penso, Darcy ao meu 
lado. Ela ainda est usando um pequeno vu feito com as fitas e laos dos seus presentes, feliz em ser a garota mais sensual numa mesa cheia de mulheres bonitas. 
Isto , tirando eu. Finjo me importar com a conversa inconsistente, enquanto bebo minha sangria e sorrio o tempo todo.
Depois do jantar seguimos para uma boate em Midtown com cordas de veludo e seguranas arrogantes organizando as filas. Obviamente estamos numa lista VIP, uma gentileza 
de Claire, e ultrapassamos a longa fila de "ninguns" (descrio da Darcy). A noite segue a mesmice boba da tpica despedida de solteira de uma pessoa de vinte e 
poucos anos. O que seria razovel, imagino, exceto pela maioria de ns ter passado dessa idade. Estamos velhas demais para os gritinhos, as doses de bebida e a dana 
selvagem com qualquer cara atrevido (ou autodestrutivo) o bastante para se aproximar do nosso grupo de nove mulheres. E Darcy  velha demais para cumprir a lista 
de tarefas preparada por Claire: encontrar um cara ruivo que lhe pague um drinque chamado sex on the
Beach, danar com um cinqento (imagine aquele tipo que ainda freqenta
clubes noturnos), beijar um cara tatuado ou com um piercing.
Todo o evento  exagerado, cafona e espalhafatoso, mas Darcy brilha. Ela est na pista de dana, cintilando, seu cabelo fica um pouco encaracolado por causa da transpirao. 
Sua barriga malhada se revela entre a cala de cintura baixa e o top sem mangas. Seu rosto est rosado pelo suor. Todos querem falar com a noivinha. Solteiras perguntam 
ansiosas pelo vestido, e mais de um cara alerta que ela deve pensar duas vezes antes de se casar, ou, no mnimo, ter ainda uma ltima aventura. Dano por ali, fazendo 
hora.
Quando a noite finalmente termina, estou exausta, sbria e quinhentos dlares mais pobre. Quando samos da boate, Darcy diz que quer dormir na minha casa, s ns 
duas, como nos velhos tempos. Ela est to entusiasmada que no posso recusar. Sorrio. Ela sussurra no meu ouvido sua inteno de dispensar Claire, porque no ser 
a mesma coisa se ela for junto. Isso me lembra os tempos do segundo grau, de como Darcy decidia quem ela queria incluir e excluir. Annalise e eu raramente opinvamos 
e muitas vezes no conseguamos entender por que algum era includo ou no.
Chamamos um txi enquanto Darcy se despede de Claire, dizendo que a noite foi um sucesso. Depois, falando bem alto e me dando uma cutucada:
- Por que a gente no racha um txi? Deixo voc primeiro.
Concordo e samos em direo ao meu apartamento.
Jos est de servio. Ele fica feliz em ver Darcy, que sempre d bola para ele.
- Por onde c tem andado, garota? - pergunta ele. - Voc num me visita mais.
- Estou organizando meu casamento - diz ela jogando charme.
Aponta para o vu que agora est todo amassado, como se fosse precioso.
- Ah, no. Diz que  mentira! Voc vai se casar?
Trinco meus dentes e chamo o elevador.
- - diz ela, inclinando a cabea. - Voc acha que eu no deveria?
Jos ri, mostrando todos os dentes.
- Droga, no. No faa isso! - At mesmo o meu porteiro deseja Darcy. - Dispensa esse cara - diz ele.
Com certeza ele no juntou as peas deste quebra-cabea.
Darcy segura a mo de Jos, rodopia e termina o movimento com uma batida de quadril contra quadril.
- Vamos l, Darce - digo, j dentro do elevador, segurando a porta.
- Estou cansada.
Ela rodopia mais uma vez e depois entra no elevador.
Na subida, acena e joga beijinhos para a cmera de segurana, para o caso de Jos estar observando.
Quando entramos no apartamento, tiro o volume da secretria eletrnica e desligo meu telefone celular para o caso de Dex resolver telefonar. Ento visto um short 
e uma camiseta e empresto uma roupa para Darcy.
- Ser que posso usar sua velha camiseta da escola? Assim vou ter uma sensao de velhos tempos.
Digo que botei para lavar e que ela vai ter de se virar com a minha camiseta" 1989 Indy 500". Ela aceita, j que no tem jeito.
Escovo os dentes, passo o fio dental e lavo meu rosto enquanto ela fica sentada na beira da cama e fala sobre a despedida de solteira, de como se divertiu. Trocamos 
de lugar. Darcy lava o rosto e pergunta se
pode usar minha escova de dentes. Concordo, apesar de achar repulsivo compartilhar escova de dentes seja l com quem for. At mesmo o Dex. Tudo bem, talvez no o 
Dex, mas qualquer outra pessoa. Com a boca cheia de pasta, ela fala que no est bbada, nem mesmo alta, o que  surpreendente, considerando a quantidade de lcool 
que consumimos. Deve ser por causa de toda a carne que a gente comeu.
Ela cospe na pia.
- Eca. Nem me lembre disso. Devo ter engordado mais de dois quilos esta noite.
- Imagina. Voc queimou tudo danando e suando.
- Tem razo! - ela bochecha, espalhando gua para todos os lados antes de sair do banheiro.
- Voc j est pronta para dormir? - pergunto, enxugando a gua que ela derramou.
Ela olha para mim completamente despreocupada.
- No, quero ficar acordada e conversar.
- Ser que a gente pode pelo menos conversar na cama?
- Com a luz acesa. Se no voc vai cair no sono.
- Est bem - concordo.
Vamos para a cama. Graas a Deus troquei os lenis hoje de manh. Olhamos uma para a outra, nossos joelhos flexionados se tocam.
- O que devemos falar primeiro? - pergunta ela.
- Voc escolhe.
Esperava conversas sobre o casamento, mas em vez disso ela dispara uma longa sesso de fofocas sobre as meninas da festa, suas roupas, o novo corte de cabelo de 
Tracy, a luta de Jocelyn para superar a bulimia, a mania de Claire de ficar citando nomes.
Falamos da ausncia de Hillary.  claro, Darcy ficou indignada.
- Mesmo apaixonada, ela devia ter deixado o Julian pelo menos por uma noite.
 claro, no pude dizer que a verdadeira razo do boicote de Hillary no tinha nada a ver com seu novo namorado.
Ento chegamos ao Ethan. Ela quer saber se ele  gay. Ela est sempre especulando, apresentando pequenas evidncias inconsistentes: ele brincava
com as meninas no primrio, estudava economia domstica no segundo grau em vez de noes de mecnica, tem vrias amigas mulheres, se veste bem, e desde Brandi no 
namorou mais ningum. Digo que no, que tenho quase certeza de que ele no  gay.
- Como voc sabe?
- S no acho que ele seja.
- No h nada de errado se ele for - diz Darcy.
- Eu sei disso, Darce. Eu s no acho que ele seja gay.
- Bissexual.
-No.
- Ento voc realmente no acha que ele j transou com outro cara?
- No - respondo.
- Tambm tenho dificuldade em imaginar Ethan tocando o pnis de outro cara.
- Chega - digo.
- Est bem. Tudo bem. Qual  a sua ltima impresso sobre Marcus?
- Ando mais interessada nele do que antes - respondo, s para garantir que ela no tenha uma mnima intuio dos meus sentimentos por Dex.
-  mesmo? Desde quando?
- Dei um beijo nele no sbado  noite - digo e imediatamente me arrependo. Ela vai contar ao Dex.
- Srio? Pensei que voc tivesse sado com Hillary e Julian no sbado  noite.
- Eu sa. Mas encontrei Marcus depois ... para alguns drinques. No foi grande coisa, srio.
- Depois voc foi para a casa dele?
- No. No mesmo.
- Ento, onde foi que voc deu um beijo nele?
-Num bar.
- E isso foi tudo? Vocs s se beijaram?
- . O que voc est pensando? Que ns transamos num bar? Nossa.
- Bem, isso  interessante ... pensei que as coisas tinham esfriado entre vocs dois. Ento voc consegue se imaginar casando com ele?
Rio. Isso  tpico de Darcy ... transformar um fiapo de informao numa grande viagem.
- Por que voc est rindo? Ele no  "casvel"?
- No sei. Talvez... Agora ser que a gente pode, por favor, apagar a luz? Os meus olhos esto doendo.
Ela concorda, mas me lana um olhar ameaador insinuando que ainda no  hora de dormir.
Desligo a lmpada da minha cabeceira e logo que ficamos no escuro ela fala sobre Dex e o bilhete. Ela foi bem indiferente quando recebeu o papel no comeo da noite, 
mas agora diz que foi atencioso da parte dele.
- Hum - respondo.
Segue um longo silncio. Ento ela diz.
- As coisas tm estado meio estranhas com a gente ultimamente.
Meu corao dispara. - mesmo?
- A gente no transa h um tempo.
- Quanto tempo? - pergunto, cruzando os dedos embaixo dos lenis.
Ela me d a resposta que quero ouvir: desde antes do Quatro de Julho.
-  mesmo? - as palmas das minhas mos esto suadas.
- . Isso  um mau sinal?
- No sei... Com que freqncia vocs costumavam transar antes? - pergunto, satisfeita por estarmos no escuro.
- Antes disso?
Antes de ele me dizer que me amava.
- Antes do Quatro de Julho.
- Variava, mas quando as coisas estavam bem a gente transava todos os dias. s vezes duas vezes por dia.
Tento afastar essas imagens revoltantes da minha cabea, tentando encontrar algo para dizer.
- Talvez seja a presso do casamento?
- ... - responde ela.
E talvez seja porque ele est tendo um caso comigo. Sinto uma pontada de culpa dez vezes maior quando ela muda de assunto e pergunta do nada:
- Voc acredita que a gente j seja amiga h tanto tempo assim?
- , h um tempo.
- Pensa s em quantas vezes dormimos uma na casa da outra. Quantas vezes voc acha que isso aconteceu? No sou boa com contas. Talvez umas mil vezes?
- Provavelmente algo em torno disso - respondo.
- Fazia tempo que a gente no dormia juntas - diz ela.
Meus olhos j se acostumaram com o escuro, ento agora posso v-la vagamente. Com seu rosto recm-lavado e seu cabelo preso num rabo-de-cavalo,
ela parece uma adolescente. Ns poderamos estar na cama dela, de volta aos tempos de escola, dando risadinhas e cochichando, com Annalise roncando levemente ao 
lado da cama em seu saco de dormir do Garfield. Darcy sempre deixava Annalise pegar no sono. Acho que ela quase desejava que Annalise dormisse. Eu pelo menos sei 
que s vezes desejava.
- Voc quer jogar "Vinte perguntas"? - proponho. Era uma das nossas brincadeiras favoritas.
- Tudo bem. Voc comea.
- Est bem. Tenho uma.
- As mesmas regras?
- As mesmas regras.
As regras eram simples: voc deve escolher algum que ambas conheam
pessoalmente (no vale celebridade, morta ou viva) e depois o outro tem de adivinhar quem  fazendo perguntas a serem respondidas com sim ou no.
- Do segundo grau? - pergunta ela.
-Sim.
-Homem?
-No.
- Da nossa turma de formatura?
-No.
- De uma sala acima ou abaixo da gente?
- A j so duas perguntas.
- No,  uma pergunta composta - diz ela. - Se a resposta for sim. eu ainda tenho que subdividir e usar uma outra pergunta. Lembra?
- Est certo. Voc tem razo - respondo, lembrando dessa nuance.
- A resposta  no.
-Aluna?
- No. J est na pergunta cinco. Faltam 15.
Darcy fica impaciente, ela tambm est contando.
- Alguma das nossas professoras?
- No - digo, seis dedos escondidos embaixo das cobertas. Darcy era famosa por "errar nas contas" durante o jogo.
- Uma professora que voc teve?
-No.
- Uma professora que eu tive?
-No.
- Orientadora?
-No.
- A diretora?
- Essa foi a dcima. No.
- Alguma outra funcionria?
-Sim.
- Zeladora?
-No.
- Inspetora?
- No - sorrio, lembrando da vez que a inspetora flagrou Darcy e Blaine indo para um fast-food na hora do almoo. Enquanto a inspetora os conduzia  sala da diretora, 
Darcy disse para ela arranjar um trabalho de verdade: "Quantos anos voc tem? Trinta? Voc no acha que j est mais do que na hora de sair do segundo grau?" O comentrio 
rendeu a ela duas advertncias adicionais.
- Ah! Acho que descobri! - ela comea a rir sem parar. - Ela  por acaso responsvel pelo lanche?
Rio.
-Ah.
- a June.
- Isso! Voc acertou.
June foi um smbolo do segundo grau. Ela tinha uns oitenta anos, 1,20m de altura e era muito enrugada por ter fumado por muito tempo. E o principal motivo de sua 
fama foi ter deixado cair uma unha postia na lasanha de Tommy Baxter. Todo cheio de formalidades, Tommy entrou de novo na fila e devolveu a unha para June.
- Acho que voc perdeu isso aqui, June, no foi?
June abriu um sorriso, limpou o molho e o queijo da unha e a grudou de volta no dedo. Todo mundo comemorou, bateu palmas e cantou:
- D-lhe, d-lhe, d-lhe Ju-ne! D-lhe, d-lhe, d-lhe Ju-ne!
Alm de recolocar a unha, no sei o que mais ela fez para merecer o respeito dos alunos. Na verdade algum aluno entre os mais populares simplesmente decidiu que 
era bacana gostar de June. Talvez tenha at sido a Darcy. Ela tinha esse tipo de poder.
Darcy ri.
- A boa e velha June! Ser que ela j morreu?
- No, certamente ela ainda est l, perguntando s crianas com sua voz rouca se elas querem molho de tomate ou  bolonhesa no rigatoni.
Quando finalmente pra de rir, ela diz:
-Ah, isto aqui est igualzinho quelas vezes em que dormamos uma na casa da outra, h muito tempo.
- , parece - digo, enquanto uma onda de afeto por Darcy toma conta de mim.
-. A gente se divertiu na infncia, no foi?
- ,  verdade.
Darcy comea a rir novamente.
- O que foi? - pergunto.
- Voc lembra de quando dormimos na casa da Annalise e enforcamos as Barbies da irm dela?
Caio na gargalhada lembrando das Barbies, enforcadas com barbante e penduradas no vo da porta. A irm da Annalise chorou e reclamou histericamente com os pais, 
que logo combinaram com nossos pais a punio adequada. Ficamos uma semana sem brincar. O que no vero representava bastante tempo.
- Agora, pensando melhor, acho que realmente foi meio doentio - digo.
-  mesmo. E voc lembra de como Annalise no parava de dizer que no tinha sido idia dela?
- , nada era idia dela, nunca - digo.
- Ns  que sempre tnhamos idias originais. Ela era uma tremenda
maria-vai-com-as-outras.
- - concordo.
Estou silenciosa, pensando na nossa infncia. Lembro do dia em que fomos deixadas no shopping com nossas reles economias da sexta srie e samos correndo para comprar 
nossos colares de "melhor amiga", um corao partido com dizeres em cada uma das partes, cada lado pendurado numa corrente folheada a ouro.
Darcy ficou com a metade "Mel Am" e eu com a "hor iga".  claro, ficamos to preocupadas com os sentimentos de Annalise que s usvamos os colares secretamente, 
sob nossas golas rul, ou na cama,  noite. Mas ainda me lembro da emoo de enfiar a metade do corao
dentro da camisa, contra a minha pele. Tinha uma melhor amiga. Havia tanta segurana nisso, um senso to grande de identidade e de pertencimento.
Ainda guardo o colar na minha caixa de jias. A placa dourada ficou esverdeada pelo uso e pelo tempo e tambm est manchada por algo que no pode ser removido. De 
repente sou tomada por uma profunda tristeza por essas duas menininhas. Pelo que agora no existe mais entre elas. Pelo que talvez nunca seja recuperado, independente 
de Dex.
- Fala mais - pede Darcy com doura. No h vestgio daquela futura noiva egosta e arrogante que passou a me inspirar indignao e at mesmo desgosto. - Por favor, 
no dorme ainda no. Ns nunca mais ficamos assim juntas. Eu sinto saudade disso.
- Eu tambm - digo, e estou falando srio.
Pergunto se ela se lembra do nosso colar de "melhor amiga".
- Lembro. Mas como foi mesmo? - ela diz de um jeito charmoso.
Darcy adora ouvir meus relatos nostlgicos, sempre elogiando a minha boa memria. Conto a ela a histria do colar, na verso mais longa possvel. Depois que acabo, 
sussurro:
- Voc j dormiu?
Nenhuma resposta.
Enquanto escuto Darcy respirando no escuro ao meu lado, fico imaginando
como chegamos a este ponto. Como pudemos nos apaixonar pela mesma pessoa? Como pude sabotar o noivado da minha melhor amiga? Nos ltimos segundos antes de pegar 
no sono, desejo voltar atrs e desfazer tudo, presentear essas menininhas com uma nova chance.

DEZESSETE

Na manh seguinte, acordo com o barulho de Darcy fuando no meu armrio de remdios. Enquanto ela faz barulhos pela casa, tento reconstruir o sonho desta noite, 
uma srie de aes incoerentes, representadas pelos personagens de sempre: meus pais, Darcy, Dex, Marcus e at mesmo Les. A trama era confusa, mas me lembro de ter 
fugido e me escondido bastante.
Quase beijei Dex uma dzia de vezes, mas sem jamais concretizar o beijo. Fracasso at nos meus sonhos. Darcy surge do banheiro feliz da vida.
- No estou nem um pouquinho de ressaca - anuncia. - Tomei um anticido para prevenir. O seu acabou. Espero que voc no precise.
- Estou bem - respondo.
- Nada mau para o dia seguinte de uma despedida de solteira! O que voc vai fazer hoje? Ser que a gente pode passar o dia juntas? Sem fazer nada, como nos velhos 
tempos?
- Tudo bem - respondo meio relutante.
- Maravilha! - Ela vai at a cozinha e comea a mexer nas coisas.
- Voc tem cereal?
- No, o meu acabou. Voc quer ir at o EJ's?
Ela diz que no, quer comer cereais aucarados bem aqui, no meu apartamento, como nos velhos tempos, nada dos brunchs modernos de Nova York. Ela abre minha geladeira 
pra ver o que tem de comer.
- Cara, voc est sem nada. Vou dar uma saidinha para buscar um caf e umas coisas bsicas.
- Ser que a gente deveria tomar caf? - pergunto.
- Por que no?
- Porque no seramos autnticas. Ns no bebamos caf na infncia.
Ela vacila, sem captar o meu sarcasmo.
- Vamos abrir uma exceo para o caf.
- Voc quer que eu v junto? - ofereo.
- No, no precisa. No demoro.
Logo que ela sai, verifico minha secretria eletrnica. Dex me deixou duas mensagens: uma ontem  noite, outra hoje de manh. Na primeira ele diz que sente saudade. 
Na segunda pergunta se pode vir aqui hoje  noite. Telefono de volta e fico surpresa em perceber o quanto estou aliviada pela ligao ter cado na secretria eletrnica.
Ento sento no sof pensando na noite passada, na minha amizade com Darcy. Ser que vou conseguir viver em paz roubando o noivo dela?Como seria a vida sem ela? Ainda 
estou pensativa quando ela retoma, cheia de sacolas. Seguro apenas os copos de caf enquanto de forma dramtica ela deixa as sacolas carem no cho e me mostra as 
marcas vermelhas nos seus braos. Lamento manhosa e solidria, e ela sorri novamente.
- Comprei coisas timas! Fanta laranja! Suco de ma-verde! E sorvete com pedacinhos de chocolate!
- Sorvete para o caf da manh?
- No. Para mais tarde.
- Voc no vai engordar para o casamento?
Ela desdenha.
- Deixa para l. Nem ligo.
- Por que no? - pergunto, certa de que ela vai comer agora e mais tarde me culpar por permitir aquilo.
- Porque no! No seja estraga-prazeres! ... Agora vamos comer!
Ela se ocupa na cozinha procurando potes, colheres e guardanapos.
Depois traz tudo para a mesa. Ela est fazendo o gnero alto-astral, cheia de energia.

- Voc prefere comer aqui? - digo, apontando para a pequena mesa
redonda.
- No. Quero que seja igual quando a gente dormia na minha casa. A gente sempre comia em frente  televiso. Lembra? - Ela pega o controle remoto, passa pelos canais 
at encontrar a MTV. Depois serve o cereal em potes, certificando-se cuidadosamente de que temos a mesma quantidade.
No estou a fim de comer cereal, mas obviamente no tenho escolha. Apesar de achar comovente lembrarmos da nossa infncia, tambm estou irritada com o jeito mando 
dela. Pisando em voc, disse Ethan. Talvez essa seja efetivamente uma descrio precisa. E aqui estou eu, com boa vontade, deixando que ela passe o rolo compressor 
sobre mim.
- Me diz quando estiver bom - diz ela, despejando leite integral no meu pote. Detesto leite integral.
- Est bom - digo quase instantaneamente.
Ela pra e olha para mim.
- Srio? No deu nem para molhar o cereal.
- Eu sei - digo, acalmando-a -, mas  assim que eu gosto, desde os
tempos da escola.
- Tem razo - diz ela, servindo-se de leite. Ela enche seu pote at a
borda.
Ficamos ouvindo msica enquanto Darcy faz um barulho danado comendo o cereal. Quando j est no finalzinho, ergue o pote at os lbios, bebendo o leite em goles 
grandes.
- Estou fazendo muito barulho? - pergunta, olhando para mim.
Nego.
- No, tudo bem.
- Dex sempre me chama de A Barulhenta.
Sinto uma pontada no estmago sempre que vislumbro um detalhe ntimo deles, coisa que prefiro fingir que no existe. Depois percebo, com uma pontada ainda mais aguda, 
que Dex no me deu nenhum apelido. Talvez eu seja sem graa demais para merecer um. Darcy  o contrrio.
No  de se estranhar que seja to difcil abandon-la. Ela  o tipo da mulher que sufoca, mas prende a ateno. Mesmo quando  irritante, ela  envolvente, cativante.

Jennifer Lopez aparece na tela em toda sua voluptuosidade. Olhamos melanclicas enquanto ela rodopia numa paisagem rural.
- Ser que a bunda dela  to maravilhosa assim? - pergunta Darcy.
- Receio que sim - digo, na verdade sentindo prazer com o comentrio.
Ela enxerga rivais at mesmo entre as celebridades, enquanto eu nem ligo para Jennifer Lopez e sua bunda fantstica.
Darcy estala a lngua.
- Voc no acha que ela  meio gorda? - pergunta.
- No, ela  tima - digo, sabendo que a bunda de Darcy equivale  metade da bunda de Jennifer.
- Bem, eu acho...
Dou de ombros.
- Dex gosta dela. Ele acha que ela  muito atraente.
Nova informao sobre o Dexter. Blein! Blein! Blein! O que isso pode significar? Eu sou mais cheinha que Darcy, mais morena. No, nada a ver, bobagem minha. A maioria 
dos caras gosta da Jennifer, no importa que caras.  como Brad Pitt para ns mulheres. Voc pode no gostar de homem louro com traos finos, mas, puxa vida,  o 
Brad. Ningum recusa o Brad Pitt.
- No se preocupe, ela no deve ser assim to bonita na vida real. Darcy diz, partindo do princpio de que todas as mulheres so como ela e precisam ser consoladas 
sempre que encontram algum mais bonita.
-Ah-digo.
- Entenda, os maquiadores so capazes de fazer verdadeiros milagres - diz toda metida a sabichona, como se tivesse trabalhado no show business durante anos. Ela 
puxa o cobertor no encosto do sof e se enrola nele. - Gosto daqui.
Dex tambm.
- Voc est com frio? - pergunto.
- No, s quero ficar bem aconchegada e confortvel.
Ficamos assistindo a clipes at eu quase esquecer Dex. Tanto quanto possvel para uma pessoa apaixonada. Ento, do nada, durante um clipe da Janet Jackson, Darcy 
faz uma pergunta inimaginvel:
- Voc acha que devo me casar com Dexter?
Fico paralisada.
- Por que voc est me perguntando isso?
-No sei.
- Deve haver uma razo - digo, tentando manter a calma.
-Voc acha que eu devia estar com algum mais tranqilo? Como eu?
- Dex  tranqilo.
- No, no . Ele  totalmente estressado.
- Voc acha? - pergunto. Talvez seja. S que eu simplesmente no o enxergo assim.
- Totalmente.
Tiro o som da TV e me disponho a ouvir: V em frente, estou pronta para ser uma ouvinte maravilhosa. Lembro no primrio quando a gente colocava o "capacete de ouvir" 
apertando o fecho imaginrio sob o queixo como os meninos sempre faziam. Respiro fundo, fao uma pausa e a digo:
- Fico preocupada com essa pergunta. O que est acontecendo com voc?
Posso sentir meu corao acelerado e ansioso pela resposta.
- No sei... s vezes nosso relacionamento parece um pouco desgastado. Entediante. Isso  ruim? - ela olha para mim com cara de vtima.
Esta  a minha chance. Tenho uma oportunidade. Penso bem nas palavras que posso dizer, como seria fcil manipul-la. Mas inexplicavelmente no consigo. J estou 
cometendo um erro absurdo, no posso ser desonesta tambm,  demais. H um conflito de interesses, como diz o jargo jurdico. No posso aceitar a causa.
- Eu realmente no sei, Darce. S voc e Dex so capazes de decidir. Mas voc realmente devia pensar com cuidado. Talvez vocs devessem adiar - digo.
- Adiar o casamento?
- Talvez.
Darcy contrai o lbio e franze a testa. Tenho certeza de que ela est prestes a chorar, mas a seus olhos se viram para a televiso. Ela se anima toda.
- Ah, eu adoro este clipe! Aumenta! Aumenta!
Tiro a TV do mudo e aumento o som ainda mais. Darcy se sacode toda, danando com a cabea e o tronco, como um roqueiro, cantando uma msica que nunca ouvi antes, 
de uma banda qualquer de garotos. Ela sabe toda a letra. Fico observando, espantada com a repentina transformao.
Quero que ela volte a falar de Dex, mas ela no faz isso. Arruinei minha chance de aconselh-la a cancelar tudo, de dizer que Dex no  o cara certo. Por que no 
disse isso, por que no plantei a semente do descontentamento? No joguei a meu favor. Por outro lado, no acho que Darcy realmente queira um conselho. Queria consolo, 
algum para dizer que tudo vai ficar bem, que ela deve se casar com Dexter. Como eu no disse o que ela esperava ouvir, Darcy preferiu um clipe para anim-la no 
meu lugar.
- Esta msica arrebenta - diz Darcy, jogando o cobertor para o lado. Ela levanta e sai danando pelo apartamento. Ento pra e vasculha minha estante, onde h pouco 
tempo coloquei a latinha de balas de canela e os dados.
- O que voc est fazendo?
- Procurando o lbum do segundo grau. Onde est o seu?
- Na prateleira perto do cho.
- Ah, aqui est - ela levanta e percebe a latinha, tolamente colocada na altura do olho. - Posso pegar uma?
- Est vazia - digo, mas ela j abriu a tampa.
-. Por que voc tem dados aqui?
- Hum, no sei - hesito.
- Voc no sabe? - pergunta ela.
- Por nada, eu acho.
Ela me olha penalizada, como olharia para um esquizofrnico balbuciando no metr.
- Voc no sabe por que guarda dados numa latinha de balas? Est bem. Tudo bem, sua esquisita.
Ela tira os dados da latinha, sacudindo-os, como se estivesse prestes a lan-los.
- No faa isso - grito. - Guarde os dados de volta na lata.
No  uma boa idia dar ordens a Darcy. Ela  uma criana, vai querer contestar, vai querer jogar s porque eu proibi.
Como era de se esperar:
- Para o que eles servem? No entendi.
- Nada. Eles so apenas os meus dados da sorte.
- Dados da sorte? Desde quando voc tem dados da sorte?
- Desde sempre.
- Bem, ento por que voc guarda seus dados numa latinha de balas?
Voc no gosta de balas de canela.
- Gosto sim.
Ela sacode os ombros.
-Ah.
Examino seu rosto. Ela no est suspeitando de nada, mas ainda segura meus dados. Planejo atravessar o apartamento correndo, agarr-la e arranc-los  fora de suas 
mos antes que ela possa jog-los. Mas ela apenas olha para eles mais uma vez e os guarda na latinha. No tenho
certeza se os seis ficaro para cima. Verifico mais tarde. Desde que ele no sejam jogados mais uma vez, tudo bem para mim.
Ela pega novamente meu lbum escolar e traz para o sof, folheando as pginas finais com esportes e atividades nos ginsios. Isso vai distra-la por algumas horas. 
Ela encontrar milhares de assuntos para comentar: lembra disso, lembra daquilo? Darcy nunca se cansa do nosso lbum, discutindo o passado e especulando o futuro 
desse ou daquele ausente no reencontro, ou porque agora  um fracassado, ou, ao contrrio, to espetacularmente bem -sucedido que no tem tempo de voltar para Indiana 
s para um fim de semana (a categoria na qual Darey me encaixa, porque,  claro, tive de trabalhar naquele fim de semana e perdi o encontro). Ou
ento ela brinca do que mais gosta: abre uma pgina do lbum, fecha os olhos, passeia o dedo pela pgina at eu dizer "pare!" ento terei de transar com o cara indicado. 
Esses so os jogos tpicos da Darcy e, quando ganhamos nosso lbum h 12 anos, eles eram muito divertidos.
- Ah, meu Deus. Olha s o cabelo dela! Voc j viu uma franja to grande? - Darcy leva um susto quando v a foto de Lama Lindell. Ela est to ridcula. A franja 
deve ter uns trinta centmetros!
Concordo e aguardo a prxima vtima: Richard Meek. S que agora ela decide defend-lo, o contrrio do que aconteceu no final do segundo grau.
- Nada mau. Ele at que  bonitinho, no ?
- . Ele tem um sorriso legal. Mas lembra como ele cuspia na gente quando falava?
- , bem lembrado.
Darcy folheia o livro at finalmente se cansar dele, deix-lo de lado e retomar o controle da TV. Ela encontra Harry e Sally, feitos um para o outro e d um gritinho.
- Est comeando agora! Oba!
Ns duas nos encostamos no sof, colocamos os ps na mesinha e assistimos ao filme juntas mais uma vez, aps uma infinidade de vezes. Darcy sempre fala alto, recitando 
as partes que sabe de cor. No peo para ela ficar quieta nem uma vez. Porque embora ela diga que isso irrita
Dex, eu no me importo, nem quando ela erra levemente uma fala de Meg Ryan. Essa  a Darcy.  isso o que ela faz. s vezes, a mesmice de uma amiga  o que voc mais 
gosta nela.
Dezoito

Na noite seguinte Darcy me telefona exatamente quando estou chegando do trabalho. Ela est histrica. Preciso me manter fria e calma..
Ser que aconteceu? Ser que Dex cancelou o casamento?
- O que houve, Darcy? - pergunto.
Minha voz est tensa e artificial, meu corao em conflito: o amor por Dex versus a amizade por Darcy. Preparo-me para o pior, embora no saiba o que seria pior, 
perder minha melhor amiga ou o amor da minha vida. Sou incapaz de imaginar as duas possibilidades.
Darcy grita algo incoerente, alguma coisa sobre seu anel.
- O que , Darce? Calma ... O que houve com o anel?
- Perdi! - ela cai no choro.
No parece possvel sentir um desespero e ao mesmo tempo um alvio tremendo, mas  o que acontece enquanto percebo que a conversa se trata apenas de uma jia perdida.
- Onde foi que voc perdeu? Est no seguro, no est?
Pergunto como uma amiga responsvel faria. Estou sendo prestativa. Mas pareo muito mecnica. Se ela fosse menos histrica, perceberia que no dou a mnima para 
a perda do anel. Digo que ela  uma desleixada, que provavelmente colocou em algum lugar e esqueceu.
- Lembra quando voc pensou que tinha perdido e depois achou em um dos seus chinelos? Voc est sempre colocando as coisas no lugar errado, Darce.
- No, dessa vez  diferente! Dessa vez j era! J era! Dex vai me matar! - a voz dela est trmula.
Talvez no, penso. Talvez seja essa a oportunidade que ele espera. Ento eu me odeio por pensar uma coisa dessas.
- Voc disse a ele?
- No. Ainda no. Ele ainda est no trabalho ... O que vou fazer?
- Bem, onde voc perdeu o anel?
Ela no responde, apenas continua chorando.
Repito a pergunta.
-No sei.
- Quando voc viu o anel pela ltima vez? - pergunto. - Voc estava com ele no trabalho hoje? Voc tirou para lavar as mos?
- No, eu nunca tira o anel para lavar as mos! Que tipo de idiota faria isso?
Penso em retrucar, lembrar que  ela a idiota que perdeu o anel de noivado. Mas estou solidria, digo que ele certamente vai acabar aparecendo.
- No, no vai.
Ela chora ainda mais alto.
- Como voc sabe?
- Porque simplesmente sei.
No tenho mais sugestes.
- Posso passar a? Eu realmente preciso conversar com voc - diz ela.
- Pode vir, vem agora - digo, imaginando se h algo mais alm do
anel perdido. - Voc j comeu?
- No - diz ela. - Pede para mim uma sopa de bolinho de carne do restaurante chins?
- Claro.
- E rolinhos-primavera?
- Est bem. Vem logo.

Telefono para o restaurante e peo duas sopas, dois rolinhos-primavera, duas Sprites e uma poro de carne com brcolis. Darcy bate na minha porta 15 minutos depois. 
Ela est meio desarrumada, usando uma cala Levi's que reconheo dos tempos da escola - ainda cabe direitinho nela - e um top branco. Est sem maquiagem, com os 
olhos muito vermelhos e um rabo-de-cavalo todo desgrenhado. Ainda assim consegue estar bonita. Digo a ela para sentar e me contar tudo.
- J era -lamenta ela, mostrando a mo esquerda sem o anel.
- Onde voc acha que perdeu? - pergunto com calma, lembrando que Darcy j fez isso uma centena de vezes. Estou sempre ajudando e1a, arrumando sua baguna, seguindo 
e consertando suas burradas.
- Eu no perdi. Algum roubou o anel.
- Quem roubou?
- Uma pessoa.
- Como voc sabe?
- Porque desapareceu!
Ns no progredimos. Suspiro e peo que Darcy me conte tudo. Ela me encara, os olhos lacrimosos e os lbios trmulos.
- Rachei... 
-o qu?
- Voc  a minha melhor amiga.
Ela comea a chorar novamente, as lgrimas escorrem graciosamente por suas bochechas e caem em seu colo. Ela sempre fica bonita quando chora.
Concordo.
-Sou.
- Minha melhor amiga no mundo todo. Preciso contar para voc uma coisa.
- Voc pode me contar o que quiser - digo, em pnico e certa de que Dex sinalizou o rompimento.
Ela olha para mim e choraminga. Por mais confiante que seja, ela pode parecer bastante digna de pena e desprotegida quando est deprimida. E o meu instinto sempre 
foi, e ainda , ajud-la.
- Conta para mim, Darce - digo com delicadeza.
- Rachel... eu... eu tirei meu anel no apartamento de algum.
-Sei.
- No apartamento de um cara.
Sinto como se olhasse atravs de uma cmera, tentando encontrar o foco. Ser que ela est dizendo isso mesmo?
- Rachel- repete Darcy, dessa vez num sussurro. - Eu tra o Dexter.
Olho para ela, visivelmente chocada.
Sim, Darcy  uma namoradeira. Sim, ela vive se arriscando. Sim, ela  egosta. E sim, ela adora a ateno masculina. Os atributos se somam e fazem sentido. No me 
surpreende ela ser capaz de trair Dex. Quer dizer, Dex no  como ela e tambm  capaz disso. Ainda assim, estou chocada. Ela vai se casar, em menos de dois meses. 
Ela  uma noiva com um vestido
estonteante, sonhado por toda menininha. E ela est com Dexter.
Como algum no mundo teria coragem de trair Dexter?
As seis perguntas bsicas do jornalismo me ocorrem. Estou em ritmo de reprter do segundo grau, fazendo entrevistas para o jornal da escola.
-Com quem?
Ela funga. Sua cabea est baixa.
- Um cara l do trabalho.
- Quando?
- Algumas vezes. Hoje - ela esfrega os olhos com os pulsos e olha de lado para mim.
No sei o que o meu rosto deixa transparecer. E nem tenho certeza de como estou me sentindo. Aliviada? Ultrajada? Enojada? Esperanosa?  cedo para pensar nas implicaes 
da questo para mim e Dex.
- E foi assim que voc perdeu o anel?
Ela confirma balanando a cabea.
- Estive com ele hoje, depois que sa de casa, antes de ir para o trabalho - ela engole a saliva e depois solta um pequeno suspiro. - Ns ficamos juntos, voc sabe, 
ficamos de sacanagem ...
- Voc transou com ele?
O rabo-de-cavalo balana para cima e para baixo.
- Tirei o meu anel porque ...bem, eu no queria usar o anel enquanto
fazia sexo com outra pessoa - ela assoa o nariz com o leno j encharcado.
- Voc quer outro leno?
Ela faz que sim mais uma vez. Dou um pulo at o banheiro para buscar minha caixa de lenos.
- Aqui est - digo, entregando a caixa para ela.
Ela pega um leno e assoa o nariz bem forte.
- Ento, enfim, tirei o anel e deixei no peitoril da janela, perto da
cama dele. - Ela aponta para a minha cama. - Ele tem um apartamento parecido com o seu.
Um apartamento como o meu. Ento ele no  um alto executivo, o que me surpreende. Eu imaginaria Darcy envolvida com um cara poderoso. Um homem mais velho. Pensava 
em algum como o Richard Gere em Uma linda mulher. Agora penso em Matt Damon em Gnio indomvel.
- Ento ns ficamos juntos, voc sabe. - Ela gesticula. - Ento a gente se veste e vai at o metr. Vamos para o trabalho.
-Ah ...
- ...quando chego ao trabalho, percebo que esqueci de colocar o anel. Ento telefono a ele e digo que tenho de voltar e pegar o anel. Ele diz que no h problema, 
mas ter uma longa reunio s trs, por isso pergunta se a gente pode se encontrar l s sete. Concordo ... Ento, quando a gente entra, o lugar est totalmente 
arrumado. Mas quando samos, estava a maior baguna. E ele diz: "Merda, a faxineira esteve aqui." Vamos at o peitoril da janela e o anel no est mais l. - Agora 
ela chora ainda mais. - Aquela piranha pegou o anel.
- Tem certeza? No acredito que algum seja capaz de fazer uma coisa dessas ...
Ela olha para mim como se dissesse: "No seja to otimista."
- O anel se foi, Rachel. J era. J era!
- Bem, ser que ele no pode simplesmente falar com a faxineira e
esclarecer tudo?
- Ns tentamos isso. Ela no fala ingls bem. Ela s ficava repetindo "no vi anel nenhum, no" - Darcy imita o sotaque da empregada. Eu at mesmo peguei o telefone. 
Ofereci uma tima recompensa se ela achasse o anel. A piranha no  burra. Ela sabe que dois quilates correspondem a vinte milhes de privadas sujas.
- Tudo bem - digo. - Mas est no seguro, no ?
- , est no seguro. Mas como vou contar ao Dexter?
- Eu no sei. Inventa que caiu no ralo no banheiro do trabalho ... Ou ento diga que voc tirou na academia e algum arrombou o seu armrio.
Ela me d um meio-sorriso.
- Gosto da idia da academia. Isso  verossmil, certo?
- Totalmente.
- No consigo acreditar que aconteceu.
Posso dizer o mesmo. No consigo acreditar que Darcy tenha trado Dex com um cara qualquer. No consigo acreditar que esteja ajudando a acobertar o caso de Darcy. 
Ser que todo mundo trai quando est noivo?
- Esse  um caso antigo? - pergunto.
- No, no mesmo. Foram apenas algumas vezes.
- Ento no  srio?
- No sei. Realmente no sei - ela sacode a cabea e depois apia a testa nas mos.
Talvez o comportamento de Darcy nos ltimos tempos tenha a ver com esse cara.
- Voc est apaixonada por ele?
- No, meu Deus, no - diz ela. -  s diverso. No  nada.
- E voc ainda quer se casar? - pergunto.
- Sabia que voc me questionaria - Darcy comea a chorar de novo.
- Ser que voc no pode simplesmente me ajudar sem ser puritana?
Acredite em mim, no estou sendo puritana.
- Sinto muito, Darce, no quis ser puritana ... estou apenas sugerindo
uma sada, se voc quiser uma.
- Eu no quero uma. Quero me casar.  s que ... no sei... s vezes entro em pnico achando que isso ser o fim. Que nunca mais vou ficar com ningum novamente. 
Ento eu apenas tive essa pequena aventura. No foi nada.
- Tudo bem - digo. - S quero que voc tenha certeza do casamento ... s quero que voc saiba que apio qualquer que seja sua deciso...
Ela me interrompe.
- No h nenhuma deciso a ser tomada. Eu vou me casar. Eu amo o Dex.
- Sinto muito - digo. E eu sinto mesmo. Sinto muito que eu tambm ame Dex.
- No. Eu sinto muito, Rachel - diz ela, tocando minha perna.Hoje foi um dia horroroso.
- Entendo.
- Ser que voc entende mesmo? Voc pode imaginar o que significa estar a poucas semanas de fazer uma promessa que deve durar para
sempre?
Oh, pobrezinha. Ser que ela imagina quantas garotas matariam algum para fazer uma promessa como essa para algum como Dexter?
Sou uma delas.
- Para sempre  muito tempo - digo, sarcstica.
-  realmente muito tempo - diz ela. - E s vezes duvido da minha capacidade de compromisso. Quer dizer, sei que quero me casar, mas s vezes no consigo me imaginar 
passando mais quarenta anos, ou seja l quanto tempo for, e nunca mais sentir aquela emoo de beijar algum diferente. Olha s a Hillary. Ela est nas nuvens, no 
est?
-.
- E no  mais assim com Dexter. Nunca mais ser.  apenas rotina: ele trabalha o dia todo, deixando para mim toda a organizao do casamento. Ns nem nos casamos 
ainda e a parte divertida j acabou.
- Darce - digo -, o seu relacionamento evoluiu. No  mais aquele frenesi inicial, o desejo, a novidade.
Ela olha para mim atenta e pensativa. No posso acreditar no que estou falando. Estou convencendo Darcy de que seu relacionamento  timo, especial No sei por que 
estou fazendo isso. Provavelmente apenas nervosismo. Continuo.
- A emoo da conquista  sempre excitante.  diferente do amor, duradouro, real. A paixo inicial, aquela coisa "no consigo tirar minhas mos de voc" acaba para 
todo mundo.
Exceto Dex e eu, penso. Seramos eternamente apaixonados.
- Voc tem razo - diz ela. - E eu o amo.
Sei que ela acredita em mim, mas duvido que ela realmente o ame. Duvido que ela seja capaz de amar algum de verdade alm de si mesma.
Jos toca o interfone para me avisar que a comida chegou.
- Obrigada. Pode deixar ele subir - respondo pelo interfone.
Quando abro a porta para o entregador, meu telefone toca. Entro em pnico. E se for o Dex? Entrego o dinheiro a ele, disparo para dentro, jogo a sacola sobre a mesa 
e tiro o telefone do gancho exatamente quando a secretria eletrnica est prestes a ser acionada. Como era de se esperar,  o Dex.
- Oi - diz ele. - Sinto muito por no ter ligado para voc antes.
Hoje o dia foi um verdadeiro pesadelo. Roger me pediu para ...
- Tudo bem - digo, interrompendo-o.
- Posso passar a? Quero ver voc.
- Hum, no - digo.
- No posso?
-No ...
- Tudo bem. Por qu? Voc est com algum? - ele abaixa a voz.
-  - digo, tentando controlar a voz para ambos os ouvintes. - Na verdade estou.
Olho para Darcy. Ela mexe os lbios, sem emitir nenhum som:
"Quem ?"
Eu a ignoro.
- Tudo bem. Tudo bem, ento ... No  o Marcus, ? - Dex pergunta.
- No ... Darcy est aqui - explico.
- Ohhhh. Merda. Ainda bem que liguei antes - ele sussurra.
- Ento a gente se fala amanh?
-  - diz ele. - Sem falta.
-Est bem.
- Quem era? - pergunta Darcy enquanto desligo o telefone.
- Era o Ethan.
- Ah, vai, era o Marcus? - pergunta. - Voc pode falar para mim.
- No, realmente era o Ethan.
- Talvez ele esteja telefonando para dizer que  gay.
- Ah - digo, abrindo as embalagens da comida.
Enquanto comemos, pergunto como Dex est.
- O que voc quer dizer?
- Ser que ele suspeita de alguma coisa?
Ela revira os olhos.
- No, ele trabalha demais.
Ela ignora o tempo verbal: tanto faz "suspeita" ou "suspeitou", presente ou passado.
-No?
- No. Ele continua o mesmo, o bom e velho Dex de sempre.
- Srio?
-  srio. Por qu? - Ela abre a Sprite e bebe da lata.
- S fiquei pensando - digo. - J ouvi falar que, quando algum trai, a outra pessoa no fundo acaba percebendo a traio.
Ela toma a sopa com a colher de plstico e olha para mim sem entender.
- No acredito nisso - diz.
-  - digo. - Acho que tambm no.
Depois que terminamos o jantar, pego dois biscoitos da sorte.
- Qual dos dois voc quer?
Ela aponta para a minha mo esquerda.
- Este aqui - diz. - E  melhor que diga alguma coisa boa. Chega de m sorte.
Tenho vontade de dizer que transar com um colega de trabalho e esquecer o anel no apartamento dele no tm nada a ver com sorte. Abro a embalagem de plstico do 
biscoito da sorte murcho e silenciosamente leio o meu pedacinho de papel. Voc tem muito o que agradecer.
- O que diz? - Darcy quer saber. Digo a ela.
- Essa  boa.
- , mas no  uma previso.  uma declarao. Detesto quando eles fazem declaraes em vez de previses.
- Ento faz de conta que diz "voc ter muito o que agradecer" ela comenta, abrindo o papel. -  bom que o meu diga "voc vai conseguir o seu anel de volta daquela 
piranha porto-riquenha".
Ela silenciosamente l o seu papel e ento ri.
- O que foi?
- Diz: "voc tem muito o que agradecer" ... Isso  bobagem. Previses
coletivas!
Apenas uma de ns vai ter muito o que agradecer.
Darcy avisa que vai embora, que ela ter de arcar com as conseqncias.
Ela chora mais uma vez enquanto pega a bolsa.
- Ser que voc pode contar ao Dex por mim?
- Absolutamente no. No vou me envolver nisso - digo, me divertindo com o absurdo do pedido.
- O que  mesmo que eu digo?
- Que voc perdeu na academia.
- Ser que vou conseguir um novo antes do casamento?
Digo que sim, percebendo seu desapego ao anel que Dex escolheu para ela.
- Rachel?
-Hum?
- Voc acha que sou um monstro? Por favor, no pense que sou um monstro. Nunca tinha trado Dex antes. No vou mais fazer isso. Eu amo o Dex de verdade.
- Tudo bem - digo, imaginando se ela vai continuar traindo o noivo.
- Voc acha que sou horrvel?
- No, Darcy - digo. - As pessoas cometem erros.
- Eu sei, foi isso mesmo. Um erro completo. Eu realmente me arrependo.
- Vocs usaram camisinha, no foi? - pergunto.
Lembro da aula de educao sexual, da professora explicando que para cada parceiro que voc tenha, h essencialmente dzias completamente desconhecidos: todo mundo 
com quem voc dormiu e assim por diante ...
- claro!
- timo! - Pelo menos isso. - Pode ligar mais tarde se precisar.
- Obrigada - diz ela. - Obrigada por me apoiar.
- Bobagem.
- Oh, e nem preciso lembrar ... no conte para ningum. Quer dizer,
para ningum. Ethan, Hillary ...
E que tal Dex? Posso contar para o Dex?]/i]
-  claro. No vou contar para ningum.
Ela me abraa, dando uns tapinhas nas minhas costas.
- Obrigada, RacheI. No sei o que faria sem voc.
Quando Darcy vai embora, encaro meu bvio dilema ... contar ou no contar. Tento ser racional, deixando a emoo de lado:
 primeira vista, a resposta parece clara: contar. Tenho trs grandes razes para essa deciso. Primeiro, quero que ele saiba. Desejo que ele saiba. Se ele ainda 
no decidiu cancelar o casamento, saber da traio vai provavelmente impulsion-Io a terminar tudo com Darcy. Em segundo lugar, amo o Dexter, o que significa que 
tenho de tomar decises considerando o que for melhor para ele. Portanto, quero que ele esteja ciente dos fatos quando estiver tomando uma deciso to crucial para 
sua vida. Em terceiro lugar, a moralidade impe que Dex saiba; tenho obrigao moral de contar para ele a verdade sobre Darcy. (Isso no deve ser confundido com 
vingana, emboraDarcy merea uma boa dedurada.) Por fim, valorizo e respeito a instituio do casamento, e a infidelidade de Darcy certamente no  o prenncio de 
uma unio longa e duradoura. Essa terceira razo no tem nada a ver com meus prprios interesses, j que o raciocnio se aplicaria mesmo que eu no estivesse apaixonada 
pelo Dex.
Contudo, a lgica da terceira razo indica tanto que Darcy tambm tem o direito de saber da traio de Dex quanto que eu no devia esconder minhas aes dela (porque 
Darcy  minha amiga e confia em mim, e porque  errado mentir). Portanto, algum poderia argumentar que contar a verdade a Dex  fundamentalmente incoerente com 
a deciso de no contar a Darcy sobre a minha prpria m conduta.
Entretanto, esse raciocnio ignora um detalhe essencial e bsico para a minha anlise final: h uma
diferena entre achar que a pessoa deve ser informada e ser quem vai contar. Sim, Dex precisa saber o que Darcy fez e (talvez? provavelmente?) vai continuar a fazer. 
Mas ser que cabe a mim contar? Acho que no. Alm do mais, o motivo de Dex no se casar com Darcy no  a traio de ambos, nem o nosso amor. Essas coisas so todas 
verdadeiras, mas so meros sintomas de um problema maior, isto , a relao imperfeita deles.
Darcy e Dex no foram feitos um para o outro. O fato de os dois terem sido infiis, apesar de movidos por razes distintas (amor versus uma mistura egosta de medo 
do compromisso e de desejo),  apenas um indicador. Mas mesmo que nenhum dos dois tivesse sido infiel, a relao ainda assim seria equivocada. E se Darcy e Dex no 
podem enxergar essa verdade por causa do envolvimento deles, dos sentimentos e dos anos de convivncia, ento a traio  um erro necessrio e no cabe a mim bancar 
a delatora.
Talvez pudesse tambm fazer um adendo a respeito da discusso moral,
no qual eu abordaria a traio de Darcy:
Sim, contar o segredo de Darcy seria errado, mas, comparado  minha traio, no  nada. Por outro lado, algum poderia alegar que contar o segredo  pior. Dormir 
com Dex no tem nada a ver com Darcy, mas revelar a traio envolve Darcy diretamente. Entretanto, considerando-se que a
deciso final  no contar, essa discusso no tem significncia legal.
Ento, eis a minha resposta. Meu raciocnio pode ser um pouco inconsistente, particularmente no final, em que termino abruptamente com "Ento, eis". Vejo as anotaes 
em vermelho nas margens da folha. "Confuso!" e "Por que se trata de um erro que eles devem cometer? Voc os est punindo pela estupidez deles ou pela sua infidelidade? 
Explique!".
Apesar do meu raciocnio imperfeito e de saber que Hillary e Ethan me acusariam de estar sendo passiva como sempre, resolvo no "contar" nada para Dex.

Dezenove

No dia seguinte, quando volto do trabalho, Jos me entrega a roupa que chegou da lavanderia, depois verifico minha caixa de correspondncias e encontro a conta da 
TV a cabo, uma revista de moda e um grande envelope marfim escrito em uma caligrafia elaborada e postado com dois selos em forma de corao. Antes mesmo de ler o 
endereo do remetente em Indianpolis, reconheo o convite de casamento de Dex e Darcy.
Preciso acreditar que um casamento ainda pode ser cancelado depois que os convites j foram enviados. Este  apenas mais um obstculo. Sim, torna tudo mais doloroso, 
mas  apenas uma formalidade, um detalhe tcnico. Ainda assim fico tonta e meio enjoada enquanto abro o envelope e encontro outro envelope dentro dele, com o meu 
nome e as humilhantes palavras: "e acompanhante". Deixo de lado esse pequeno envelope e seus dois convites individuais quando uma folha de papel de seda cai no cho, 
deslizando para baixo do sof. No tenho energia para apanh-la. Em vez disso, sento e respiro bem fundo, reunindo coragem para ler o que est impresso, como se 
as palavras pudessem melhorar ou piorar as coisas:

NOSSA ALEGRIA SER INFINITA
SE COMPARTILHADA POR VOCS NO CASAMENTO DE NOSSA FILHA
DARCY JANE
COM O
SR. DEXTER THALER

Eu pisco para conter as lgrimas e suspiro lentamente, passando direto para o final do convite:

CONVIDAMOS VOCS A CELEBRAREM CONOSCO,
TESTEMUNHAREM SUAS PROMESSAS E SE JUNTAREM A NOS NUMA RECEPO NO
CARLYLE DEPOIS DA CERIMONIA.
CASO NO POSSAM COMPARECER, PEDIMOS QUE ESTEJAM
PRESENTES EM PENSAMENTO E EM SUAS PRECES.
DR. E SRA. HUGO RHONE

, realmente as palavras podem piorar ainda mais as coisas. Largo o convite na minha mesa de centro e fico olhando para ele. Imagino a senhora Rhone pondo os envelopes 
no correio da rua Jefferson, suas longas unhas vermelhas alisando a pilha de convites com seu orgulho maternal. Ouo sua voz nasalada dizendo: "Nossa alegria ser 
infinita" e "Pedimos que estejam presentes em pensamento e em suas preces". 
Vou oferecer a ela uma prece ... uma prece para que o casamento jamais acontea. Uma prece para que chegue ao meu apartamento outra correspondncia.

DR. E SRA. HUGO RHONE
ANUNCIAM QUE O CASAMENTO DE
SUA FILHA DARCY COM O
SR. DEXTER THALER
NO SE REALIZAR

Essas palavras sim, posso admirar. Poucas e doces, na medida certa. "No se realizar".Os Rhone sero obrigados a abandonar seu estilo pomposo. Quero dizer, eles 
no podem fornecer mais detalhes: "Lamentamos informar que o noivo est apaixonado por outra': ou "Infelizmente anunciamos que Dexter partiu o corao da nossa querida 
filha". No, essa correspondncia ser objetiva: papel barato, letra de forma e impressa em casa mesmo. A senhora Rhone no vai querer gastar mais dinheiro ainda 
com papel caro e caligrafia. Posso imagin-la no correio, no mais triunfante, recusando os selos em forma de corao; selos comuns sero bastante.
J estou deitada quando Dex telefona e pergunta se pode vir me ver.
Mesmo no dia em que recebo seu convite de casamento eu ainda digo "venha agora mesmo". Tenho vergonha da minha fraqueza, mas a me lembro de todos que j fizeram 
as coisas mais patticas em nome do amor. E  inegvel: eu amo Dex. Mesmo que ele seja a ltima pessoa no mundo pela qual eu deva sentir isso, eu o amo de verdade. 
E ainda no desisti dele.
Enquanto espero pela sua chegada, fico pensando se devo esconder o convite ou deix-lo sobre a mesa, bem  vista. Decido enfi-lo entre as pginas da revista de 
moda. Minutos depois, abro a porta vestida com a minha camisola branca de algodo.
- Voc estava dormindo? - pergunta Dex.
-Ah.
- Bem, deixa eu levar voc de volta para l.
Vamos para a cama. Ele nos cobre.
- Voc  to macia - diz ele, acariciando meu quadril por dentro da camisola.
No comeo resisto, mas depois acabo cedendo. Nossos olhos se encontram antes de ele me beijar bem lentamente. . No importa o tamanho da minha decepo, no consigo 
me imaginar interrompendo esse momento.
Quase no me mexo enquanto fazemos amor. Ele fala o tempo todo, o que normalmente no acontece. No consigo entender quase nada, mas ouo as palavras "para sempre". 
Ele quer ficar comigo para sempre, penso. Ele no vai se casar com Darcy. Ele no pode. Ela o traiu. Eles no esto apaixonados. Ele me ama.
Enquanto fazemos amor, minhas lgrimas molham o travesseiro.
- Voc est to quieta hoje - diz ele.
-  - respondo, tentando manter a voz firme. No quero que ele saiba que estou chorando. Meu ltimo desejo  que Dex sinta pena de mim. Sou passiva e fraca, mas 
tenho algum orgulho, apesar de limitado.
- Fala comigo - diz ele. - O que est se passando na sua cabea?
Quase pergunto do convite, dos planos dele, de ns dois, mas em vez disso falo despreocupada.
- Nada, srio ... s estava imaginando se vocs vo para os Hamptons neste fim de semana.
- Eu prometi ao Marcus que iria. Ele quer jogar golfe de novo.
-Ah.
- Voc no parece querer ir, no ?
- No acho uma boa idia.
- Por favor.
- No, acho que no.
Ele beija minha nuca.
- Por favor, vai, por favor.
Trs vezes "por favor" me convence.
- Est bem - murmuro -, eu vou.
Pego no sono odiando a mim mesma.

No dia seguinte Hillary invade minha sala.
- Adivinha o que recebi pelo correio - o tom dela  agressivo, nada simptico.
No me ocorreu que Hillary tambm receberia um convite. Por isso, no preparei uma defesa.
- Eu sei - digo.
- Ento voc tem a sua resposta.
- Ele ainda pode cancelar - argumento.
- Rachel!
- Ainda h tempo. Voc deu a ele duas semanas, lembra? Ele ainda tem alguns dias.
Hillary ergue as sobrancelhas e tosse com desprezo.
- Vocs tm se encontrado ultimamente?
Penso em mentir, mas no tenho foras para isso.
- Ontem  noite.
Ela arregala os olhos para mim, incrdula.
- Voc disse a ele que recebeu o convite?
-No.
- Rachel!
- Eu sei - digo, envergonhada.
- Por favor, diz para mim que voc no se tornou uma dessas mulheres.
Sei o tipo ao qual ela est se referindo. Uma mulher que mantm um relacionamento com um homem casado por anos e anos, esperando, at mesmo acreditando, que um dia 
ele vai resolver abandonar a esposa. O rompimento est prestes a acontecer ... se ela continuar com ele, no vai se arrepender no final. Mas o tempo passa e os anos 
apenas criam novas desculpas. As crianas ainda esto na escola, a esposa est doente, um casamento est sendo planejado, um neto vai nascer. H sempre um motivo 
uma razo para manter o status quo. Mas a as desculpas acabam e finalmente ela aceita que ele jamais abandonar a esposa, que ela vai terminar sempre em segundo 
lugar. Ela passa a acreditar que o segundo lugar =melhor do que nada. Ela se rende ao destino. Comeo a sentir empatia por essas mulheres, apesar de ainda no acreditar 
que tenha me juntado a elas.
- No me chame assim - protesto.
Ela olha para mim como se dissesse: " mesmo"?
- Dexter no  casado.
- Voc tem razo. Ele no  casado. Mas  noivo. O que pode ser pior. Ele pode mudar a situao dele assim - ela estala o dedo. - Mas no est fazendo porra nenhuma.
- Olha aqui, Hillary, ns temos ainda um tempo at o casamento se concretizar ... eu s posso ser umas dessas mulheres por mais um ms.
- Um ms? Voc vai levar adiante essa histria at o ltimo segundo?
Olho pela janela.
- Rachel, o que voc est esperando?
- Quero que seja uma deciso dele. No quero ser responsvel...
- Por que no?
Dou de ombros. Se ela soubesse da traio de Darcy teria um chilique.
Ela suspira.
- Voc quer um conselho?
No quero, mas aceito mesmo assim.
- Voc deve acabar tudo com ele.Agora. Faa alguma coisa enquanto ainda tem escolha. Quanto mais tempo isso durar, pior voc vai se sentir quando estiver parada 
naquela igreja, observando os dois selarem os votos matrimoniais com um beijo que Darcy prolongar por mais tempo do que manda o bom gosto... Depois voc vai ficar 
olhando eles cortarem o bolo, darem garfadas, e ela limpando o rosto dele sujo de cobertura.
Em seguida vai observ-los danando a noite toda ... e ento ...
- Eu sei, eu sei.
Hillary no terminou.
- Vai assisti-Ias escapando noite adentro para sua lua-de-mel na porra do Hava!
Fao uma cara de dor e digo a ela que j consegui imaginar a cena.
- S no entendo por que voc no faz alguma coisa, no fora a barra.
Repito que no quero ser responsvel pelo rompimento deles, que s Dexter pode decidir.
- Vai ser uma deciso dele. Voc no pode fazer uma lavagem cerebral nele. Mas pode lutar por aquilo que voc quer. Por que voc no est lutando por algo to significante 
e importante?
No tenho resposta. Pelo menos nenhuma aceitvel. Meu telefone toca, interrompendo o silncio constrangedor.
Olho para o identificador de chamadas.  o Les.
-  melhor atender - digo, sentindo-me aliviada com o fim do interrogatrio. Se fiquei satisfeita em receber um telefonema de Les  porque o dia est realmente muito 
triste.
Mais tarde, dou um tempo nas minhas pesquisas e deslizo a cadeira at a janela. Fico olhando l para baixo, para a Avenida Park, observando as pessoas enfrentarem 
seu dia-a-dia. Quantas delas se sentem desesperadas, eufricas ou simplesmente mortas por dentro? Ser que algum est prestes a perder sua maior chance? Ser que 
j perdeu? Fecho os olhos e imagino as cenas de casamento que Hillary descreveu. Ento, acrescento minha prpria seqncia da lua-de-mel: Darcy usando as lingeries 
novas e fazendo poses sedutoras na cama deles. Posso imaginar a cena perfeitamente.
E, de repente, de uma vez, fica claro por que no foro a barra. Por que no disse nada no Quatro de Julho, por que fiquei calada desde ento, at mesmo na noite 
passada. Tudo tem a ver com expectativas. No fundo, duvido que Dex v adiar o casamento e ficar comigo, no importa o que eu faa ou diga. Acredito naquelas cenas 
de Darcy e Dex se casando e partindo para a lua-de-mel, enquanto sou deixada de lado, sozinha. Antevejo minha tristeza, meus momentos finais com Dex, se isso ainda 
no aconteceu.
 claro, de vez em quando imagino um final diferente, eu e Dex juntos, mas essas imagens so sempre passageiras, nunca escapam da esfera do "e se". Em resumo, no 
levo f na minha prpria felicidade. Por outro lado, h Darcy. Ela  uma mulher superconfiante e, conseqentemente, consegue tudo. Tem sido sempre assim. Ela ganha 
porque espera ganhar. Eu no espero conseguir o que quero, ento no consigo. E nem mesmo tento.

Sbado de manh, estamos nos Hamptons. Peguei o trem hoje bem cedo e agora estamos reunidos novamente no jardim. A proximidade  um convite ao desastre. Julian e 
Hillary esto jogando badminton. Eles perguntam se algum topa desafi-Ios numa partida de duplas. Dex aceita.
Hillary olha para ele sria.
- Quem voc quer que seja seu par, Dexter?
At agora, Dex no sabia que eu contara para Hillary sobre ns. Eu tinha duas razes para no revelar isso a ele: no queria que ele ficasse desconfortvel perto 
dela, nem que se sentisse no direito de contar para um amIgo.
Mas Hillary fez seu comentrio sarcstico de uma maneira que quem estivesse a par da situao simplesmente no deixaria de perceber. O que aparentemente  a condio 
de Julian, porque ele lana a ela um olhar de censura. Fica claro que Julian ser a fora que vai manter firme o relacionamento dos dois.
Ela no pra por a.
- E ento, Dex? Quem vai ser? - ela coloca a mo na cintura e aponta para ele com a raquete.
Dex olha furioso para Hillary. O maxilar dele trava.
- E se por acaso duas pessoas quiserem formar dupla com voc?
E a? - Hillary provoca.
Darcy parece no perceber a tenso. Assim como Marcus e Claire.
Talvez todos j estejam acostumados com o tom de confrontao que
Hillary adota de vez em quando. Talvez eles apenas o atribuam  advogada
que existe nela.
Dex vira e olha para ns.
- Algum de vocs quer jogar?
Marcus abana a mo dispensando a oferta.
- No, cara. No, obrigado. Este jogo  de mulherzinha.
Darcy ri.
- , Dex. Voc  um homem feminino.
Claire recusa tambm, ela odeia esportes.
- Badminton nem mesmo  um esporte - diz Marcus, abrindo uma lata de cerveja. -  como chamar jogo-da-velha de esporte.
- Voc precisa escolher entre Darcy e RacheI. No ? - pergunta
Hillary. - Voc quer jogar, RacheI?
Estou paralisada junto  mesa de piquenique, entre Darcy e Claire.
- No, obrigado - digo com suavidade.
- Voc quer que eu seja sua parceira, querido? - pergunta Darcy.
Seu olhar cruza o jardim na direo de Dex, enquanto ela protege os olhos da luminosidade com as mos.
- Claro - diz ele. - Ento vem.
Hillary bufa enquanto Darcy logo pula da mesa dizendo que no joga bem badminton.
Dex olha para a grama, esperando que Darcy pegue a quarta raquete e se junte a ele no espao verde demarcado por uma fileira de chinelos e tnis.
- Jogamos at dez - diz Hillary, lanando a peteca para o alto a fim de dar o primeiro saque.
- Por que voc vai comear a sacar? - pergunta Dex.
- Aqui est - diz ela, jogando a peteca por cima da rede. - Fao questo.
Dex agarra a peteca e olha srio para ela.
A partida  violenta, pelo menos todas as vezes em que Hillary e Dex tm o controle. A peteca  como a munio e eles rebatem com toda a fora, mirando um no outro. 
Marcus imita um comentarista esportivo:
- E o clima est tenso aqui em East Hampton, onde os dois tim disputam o campeonato.
Claire torce para todos. Eu fico calada.
O placar est 9 a 8, Hillary e Julian lideram. Julian saca por baixo.
Darcy d um gritinho e joga de olhos fechados conseguindo acertar a peteca por pura sorte. Ela rebate para o outro lado em direo a Hillary.
Hillary prepara o movimento e lana a peteca com fora. A peteca voa. Zunindo bem acima da rede em direo a Darcy. Darcy se encolhe, pronta para rebater, quando 
Dex grita.
- Fora! Vai para fora! - O rosto dele est suado.
A peteca aterrissa bem ao lado do chinelo de Claire.
- Fora! - grita Dexter, enxugando a testa com as costas da mo.
- Bobagem. Foi dentro! - Hillary grita de volta. -Acabou a partida!
Marcus comenta conciliador que um joguinho de badminton no merece ser chamado de partida. Claire se levanta do banco e caminheat a peteca para verificar o alinhamento 
com o seu chinelo. Hillary e Julian se juntam a ela. H cinco pares de olhos sobre a peteca. Julian diz que  difcil decidir. Hillary olha sria para ele antes 
de Dex e ela comearem a gritaria de "fra" e "dentro", como jogadores de times rivais.
Claire manda voltar o ponto num clima de "vamos fazer as pazes". Ela obviamente no era uma criana que brincava fora de casa porque mandar voltar o ponto  uma 
das maiores causas de desavenas na vizinhana.
Hillary comprova.
- Bobagem - diz ela. - Nada de voltar o ponto. A peteca passou o dia inteiro caindo do lado de dentro.
- O dia inteiro? Ns estamos jogando h apenas vinte minutos Dex diz, sarcstico.
- De qualquer forma, no acho que tenha cado na linha - Darcy palpita, indiferente. Apesar de competitiva na vida real, esportes e jogos no a preocupam muito. 
Ela costumava comprar propriedades no Banco Imobilirio baseada no tamanho. Achava as casinhas muito mais bonitinhas
do que "aqueles hotis horrveis de to enormes".
- Est bem. Se voc quer trair as regras - diz Hillary para Dex, disfarando sua alfinetada com um sorriso amigvel, como se estivesse apenas brincando. Seus olhos 
esto arregalados, inocentes.
Acho que vou desmaiar.
- Est bem, voc venceu - diz Dex para Hillary, como se no se importasse. Hillary ganhou seu joguinho bobo. Hillary se recusa. Ela parece desorientada, indecisa 
entre discutir ou saborear a vitria. Estou com medo do que ela possa dizer.
Dex joga a raquete na grama, sob uma rvore.
- Vou tomar uma chuveirada - diz, indo em direo  casa.
- Ele est puto - comenta Darcy, com uma expresso ofuscante de to bvia. Ela acha que  por causa do jogo. - Dex detesta perder.
- , ele sabe dar uma de bebezo - diz Hillary enojada.
Percebo (com satisfao? esperana? superioridade?) que Darcy no defende Dex. Se ele fosse meu noivo, eu o defenderia.
 claro, se eu estivesse no lugar de Darcy, Hillary no teria sido to impiedosa.
Olho firme para ela, como se dissesse "chega".
Ela d de ombros, cai na grama e coa uma mordida de mosquito no tornozelo at sangrar. Depois, limpa o sangue com um pedacinho de grama e olha para mim novamente.
- E ento? - diz ela, desafiadora.

Naquela noite, Dex est muito quieto, quase mal-humorado. No sei se ele est furioso com a Hillary ou comigo por ter contado a ela sobre ns.
Ele ignora ns duas. Hillary tambm o ignora, a no ser por algumas provocaes ocasionais, enquanto eu tento inutilmente falar com ele.
- O que voc vai pedir? - pergunto enquanto ele examina o cardpio.
Ele nem ergue o olhar.
- No sei ainda.
- No  novidade - resmunga Hillary. - Por que voc no pede dois pratos?
Julian aperta o ombro dela e me olha sem graa.
Dex se volta para Marcus e faz de tudo para evitar qualquer conversa ou mesmo cruzar o olhar comigo e com Hillary at o final do jantar.
Estou muito preocupada. Voc est com raiva? Voc est com raiva? Voc est com raiva?, penso enquanto luto para comer meu peixe-espada. Por favor, no fique zangado. 
Estou desesperada, aflita para conversar com Dex, esclarecer tudo e aproveitar o tempo que ainda nos resta. No quero terminar de um jeito assim to amargo.
Mais tarde, no Talkhouse, Dex e eu ficamos finalmente sozinhos. Estou pronta para pedir desculpas por Hillary quando ele olha para mim, seus olhos verdes faiscando:
- Por que diabos voc contou para ela? - ele murmura.
No sou muito bem treinada em conflitos e sua hostilidade me pega de surpresa. Olho para ele sem entender, fingindo estar confusa. Ser que devo pedir desculpas? 
Dar alguma explicao? Sei que tnhamos um acordo tcito de manter segredo, mas eu precisava contar para algum.
- Hillary, voc contou para ela - diz ele, afastando o cabelo da testa.
Ele  ainda mais atraente quando est com raiva ... seu maxilar fica de alguma forma mais quadrado.
Desprezo o comentrio dele quando de repente me bate uma sensao estranha. Como ele se atreve a ficar com raiva de mim! Eu no fiz nada! Por que estou enlouquecida, 
desesperada para ser perdoada?
- Posso contar para quem eu quiser - digo, surpresa com a dureza da minha voz.
- Fala para ela ficar fora disso - diz Dex.
- Ficar fora do qu, Dex? Do nosso relacionamento fodido?
Ele est chocado. E depois magoado. timo.
- No  fodido - diz ele. - A situao , mas o nosso relacionamento no.
- Voc est noivo, Dexter. - Minha indignao aumenta e se transforma em fria. - Voc no pode ignorar isso.
- Eu sei. Ainda estou noivo ... mas voc ficou com Marcus.
- O qu? - pergunto incrdula.
- Voc deu um beijo nele no Aubette.
No posso acreditar no que estou ouvindo - ele est noivo e reclama de um beijinho de nada! Rapidamente me pergunto h quanto tempo ele sabe disso e por que no 
disse nada at agora. Luto contra o instinto de me arrepender.
- , eu beijei o Marcus. Grande coisa.
- Para mim  grande coisa, sim. - Ele est to perto de mim que sinto seu cheiro de lcool. - Eu odeio isso. No faa de novo.
- No me d ordens - sussurro de volta bem agressiva. Lgrimas de raiva escorrem dos meus olhos. - Eu no digo a voc o que fazer... Quer saber do que mais? Talvezeu 
devesse...Que tal: Case-se com a Darcy. Eu no me importo.
Saio de perto de Dex, quase acreditando no que disse.  o meu primeiro momento de liberdade do vero. Talvez o momento mais livre da minha vida. Estou no comando. 
Eu decido. Vou para os fundos, sozinha entre a multido, o corao acelerado. Minutos depois, Dex me encontra e me segura pelo cotovelo.
- Voc no falou aquilo a srio ... sobre no se importar.
Agora  sua vez de ficar desesperado. Sempre me impressiono em ver como esta regra  infalvel: a pessoa que se importa menos (ou que finge se importar menos) tem 
o poder. Mais uma vez tenho a prova. Sacudo meu brao para me desvencilhar dele e o encaro com frieza. Ele se aproxima e segura meu brao novamente.
- Sinto muito, RacheI - ele sussurra, inclinando-se em direo ao meu rosto.
Resisto. No vou amolecer.
- Estou cansada dessa espiral de emoes, Dex. O interminvel ciclo de esperana, culpa e ressentimento. Estou cansada de imaginar o que vai acontecer com a gente. 
Estou cansada de esperar por voc.
- Eu sei. Sinto muito - diz ele. - Eu te amo, RacheI.
Sinto que estou enfraquecendo. Apesar da fachada de mulher forte, tremo por estar to perto de Dex, por causa de suas palavras. Olho no olho dele. Todos os meus 
instintos e desejos ... tudo me leva a fazer as pazes, a dizer a ele que eu tambm o amo. Mas resisto como algum que se afoga numa correnteza. Sei o que preciso 
dizer. Penso nos conselhos de Hillary, seus alertas para uma atitude. Mas no estou fazendo isto por ela. Isto  por mim. Formulo as frases, as palavras que estiveram 
martelando na minha cabea durante todo o vero.
- Quero ficar com voc, Dex - digo com firmeza. - Cancele o casamento, fique comigo.
A est. Depois de dois meses de espera, depois de uma vida inteira de passividade, as cartas esto na mesa. Sinto-me aliviada, liberada, modificada. Sou uma mulher 
que quer ser feliz. Eu mereo a felicidade. Certamente, ele vai me fazer feliz.
Dex inspira, prestes a me responder.
- No - digo balanando a cabea. - Por favor, no fale comigo outra vez, exceto para me dizer que o casamento foi cancelado. Ns no temos nada mais para discutir 
at l.
Ficamos nos olhando fixamente. Por algum tempo, nenhum de ns pisca. E ento, pela primeira vez, veno Dex no jogo de quem consegue ficar srio por mais tempo.

VINTE

J se passaram dois dias depois do meu ultimato e falta um ms para o casamento. Ainda me sinto fortalecida pela minha deciso e, melhor que esperanosa, estou confiante. 
Levo f em Dex, levo f em ns dois. Ele vai cancelar. Ns vamos viver felizes para sempre. Ou alguma coisa perto disso.
Obviamente, me preocupo com Darcy. At tenho medo de que ela faa uma loucura quando se deparar com sua primeira rejeio. Tenho vises dela definhando numa cama 
de hospital, recebendo soro, cheia de olheiras, o cabelo oleoso, a pele acinzentada. Nessas cenas, estou ao seu lado, trazendo revistas e balinhas, dizendo a ela 
que tudo vai acabar bem,
que tudo tem uma razo de ser. Mesmo se essas cenas se concretizarem, nunca vou me arrepender de ter me declarado a Dex. Nunca vou me arrepender de lutar. Pela primeira 
vez, no coloquei Darcy acima dos meus desejos.
Enquanto os dias passam, vou ao trabalho, volto para casa, vou ao trabalho de novo, esperando a bomba explodir. Tenho certeza de que Dex vai telefonar a qualquer 
momento com notcias. Boas notcias. Enquanto isso, agento firme, resistindo  tentao de telefonar para ele.
S que depois de uma semana inteira comeo a me preocupar e volto a ser como antes. 
Digo a Hillary que quero telefonar para ele, sabendo que ela vai me reprimir. Pareo uma alcolatra que se arrasta at um encontro dos alcolatras annimos numa 
ltima tentativa desesperada de resistir  bebida.
- De jeito nenhum - diz ela. - No faa isso. No tente falar com ele.
- E se ele estava to bbado a ponto de no se lembrar da nos a conversa? - pergunto a ela, tentando me agarrar a qualquer desculpa.
- Pior para ele.
- Voc acha que ele se lembra?
-Lembra.
- Bem, gostaria de no ter dito nada.
- Por qu? Para que voc pudesse passar mais umas noites com ele?
- No - respondo na defensiva.
Embora a razo seja exatamente essa.
Depois de mais alguns dias de tortura, sem conseguir comer, trabalha: ou dormir, decido que tenho de fugir. Preciso ir para outro lugar, longe de Dex. Sair da cidade 
 a nica maneira de me impedir de telefona para ele, de desconsiderar tudo que eu disse em troca de mais uma noite, mais um momento com ele. Penso em ir para Indiana, 
mas no  longe o suficiente. Alm do mais, ir para casa s vai me fazer lembrar de Darcy e do casamento.
Telefono para Ethan e pergunto se posso visit-lo. Ele fica todo animado, diz que  para eu viajar quando quiser. Ento ligo para a companhia area e fao reserva 
num vo para Londres. Viajo em cinco dias e por isso tenho de pagar a tarifa sem descontos, 890 dlares, mas vale cada centavo.
Depois de digitar meu memorando de frias, vou at a sala do Les. Pela graa divina, ele no est.
- Ele est numa reunio fora do escritrio. Graas a Deus - diz Cheryl, sua secretria. Ela  minha aliada, muitas vezes me alerta quando Les est num humor difcil.
- Tenho s alguns papis para ele - digo a ela, indo em direo sala
de tortura dele.
Deixo alguns documentos sobre a cadeira, o memorando de frias embaixo de tudo. Ento mudo de idia e coloco o memorando em cima da pilha. Fico feliz em deix-lo 
to puto.
- Por que o sorriso malicioso? - pergunta Cheryl enquanto saio do escritrio.
- Memorando de frias - digo. - Depois voc me conta o quanto Les vai me xingar.
Ela levanta as sobrancelhas e diz:
- O,  - sem interromper sua digitao. - Algum vai estar em encrencas.
Les me telefona no fim do dia, quando volta para o escritrio.
- Que idia  essa?
- Como assim? - pergunto, sabendo que a minha calma vai irrit-lo ainda mais.
- Voc no me avisou que ia tirar frias!
- Ah, pensei que tivesse avisado - minto para ele.
- Quando foi isso?
- No sei exatamente ... Semanas atrs. Estou indo para um casamento.
Duas mentiras.
-Meu Deus.
Ele est bufando no telefone, esperando que eu cancele a viagem. Nos velhos tempos, quando ainda estava no meu primeiro ano, o truque intimidado poderia ter funcionado. 
Mas agora no digo nada. Fico esperando que ele fale.
-  um casamento de famlia? - pergunta ele afinal. So os seus limites: funerais e casamentos de famlia. Provavelmente apenas de parentes prximos. Ento invento 
que  o casamento da minha irm. Trs mentiras.
- Sinto muito - digo petulante. - Madrinha, voc sabe.
Deixo ele soltar seu palavreado bombstico por alguns segundos e ameaar me substituir por outro advogado. Como se todo mundo estivesse louco de vontade de trabalhar 
com ele. Como se me importasse com isso. Ento ele anuncia com prazer que no terei vida fora do escritrio at sexta-feira. Tenho certeza de que isso no vai ser 
problema.
Darcy telefona minutos depois e se revela to egosta quanto ele.
- Como voc pode viajar to perto do meu casamento?
- Prometi ao Ethan que iria visit-lo neste vero. E o vero est quase acabando.
- Qual o problema de ir no outono? Tenho certeza de que Londres  ainda mais bonita no outono.
- Preciso de umas frias. Agora.
- Por que agora?
- Eu simplesmente preciso viajar.
- Por qu? .. Tem alguma coisa a ver com Marcus?
-No.
- Voc esteve com ele?
-No.
- Por que no?
- Est bem. Talvez seja o Marcus ... - digo, na esperana de que ela cale a boca. - No acho que as coisas vo dar certo com ele. E talvez eu esteja um pouco deprimida. 
Tudo bem?
- Ah - diz ela -, sinto muito que no tenha dado certo.
A ltima coisa que eu quero  a solidariedade de Darcy. Digo que meu maior motivo  o trabalho.
- Preciso dar um tempo do Les.
- Mas eu preciso de voc aqui - ela choraminga. Pelo visto, seus dez segundos de solidariedade se esgotaram.
- Claire vai estar aqui.
- No  a mesma coisa. Voc  a minha madrinha.
- Darcy. Eu preciso de frias. Tudo bem?
- Se no tem outro jeito. - Posso imaginar o beio se projetando. - No  mesmo? - acrescenta com um tom esperanoso.
- ,  isso mesmo.
Ela suspira e tenta uma outra ttica.
- No d para voc ir na semana em que vou estar em lua-de-mel no
Hava?
- Eu poderia - digo, imaginando Darcy com sua nova lingerie. Se meu mundo girasse em torno do seu, eu poderia ... Mas sinto muito.
Ele no gira.
Nunca falei assim com a Darcy. Mas os tempos mudaram.
- Est bem. Tudo bem. Mas no se esquea de me encontrar amanh
ao meio-dia para buscar o seu vestido de madrinha ...A no ser que voc tenha planos de ir para Veneza ou coisa do tipo.
- Muito engraado - digo e desligo o telefone.
Ento agora Dex vai saber que estou indo para Londres. Tento imagin-lo ao ouvir essa notcia. Talvez a viagem faa com que ele se decida logo, talvez ele me d 
uma notcia boa antes da minha partida.
Fico esperando, me sentindo cada vez mais torturada. Nenhuma palavra dele. Nenhum telefonema. Nenhum e-mail. Verifico minhas mensagens o tempo todo, esperando que 
a luz vermelha esteja piscando. Nada. Por milhares de vezes pego no telefone e desisto, escrevo longos e-mails e no envio. De alguma forma me mantenho firme.
Ento, na noite anterior ao meu vo, Jos avisa pelo interfone.
- Dex est aqui.
Uma torrente de emoes toma conta de mim. O casamento foi cancelado! Pela primeira vez me sinto plena, transbordando. Minha alegria  abalada ao me lembrar de Darcy... 
o que vai acontecer com a nossa amizade?
Ser que ela sabe de mim? Afasto esses pensamentos e me concentro nos meus sentimentos por Dex. Ele  mais importante agora.
Mas, quando abro a porta, a expresso dele destoa de tudo que eu havia imaginado.
- Podemos conversar? - pergunta ele.
- Sim - minha voz sai num sussurro.
Sento tensa, como se algum fosse me dizer a qualquer momento que um parente prximo morreu. Ele poderia muito bem ser um policial, vindo at minha porta dar a notcia.
Ele senta ao meu lado e as palavras comeam a sair.
Esta foi uma deciso muito difcil... Amo voc de verdade ... apenas no posso ... Pensei muito nisso... estou me sentindo culpado ... no pretendia iludir voc... 
nossa amizade... incrivelmente difcil... eu me importo demais com Darc.y... no posso fazer isso com ela... devo isso  famlia dela ... sete anos ... o vero foi 
intenso... eu falei srio... desculpe ... desculpe .... desculpe mesmo ... vou te amar sempre, sempre ...
Dex cobre o rosto com as mos e lembro do meu aniversrio, de como fiquei admirando suas mos enquanto estvamos no txi subindo a Primeira Avenida. Um pouco antes 
de ele me beijar. E aqui estamos agora.
Bem no final. E eu nunca mais vou beij-lo.
- Diga alguma coisa - pede Dex. Os olhos dele esto vidrados, os clios molhados e bem pretos. - Por favor, diga alguma coisa.
Ouo a mim mesma dizendo que entendo, que vou ficar bem. No choro. Em vez disso, me concentro na minha respirao. Para dentro e para fora. Para dentro e para fora. 
Mais silncio. No h mais nada a dizer.
- Agora  melhor voc ir embora - peo.
Enquanto Dex se levanta e caminha at a porta, penso em gritar, implorar.
No v! Por favor! Eu te amo! Mude de idia! Ela traiu voc! Mas permaneo imvel, observando ele ir embora, sem hesitar ou virar para me olhar pela ltima vez.
Fico olhando para a porta por um longo tempo, escutando o silncio barulhento. Quero chorar, para preencher o vazio assustador, mas no consigo. O silncio aumenta 
ainda mais quando considero o que fazer em seguida. Arrumar as malas? Dormir? Telefonar para Ethan ou Hillary?
Por um segundo irracional tenho um desses pensamentos que a maioria das pessoas no admite: engolir uma dzia de comprimidos, e depois vodca. Poderia punir Dex de 
verdade, arruinar o casamento deles e acabar com minha prpria tristeza.
No seja maluca.  apenas uma pequena decepo. Voc vai superar isso. 
Penso em todos os coraes partidos neste momento, em Manhattan, em todo o mundo. Penso em toda a avassaladora tristeza. Imaginar o sofrimento alheio faz com que 
eu me sinta menos sozinha. Maridos abandonando suas esposas depois de vinte anos de casamento. Crianas chorando:
"No me abandone, papai! Por favor, fique!" Meu sofrimento no se compara a esse tipo de dor. Foi apenas um romance de vero. Nunca duraria para alm de agosto.
Levanto, caminho at a estante de livros e pego a latinha de balas. Tenho uma ltima esperana. Se eu tirar duplo seis talvez ele mude de idia, volte para mim. 
Como se fosse mgica, sopro sobre o dado, exatamente como Dex fez. Ento sacudo uma vez a minha mo direita e jogo
cuidadosamente. Exatamente como na nossa primeira jogada, um dado pra antes do seu par. Pra num seis! Prendo a respirao.  apenas um cinco. Joguei um onze.  
como se algum estivesse me sacaneando, dizendo:
Chegou perto, mas est sem sorte.

Vinte e um

Estou sobrevoando o oceano Atlntico quando decido que no vou contar a Ethan os terrveis e patticos detalhes da minha histria com Dex. No vou pensar nisso o 
tempo todo nem ficar na fossa depois que o avio pousar em solo britnico. Ser o primeiro passo para minha nova vida. Mas usarei o vo para pensar nele e na minha 
situao. Como arrisquei tudo e perdi. Como no vale a pena se arriscar. Como  melhor no criar expectativas. Como eu estaria bem melhor se nunca tivesse me envolvido, 
me expondo  rejeio,  decepo e ao espetculo de Darcy
ganhando mais uma vez.
Recosto a cabea na janela quando uma menininha atrs de mim chuta minha poltrona uma, duas, trs vezes. Ouo sua me repreend-la com uma voz doce:
- Ashley, no chute a poltrona da moa simptica. - Ashley continua a chutar. - Ashley! Isto  errado. No pode chutar no avio - a me repete com uma calma exagerada, 
tentando demonstrar a todos a me competente que . Fecho os olhos enquanto voamos pela noite e
me recuso a abri-los at a aeromoa oferecer os fones de ouvido.
- No, obrigada - digo.
Nada de filme para mim. Nas prximas horas estarei muito ocupada ruminando toda a tristeza possvel.
Disse para Ethan no vir me buscar no aeroporto, falei que pegaria um txi at seu apartamento. Mas sinceramente espero que ele venha mesmo assim. Apesar de viverem 
Manhattan, me sinto intimidada em outras cidades grandes, especialmente cidades estrangeiras. Com exceo da viagem a Roma com meus pais, nas bodas de prata deles, 
nunca sa do pas.
Fora as cataratas do Nigara, no lado canadense, o que no conta. Por isso fico aliviada ao encontrar Ethan esperando por mim bem depois da alfndega, com um sorriso 
enorme, a cara de menino feliz de sempre. Ele est usando culos novos e modernos, ao estilo Buddy Holly, s que marrons.
Ele vem e me abraa forte como um irmo. Ns dois rimos.
-  to bom ver voc! Aqui, me d sua mala - diz ele.
- ,  bom ver voc tambm - sorrio de volta para ele. - Gosto dos seus culos.
- Voc acha que eles me deixam com cara de inteligente? - ele escorrega os culos pelo nariz e faz uma pose bem acadmica, mexendo numa barba inexistente.
- Muito mais - dou risadas.
- Estou to feliz que voc esteja aqui!
- Estou muito feliz em estar aqui.
Tive um vero repleto de decises ruins, mas enfim tomei uma boa deciso. S de ver Ethan j me sinto melhor.
- At que enfim voc resolveu me fazer uma visita - diz ele, manobrando minha mala atravs da multido. Conseguimos sair do terminal e entramos na fila do txi.
- No consigo acreditar que estou na Inglaterra. Isso  demais! Respiro o ar britnico pela primeira vez. O tempo est exatamente como eu imaginava: nublado, chuviscando 
e ligeiramente frio.
- Voc no estava brincando sobre o tempo aqui. Parece que estamos em novembro, no em agosto.
- Bem que eu disse... Na verdade tivemos alguns dias quentes este ms. Mas agora tudo j voltou ao normal.  implacvel. Mas voc se acostuma. Voc apenas precisa 
vestir mais roupa.
Em poucos minutos estamos no banco de trs de um txi preto, minhas malas aos meus ps. O txi  bonito e espaoso, diferente dos amarelinhos de Nova York.
Ethan pergunta como estou me sentindo e por um segundo penso que ele se refere a Dex, mas a percebo ser apenas a costumeira pergunta ps-vo.
- Ah, bem - respondo. - Realmente animada de estar aqui.
- Est sentindo o fuso horrio?
-Um pouco.
- Uma cerveja vai resolver isso - diz ele. - Nada de dormir. Temos muitos compromissos esta semana.
Rio.
- Como o qu, por exemplo?
- Passear. Beber. Relembrar. Coisas intensas que consomem muito tempo ... Meu Deus, como  bom ver voc.
Chegamos ao apartamento de Ethan, que fica num poro em Kensingtono. Ele me mostra logo o quarto, a sala e a cozinha. Sua moblia  elegante, moderna, as paredes 
esto cobertas de pinturas abstratas e.posters de msicos de jazz. Trata-se de um apartamento de solteiro, mas sem aquela sensao de eu-estou -fazendo-de- tudo- 
para -levar-algum -para -a-cama.
- Voc provavelmente quer tomar um banho, no ?
Digo a ele que sim, preciso de um bom banho. Ele me d uma toalha e avisa para eu no demorar, que quer conversar.
Depois do banho e da roupa trocada, Ethan pergunta:
- E ento? Como ficou a situao com Dex? Eles ainda esto noivos, no ?
Eu tentei parar de pensar nele, mas no consegui nem por um instante. Tudo me faz lembrar dele. Um anncio da Newcastle. Bebendo Newcastles com ele no meu aniversrio. 
Dirigir no lado esquerdo da rua. Dex  canhoto.
Mas a pergunta sincera de Ethan me d uma dor aguda no peito. Minha garganta aperta enquanto tento no chorar.
- Oh, meu Deus. Eu sabia - diz Ethan. Ele abre os braos e segura minha mo, me puxando para o seu sof preto de couro.
- Sabia o qu? - digo, ainda prendendo o choro.
- Que o seu rosto tenso, seu gnero "eu no me importo" era s fachada - ele coloca o brao sobre o meu ombro. - O que aconteceu?
Finalmente choro e conto tudo para ele, sem omitir nada. Nem mesmo os dadinhos vermelhos. Minha promessa sobre o Atlntico no resistiu por muito tempo. Sinto minha 
dor completamente.
Quando termino, Ethan diz:
- Ainda bem que no vou. No seria capaz de suportar.
Asso o nariz e enxugo as lgrimas.
- Essas foram exatamente as palavras que Hillary usou. Ela tambm
no vai.
- Voc no deveria ir, Rachel, boicote. Ser uma tortura. Voc precisa se poupar.
- Tenho de ir.
- Por qu?
- O que eu ia dizer a ela?
- Invente que voc vai precisar fazer uma cirurgia ... diga que voc vai ter de retirar um rgo que no  essencial...
- Que tipo de rgo?
- Seu bao, por exemplo. As pessoas podem viver sem o bao, certo?
- Qual a razo para algum tirar o bao?
- Sei l. Uma pedra no bao? Um problema ... um acidente, uma doena. Que diferena faz? Inventa alguma coisa. Eu ajudo voc ... vamos inventar alguma coisa plausvel. 
Apenas no v.
- Tenho obrigao de estar l - digo. Estou de volta ao esquema de seguir as regras.
Permanecemos calados por alguns minutos e ento Ethan se levanta, desliga as lmpadas e pega sua carteira na mesinha do corredor.
-Vamos.
- Onde?
- Vamos at o meu pub preferido. Vou deixar voc bem calibrada. Acredite em mim. Vai ajudar.
- So onze horas da manh - rio da extravagncia dele.
- Ento voc tem alguma idia melhor? - ele cruza os braos sobre o peito. - Voc quer sair para ver a cidade? Voc acha que o Big Ben vai fazer algum bem a voc 
agora?
- No - respondo. O Big Ben s me lembraria quantos minutos faltam at o pior dia da minha vida.
- Ento vamos - diz ele.
Acompanho Ethan at um pub chamado Brittania.  exatamente como eu imaginava um pub ingls: abafado e cheio de coroas fumando e lendo jornal. As paredes e os tapetes 
so de um vermelho escuro e h pinturas a leo bem comuns que retratam raposas, veados e mulheres vitorianas.
Poderamos estar em 1955. Um homem com um pequeno bon e fumando um cachimbo at se parece com Winston ChurchilL
- O que voc quer? - pergunta Ethan.
Dex, penso, mas uma cerveja seria timo. Estou comeando a gostar da idia de me embebedar.
- Que tipo? Guinness? Kronenbourg? Carling?
- Qualquer uma - digo. - Tudo menos Newcastle.
Ethan pede duas cervejas, a dele mais escura que a minha. Sentamos numa mesa de canto. Fico passando o dedo na madeira da mesa e pergunto a ele quanto tempo levou 
para ele superar Brandi.
- No muito - diz ele. - Quando descobri o que ela tinha feito, percebi a mulher que ela realmente era. No perdi nada.  assim que voc precisa pensar. Ele no 
era o cara certo para voc. Deixe que Darcy fique com ele...
- Por que ela sempre ganha? - Pareo uma criana de cinco anos de idade, mas ajuda muito poder ouvir minha prpria infelicidade de forma to simplifica da: Darcy 
ganhou de mim. De novo.
Ethan ri, mostrando sua covinha.
- Ganhou o qu?
- Bem, pelo menos o Dex. - Sinto pena de mim mesma quando imagino Dex e Darcy.  manh em Nova York. Provavelmente eles ainda esto juntos na cama.
- Tudo bem, o que mais?
- Tudo. - Bebo minha cerveja quase de um s gole. Sinto quando ela bate no meu estmago vazio.
- Como por exemplo ...
Como posso explicar para um homem o que quero dizer? Soa to superficial: ela  mais bonita, as roupas dela so melhores, ela  mais magra. Mas isso  o de menos. 
Ela tambm  mais feliz. Ela consegue o que quer, seja l o que for. Tento ilustrar isso com exemplos verdadeiros.
- Bem, ela tem um trabalho incrvel e ganha toneladas de dinheiro e sua obrigao  apenas planejar festas e estar bonita.
- Aquele trabalhinho de papo-furado? Por favor.
-  melhor que o meu.
- Melhor que ser uma advogada? No acho.
- Mais divertido.
- Voc detestaria.
- Mas isso no importa. Ela adora o trabalho - percebo minha ineficcia em mostrar como Darcy se sai sempre vitoriosa.
- Ento encontre um trabalho de que voc goste. Embora isso seja um assunto completamente diferente. Um assunto que vamos abordar mais adiante ... Mas tudo bem, 
em que mais ela ganha?
- Bem... ela conseguiu passar para a Notre Dame - digo, sabendo que estou sendo ridcula.
- Ah, no passou, no.
- Passou, sim.
- No. Ela disse que passou para Notre Dame. Quem prefere optar pela Universidade de Indiana em vez da Notre Dame?
- Muita gente. Por que voc sempre desdenha de Indiana?
- Tudo bem, olha s. Eu odeio a Notre Dame ainda mais. S acho que se voc se candidata para essas duas universidades e consegue ser aprovada nas duas, certamente 
escolheria a Notre Dame.  uma universidade melhor, certo?
Concordo.
- Acho que sim.
- Mas ela no foi aprovada. Nem tirou, quanto mesmo que ela disse, 1.305 e meio ou sei l quanto nas provas de admisso? Lembra dessa merda?
- , ela mentiu sobre a pontuao dela.
- E ela mentiu sobre Notre Dame tambm. Pode acreditar em mim ...Voc alguma vez viu aquela carta de aceitao?
- No, mas ... bem, talvez ela no tenha sido aceita.
- Meu Deus, voc  to ingnua - diz ele, falando lentamente de propsito. - Pensei que voc tivesse entendido tudo naquela poca.
- Era um assunto delicado. Lembra?
- Claro que lembro. Estvamos to tristes - diz ele. - Voc deveria estar comemorando sua fuga do Meio-Oeste. Depois voc escolheu a segunda universidade mais insuportvel 
do pas, a Duke ... Voc sabe da
minha teoria sobre a Duke e a Notre Dame, certo?
Sorrio e admito ter dificuldade de lembrar de todas as suas teorias.
- Qual era mesmo?
- Bem, fora voc, e algumas raras excees, essas duas universidades esto repletas de gente insuportvel. Talvez apenas os insuportveis queiram estudar l, ou 
talvez essas universidades atraiam apenas essa gente.
Provavelmente uma combinao das duas coisas, um crculo vicioso. Voc no fica ofendida, no ?
- Claro que no, continue - digo. Concordo em parte. Muitas pessoas na Duke, incluindo meu prprio namorado, eram difceis de aturar.
- Est bem. Ento por que elas tm uma taxa maior de babacas per capita? O que elas tm em comum?
- Desisto.
-  simples. Liderana num esporte famoso e lucrativo para a universidade. O futebol americano no caso da Notre Dame e o basquete no caso da Duke. Alie-se a isso 
uma reputao acadmica exemplar. O resultado  um corpo de alunos to presunosos que  difcil tolerar. Voc  capaz de citar outra universidade com essas caractersticas?
- Michigan - digo, lembrando de um colega de ginsio insuportvel e de seu discurso sobre o futebol americano da Michigan. At hoje ele ainda lembra os lances decisivos 
do Rumeal Robinson nas finais dos
jogos universitrios.
- Ah! Michigan! Boa, valeu a tentativa. Mas no  uma universidade cara e nem particular. O fato de ser pblica salva Michigan, torna os seus ex-alunos ligeiramente 
menos insuportveis.
- Espera a! Que tal a sua prpria universidade? Stanford. Vocs tiveram Tiger Woods. Grandes nadadores. Debbie Thomas, aquela patinadora, no foi ela que ganhou 
uma medalha de ouro? Diversos jogadores de tnis. Alm de grandes acadmicos ... e  particular e cara. Ento
por que ex-alunos de Stanford no so to irritantes quanto os das outras
universidades?
-  simples. No somos os melhores em futebol americano ou basquete. Algumas vezes vencemos, mas no como a Duke no basquete ou como a Notre Dame no futebol americano. 
Ningum em Stanford se torna convencido por ser campeo em esportes pouco convencionais. 
isso o que nos salva.
Sorrio e concordo. Sua teoria  interessante, mas fiquei intrigada em saber que Darcy foi rejeitada pela Notre Dame.
- Voc se importa que eu fume? - pergunta Ethan enquanto pega um mao no bolso de trs da cala. Ele tira um cigarro e depois brinca com ele entre os dedos.
- Pensei que voc tivesse parado.
- Por um tempo - diz.
- Voc deveria.
-Eu sei.
- Tudo bem. Ento, de volta a Darcy.
- Certo.
- Ento talvez ela no tenha passado para Notre Dame. Mas ela realmente conseguiu Dex.
Ele risca um fsforo e leva para perto dos lbios.
- Quem se importa? Deixe que ela fique com ele. Ele  um fracote. Sinceramente, voc est melhor assim.
- Ele no  fracote - digo, esperando Ethan me convencer do contrrio.
Quero me agarrar a uma falha, acreditar que Dex no seja perfeito. O que seria bem menos doloroso do que acreditar que no sou a mulher que ele escolheu.
- Est bem, talvez "fracote" seja exagero. Mas, Rach, tenho certeza de que ele prefere voc. Ele apenas no sabe como dispens-la.
- Obrigada pela preferncia. Mas na verdade eu acho que ele simplesmente decidiu ficar com Darcy. Ele preferiu ela a mim. Todo mundo escolhe Darcy. - Bebo minha 
cerveja ainda mais rpido.
- Todo mundo. Quem alm do fracote do Dex?
- Tudo bem - sorrio. - Voc escolheu Darcy.
Ele olha para mim intrigado.
-Eu no.
Solto uma risada irnica.
- Foi isso que ela contou a voc? - pergunta Ethan.
Em todos esses anos, eu nunca havia falado sobre o romance que eles tiveram na escola.
- Ela no precisou me contar. Todo mundo sabia.
- Do que voc est falando?
- Do que voc est falando?
- A comemorao da formatura? - pergunta ele.
- Os nossos dez anos de formatura? - pergunto, sem lembrar de nenhuma outra festa. Lembro da decepo que senti quando Les me obrigou a trabalhar. Naquela poca 
ainda no sabia mentir, ento ele zombou de mim quando falei da comemorao dos meus dez anos de formada.
- . Ela no contou nada? - ele d uma longa tragada no cigarro e depois vira a cabea, soltando a fumaa para longe de mim.
- No. O que aconteceu? - digo, pensando que vou desmoronar se Ethan tiver dormido com ela. - Por favor, me diga que voc no ficou com ela.
- Que diabos, no - diz ele. - Mas ela bem que tentou.
Termino o resto da minha cerveja e ainda tomo uns goles da cerveja do Ethan, enquanto ele conta a histria da festa de formatura. Como Darcy se encostou nele no 
ptio da casa de Horace Carlisle depois da festa convidando-o para passarem a noite juntos. Que mal teria?
- Voc est brincando!
- No - diz ele. - E eu fiquei meio assim, Darce, que diabos, no.
Voc tem namorado. Que porra  essa?
- Foi por isso?
- Que eu no fiquei com ela?
Fao que sim com a cabea.
- No, no foi por isso.
- Por que ento? - Por um segundo imagino que ele vai se revelar.
Talvez Darcy tenha razo.
- Por que voc acha?  a Darcy. Eu no vejo a Darcy desse jeito.
- Voc no acha ela ... bonita?
- Francamente, no. No acho.
- Por que no?
- Preciso de motivos?
-Sim.
- Tudo bem - ele suspira, olha para o teto. - Porque ela usa muita maquiagem, porque ela  muito, no sei, rgida.
- Com os msculos firmes demais?
- , isso e... excessivamente depilada.
Lembro das sobrancelhas finas e arqueadas de Darcy.
- Excessivamente depilada, essa  boa.
Lembro das sobrancelhas finas e arqueadas de Darcy.
- Excessivamente depilada, essa  boa.
- . E aqueles ossos dos quadris que saltam para fora. Ela  magra demais. No gosto disso. Mas no  s isso. O ponto  que ...  Darcy. Ele se arrepia e ento 
pega sua cerveja de volta.
-Espera a, deixa eu pegar mais uma rodada. - Ele apaga o cigarro, caminha at o bar e volta
com duas cervejas. - Aqui est.
- Obrigada - digo, e ento dou uns bons goles na minha.
Ele ri.
- No posso deixar que voc beba mais do que eu.
Limpo a espuma dos lbios com as costas da mo e pergunto por que ele nunca contou nada sobre a investida de Darcy na comemorao.
- Ah, sei l. Porque no  importante. Ela estava bbada - ele d de ombros. - Provavelmente nem sabia o que estava fazendo.
- Sei, vai nessa. Ela sempre sabe o que est fazendo.
- Acho que sim. Talvez. Mas aquilo realmente no significou nada.
Isso explica por que ela achava que Ethan era gay. Recus-la daquele jeito ... ela s acreditaria nessa explicao.
- Acredito que o charme dela dos tempos da 5 srie j no exera em voc o mesmo fascnio.
Ele ri.
- , ns realmente samos juntos uma vez - ele faz sinal de aspas para "samos".
- Est vendo, voc tambm escolheu Darcy em vez de me escolher.
Sua covinha aparece rapidamente.
- Que diabos voc est falando agora?
- Do bilhete. O bilhete onde voc tinha de marcar com um x.
-O qu?
Suspiro.
- O bilhete que ela mostrou para voc. Aquele do "voc quer sair comigo ou com a RacheI?".
- No era isso que o bilhete dizia. No tinha nada sobre voc. Porque teria?
- Porque eu gostava de voc! - Fico envergonhada ao admitir isso, mesmo depois de todos esses anos. - Voc sabia disso.
Ele balana a cabea com firmeza.
- No, no. Eu no sabia.
- Voc deve ter esquecido.
- Eu no esqueo esse tipo de merda. Tenho uma memria de elefante.O seu nome no estava no bilhete. Voc no percebe? Eu saberia, porque tambm gostava de voc 
naquela poca. - Ele olha para mim por trs dos culos e ento acende um outro cigarro.
- Merda - sinto que estou ficando vermelha.  s o Ethan, penso.
Agora ns somos adultos.
- Tudo bem - ele d de ombros, parecendo envergonhado. - Voc no acredita em mim.
- Voc gostava?
-  bea. Lembro de sempre dar uma ajudinha para voc ganhar quando ns brincvamos. Vai me dizer que voc nunca percebeu?
- Nunca - digo.
- No fim das contas, voc  muito menos perceptiva do que eu imaginava... , eu gostava de voc. Gostei de voc durante todo o segundo grau. Ento voc saiu com 
o Beamer. Partiu meu corao.
Isso  uma grande novidade, mas ainda no consigo entender o fato de meu nome no constar naquele bilhete.
- Juro que achava que a Annalise tinha visto o bilhete.
- Annalise  um amor de garota, mas muito submissa. Darcy provavelmente disse a ela para mentir. A propsito, como vai a Annalise? Ela j teve o beb?
- No, mas vai ter a qualquer momento.
- Ela vai ao casamento?
- Se no estiver em trabalho de parto - respondo. - Todo mundo vai, menos voc.
- E voc. Que coisa horrorosa esse problema com o seu bao.
- , trgico. - Sorrio. - Ento voc tem certeza de que o meu nome no estava naquele bilhete?
Estou apegada a uma evidncia de vinte anos atrs.  um absurdo, mas atribuo tal importncia a isso.
- Com certeza - responde ele. - Com cer-te-za.
- Merda - digo. - Que piranha.
Ele ri.
- Eu nem imaginava que era cobiado. Pensei que Doug Jackson  que era o tal.
- Voc no era cobiado. Doug Jackson era o tal- digo. - Essa  a questo ... eu era a nica que gostava de voc. Ela me imitou. - Mais uma vez, noto minha infantilidade 
sempre que descrevo meus sentimentos por Darcy.
- Bem, voc no perdeu muito. Sair comigo significava dividir alguns bolinhos da Hostess. No era nada excitante. E eu ainda ajudava voc nas brincadeiras.
- Ento talvez Dex fique comigo da prxima vez que todos ns jogarmos - digo. - Isso seria realmente ... No consigo achar a palavra certa. Estou ficando bbada.
- Excelente? Brilhante? Extraordinrio? - Ethan sugere.
Concordo.
- Tudo isso. Sim.
- Est se sentindo melhor? - pergunta ele.
Ele est se esforando bastante. Entre a amizade e a cerveja eu me sinto curada, pelo menos temporariamente. Percebo que estou a milhares de quilmetros de distncia 
de Dex. Dexter ... ele realmente gostava de mim, mesmo tendo escolhido Darcy.
- Sim, um pouco melhor. Sim.
- Bem, vamos recapitular. Ns sabemos que eu nunca escolhi Darcy em vez de voc. E que ela no entrou para Notre Dame.
- Mas ela ficou com o Dex.
- Esquece o Dex. Ele no vale a pena - diz Ethan e ento olha para o cardpio rabiscado no quadro-negro atrs de ns.
- Agora vamos pedir o tradicional peixe com batata frita para voc.
Ns almoamos peixe, batata frita e pur de ervilha, o que me lembra comida de criana. Comida reconfortante. E ainda bebemos mais algumas cervejas. Eu sugiro que 
a gente d um passeio, para ver alguma coisa bem britnica. Ento ele me leva a Kensington Gardens e me mostra o palcio onde morava a princesa Diana.
- Est vendo este porto? Foi a que eles amontoaram todas as flores e cartas quando ela morreu. Lembra daquelas fotos?
- Ah, claro. Foi aqui?
Eu estava com Dex e Darcy quando soube da morte de Diana. Estvamos no Talkhouse quando um cara se aproximou de ns para dar a notcia: "Vocs j souberam que Diana 
morreu num acidente de carro?" E embora ele s pudesse estar falando de uma Diana, tanto eu quanto Darcy
perguntamos a que Diana ele estava se referindo. O cara confirmou, era a princesa. Ento ele nos contou que ela morrera num acidente em alta velocidade enquanto 
um paparazzo a perseguia em um tnel de Paris. Darcy caiu no choro na hora. Pela primeira vez no eram lgrimas para chamar ateno. Eram genunas. Ela estava verdadeiramente 
comovida. Ns duas estvamos. Alguns dias depois, assistimos ao funeral juntas, acordamos s quatro da manh para acompanhar a cobertura completa, exatamente como 
fizemos com o seu casamento com o prncipe Charles em 1981. Ethan e eu perambulamos por Kensington Gardens sob uma chuva fina, sem guarda-chuva. No me importo em 
ficar molhada. No me importo que meu cabelo fique todo ondulado. Depois do palcio circundamos um pequeno lago redondo.
- Como se chama este lago?
- Lago Redondo - responde Ethan. - Bem descritivo, no?
Andamos para alm de um coreto at o memorial em homenagem ao prncipe Albert, uma esttua gigantesca em bronze do prncipe no trono.
- Voc gosta?
-  bonita - respondo.
- A rainha Vitria, entristecida, mandou construir a esttua quando Albert morreu de febre tifide.
- Quando?
- Em 1860 ou 1870 e alguma coisa ... Legal, no ?
-  - concordo.
- Pelo visto ela e Al eram bem unidos.
A rainha Vitria sofreu mais do que eu estou sofrendo agora, imagino. Ento tenho um pensamento fugaz de que seria melhor perder Dex por uma doena do que para Darcy. 
Se eu prefiro v-lo morrer talvez no seja amor verdadeiro o que sinto... Est bem, no queria que ele morresse.
A chuva fica ainda mais forte. Alm de alguns turistas japoneses tirando fotos nas escadarias, estamos sozinhos no memorial.
- Voc est pronta para voltar? - Ethan aponta na direo oposta. - Ns podemos passear pelo Hyde Park e pela galeria Serpentine num outro dia.
- Claro, podemos voltar agora - digo.
- Seu bao est doendo por causa do tempo?
- Ethan! Eu tenho de ir ao casamento.
- Chuta o balde!
- Eu sou a madrinha.
- Ah, est certo! Eu sempre esqueo disso - diz ele, limpando os culos com a manga da camisa.
Enquanto voltamos para o apartamento, Ethan ri sozinho.
- O que foi?
- A Darcy - diz ele brincalho.
- O que tem ela?
- S lembrei daquela vez em que ela escreveu para o Michael Jordan, convidando-o para ir com ela ao baile da escola.
Eu rio.
- Ela realmente achou que ele iria! Lembra como ela ficou preocupada de como contar ao Blaine?
- E a o Jordan respondeu. Ou o pessoal dele escreveu, enfim. Essa  a parte surreal. Nunca pensei que ela fosse receber uma resposta. Ele ri. No importa o que 
diga, ele tem um certo carinho involuntrio por ela. Da mesma forma que eu.
- , ela recebeu. Ela ainda tem a carta.
-Voc viu?
- Vi. Voc no se lembra que ela colou no nosso armrio da escola?
- E ainda assim - diz ele - voc nunca viu a carta de Notre Dame.
- Tudo bem. Tudo bem. Talvez voc esteja certo. Mas como voc percebeu isso h tanto tempo?
- Como eu disse, pensei que voc tivesse sacado. Tudo foi muito transparente... Sabe, para uma mulher inteligente voc pode ser bem lenta.
- Ora, obrigada.
Ele faz uma reverncia com um chapu imaginrio.
- De nada.
Voltamos para o apartamento de Ethan, onde me rendo ao cansao.
Quando acordo, Ethan me oferece uma xcara de ch e um pozinho torrado. Em resumo, almoo num pub, passeio pela antiga residncia de Diana, soneca durante a tarde 
sem sonhar nem uma vez com Dex e um ch com pozinho torrado em companhia do meu bom amigo. A viagem comeou bem. Se  que alguma coisa pode ser boa quando se est
com o corao partido.

Vinte e dois

Naquela noite nos encontramos com os amigos de Ethan, Martin e Phoebe. J ouvi falar muito nos dois: sei que Martin  muito educado, estudou em Oxford e  de famlia 
rica; Phoebe vem da parte leste de Londres, uma vez foi demitida por mandar o chefe "ir  merda" e j dormiu com muitos homens.
Eles so exatamente como eu imaginava. Martin  bem vestido e atraente sem ser muito sexy. Ele senta com as pernas cruzadas no joelho, balana a cabea, franze bastante 
o rosto e murmura "hum" enquanto qualquer outra pessoa fala, mostrando total ateno. Phoebe  altona e tem cabelos rebeldes cor de tomate. No sei se o seu batom 
laranja entra em choque com o cabelo ou o complementa. Tambm no sei se ela  muito bonita ou simplesmente esquisita. Seu corpo definitivamente no  perfeito, 
mas ela no tem vergonha disso. Uma parte de sua barriga grande e branca fica aparecendo entre a camisa e o jeans. Ningum em Manhattan exibiria a barriga assim, 
a no ser que fosse dura como uma pedra. Ethan me disse uma vez que as mulheres britnicas no so obcecadas com aparncia e muito menos com peso, como as americanas. 
Phoebe  a prova dessa afirmao e isso  reconfortante. Durante toda a noite ela fala de um cara com quem ela quer transar e de outro com quem ela j transou. Ela 
fala naturalmente, como se dissesse que o trabalho foi puxado ou que est cansada de tanta chuva. Gosto da franqueza dela, mas Martin revira os olhos e faz comentrios 
sarcsticos sobre sua falta de refinamento.
Depois de Phoebe esgotar o assunto sobre o tal Roger, que "merece ser castrado", ela vira para mim e pergunta:
- E ento, Rachel? O que voc acha dos homens de Nova York? Ser que eles so to pavorosos como os ingleses?
- Ora, querida, obrigado - diz Martin impassvel.
Sorrio para ele e depois respondo.
- Depende ... varia muito. - Nunca tinha pensado no "homem americano". No tenho outra referncia.
- Voc est envolvida com algum no momento? - pergunta ela e ento sopra a fumaa em direo ao teto.
- Hum. No exatamente. No. Estou ... solteira.
Ethan e eu trocamos olhares. Phoebe est curiosa.
- O qu? Tem uma histria a. Eu sei que tem.
Martin descruza os braos, abana a fumaa do rosto e espera. Phoebe gesticula como se dissesse "vamos l, desembucha".
- No  nada - digo. - No vale a pena falar, verdade.
- Conta para eles - diz Ethan.
Ento agora eu no tenho escolha, porque Ethan assumiu que h algo para contar.
No quero incomodar ningum com uma longa sesso de "no  nada", "conta", "realmente nada", "vamos l, conta" e Phoebe no parece tolerar esses joguinhos evasivos. 
Neste ponto ela  como Hillary, que gosta de dizer "ento por que voc mencionou o assunto?". A diferena  que nesta situao foi Ethan quem mencionou. De qualquer 
maneira, estou encurralada, ento digo:
- Durante todo o vero, estive saindo com um cara que vai se casar em ... menos de duas semanas. Pensei que ele fosse cancelar o casamento. Mas ele no desistiu. 
Ento aqui estou eu. Solteira novamente. - Conto minha histria sem me emocionar, o que me deixa orgulhosa. Estou progredindo.
Phoebe diz:
- Em geral eles esperam at se casar para trair. Esse sujeito  apressado, hein? .. Como  a futura mulher dele? Voc conhece?
- Conheo. , conheo bem.
- Uma piranha e tanto, no ? - Phoebe pergunta demonstrando interesse.
Martin pigarreia e abana a fumaa dela mais uma vez.
- Talvez a Rachel queira privacidade. Ser que ns podemos respeit-la?
- No, no podemos - responde Phoebe para ele e depois para mim: - Voc se importa em discutir isso?
- No, no me importo - respondo. E acho que  a verdade.
- E ento? A garota com quem ele est se casando ... como voc conheceu ela?
- Bem... - comeo a dizer. - A gente se conhece h bastante tempo.
Ethan explica.
- Em poucas palavras, RacheI  a madrinha do casamento.
Ele me d uns tapinhas nas costas e mantm a mo no meu ombro como se estivesse me parabenizando. Est visivelmente orgulhoso por oferecer aos seus amigos essa fofoquinha 
transatlntica.
Phoebe no se altera. Ela j deve ter visto coisa pior.
- Que confuso dos diabos - diz ela, compreensiva.
- Mas agora acabou - digo. - Fui bem clara. Pedi para ele cancelar o casamento. Ele escolheu ficar com ela. Ento  isso. - Tento mascarar minha sensao de rejeio. 
Acho que estou me saindo bem.
- Ela est superando de uma maneira maravilhosa - diz Ethan.
- . Voc no parece nem um pouco abalada - diz Phoebe. - Eu nunca teria sido capaz de adivinhar.
- Ser que ela deveria estar chorando sobre o leite derramado? - pergunta Martin a Phoebe.
- Eu estaria. Lembra do Oscar?
Ethan geme e Martin se contorce todo. Com certeza eles se lembram do Oscar.
Ento Ethan diz a eles que acha que eu no deveria ir ao casamento. Phoebe quer saber mais sobre a noiva, ento Ethan d a ficha completa de Darcy, incluindo alguns 
detalhes da nossa amizade. Ele at acrescenta a Notre Dame. Eu respondo algumas perguntas e no resto do tempo apenas ouo os trs discutirem minha situao, como 
se eu no estivesse presente.  divertido ouvir Martin e Phoebe usando os nomes de Dex e de Darcy, analisando os dois com seus sotaques britnicos. Pessoas que eles 
nunca conheceram e provavelmente nem vo conhecer. De alguma forma o debate ajuda a pr os fatos em perspectiva. Quase.
- De qualquer modo, voc no deveria ficar com ele - diz Phoebe.
-  o que eu digo para ela - completa Ethan.
Martin considera que ele talvez ainda cancele o casamento.
- No - digo. - Ele foi at a minha casa na noite anterior  viagem e me deixou isso bem claro. Ele vai se casar.
- Pelo menos ele falou abertamente - comenta Martin.
- Pelo menos - digo, reconhecendo honestidade nele. Do contrrio eu continuaria cheia de esperanas durante esta viagem. Tenho de dar um certo crdito ao Dex por 
ter me dito sua deciso cara a cara.
De repente, Phoebe tem uma idia excelente. Seu amigo James ficou solteiro h pouco tempo e adora mulheres americanas.
- Por que no arranjar um encontro entre ele e Rachel?
- Ela mora em Nova York - diz Martin. - Voc lembra disso?
- E ento? Esse  apenas um detalhe logstico. Ela poderia se mudar. Ele poderia se mudar. No mnimo os dois vo se divertir. Talvez dar uns bons amassos.
- Nem todo mundo encara uns amassos como terapia - diz Martin.
Phoebe ergue uma sobrancelha. Gostaria de poder arquear assim a sobrancelha. H momentos decisivos para esse gesto.
-  mesmo? Voc devia experimentar, Marty - ela se vira para mim, esperando minha opinio.
- Uns bons amassos nunca fazem mal- digo, para agradar Phoebe. Ela acaricia o cabelo revolto e parece bem satisfeita.
- Exatamente o que eu acho.
- O que voc est fazendo? - pergunta Ethan, ao ver Phoebe pegando seu celular na bolsa.
- Telefonando para James - diz ela.
- Porra, Pheebs! Larga este celular - diz Martin. - Tenha algum tato.
- No, tudo bem - digo, lutando contra meus instintos puritanos. - Pode ligar para ele.
Phoebe abre um sorriso.
- Vocs meninos fiquem fora dessa.

Ento, na noite seguinte, graas a Phoebe, estou comendo comida tailandesa num encontro s cegas com James Hathaway. James tem trinta anos e  um jornalista freelancer. 
Ele  bonito, embora o oposto de Dex:  mais baixo, tem olhos azuis, cabelo claro e sobrancelhas ainda mais claras. Alguma coisa nele me lembra Hugh Grant. Primeiro 
acho que  apenas o sotaque, mas depois me dou conta de que, como Hugh, ele tem uma certa petulncia charmosa. E como Hugh, aposto que ele j dormiu com muitas mulheres. 
Talvez eu devesse entrar para sua Lista.
Concordo e rio de algum comentrio maldoso que James faz sobre o casal sentado perto da gente. Ele  engraado. De repente me ocorre que Dex no  muito engraado. 
Sempre fui da teoria de que se quero dar gargalhadas, basta assistir a uma reprise de Seinfeld, no preciso namorar um comediante para isso. Talvez eu realmente 
queira um cara engraado.
Talvez falte a Dex algum elemento cmcial. Tento prosseguir, imaginando-o como um cara sem senso de humor, at mesmo entediante. Realmente no funciona.  difcil 
fingir. Dex  engraado o suficiente. Ele  perfeito para mim. Exceto pelo pequeno detalhe: o casamento com Darcy.
Percebo que no prestei ateno no que James estava dizendo, alguma coisa sobre Madonna.
-Voc gosta dela? - pergunta ele.
- No sou f - digo. - Mas ela  legal.
- Geralmente Madonna provoca uma resposta mais forte. Em geral as pessoas amam ou odeiam ... Conhece esse jogo? Ama ou odeia?
- No. Como ?
James me ensina as regras do jogo. Ele explica que algum lana um assunto, uma pessoa, ou qualquer outra coisa, e os outros tm de decidir se amam ou odeiam. No 
 permitido ser neutro.
- E se voc for neutro? - pergunto a ele. - Eu no amo ou odeio a Madonna.
- Voc precisa escolher um ou outro. Ento escolha - diz ele. - Voc ama ou odeia Madonna?
Hesito e ento digo:
- Est bem, ento eu odeio.
- timo. Eu tambm.
-  mesmo? - pergunto.
- Bem, na verdade, sim. Ela no tem talento. Agora  sua vez.
- Hum, no consigo pensar em nada. Voc de novo.
- Est bem. Colcho de gua.
-  to cafona. Odeio esse tipo de colcho - respondo. Nesse caso no estou em cima do muro.
- Eu tambm odeio. Sua vez.
- Tudo bem. Bill Clinton.
- Eu amo - diz James.
- Eu tambm.
Continuamos a jogar enquanto terminamos o vinho.
No fim das contas, ns dois odiamos (ou pelo menos odiamos mais que amamos) pessoas que tm peixe de aqurio como animais de estimao e o Ross de Friends. Ns dois 
amamos (ou amamos mais que odiamos) Chicken McNuggets, implantes de silicone (aqui eu minto, s para parecer bacana, mas me surpreendo com a resposta dele - talvez 
ele tenha mentido por achar que eu j fiz implante) e ver golfe pela televiso. Desempatamos no rap (eu amo, ele sente dor de cabea), Tom Cruise (ele ama, eu ainda 
o odeio por ter acabado tudo com Nicole), a famlia real (eu amo, ele diz que  republicano, seja l o que isso signifique) e Las Vegas (ele ama, eu associo a jogo 
de dados, dados rolando, Dex).
Percebo que gosto (quer dizer, amo) desse jogo. Ser radical, tomar uma posio. Tudo ou nada. Fao o mesmo com Dex, alterando minha deciso vrias vezes: odeio, 
amo, odeio, amo. Lembro de minha me dizendo que o oposto do amor no  o dio,  a indiferena. Ela tinha razo. Meu objetivo  ser indiferente ao Dex.
James e eu terminamos o jantar, decidimos dispensar a sobremesa e ir para a casa dele. Ele tem um apartamento legal - maior que o do Ethan - cheio de plantas e moblias 
aconchegantes e estofadas. D para perceber que uma mulher se mudou dali recentemente. Agora, metade da prateleira est vazia. Todo o lado esquerdo. A no ser que 
eles tenham mantido os livros separados desde o comeo, o que  pouco provvel, ele empurrou os dele para um dos lados. Talvez precisasse medir o quanto sua vida 
ficara vazia sem ela.
- Qual era o nome dela? Da sua ex? - pergunto com delicadeza. Talvez eu no devesse puxar esse assunto, mas ele deve saber que Phoebe me contou sobre o fim de seu 
relacionamento. Tenho certeza de que ela falou da minha situao para ele tambm.
- Katherine. Kate.
- Como voc est?
- Meio triste. Mais aliviado do que qualquer outra coisa. s vezes at mesmo eufrico. J tinha acabado h muito tempo.
Fao que sim com a cabea, como se entendesse, embora a minha situao seja bem diferente. Talvez Dex e eu pudssemos ter economizado anos de esforo e mgoa se 
de qualquer maneira fssemos acabar como James e Kate.
- E voc? - pergunta ele.
- Phoebe contou a voc?
Percebo que ele considera contar uma pequena mentira e ento desiste:
- Mais ou menos ... sim ... Como voc est?
- Estou bem - respondo. - Foi uma relao curta. Diferente do seu rompimento.
Mas no acredito nas minhas palavras. Tenho um flashback do Quatro de Julho e sinto toda a tristeza de uma s vez. Entro em pnico e acho que vou chorar. Se James 
perguntar mais alguma coisa sobre Dex, vou chorar mesmo. Por sorte, conversas srias no parecem ser o forte de James. Ele pergunta se pode me oferecer algo para 
beber. Ch? Caf? Vinho? Cerveja?
- Uma cerveja seria timo - respondo.
Enquanto ele vai para a cozinha, respiro fundo e expulso Dex da minha cabea. Fico de p dando uma olhada na sala. H apenas uma fotografia  mostra.  de James 
com uma mulher mais velha, bem atraente, que parece ser a me dele. Tento imaginar quantas fotos de Kate e James foram retiradas por causa do rompimento. Tento imaginar 
se ele jogou fora ou guardou as fotos. Isso pode revelar muito de uma pessoa. Gostaria de ter algumas fotos de Dex. No tenho nenhuma de ns dois juntos, apenas 
algumas dele com Darcy. Tenho certeza de que depois do casamento vou ter ainda mais. Darcy vai me forar a encomendar algumas, talvez at mesmo me d uma foto num 
porta-retratos, como lembrana do casamento. Como um dia vou conseguir superar isso?
James volta com pequenos guardanapos de pano, duas canecas de cerveja e um pequeno pote de vidro com castanhas variadas. Tudo bem arrumadinho numa bandeja quadrada 
de estanho. Ele foi bem treinado por Kate.
- Obrigada - digo, tomando um gole de cerveja.
Sentamos no sof prximos um do outro e conversamos sobre meu trabalho e sobre as matrias dele. No estamos perfeitamente confortveis, mas no  horrvel. Provavelmente 
porque nossa histria termina aqui. No haver um segundo encontro, ento no  preciso agradar. No h expectativas. Ns nunca teremos de lidar com aquela fase 
estranha depois dos papos iniciais, com aquelas calmarias comuns do segundo encontro, num momento em que as duas pessoas tm de decidir se vale a pena investir ou 
no.  claro, Dex e eu no tivemos que lidar com isso. Outra qualidade do Dex. Primeiro ns ficamos amigos. No lembre do Dex. Pense no agora, em estar aqui com 
James!
James se aproxima e me beija. Ele mexe demais a lngua, em frenticos movimentos circulares, e seu hlito cheira vagamente a cigarro, o que  estranho, porque ele 
no fumou durante a noite. Talvez tenha fumado na cozinha. De qualquer modo, beijo-o tambm, fingindo entusiasmo. Eu at mesmo gemo um pouco num determinado instante. 
Nem sei por qu.
Quantas vezes vou precisar passar pelo primeiro beijo? Apesar de Darcy sentir falta desse elemento de sua vida de solteira, no tenho nenhum apreo por isso. A no 
ser pelo meu primeiro beijo de verdade com Dex, que foi completamente mgico. Ser que James est pensando tanto em Kate quanto eu em Dex? Depois de um tempo razoavelmente 
longo, a mo de James sobe pela minha camisa. No fao objeo. Seu toque no  to desagradvel e eu penso, por que no? Deixe ele experimentar um peito americano.
Depois de uma meia hora de amassos "leves" seguidos de amassos um pouco mais ousados, James me convida para passar a noite com ele, mas diz que no quer transar 
comigo... bem, ele quer, explica, mas no vai tentar nada. Estou quase concordando, mas a descubro que James no tem soro fisiolgico. No posso dormir com as minhas 
lentes de contato e deixei meus culos no apartamento de Ethan. Ento  isso. Parece divertido que a viso perfeita de James me impea de realizar uma jogada potencialmente 
promscua.
Ns nos beijamos por mais um tempo, ouvindo msica. As msicas me lembram do fim do curso de Direito, na poca em que namorei Nate, e depois fui dispensada por ele. 
Ouo e me lembro da tristeza.
Mais do que qualquer outra coisa, sons e cheiros so capazes de transportar algum a algum momento no passado.  impressionante o quanto se pode lembrar com algumas 
notas musicais ou o cheiro solitrio de um cmodo. Uma msica a que na poca voc nem prestava ateno, um lugar que voc nem sabia que tinha um cheiro especfico. 
Penso no que trar de volta Dex e nossos poucos meses juntos daqui a algum tempo. Talvez uma msica. Talvez o cheiro do xampu que usei durante todo o vero.
Algum dia, meu envolvimento com Dex far parte de uma memria distante. Isso tambm me entristece.  como quando algum morre: no incio, a dor  horrvel. O mais 
triste, porm,  quando o tempo passa e continuamos a sentir e sofrer a ausncia dos que j se foram.

Enquanto caminha comigo at o apartamento de Ethan, James diz:
- Voc quer ir comigo at Leeds Castle amanh? Convidarei Ethan tambm.
- O que  Leeds Castle? - pergunto, imaginando que  uma pergunta estpida.
-  um castelo que no passado foi uma fortaleza normanda e residncia de seis rainhas medievais.  realmente adorvel. H um teatro ao ar livre nas proximidades. 
 um pouco turstico, mas voc afinal de contas  uma turista, no ?
Estou comeando a notar que os britnicos acrescentam uma pequena pergunta ao final de cada frase, em busca de uma confirmao.
Respondo o que ele quer ouvir.
- , eu sou uma turista,  verdade.
Ento digo que Leeds Castle me parece uma tima idia. Porque realmente parece. E porque tudo o que fao, todas as pessoas que encontro, me afastam de Dex. O tempo 
cura todas as feridas, especialmente quando se preenche esse tempo com um monte de coisas.
- Fale com Ethan, depois ligue para mim. - Ele escreve o nmero do telefone no verso de um papel de chiclete que encontro na minha bolsa. - Vou estar por perto.
Agradeo a ele pela noite agradvel. Ele me beija mais uma vez, sua mo na minha nuca.
- Dar uns amassos em algum logo depois de um grande rompimento. Ama ou odeia? - pergunta ele.
Eu rio.
- Amo.
James d um sorriso sarcstico.
- Eu concordo.
Destranco a porta do Ethan, pensando se James tambm estava mentindo.

Na manh seguinte, Ethan caminha sonolento at a cozinha, onde estou tomando suco de laranja.
- E ento? Voc est apaixonada pelo James?
- Loucamente.
Ele coa a cabea.
- Srio?
- No, mas foi divertido.
Acabo me dando conta de que no consigo me lembrar direito da cara de James. Seu rosto se confunde com o de um colega dos tempos da faculdade, da sala de Direito 
Tributrio.
- Ele quer se encontrar com a gente hoje. Convidou ns dois para irmos a algum palcio ou castelo.
- Hum, um palcio ou um castelo na Inglaterra. H poucas alternativas.
- Leeds, ou coisa parecida.
Ethan conhece.
- , Leeds Castle  legal.  isso o que voc quer fazer?
- No sei. Por que no? - pergunto.
Parece intil e foroso conversar ainda mais com James, mas acabo telefonando para ele e todos passamos o dia em Leeds Castle. Phoebe e Martin tambm vo. Pelo visto, 
todos os amigos de Ethan tm horrio de trabalho flexvel, porque nenhum deles hesita em tirar um dia de folga numa quarta-feira qualquer. Penso em como a minha 
vida  diferente l em Nova York, com o Les me perturbando, mesmo nos fins de semana. 
O dia est agradvel, quase quente para os padres londrinos. Exploramos o castelo e as redondezas, depois fazemos um piquenique na grama. Num determinado momento, 
Phoebe me pergunta, alto o suficiente para todo mundo ouvir, se eu tinha gostado de James. Olho para ele, que revira os olhos para Phoebe. Ento sorrio e digo a 
ela no mesmo volume que ele  bem legal, se pelo menos morasse em Nova York. Que mal h em elogi-lo? Se ele realmente gosta de mim, ficar feliz em ouvir isso. 
Se no gosta, vai se sentir seguro por causa da distncia.
- Ento por que voc no se muda para Londres? - pergunta ela. - Ethan diz que voc definitivamente detesta seu trabalho. Venha para c e tente arrumar alguma coisa. 
Seria uma excelente mudana, no seria?
Eu rio e recuso a oferta. Mas, sentada  beira de um lago tranqilo e admirando um castelo ingls de contos de fada, penso que poderia de fato fazer exatamente isso. 
 uma sada depois de rolar os dados e perder: peg-los e jog-los novamente. Imagino o prazer incrvel de entregar a Les a minha carta de demisso. E eu ficaria 
longe de Darcy e Dex. Como ser que um bom terapeuta caracterizaria essa jogada: uma fuga ou um novo e saudvel comeo?

No meu ltimo dia em Londres, Ethan e eu retomamos ao seu pub favorito, onde j comeo a me sentir em casa. Pergunto sua opinio sobre minha mudana para Londres. 
Em 15 minutos ele j me v na vizinhana: sabe de um apartamento, um trabalho e vrios caras, caso James no seja o ideal, todos com os dentes certinhos e brancos 
(porque eu j comentara dos dentes malcuidados dos ingleses). Ele diz para eu me mudar. Simplesmente
me mudar. O conselho parece simples.  simples. A semente j est mais do que plantada. J est crescendo, desabrochando e surgindo um brotinho.
Ethan continua.
- Voc devia se afastar de Darcy. Aquela amizade txica ... no  saudvel. E vai se tornar ainda mais destrutiva quando encontrar os dois depois do casamento.
- Eu sei - digo, empurrando uma batata frita na direo do pur de ervilhas.
- E mesmo que voc continue em Nova York,  essencial limitar essa amizade. Ela no  nem mesmo uma amizade verdadeira, Darcy quer apenas ser melhor que voc.
- No  to ruim assim - digo, sem entender por que estou defendendo Darcy.
- Voc tem razo. No  apenas para derrotar voc. Acho que ela te respeita tanto que quer vencer para ser reconhecida ... Ela no fica tentando superar Annalise. 
 s voc. s vezes acho que voc acaba sendo sugada por ela, e toda a dinmica de vocs se transforma mais numa competio que numa amizade verdadeira - ele me 
lana um olhar paternal, de quem sabe o que diz.
- Voc acha que eu gosto do Dex pela mesma razo, para competir com Darcy, no acha?
Ele pigarreia, enxuga a boca com o guardanapo e pe no colo.
- Bem, isso  possvel? - pergunta ele.
Nego.
- Nem pensar. No duvide dos meus sentimentos - digo.
- Tudo bem. Era s uma teoria.
- Absolutamente no.  para valer.
Mas antes de dormir na cama do Ethan (ele insistiu em ficar com o sof durante toda a semana), reavalio sua teoria. Ser mesmo possvel que tudo aquilo que senti 
quando beijei Dex tenha vindo do prazer em ser m, em quebrar as regras, ter algo que pertence a Darcy? Talvez o meu caso com Dex seja resultado de uma revolta contra 
minhas certezas, contra Darcy e anos em que me senti inferior. Fico perturbada com a idia, porque a gente no gosta de pensar que  escravo desse tipo de impulso 
inconsciente. Mas, ao mesmo tempo, a idia me consola. Se gostei de Dex por essas razes, ento no fim das contas eu no o amo. Ser muito mais fcil seguir em frente.
Mas no dia seguinte, enquanto eu e Ethan pegamos o metr at o terminal de trens, eu reconheo, mais uma vez, que realmente amo Dex e provavelmente vou continuar 
amando por um bom tempo. Compro a passagem do trem expresso at o aeroporto e verifico no painel de informaes que o prximo trem vai partir em trs minutos, ento 
caminhamos
at a plataforma.
- Voc sabe o que est fazendo, certo? - pergunta ele todo protetor.
Por um segundo acho que ele est perguntando sobre minha vida, ento percebo que ele apenas se refere ao trajeto da viagem.
- Sei, este trem vai direto para o aeroporto, certo?
- . Salte no terminal trs.  fcil.
Abrao Ethan e agradeo pelos dias maravilhosos.
- No quero ir embora.
- Ento venha morar aqui ... Eu realmente acho que voc deveria. Voc no tem nada a perder.
Ele tem razo. Realmente no tenho nada a perder. Eu no deixaria nada para trs. Um pensamento deprimente.
- Vou pensar - digo e me comprometo a pensar no assunto quando chegar em casa, em vez de voltar  velha rotina.
Nos abraamos pela ltima vez, ento embarco no trem e observo Ethan acenando para mim atravs da janela. Aceno de volta, pensando que no h nada melhor que velhos 
amigos.
No terminal trs fao o check-in mecanicamente, passo pela segurana e espero pelo embarque. O vo parece interminvel, e, apesar de tentar, no consigo dormir de 
jeito nenhum. Apesar da minha semana repleta de distraes, no me sinto muito melhor do que no vo da ida. Mesmo vendo Nova York de cima, o que geralmente me enche 
de expectativa e animao, no sinto nada. Dex est num desses prdios. Preferia quando o oceano Atlntico nos separava.
Ao sair do avio, abro caminho at o controle de passaporte, pego a bagagem e passo pela alfndega, para depois entrar na enorme fila do txi. Est um caloro l 
fora e dentro do txi percebo que o ar-condicionado mal chega ao banco de trs.
- Ser que voc pode aumentar o ar-condicionado, por favor? - peo ao motorista, que est fumando um cigarro, uma infrao que poderia arrancar dele uma multa de 
150 dlares.
Ele me ignora e dirige aos trancos e barrancos, de uma maneira revoltante. Ele troca de pista a cada dez segundos.
Peo para ele aumentar o ar-condicionado mais uma vez. Nada. Talvez ele no esteja me ouvindo por causa do rdio. Ou talvez ele no fale ingls. Consulto a Lista 
dos Direitos do Passageiro. Tenho direito a: um motorista corts, que fale ingls e obedea s leis de trnsito ar-condicionado se solicitado... uma viagem sem rdio 
(silenciosa) ar livre de fumaa e incenso... bagageiro limpo.
Talvez o bagageiro esteja limpo.
Est vendo? Tudo tem a ver com ausncia de expectativas.
O banco de trs est cada vez mais quente, ento abro a janela e enfrento o vento sujo chicoteando meu cabelo em torno do rosto. Finalmente chego em casa. Pago ao 
motorista mal-educado e ainda dou gorjeta (embora conste na Lista dos Direitos do Passageiro que eu posso me recusar a dar gorjeta se os meus direitos no forem 
cumpridos). Suspendo minha mala de rodinhas e saio do carro.
So cinco e meia. No sbado, a essa hora, Darcy e Dex estaro casados. J terei ajudado Darcy com seu vestido de noiva e amarrado o ramo de copos-de-leite com meu 
leno de renda, que foi escolhido por ela para ser o objeto emprestado que a noiva tem de usar na cerimnia. Terei garantido a ela umas mil vezes que nunca esteve 
to bonita, que tudo est perfeito. J terei andado at o altar em direo ao Dex sem olhar para ele, mas talvez percebendo seu olhar furtivo, uma mistura de culpa 
e pena. Terei suportado os dolorosos trinta segundos de Darcy, em toda sua glria, caminhando para o altar, enquanto seguro a aliana de platina na minha mo suada. 
Em seis dias, o pior j ter passado.
- Ol, senhorita Rachel! - Jos diz enquanto fecho a porta do txi. Ento ele avisa para algum que est no saguo: - Ela chegou!
Fico tensa, esperando encontrar Darcy com sua pasta de casamento, pronta para fazer exigncias. Mas no  Darcy quem espera no saguo do prdio, numa solitria poltrona 
de couro.

Vinte e trs

 o Dex. Ele levanta me olhando fixamente. Est de jeans e camiseta cinza, mais bronzeado que antes. No gosto desse ar saudvel e tranqilo.
- Oi - diz ele, vindo em minha direo.
- Oi. - Fico paralisada e ereta. - Como voc soube da minha volta?
- Ethan me deu os detalhes do seu vo. Encontrei o nmero dele na agenda de Darcy.
- Ah... O que voc quer? O que voc est fazendo aqui? - pergunto.
Tento no soar amargurada, mas no consigo.
- Deixa eu subir. Preciso conversar com voc - diz ele calmamente, mas decidido. Jos ainda est sorrindo, sem desconfiar de nada.
Dou de ombros e aperto o boto para chamar o elevador. A subida  interminvel, silenciosa. Olho para ele, enquanto ele me d passagem. Suponho
que esteja aqui para se desculpar mais uma vez. Ele no suporta ser o vilo da histria. Bem, no concederei a ele esse prazer. No vou deix-lo dar uma de bonzinho 
para cima de mim. Se ele disser mais uma vez que sente muito, vou dar um fora nele. Talvez at mesmo falar do James. Vou dizer que estou bem, que irei ao casamento, 
mas que depois quero distncia dele e espero que ele coopere. No se engane, direi, nossa amizade acabou.
Giro a chave na fechadura e abro a porta. Entrar no meu apartamento  como entrar num forno, apesar de eu ter me lembrado de abaixar as persianas. Minhas plantas 
esto todas murchas. Esqueci de pedir a Hillary para reg-las. Ligo o ar-condicionado e percebo que ele no vai funcionar no mximo. Sempre que a temperatura passa 
de 35 graus, h uma queda de tenso na energia de toda a cidade. Sinto saudade de Londres, onde nem  necessrio ter um ar-condicionado.
- Queda de tenso - diz Dex.
- , d para perceber - digo.
Passo por ele bem rpido, sento no sof, cruzo os braos e tento levantar as sobrancelhas como Phoebe ... Mas ambas se elevam juntas.
Dex senta ao meu lado sem pedir licena. Ele tenta pegar na minha mo, mas eu a afasto.
- Por que voc est aqui, Dex?
- Acabei de cancelar.
- O qu? - pergunto. Certamente entendi errado.
- O casamento foi cancelado. Eu... eu no vou me casar.
Entro em estado de choque, lembrando da primeira vez em que ouvi dizer que as pessoas se beliscam quando acham que esto sonhando. Eu tinha quatro anos quando encarei 
o conceito literalmente, beliscando com fora meu prprio brao para garantir que no estava sonhando.
Lembro-me de ter sentido alvio com a dor que senti.
Dex continua, sua voz firme e baixa. Ele olha para os punhos fechados sobre o colo enquanto fala, dirigindo o olhar para mim apenas entre uma frase e outra.
- Durante o tempo em que voc esteve fora, quase enlouqueci. Tive tanta saudade de voc. Tinha saudade do seu rosto, do seu cheiro, at do seu apartamento. No conseguia 
parar de repassar tudo na minha cabea. Todo o nosso tempo juntos, todas as nossas conversas. O curso de Direito. O seu aniversrio. O Quatro de Julho. Tudo. E simplesmente 
no consegui imaginar que nunca mais estaria com voc.  simples assim.
- E a Darcy? - pergunto.
- Eu me preocupo com ela. Quero que ela seja feliz.Via o casamento como uma obrigao. Ns estivemos juntos por sete anos e por muito tempo fomos muito felizes. 
Eu no queria mago-la.
Eu tambm no quero mago-la, penso.
Ele continua.
- Mas isso foi antes de voc. No posso me casar com ela e esquecer o que sinto por voc. No posso fazer isso. Eu te amo. E isso  apenas o comeo ... Se voc ainda 
me ama.
Tenho tanto a dizer, mas de alguma forma estou sem palavras.
- Diz alguma coisa.
Pergunto com dificuldade:
- Voc contou para ela sobre ns dois?
- No. Mas falei que no a amava e que seria injusto se me casasse com ela.
- E ela? - pergunto. Preciso saber de cada detalhe para acreditar que isso  real.
- Ela perguntou se havia outra pessoa. Eu neguei ... disse apenas que as coisas no estavam muito bem entre ns.
- Como ela est?
- Chateada. Mas na verdade ela est mesmo chateada com a maldita cerimnia de casamento, com o que as pessoas vo pensar. Garanto a voc que  isso que mais incomoda 
Darcy.
- Onde ela est agora? - pergunto. - Ela no me ligou.
- Acho que ela foi para a casa da Claire.
- Tenho certeza de que ela acha que voc vai mudar de idia.
No fundo, eu tambm acho. Ele vai mudar de idia, o que ser ainda mais cruel.
- No - diz ele. - Ela entende que falei a srio. Liguei para os meus pais e contei a eles. E eu e ela vamos telefonar para os pais dela hoje  noite. Ela precisa 
que eu conte para eles... e depois avisaremos a todas as outras pessoas. - Ele engasga, talvez esteja prestes a chorar.
Digo que sinto muito. No sei o que dizer. No consigo digerir essa informao to rpido. Quero beij-lo, agradec-lo, quero sorrir. Mas no posso. No parece apropriado.
Ele faz que sim com a cabea, passa as mos pelo cabelo e ento pe as mos no colo outra vez.
-  difcil, mas sinto que me livrei de um peso enorme. Fiz o que tinha de fazer.
Ns nos encaramos antes de nos beijarmos. Enquanto sou envolvida
por seus braos, penso: Isto  real. Ento lentamente relaxo, me sentindo feliz e plena pela primeira vez num espao de tempo que parece uma eternidade. Nunca tivemos 
um momento de serenidade, nem mesmo durante o Quatro de Julho. Agora temos tempo. Todo o tempo do mundo.
Talvez at mesmo para sempre.
Fico pensando no fantasma de Darcy nos trazendo culpa. Fazer amor ser diferente? Estou prestes a descobrir isso, porque Dex est desabotoando minha camisa. Meu 
corao est acelerado enquanto vamos para a cama e tiramos a roupa.
- Senti saudade de voc, Rachel- diz ele.
Posso sentir seu corao batendo contra o meu.
Ento Jos nos interrompe tocando o interfone uma, duas vezes. Atendo
pensando que seja um pacote, a lavanderia ou alguma coisa que ele esqueceu de me dizer. Direi que pego seja l o que for mais tarde. Mas no  um pacote.  a Darcy. 
E ela ouviu minha voz pelo interfone.
- Diz a ela que eu deso j - respondo.
- Ela j est subindo! - Jos praticamente canta as novidades. Claramente, ele no imagina que a chegada de Darcy significa que eu e meu primeiro visitante estamos 
ferrados. Por outro lado, talvez ele saiba. Talvez os porteiros, mesmo aqueles que parecem amigos, secretamente se deliciem com o drama dos moradores.
- Oh, merda! - digo, levantando e olhando em volta. - Ela est subindo! Merda!
Dex est calmo, veste a cueca, vai at o armrio menor carregando a cala e a camiseta. As prateleiras tomam todo o espao do armrio. No serve.
- Entra no outro. No guarda-roupa! - eu aponto para ele com os olhos arregalados, completamente histrica.
Ele volta e abre meu guarda-roupa. H espao l. Ele agacha perto de um cesto, segurando suas roupas. Fecho a porta exatamente quando Darcy chega.
- Estou indo! - grito.
Visto a calcinha e o suti, depois abro a porta.
- Desculpe, estava trocando de roupa.
- Oh, meu Deus. Ainda bem que voc voltou - diz ela.
Pergunto o que aconteceu antes de me dar conta de que ela parece estar bem. Nada de olhos vermelhos, nada de rmel escorrendo, nada de olhar deprimido. Darcy anda 
pelo apartamento enquanto explico gaguejando que acabei de chegar e queria pr uma roupa mais confortvel.
Visto um short e uma camiseta.
Ela ainda est calada.
- E ento, faltam seis dias. Voc deve estar ficando louca! - rio nervosamente. - Bem, agora posso ajudar com as providncias de ltima hora, estou  sua disposio. 
Para ajud-la com qualquer providncia de ltima hora que seja necessria para o casamento.
- No vai haver casamento.
Ela funga.
- O qu? - prendo a respirao e me aproximo dela com os olhos arregalados. Exatamente quando estou prestes a oferecer toda a minha solidariedade, lembro que devo 
fingir que no sei quem cancelou tudo. Ento pergunto.
-Foi mtuo.
- Mtuo? - pergunto, minha voz ainda mais alta.
Levo Darcy at minha cama e sento. O closet fica perto da cama. Quero
que Dex escute tudo.Mtuo?
Dex disse que foi ele quem tomou a iniciativa. Se foi mtuo, ou se ela falou primeiro, talvez no signifique tanto quanto eu imaginava.  claro, ainda assim ficarei 
feliz. Mas quero que essa escolha seja do Dex. Agora eu quero ser o motivo.
- Bem, na verdade foi Dex quem terminou tudo. Ele me disse hoje de manh que no podia mais levar as coisas adiante. Que ele acha que no me ama. - Ela revira os 
olhos e sorri. Gostaria que Dex pudesse ver o rosto de Darcy agora, demonstrando auto confiana e desprezo. Ela acredita tanto que ele no a ame mais quanto que 
eu seja capaz de esconder um homem seminu no meu closet.
-Voc est de brincadeira? Que loucura! Como voc est se sentindo?
Darcy olha para baixo. Agora ela vai comear a chorar. E eu vou confort-la garantindo que tudo vai ficar bem. Convidarei-a para darmos um passeio. Pegar um ar fresco, 
embora l fora esteja nojento de to mido. Talvez eu sugira que a gente v jantar.
Ainda assim, Darcy no chora. Ela respira fundo.
- Rachel... tenho uma coisa para te contar.
A voz dela est calma, no soa como "acabei de levar um fora". Alguma coisa est acontecendo. Por um segundo imagino ela dizendo que sabe de tudo, que entende, que 
o amor verdadeiro deve prevalecer e que Dex e eu devemos ficar juntos.
- ? - pergunto confusa.
- Para mim, isto  ainda mais difcil do que quando contei a voc sobre minha aprovao para Notre Dame - continua ela.
Essa  a primeira vez que ela menciona a Notre Dame desde os tempos de faculdade, o que  uma loucura, considerando as revelaes recentes.
A conversa definitivamente no faz sentido algum. Talvez ela confesse que tambm foi rejeitada. Que durante toda a sua vida esteve competindo comigo e agora finalmente 
reconhece a derrota.
- Voc se lembra quando contei sobre ter perdido meu anel?
-Lembro.
- Como perdi no apartamento do meu colega?
Agora estou realmente confusa. Dex deve estar ainda mais confuso.
Ainda bem que no contei a verdade sobre Darcy ter perdido o anel. Ele cancelou o casamento mesmo sem saber disso.
- Como eu fiquei com aquele cara e perdi o anel?
 como se fosse uma cena em que um homem est conversando com sua amiga quando a namorada dele chega e se esconde pra ouvir a conversa, cheia de mal-entendidos e 
duplos sentidos. A cmera focaliza o rosto da namorada, chocada e indignada. Mas no h confuso aqui no meu apartamento. Essa conversa entre ns duas tem apenas 
um significado e Dex est entendendo direitinho: ela transou com outra pessoa. Por que voc no me contou? Ele vai me perguntar, talvez de maneira taxativa. Teria 
facilitado tanto as coisas, ele dir. Vou convenc-lo de que no era correto contar. Talvez me faa parecer nobre, e Darcy ainda mais errada.
- Bem, na verdade no fiquei com um cara do trabalho - ela fala devagar, articulando cada slaba.
- Voc no perdeu o anel?
Ser que ela est prestes a confessar uma fraude no seguro?
- O cara com quem eu estava no era um colega de trabalho. Era
outra pessoa.
- Quem era ento?
- Era o Marcus - diz ela.
- Marcus? - estou chocada.
- O seu Marcus. Isso mesmo.
 claro. O meu Marcus. Tive que atravessar o Atlntico para esquec-lo.
- Voc me odeia? - pergunta ela, culpada. - Por favor, diga alguma
coisa.
- Voc estava com Marcus no dia em que perdeu o anel? Voc perdeu
no apartamento dele? - esclareo tudo para Dexter e para mim.
Ela admite. Ento, por um segundo, ela olha de soslaio ... vejo um brilho nos olhos dela, um ligeiro sorriso surgindo nos cantos da boca. Ela est sentindo prazer 
com isso. Este  o momento em que ela vai escandalizar. Escandalizar e ser o centro das atenes. Vencer novamente.
Respondo como ela esperava. Finjo ter sido derrotada. Mais uma vez
sou a boa perdedora.
- Ento voc dormiu com ele? - mantenho minha voz ligeiramente
agressiva, fingindo estar magoada.
-.
- Mais de uma vez?
-  - ela sussurra to suavemente que Dex no deve ter escutado. Ento eu pergunto mais alto e mais claro:
- mesmo?
- -diz ela.
Finjo aceitar tudo. Na verdade, ainda estou digerindo tudo. Mas numa
perspectiva desconhecida para Darcy.
- Ento - digo. - Ento.
No peo mais nenhuma explicao, mas ainda assim ela fala.
- Tudo comeou no feriado do Quatro de Julho. Ns voltamos do
Talkhouse bbados. E uma coisa levou  outra.
- No Quatro de Julho? - pergunto.
Isso est ficando cada vez melhor.
- , mas ele se sentiu pssimo. Ns juramos que isso nunca mais
aconteceria. S que ns estvamos muito a fim um do outro. Foi intenso...
Ns simplesmente no conseguamos ficar separados. Comeamos
a nos encontrar no almoo e depois do trabalho. O tempo todo ns nos culpvamos por causa do Dex e por sua causa. Mas a acontecia uma vez e mais outra ... Voc 
me odeia?
Estou numa saia justa. No sei como agir. O que ser que Ethan me
aconselharia a fazer? Fingir um acesso de raiva? Sim, eu odeio voc. Sai daqui. Vai embora. Vai embora! Seria uma maneira de reagir. Ou ento uma aceitao suave: 
Como posso odiar voc? Voc  a minha melhor amiga. Ou talvez: No sei o que pensar. Preciso de um tempo.
Enquanto penso na minha resposta, ela diz que tem algo mais para
me contar. Alguma coisa pior.
- Pior?
- Sim. Muito pior. - Sua voz  frgil, mas a expresso  reveladora.
Ela definitivamente est adorando falar.
Olho para baixo.
- V em frente.
- Minha menstruao est atrasada. Sou muito regular, meu ciclo 
de exatos 28 dias. - Ela toca a barriga com ternura. Ainda est bem
magra.
Meu estmago revira.
- Voc est grvida?
- Acho que sim. .
Tenho medo de saber quem  o pai. Se for Dex, perderei tudo.
- Eu fiz um teste ... deu positivo.
- Positivo significa que voc est grvida?
- . Duas linhas vermelhas. Sim, estou grvida.
Prendo minha respirao, rezo, peo a Deus. Nunca mais vou pedir nada se pelo menos...
- Quem  o pai? - a pergunta ressoa no quarto, d voltas sobre ns
e passa por baixo da porta do closet.
- Marcus.
Respiro aliviada e ao mesmo tempo tonta.
- Voc tem certeza?
- Tenho, absoluta. Dex e eu no transamos desde a minha ltima
menstruao. Sculos atrs.
- Ele sabe?
- Quem? Marcus?
- . Marcus sabe?
- Sabe. Mas Dex no. Ainda no.
Ele sabe sim.
- Eu queria falar primeiro com voc.
Entendo, ainda tentando assimilar tudo.
- E ento? O que voc vai fazer?
- O que voc quer dizer?
- Voc vai ter o beb?
- Sim. Eu quero ter este beb. - Ela massageia a barriga com pequenos movimentos circulares. - Quero me casar com Marcus e ter um filho dele. Sei que pode parecer 
loucura, mas para mim parece o ideal.
- Voc tem certeza de que Marcus quer se casar?
- Absoluta.
- Voc acha que Dex desconfia? - pergunto com a voz baixa. Por
alguma razo no quero que ele oua essa pergunta.
- No. Mas, honestamente, acho que ele sente o quanto tenho estado distante. Foi provavelmente por causa disso que ele cancelou o casamento.Sabe, ele disse que no 
me ama... porque ele sentiu que me afastei dele primeiro.
-Sei.
- Estou chocada em ver como voc est calma. Obrigada por no me odiar.
- ... no odeio voc.
- Espero que Dex leve isso numa boa. Pelo Marcus. Por um tempo
ele vai odi-Ia. Mas Dex  racional. Ningum planejou nada, simplesmente aconteceu.
E exatamente quando penso que essa histria est chegando ao seu
desfecho de uma maneira organizada e perfeita como na cena do mesmo filme, em que tudo se esclarece no final, percebo que Darcy olha fixamente para alguma coisa 
atrs de mim. Pelo seu olhar irritado, pensei que Dex tinha acabado de sair do esconderijo. Eu me viro esperando encontr-Io. Mas no. A porta ainda est fechada. 
Olho para Darcy novamente.
Ela ainda encara alguma coisa atrs de mim, sua expresso perversa, espantada.
Ento pergunta:
- Por que o relgio do Dex est na sua mesa-de-cabeceira?
Acompanho seus olhos novamente. O relgio do Dex est mesmo na
minha mesa-de-cabeceira. O relgio do Dexter. Minha cabeceira. No
h escapatria. Pelo menos no me ocorre nenhuma.
Dou de ombros e gaguejo uma desculpa. Se havia alguma dvida sobre minha incapacidade de improviso, agora no resta nenhuma. Falo com uma voz enrolada:
- Oh, o relgio no  dele.  meu ... comprei na Inglaterra - minha
voz est trmula. Estou completamente descontrolada e desesperada.
Darcy salta da cama e pega o relgio para ver a dedicatria.
- Todo o meu amor, Darcy - diz ela em voz alta. Ento olha para mim com um dio mortal, exatamente como eu deveria ter reagido antes.
- Que porra  essa? - pergunta ela. Trata-se de uma pergunta fria e
dura. Os olhos dela se estreitam. - Que porra  essa! - grita ela novamente, mas dessa vez  uma afirmao. O que significa que no preciso responder.
Levanto, enquanto ela anda desarvorada na direo do banheiro. Vou
atrs dela e a observo puxando a cortina do box com violncia. Apenas dois frascos de xampu, um barbeador de plstico rosa e o restinho de um sabonete.
Comeo a formular uma histria: Dex veio at aqui para falar do rompimento.Ele tirou o relgio para ler, com pesar, a dedicatria. Estava transtornado. Tentei confort-lo, 
mas ele logo saiu para dar uma caminhada pelo parque.
Mas  tarde demais para dar explicaes. Os meus trinta segundos para inventar uma histria j se passaram. Os longos e finos dedos de Darcy j esto na maaneta 
do meu guarda-roupa.
- Darcy, no faa isso - digo, indicando claramente que seu ex-noivo se encontra atrs da segunda porta. Tento impedir, minhas costas
contra a porta.
- Sai da frente! - berra ela. - Sei que ele est a dentro!
Desisto, porque o que mais posso fazer? Ela est certa. Ele est ali dentro. Mas antes de abrir a porta, uma parte de mim realmente acredita que Dex descobrira um 
jeito de ficar invisvel num canto bem no fundo do armrio. Ou talvez ele tenha sado, de alguma maneira escapado durante os quatro segundos em que eu e Darcy ficamos 
paradas no banheiro. Ou talvez ele milagrosamente tenha encontrado uma passagem secreta bem no fundo do guarda-roupa como em um conto de fadas.
Mas no, ele est aqui, agachado exatamente onde o vi pela ltima vez, segurando o jeans e a camisa, usando cuecas listradas de azul-marinho, encarando a gente. 
Ele se estica e fica de p.
- Seu mentiroso! - Darcy grita, enfiando o dedo no peito dele.
Ele a ignora e se veste calmamente, pondo um p dentro da perna da
cala e depois o outro. O barulho do zper ecoa pelo apartamento.
- Voc mentiu para mim!
- Voc s pode estar brincando - diz Dex, procurando a manga da
camiseta enquanto se veste. Sua voz est baixa e contida. - Vai se foder, Darcy.
O rosto de Darcy fica vermelho e ela cospe enquanto grita.
- Voc me garantiu que no tinha mais ningum! E voc est comendo a minha melhor amiga!
Eu fico repetindo o nome dela como um disco arranhado.
- Darcy. Darcy. Darcy.
Ela me ignora, olhando fixo para Dex. Espero que ele nos defenda,
vire o jogo, diga que no transamos. No at hoje, quando ele veio aqui em busca de conforto. Mas Dex diz calmamente:
- O roto falando do esfarrapado, no , Darce? Voc e Marcus, hein?
Vo ter um beb? Preciso lhe dar os parabns. Espero que ela faa um sermo sobre lealdade, amor e amizade. Espero que ela nos acuse de termos comeado. Mas ela 
apenas nos olha e depois diz que sabia o tempo todo e que nos odeia. E que vai odiar para sempre. Ela caminha em direo  porta.
- Ah, Darcy? - diz Dex.
- O qu? - ela berra, mas no fundo est carente, cheia de esperanas.
- Devolva o meu relgio, por favor?
Ela joga o relgio com fora. Obviamente tenta atingi-lo e machuc-lo. Mas a mira dela  ruim e o relgio se espatifa na parede e depois
desliza pelo cho at o p dela, com a inscrio para cima. Ela olha para o relgio e depois para mim.
- E voc! Eu nunca mais quero ver voc! Voc morreu para mim!
Ela bate a porta e vai embora.

Vinte e quatro

Darcy no perde tempo e sai espalhando sua verso da histria. Pelo visto comeou por Jos. Quando samos do prdio, minutos depois dela, passamos por ele. Pela 
primeira vez ele no sorri. Falhar na guarda da portaria pode ser motivo de demisso. Ele parece preocupado.
- Oi, Jos - Dex e eu dizemos ao mesmo tempo.
- Oh, cara, eu realmente sinto muito por ter deixado ela subir - diz ele. - Eu... ... eu no ... voc sabe...
- No - digo a ele. - No se preocupe, Jos.
- Por acaso ela encheu seus ouvidos? - pergunta Dex alegremente, como se tudo fosse apenas um pequeno mal-entendido, em vez de uma guinada na vida de quatro pessoas.
Jos percebe que pode sorrir novamente.
- , ela falou para burro. Mas no se preocupem - ele ri. - No acreditei em nada ... pelo menos no na maior parte das coisas. Dex e ele apertam as mos como se 
fossem velhos amigos, o que acho que eles comeam a se tornar. Caminho com Dex at a esquina. Ele vai para casa resgatar o mximo de pertences que couber em suas 
malas. Acreditamos que Darcy faz o tipo destrutiva, e seria bem capaz de usar uma tesoura para atacar o armrio dele.
- Volto assim que puder - diz ele.
Aceito.
- Tem certeza de que posso ficar com voc por uns dias?
Essa j  a terceira vez que ele me pergunta.
-  claro. Fique quanto tempo quiser - digo. Agora ele no apenas me quer, mas precisa de mim.  uma sensao gostosa, reconfortante.
Ficamos encantados um com o outro por um tempo at que Dex faz sinal para um txi e se inclina para me beijar. Instintivamente desvio e ofereo o rosto. Ento me 
lembro que no precisamos mais nos esconder. Viro meu rosto outra vez e nossos lbios se encontram em plena luz do dia. 
Volto para casa quase em estado de choque. Sinto uma necessidade de fazer algum tipo de ritual. Escrever em meu dirio, que permaneceu intacto por meses (nunca consegui 
escrever sobre Dex, receosa de ser descoberta). Danar pelo apartamento. Chorar. Em vez disso me concentro na rotina, naquilo em que sou boa. Tomo um banho, desfao 
a mala, rego as plantas, abro a correspondncia, tiro dois ventiladores do armrio, ligo na tomada perto da cama e como alguns biscoitos meio murchos.
Dex volta uma hora depois com suas malas Hartman bege e duas bolsas Nike de ginstica, todas arrumadas de qualquer jeito e completamente lotadas de roupas, sapatos, 
papis, produtos de higiene e at mesmo algumas fotos emolduradas.
- Misso de resgate bem-sucedida - diz ele. - Ela no estava em casa.
Dou uma olhada nas malas.
- Como voc conseguiu arrastar tudo isso at aqui to rpido?
- No foi fcil - diz ele, enxugando o suor da testa. Sua camiseta cinza est molhada em torno das axilas e na altura do peito.
- Voc pode pendurar seus ternos no primeiro armrio - digo, ainda tentando ser prtica, mas incapaz de absorver tudo, embora a presena das coisas do Dex ajude 
um pouco.
- Obrigado. - Ele sacode alguns ternos escuros e camisas brancas e depois olha para mim. - No precisa ficar assutada. Eu no estou me mudando para c.
- No estou assustada - digo, enquanto o observo pendurando suas roupas. Embora na verdade esteja apreensiva. O que vem depois? E agora? Nunca planejei isso... vivermos 
juntos temporariamente, o final da minha amizade com Darcy, a estranha e repentina mudana de rotina. - Simplesmente no consigo acreditar.
Ele me abraa.
- No que voc no consegue acreditar?
- Em tudo. Em nada. Em ns dois.
Fecho os olhos exatamente quando meu telefone toca. Dou um pulo.
- Merda. Voc acha que  ela? - estou quase com medo de Darcy, do que ela  capaz.
- Acho que no. Ela deve estar com Marcus. Tenho certeza.
Atendo.
- Isso  verdade? - minha me me pergunta em pnico. - O que eu soube pela senhora Rhone? Diz para mim que no  verdade, Rachel. Por favor, diz isso para mim!
- Depende do que voc soube.
Escolho as palavras com cuidado e ento murmuro para Dex que  minha me.
Ele faz uma careta e se agarra ao brao do sof como se um meteoro fosse atingir o apartamento. Eu preferia um meteoro a uma conversa dessas.
- Ela me disse que Dex cancelou o casamento?
-  isso mesmo.
- E que voc est envolvida com Dex? .. Pensei em desmentir, mas ela estava certa disso. Ela est muito chateada. Seu pai e eu ficamos sem palavras.
- Me,  complicado - respondo, confirmando meu envolvimento com Dex.
- Ra-chel. Como voc pde? - ela jamais soou to decepcionada comigo. Todo o meu trabalho duro, minhas conquistas, anos sendo uma boa filha ... tudo por gua abaixo. 
- Darcy  sua amiga mais antiga! Como voc pde fazer isso?
Eu dou minha verso dos fatos antes de ela fazer julgamentos. No pensava que fosse necessrio ser um advogado para ter de entender o conceito de "inocente at que 
provem o contrrio".
Ela diz, est bem, por favor, prossiga. Posso imagin-la sacudindo a cabea, andando para l e para c na cozinha, esperando uma justificativa, embora nada seja 
convincente.
Estou furiosa demais para explicar qualquer coisa. Como ela tem coragem de defender Darcy antes mesmo de me ouvir?
- No estou a fim de falar sobre isso com voc agora - explico. Depois acrescento: - Nem com o papai. - Porque sei que ela vai utiliz-lo como sua arma mais poderosa, 
exatamente como fazia quando eu era criana. "Espere at o seu pai chegar em casa", uma ameaa ouvida com freqncia por muitas crianas, porm com outro significado 
em nossa casa. Era a ameaa de manchar minha reputao de menininha perfeita do papai. Um olhar srio do meu pai era pior que qualquer castigo, e minha me sabia 
disso.
- Seu pai est na garagem, completamente transtornado - diz ela, oscilando entre estridente e calma. - No acho que ele conseguiria te ouvir mesmo que voc quisesse 
falar com ele. Voc no pensou em Darcy ou na senhora e no senhor Rhone?
Quando me apaixonei? No, no pensei! Nem no seu clube de bridge, nem na minha professora da 3a srie.
- Me, no  da sua conta. Ou da do papai ... Olha s, preciso desligar. Digo at logo e desligo antes que ela possa falar novamente. Deixo para ela se arrepender 
quando descobrir que Darcy espera um filho de outro cara. Ela far as contas, vai subtrair os meses at agosto. Talvez ento ela me telefone, pea desculpas e declame 
mais um de seus ditados favoritos: Quem no tem teto de vidro...
Desligo e penso em telefonar para Annalise, alcan-la antes de Darcy. Mas no quero incomodar sua gravidez com essa histria.
- Pelo que estou vendo as notcias j viajaram para longe - comenta Dex.
- Isso. A senhora Rhone telefonou para minha me.
- Isso  uma babaquice - diz ele. - Darcy est grvida de outro homem! Ser que ela contou isso para os vizinhos de Indiana?
- Obviamente no.
- Voc acha que eu deveria telefonar para a senhora Rhone?
- No ... vamos apenas ser discretos at que tudo venha  tona. Eles que se danem.
- Voc est certa - diz ele, socando uma das mos na palma da outra. - Porra, Darcy  inacreditvel.
- Eu sei - digo.
Permanecemos em silncio. Estou inquieta. Por um instante penso que talvez Ethan esteja certo, eu s queria o Dex para vencer Darcy, e agora que consegui, no sei 
o que fazer. Mas no, h um sentimento inconfundvel de amor surgindo em meio  ansiedade. Vai levar um tempo para que tudo volte ao normal. O que  irnico porque 
nunca vivemos numa normalidade de fato.
- Vamos pedir o jantar? - pergunta Dex, quebrando o silncio.
- No estou com fome. Preciso mesmo dormir - digo, embora sejam apenas oito horas. - Estou sentindo os efeitos do fuso horrio. Alm do mais, est quente demais 
para comer.
Acho que ele sabe a verdadeira razo de eu no conseguir comer.
- Tambm no estou com fome - diz ele.
Observo Dex desanimado arrumando seus pertences e procurando seu kit de barbear. Ento ele toma banho enquanto escovo os dentes, tranco o apartamento e vou para 
cama. Minha cabea est a mil. Eu luto para ser coerente. Detesto sentir tanto e ser incapaz de demonstrar. Estou feliz? Triste? Assustada? No sei. Penso em Ethan. 
Como ele vai ficar surpreso. O fracote do Dex no fim das contas no  to fraco te assim. Ento lembro de James. Ser que enquanto eu beijava James Dex imaginava
um jeito de ficar comigo? Ser que devo me sentir culpada? Ser que devo contar ao Dex?
Penso em ns quatro: Marcus traiu Dex. Eu tra Darcy. Dex traiu Darcy. Apenas Darcy traiu duas pessoas, eu e Dex. Ela foi duplamente desleal. Lembro da minha aliada 
na bancada do jri. Ela est triunfante, salientando esse fato, dizendo para a Terninho Chanel:
- Eu no disse?
Observo Dex tirar a toalha, vestir uma cueca branca que parece um short e caminhar na minha direo. Ele est ao lado da cama. Chego mais perto dele. Talvez a gente 
troque de lado, nosso modo de comemorar a mudana no relacionamento, de reconhecer sua legitimidade.
Ele desliga a lmpada e se encontra comigo embaixo das cobertas. Ento me envolve em seus braos e beija minha orelha duas vezes. Mas nenhum de ns vai alm. Talvez 
ele tambm esteja encantado com a magnitude da mudana.
- Boa noite, Dex - digo.
- Boa noite, Rachel.
Por um bom tempo escuto a respirao dele. Quando tenho certeza de que ele dormiu, digo seu nome suavemente.
- Sim - responde ele ainda bem acordado.
- Voc est bem? - pergunto.
- Estou ... e voc?
- Estou - digo
Ento escuto um barulho. Primeiro soa como um choro. Ento eu percebo aliviada que ele est rindo.
- O qu?
- Voc. - Ele me imita: - Comprei o relgio em Londres - ele ri mais ainda.
Eu sorrio envergonhada.
- No conseguia raciocinar.
- Foi bvio.
- Foi voc quem deixou na mesa-de-cabeceira.
- Eu sei... Merda. Eu me lembrei quando voc abriu a porta para ela. Depois fiquei torcendo para que ela no visse. Ento ouvi a pergunta ... e fiquei esperando 
que voc inventasse uma resposta boa. "Comprei em Londres" no era o que eu tinha em mente. Eu permaneci escondido, balanando a cabea no escuro e pensando: "a 
festa acabou, baby."
- Talvez tenha sido melhor assim ... Agora est tudo s claras. Ela descobriria mais tarde.
Na verdade discordo. Mais tarde teria sido melhor. E talvez ela nunca soubesse que tudo comeou nesse vero, enquanto ela ainda estava com Dex.
- , um noivado e duas amizades chegam ao fim - diz ele.
Qual o motivo da tristeza de Dex? Espero que seja Marcus.
- Voc realmente acha que nunca mais vai voltar a ser amigo do Marcus?
Ele suspira e ajusta o travesseiro.
- Acho que to cedo a gente no vai sair para tomar umas cervejas.
- Voc est triste por isso?
- Por que ficaria? - diz ele. - Estamos aqui agora.
Quero dizer ao Dex que o amo, mas decido que isso pode esperar at amanh. Ou talvez at mesmo depois de amanh.

***

Doze horas depois caminho para a sala de Hillary quando Les me cerca no corredor.
- timo, voc est de volta. Precisamos conversar.
Sim, minhas frias foram timas. Obrigada por perguntar.
- Agora? - pergunto.
- , agora. Venha at a minha sala. Prontamente.
Gostaria de dizer que pessoas normais no usam a palavra "prontamente", a no ser que estejam brincando ou fazendo palavras cruzadas.
- Preciso de um bloco - digo. Nada mau para quem deseja um retorno suave  velha rotina.
Logo depois estou sentada na sala dele, que tem cheiro de cebola, anotando furiosamente as instrues para trs novas tarefas. Todas exigiro muito tempo, tomaro 
minha mente, mas no passam de pesquisas bobas feitas por recm-contratados do escritrio, com prazos desnecessariamente curtos. Trata-se da minha punio pelas 
frias. Ele fala de forma agressiva e sem pausas, seu tom  de superioridade sempre que me atrevo a interromp-lo. Enquanto observo seu nariz batatudo, percebo que 
no preciso disso. Lembro de como me senti livre em Londres, longe deste lugar. Fantasio meu pedido de demisso e a possibilidade de arranjar um outro trabalho em 
Nova York, ou de me mudar para Londres com Dex. Vou me demitir no meio de uma tarefa. Deixar Les numa furada. Despejar nele todo o meu ressentimento quando estiver 
saindo pela porta. Avisar que ele realmente deveria cuidar desses cabelos no nariz.
Depois de passar uma hora como prisioneira (ele inclusive responde a trs longas ligaes durante a minha sentena), sou liberada. Vou direto para a sala de Hillary. 
O lugar est uma baguna, pior do que de costume. Documentos se amontoam por todo lado. Ambas as cadeiras de visitantes esto cobertas de papis e na sua mesa h 
pilhas de pastas, tratados e jornais velhos.
Ela gira a cadeira.
- Ei,  voc! Senta a. Conta da viagem.
- Onde  que eu sento?
- Ah, jogue esses papis em qualquer canto por a... E ento? Como foi na Inglaterra? Como voc est?
- Bem, vamos l ... - digo enquanto desocupo uma das cadeiras. A Inglaterra foi o mximo. Progredi bastante buscando superar Dex... Mas cheguei ontem  noite e soube 
que ele finalmente cancelou o casamento.
Ela olha para mim intrigada.
- Ele cancelou? Tem certeza?
Conto toda a histria. Ele presta ateno a cada palavra e no final parece receber um prmio surpresa em casa, diante de um baita cheque e uma equipe de televiso. 
Ela cobre os olhos com as palmas da mo, ri, sacode a cabea, contorna a mesa e me d um abrao. No estou surpresa pela reao dela. No esperava que ela sentisse 
nenhuma das sutilezas... a minha briga com Darcy, a decepo dos meus pais e a fofoca se espalhando por toda Indiana.
- Bem, isso  excelente, as notcias so excelentes. Eu devo pedir desculpas ao Dex. Merda. Eu realmente o considerava apenas mais um garoto bonitinho e mulherengo.
- Ele no  assim.
- , d para perceber ... estou to feliz por voc.
Eu sorrio.
- E ento? O que anda acontecendo por aqui?
- Ah, nada demais. A mesma velha merda de sempre ... Julian e eu tivemos nossa primeira briga.
- O qu? Por qu?
Ela encolhe os ombros.
- Comeamos uma discusso que foi ficando sria.
- A respeito do qu?
-  uma longa histria ... basicamente, temos um acordo de sinceridade total. Nada de segredos, de tipo algum.
- Segredos do passado?
- . E sobre qualquer outra coisa. Ento, enfim, ele estava conversando com uma garota numa festa e me apresentou a ela. E ns trs conversamos longamente sobre 
vrios assuntos. Mais tarde naquela noite, perguntei como eles se conheceram ... Ele disse que foi h dois veres ... e s. Ento, meio de brincadeira, perguntei: 
"Voc dormiu com ela?" E ele ficou apenas olhando para mim ... ele tinha dormido com ela!
Nem tento esconder meu sorriso debochado.
- Voc ficou furiosa por causa de uma ex-namorada?
- No, fiquei furiosa porque tive de perguntar sobre isso. Ele deveria ter mencionado antes! Isso no fazia parte do nosso acordo. Ento,  claro, comecei a me preocupar 
e duvidar da honestidade dele.
Balano a cabea.
- Voc  impressionante. To teimosa.
- Ele tambm ... J faz 24 horas que a gente no se fala.
- Hill! O que  isso, voc precisa ligar para ele.
- Sem chance. O dedo dele no est quebrado.
Suas palavras e sua postura so audaciosas e desafiadoras, mas pela primeira vez eu enxergo seu lado vulnervel. Alguma coisa transparece no olhar dela.
- Voc deveria ligar para ele - digo. - Isso  bobagem.
- Talvez seja. No sei... e, por outro lado, talvez no sejamos perfeitos um para o outro.
- Por causa de uma briga?
Ela finge no se importar.
- Hillary, sua reao  exagerada. Pegue o telefone e ligue para ele.
- Nem pensar - diz ela, mas d para perceber, pelo jeito que Hillary olha para o telefone, que ela est fraquejando.
Percebo que estar apaixonada significa ceder e resistir ao mesmo tempo.  um equilbrio. Quando o relacionamento  bom, voc encontra esse equilbrio. Tenho certeza 
de que Hillary e Julian vo conseguir.
Quando volto para a minha sala, telefono para meu outro aliado incondicional. Sei que Ethan no vai ignorar a complexidade da situao, talvez porque conhece Darcy 
melhor que Hillary. E, de alguma forma, ele tambm a entende melhor que eu.
Ele no interrompe nenhuma vez enquanto conto tudo.
- E a? Voc desconfiava? Quando Dex telefonou para saber sobre o meu vo? - pergunto depois de terminar.
- Fiquei esperanoso ... Foi por isso que passei o horrio da sua chegada para ele. Mas no fiz nenhuma pergunta. Apenas cruzei os dedos.
- Voc ficou esperanoso? Srio? Pensei que voc no gostasse dele.
- Ah, eu s implicava por ele ter feito voc de joguete durante todo o vero. Agora eu gosto dele. Na verdade, agora eu realmente o admiro. Dex no escolheu o caminho 
mais fcil.  por isso que eu realmente o respeito. Tantas pessoas se deixam levar pela onda do noivado e acabam arrastadas pela euforia do casamento. Dex foi corajoso. 
Merece crdito por isso. De verdade.
- Fiquei satisfeita por ele ter cancelado o noivado antes de Darcy confessar a gravidez. Se fosse de outra maneira, eu me sentiria em segundo lugar, como sempre.
- E ento? Como voc est se sentindo? - sua pergunta  gentil e sei que ele se refere a Darcy.
Digo que estou feliz,  claro, mas tambm arrasada por perder Darcy, por me dar conta de que nossa amizade acabou. Embora, na verdade, ainda no tenha me acostumado 
 idia.
- S no  um final de conto de fadas - explico.
- No. Nunca .
- E tudo aconteceu to rpido. Num minuto eu me preparava para o casamento no sbado. No seguinte, nada de casamento. Consigo ficar com Dex, Darcy est com Marcus 
e vai ter um filho dele.  muito louco.
- No consigo acreditar que ela esteja grvida ... Merda! Aquela garota! - diz ele, achando tudo de certa forma divertido.
- , eu sei.
- Ela  sempre surpreendente.
- Eu sei... Acho que talvez eu sinta saudade disso.
- . Bem, talvez ela aparea por a.
- Talvez.
Ele pigarreia.
- Embora eu tenha minhas dvidas.
- Eu tambm.
- Ento, Marcus e Darcy? - ele assobia. - Isso  certamente uma virada e tanto.
- . Agora eu realmente consigo enxergar tudo ... Faz sentido. Ela sempre reclamando que Dex trabalha muito. E Marcus  justamente o oposto.
- E voc  como o Dex.
- . Isso derruba a teoria "opostos que se atraem".
- Parece que tudo terminou bem. Isto , a no ser pelo James. Ele vai ficar arrasado.
- Ah, sei - falo com deboche.
- E,  claro, eu tambm estou um pouco decepcionado.
- Por qu?
- Pensei que voc viria para c.
- Quem sabe? Talvez eu ainda me mude.
- E vai deixar Dex?
- Talvez ele v comigo.
- Voc acha que ele faria isso?
- Talvez.
Talvez ele me ame o suficiente para me acompanhar aonde eu for.
Desligo e comeo meu trabalho fazendo pesquisas na internet, depois folheio e sublinho cada causa a resolver. Checo o e-mail a todo instante e espero o telefone 
tocar. Primeiro acho que desejo falar com Dex, ento decido ligar para ele, mas a dolorosa sensao de vazio no passa.  a que me dou conta de que espero falar 
com Darcy. Espero que ela telefone a qualquer momento. Para gritar comigo, dizer coisas horrveis, .mas falar comigo. Comunicar-se de alguma forma. Mas meu telefone 
no toca at a hora do almoo. L pelas quatro da tarde, finalmente recebo uma ligao.
- Rachel? - Claire berra ao telefone.
Reviro os olhos.
- Ol, Claire.
- Que diabos est acontecendo? - pergunta ela fingindo desconhecer os detalhes. Sei que Darcy mandou ela telefonar. Talvez esteja me ouvindo.  tpico da Darcy. 
Lembro que no segundo grau ela designava Annalise e eu para realizarmos tarefas assim.
No mordo a isca. Apressadamente dispenso Claire, preciso estar na corte em meia hora e no posso conversar agora.
- Tudo bem - sua decepo  bvia. - Telefona para mim quando puder ...
Melhor esperar sentada.
- Eu simplesmente me sinto pssima por vocs duas. Era uma longa amizade ... - A falsidade escorre da voz dela. Ela est se deliciando com sua nova condio de melhor 
amiga. Penso nas duas usando o colar de "melhor amiga". Se algum pudesse faz-los entrar na moda outra vez, essas pessoas seriam Darcy e Claire.
- ... - continuo quieta.
Meu rompimento com Darcy pelo menos serviu para eu me livrar de Claire. No preciso mais fingir que gosto dela.

***

 quarta-feira  noite. Trs dias depois da briga. Dex e eu estamos aninhados na cama quando o telefone toca. Desta vez  a Darcy, penso. Simultaneamente temo e 
anseio pelo telefonema, que talvez nunca acontea.
Atendo nervosa.
- Al?
- Oi, Rachel.
 Annalise. Ela parece cansada e acho que Darcy a envolveu na nossa saga. Me preparo para um sermo hesitante e ineficaz ao estilo Annalise. Em vez disso, ouo ao 
fundo um beb abrir o berreiro.
-  uma menina - diz Annalise. - Tivemos uma menininha!
Darcy estava certa,  o meu primeiro pensamento, antes de comear a chorar. Estou profundamente emocionada com a notcia. Minha amiga  mame.
- Parabns! Quando foi que ela nasceu?
- Duas horas atrs, s 20h45. Pesa dois quilos e novecentos gramas.
- Qual o nome dela?
- Hanna Jane ... Jane por voc e Darcy.
Nossa amizade com Annalise e nosso segundo nome so as nicas coisas que eu e Darcy ainda compartilhamos.
- Annalise ... estou to comovida - digo. - Voc nunca falou nada sobre o nome Jane.
- Era uma surpresa.
- Hanna Jane.  um nome bonito.
- Ela  bonita.
- Ela se parece com voc?
- No sei. Minha me diz que sim. Mas acho que ela tem o nariz e os ps do Greg.
- No vejo a hora de conhec-la.
- Quando  que voc vem aqui?
- Logo, logo. Prometo.
Por um momento acho que Darcy preservou Annalise do nosso escndalo. Mas a ela diz:
- Rachel, voc e Darcy tm de fazer as pazes. Ela me telefonou ontem  noite. Eu ia telefonar para voc, mas minha bolsa estourou logo depois.
Induzir trabalho de parto  com Darcy mesmo.
- Seja l o que aconteceu, pode ser consertado, no ? - indaga ela.
Quero perguntar o que ela sabe, o que Darcy relatou. Mas obviamente no vou imitar Darcy. No  hora de nos aprofundarmos nessa novela.
-  mesmo - respondo. - No se preocupe com isso... Essa notcia  muito mais importante. Voc tem um beb!
- Eu tenho um beb!
- Voc  me de algum!
- Eu sei. A sensao  to boa.
- Voc j contou para Darcy?
- Ainda no. Vou ligar para ela depois ...
Acredito que se Darcy descobrir que Annalise me telefonou primeiro, vai ficar ainda mais furiosa.
- , sei que voc tem muitas ligaes a fazer. Mande meus parabns ao Greg. E aos seus pais ... Estou to feliz por voc.
- Obrigada, Rachel.
- Amo voc, Annalise - sinto as lgrimas chegando.
- Eu tambm amo voc.
Desligo, emocionada e confusa. Sabia que o beb nasceria mais cedo ou mais tarde. Ainda assim a novidade me emociona. Annalise  me. Ela tem uma filha. Conversamos 
sobre esse momento quando ramos menininhas. Agora Darcy tambm vai ter um filho e eu nem vou saber quando. A no ser por outras pessoas. No devia ser assim. O 
beb de Annalise faz da ruptura algo ainda mais trgico. Boas notcias nunca foram to amargas e doces ao mesmo tempo.
- Nasceu o beb da Annalise? - pergunta Dex quando volto para a cama.
- , uma menina ... Hanna Jane - digo, e em seguida caio no choro.  o meu primeiro choro sincero na frente do Dex. Daqueles em que o rosto fica todo inchado, feio 
e molhado, o nariz entupido e a cabea doendo. Sei que terei uma enxaqueca de manh se no me controlar. Mas no consigo. Afasto-me de Dex e choro bastante. Dex 
me abraa e consola, mas no me pergunta por que exatamente estou chorando. Talvez ele compreenda. Talvez ele saiba que este no  o momento para perguntas. Seja 
l o que for que ele esteja pensando, nunca o amei tanto. Deixo que ele me beije. Retribuo o beijo. Fazemos amor pela primeira vez na fase ps- Darcy.

Vinte e cinco

No dia seguinte Darcy finalmente entra em contato com Dex. Ele me liga depois para contar.
Meu corao palpita. Ainda no superei o medo de Darcy tomar Dex novamente, interromper a gravidez, mudar de idia, reescrever a histria.
- Conta tudo para mim - peo a ele.
Dex resume a conversa, ou melhor, as exigncias de Darcy: ele tem de tirar o resto das coisas dele de casa em sete dias, em horrio comercial, ou tudo ser jogado 
no lixo. Ele deve deixar as chaves. A moblia vai ficar, exceto a mesa que ele "a obrigou a comprar", a cmoda que ele "trouxe para aquela piada de relacionamento" 
e as "luminrias horrorosas" de sua me. Ele reembolsar os pais dela pelo vestido e pelos adiantamentos da festa, ou seja, quase tudo, o que d mais de cinqenta 
mil dlares. Ela vai cuidar da devoluo dos presentes. E vai ficar com o anel de brilhante que ele comprou aps ela ter perdido o primeiro, apenas alguns dias antes 
do rompimento.
Espero ele terminar e ento digo:
- Exigncias injustas, voc no acha?
- Pode-se dizer que sim.
- Vocs deveriam dividir os custos do casamento - protesto. - Ela est grvida de outra pessoa.
- Nem me fala.
- E tecnicamente o anel  seu - digo. - Pela lei de Nova York. Vocs no eram casados. Ela s fica com o anel se vocs se casarem.
- Eu no me importo - diz ele. - No vale a pena brigar por causa disso.
- E o apartamento? O apartamento era seu.
- Eu sei... mas agora no quero mais, nem a moblia - diz ele.
Estou satisfeita que ele se sinta assim. No consigo me imaginar visitando Dex no antigo apartamento de Darcy.
- Onde voc vai morar?
- Vou ficar morando com voc.
-  mesmo?
- Foi s uma piadinha, Rach... Vamos ficar assim por um tempo.
Rio.
- Ah... . Est bem.
Estou um pouco decepcionada, mas apesar de tudo aliviada. Tenho a sensao de que poderia viver com Dex imediatamente, mas quero que nossa histria d certo e no 
vejo motivo para apressar as coisas. 
- Liguei para alguns lugares hoje de manh ... encontrei um apartamento de um quarto no East End. Acho que vou ficar com ele, no importa o preo.
Ficar com ele, no importa o preo. Exatamente como voc fez comigo.
- Como Darcy vai pagar o aluguel sozinha? - pergunto, mais curiosa que preocupada, embora uma parte de mim se preocupe com o bem-estar dela, com seu futuro, com 
o futuro do beb. No consigo parar de me preocupar com Darcy depois de ser assim a vida inteira.
- Talvez Marcus passe a morar com ela - diz Dex.
- Voc acha?
- Eles vo ter um filho.
- Acho que sim. Mas voc realmente acredita nesse casamento? - pergunto.
- Sei l, no me importo - diz ele.
- Voc no teve notcias do Marcus, no ?
- No ... Voc teve?
- No.
- No acho que ele v telefonar.
- Voc vai ligar para ele?
- Talvez algum dia. No agora.
- Hum - digo. Talvez um dia eu tambm telefone para Darcy. Mas no agora. - Ento foi s isso? Ela falou alguma coisa sobre mim?
- No. Fiquei chocado. Uma tremenda discrio para ela. Darcy deve estar sendo muito bem orientada.
- Com certeza. Discrio no faz o estilo de Darcy.
- Mas chega de falar nela - diz Dex. - Vamos esquec-la por um tempo.
- Eu esqueo, se voc tambm esquecer - digo.
- Ento o que voc quer fazer hoje  noite? - pergunta Dex. - Acho que vou conseguir sair mais cedo, e voc?
So cinco horas e eu ainda tenho pelo menos quatro horas de trabalho, mas respondo que posso sair a hora que ele quiser.
- Que tal a gente se encontrar s oito?
- Claro. Onde?
- Vamos cozinhar juntos na sua casa. A gente nunca fez isso.
- Est bem, mas ... Eu no sei cozinhar - confesso.
- Sim, voc cozinha.
- No, srio, eu no sei.
- Cozinhar  fcil- diz ele. - Voc simplesmente pega o jeito  medida que faz.
Sorrio.
- Isso eu sei fazer.
Afinal, isso  mais ou menos o que tenho feito ultimamente.
Uma hora depois saio do escritrio, sem me importar de esbarrar com Les. Deso de elevador at o saguo e depois mais duas escadas rolantes at a estao Grand Central. 
Paro para apreciar o deslumbrante terminal principal, to familiar e to associado ao trabalho que de alguma maneira ignorava sua beleza no dia-a-dia. Observo as 
escadarias de mrmore de ambos os lados da construo, as janelas em arco, as sensacionais colunas brancas e o elevadssimo teto turquesa retratando constelaes. 
Observo as pessoas, a maioria delas com roupas de trabalho, se movimentando em todas as direes para tomar o metr em direo s reas residenciais nos arredores 
da cidade, metrs que cobrem cada esquina de Nova York e tm diversas sadas para as agitadas ruas da cidade. Olho para o relgio central, observo atentamente seu 
elaborado mostrador. So exatamente seis horas.  cedo.
Caminho lentamente at o mercado, um espao com barracas que vendem delcias para gourmets localizado na ponta leste da estao. J passei muitas vezes por esses 
corredores com Hillary, comprando de vez em quando uma trufa de chocolate para acompanhar o caf do Starbucks. Mas esta tarde vim numa misso maior. Ando de uma 
barraca  outra, enchendo meus braos com as mais variadas iguarias: queijos duros e cremosos, pes frescos, azeitonas verdes sicilianas, salsinha italiana, organo 
fresco, uma cebola Vidalia perfeita, alho, azeites e temperos, massa colorida, um vinho caro e dois sofisticados doces, desses que se vem em restaurantes. Saio 
da galeria na Lexington, passando por uma fila improvisada para o txi e pela multido de transeuntes apressados de Midtown. Decido ir a p para casa. Minhas sacolas 
esto pesadas, mas no me importo. No levo uma mala cheia de causas e livros de Direito. Estou carregando o jantar para Dex e para mim.
Quando chego ao meu prdio, digo a Jos para deixar Dex subir quando ele chegar.
- No precisa mais interfonar quando for ele.
Ele pisca e abre a porta do elevador para mim.
- Ah, ento  srio! Isso  bom.
- Muito bom - repito e sorrio.
Logo depois, ponho as compras sobre a bancada da cozinha. Meu apartamento nunca teve tanta comida de uma vez. Ponho o vinho na geladeira, coloco uma msica clssica 
e procuro o livro de receitas que minha me me deu de Natal h pelo menos quatro anos, um livro que at agora eu no tinha nem aberto. Folheio as pginas brilhantes 
e intocadas, encontro uma salada e uma receita de massa que posso preparar com os ingredientes de que disponho. Ento encontro um avental, mais um presente intacto, 
e comeo a descascar, picar e refogar. Consulto o livro para no me perder, mas no sigo todas as instrues com muita preciso. Uso o organo fresco no lugar do 
manjerico e dispenso as alcaparras. O jantar no vai ser perfeito, mas estou aprendendo que a perfeio no  o que importa. Na verdade, perfeio demais pode ser 
perigoso.
Troco de roupa, escolho um vestidinho branco com detalhes bordados em rosa. Depois arrumo a mesa, ponho gua para esquentar, acendo velas e abro a garrafa de vinho, 
servindo duas taas e bebendo um gole da minha. Olho para o relgio. Tenho ainda dez minutos. Dez minutos para sentar e pensar na minha nova vida, na sensao de 
ser o nico e legtimo amor de Dex. Eu me instalo no sof, fecho os olhos e respiro fundo. Cheiros gostosos e sons claros e bonitos preenchem meu apartamento. A 
paz e a calma tomam conta de mim enquanto percebo que no estou com qualquer sentimento ruim: no tenho cimes, preocupao, medo, nem estou sozinha.
S ento reconheo que talvez esteja sentindo a verdadeira felicidade. At mesmo alegria. Nos ltimos dias, quando senti essa emoo em meu corao, percebi que 
a chave da felicidade no deveria ser encontrada num homem. Que uma mulher independente e forte deveria se sentir realizada e plena por conta prpria. Isso  verdade, 
 realmente possvel. E mesmo sem o Dex, gosto de pensar que ainda poderia ser feliz. Mas a verdade : eu me sinto mais livre com o Dex que quando estava solteira. 
Eu me sinto mais Rachel com ele do que sem ele. Talvez o amor verdadeiro faa isso.
E eu realmente amo Dex. Eu o amei desde o comeo, desde os tempos da faculdade, quando acreditei que ele no fazia o meu tipo. Eu o amo pela inteligncia, pela sensibilidade, 
pela coragem. Eu o amo completa e incondicionalmente, sem reservas. Eu o amo o suficiente para me arriscar. Eu o amo o suficiente para sacrificar uma amizade. Eu 
o amo o suficiente para aceitar minha prpria felicidade e com ela faz-lo feliz tambm.
Ouo algum bater na porta. Levanto-me para atender. Estou pronta.

Vinte e seis

 sbado, o que seria a noite de casamento de Darcy e Dexter. Estou com ele no 7B, o bar onde tudo comeou, de volta  noite do meu trigsimo aniversrio. Nos sentamos 
na mesma mesa de bancos com encosto alto. Foi minha idia voltarmos aqui. Sugeri meio de brincadeira, mas no fundo precisava voltar e revisitar minhas primeiras 
sensaes deste relacionamento. Queria perguntar se Dex est triste nesta noite, mas em vez disso conto uma histria sobre Les, como ele me atacou no corredor por 
eu no ter destacado pontos importantes do rascunho de um relatrio.
- Esse cara  um miservel... Ser que voc no pode trabalhar com outra pessoa?
- No. Sou sua escrava pessoal. Ele monopoliza meu tempo e os outros advogados no me convidam porque ficam intimidados por ele. Estou encurralada.
- Voc alguma vez j pensou em mudar de escritrio?
- s vezes penso. Na verdade, hoje mesmo comecei a revisar meu currculo. Talvez eu at abandone a rea de Direito, embora no saiba o que fazer.
- Voc seria boa em tantas coisas - diz Dex, confiante.
Adiciono sua confiana em mim  crescente lista de suas qualidades.
Penso em lhe contar sobre a minha idia de me mudar temporariamente para Londres, imaginando se ele me acompanharia. Mas hoje no  o dia para essa conversa. J 
tem muita coisa acontecendo. Ele deve estar pensando no casamento suspenso, levantando suposies. Como ele poderia no pensar nisso?
- Vou botar algumas msicas para tocar na jukebox - digo.
- Quer que eu v com voc?
- No. Volto logo.
- Escolha umas bem boas, t? 
Lano aquele olhar de "confie em mim". Caminho at a jukebox, passo por um casal fumando em silncio. Enfio na mquina uma nota de cinco meio amassada. A mquina 
recusa a nota umas trs vezes, mas sou paciente, aliso as pontas na minha coxa, at que finalmente ela aceita. Seleciono as msicas calmamente. Escolho algumas que 
Dex gosta e outras em homenagem ao nosso primeiro vero juntos. E, claro, ponho "Thunder Road" para tocar. Olho para Dex, que est pensativo. De repente, ele olha 
para mim e acena, est com um sorriso despreocupado. Volto para a mesa e deslizo para o lado dele. Enquanto ele pe o brao sobre o meu ombro, uma onda de emoo 
me deixa sem flego.
- Oi, voc a - diz ele, to carinhoso e apaixonado quanto eu.
- Oi - respondo no mesmo tom.
Ns somos um daqueles casais que eu costumava olhar, pensando que jamais viveria algo to especial. Lembro-me de me tranqilizar imaginando que provavelmente esses 
casais pareciam mais felizes do que realmente eram. Felizmente me enganei.
Sorrio para Dex, reparo numa falha em sua sobrancelha, um espao vazio onde talvez trs ou quatro fios de cabelo deveriam estar.
- O que aconteceu aqui? - pergunto, esticando o brao para alcanar sua sobrancelha. As pontas dos meus dedos tocam suavemente o local.
- Ah, isso?  uma cicatriz. Eu ca jogando hquei quando era criana. Os plos nunca mais cresceram a.
Nunca notei isso antes e percebo que nunca soube que ele jogava hquei. Tem tanta coisa que eu ainda no sei sobre Dex. Mas agora ns temos tempo. Um tempo interminvel 
pela nossa frente. Analiso seu rosto atrs de outras novidades, at ele rir encabulado. Eu rio tambm e ento nossos sorrisos se apagam juntos. Bebemos nossas cervejas 
num silncio tranqilo.
- Dex - digo depois de um bom tempo. 
- O qu?
- Voc sente saudade dela?
- No - diz ele com firmeza. Sua respirao esquenta minha orelha.
- Estou com voc. No, no sinto.
D para perceber que  verdade.
- Voc no est nem um pouco triste hoje  noite?
- No, nem um pouco - ele beija minha cabea. - Sinto um monte de coisas neste momento. Mas tristeza no  uma delas.
- timo - digo. - Fico satisfeita.
- Como voc est se sentindo? Voc sente saudade dela? - pergunta ele.
Analiso a pergunta dele. Estou bem feliz, mas com uma ponta de nostalgia, pensando em tudo o que compartilhei com Darcy. At agora, nossas vidas estavam entrelaa 
das, ela foi minha referncia para tantos acontecimentos. Batemos tambores no desfile do bicentenrio. Amarramos fitas amarelas em volta das rvores do quintal durante 
um protesto. Vimos a queda do muro de Berlim, a dissoluo da Unio Sovitica, soubemos da morte da princesa Diana, choramos depois do 11 de Setembro. Tudo isso 
ocorreu com Darcy ao meu lado. E tambm h nossa histria pessoal. Lembranas que s ns duas compartilhamos. Coisas que nenhuma outra pessoa compreenderia.
Dex olha bem para mim, esperando minha resposta.
- Sim - digo afinal, de certa forma me desculpando. - Tenho saudade dela. No posso evitar.
Ele balana a cabea como se entendesse. Por que tenho saudade dela e Dex no tem? Talvez porque eu a conhea h muito mais tempo. Ou talvez por conta da prpria 
natureza da amizade versus relacionamento ntimo. Um namoro pode acabar. Podemos nos separar, encontrar outra pessoa, simplesmente deixar de amar. Mas uma amizade 
 diferente de um jogo de tudo ou nada, em que se um ganha o outro perde. Por isso ela parece eterna, especialmente uma amizade antiga. Apostamos na continuidade, 
exatamente o que  to apreciado nesse tipo de relao. Mesmo quando Dex tirou aquele duplo seis, nunca imaginei o fim da minha amizade com Darcy.
Penso nela agora, seus sentimentos neste exato momento. Ser que est to melanclica quanto eu? Ou apenas com raiva? Ser que est com Marcus ou com Claire? Ser 
que est sozinha, folheando pesarosamente o nosso lbum do segundo grau e as velhas fotografias do Dex? Ser que ela tambm sente saudade de mim? Ser que um dia 
vamos ser amigas novamente, concordando hesitantes em almoar ou tomar um caf juntas, dando um pequeno passo de cada vez? Talvez ns nos lembremos, rindo, deste 
vero maluco quando uma de ns ainda tinha vinte e tantos anos. Mas tenho minhas dvidas. No podemos ignorar os fatos, especialmente se eu e Dex ficarmos juntos. 
Nossa amizade provavelmente acabou de verdade e talvez assim seja melhor. Talvez Ethan tenha razo, no posso mais usar Darcy como parmetro da minha prpria vida.
Acaricio meu copo, impressionada com o quanto tudo mudou em to pouco tempo. Com o quanto mudei. Eu era uma pessoa que gostava de agradar os pais, uma amiga obediente. 
Fazia escolhas seguras, cuidadosas, e esperava que tudo se encaixasse na minha vida. Ento me apaixonei pelo Dex sem ao menos encarar os fatos. Esperei que ele tomasse 
uma deciso, ou que o destino interferisse a meu favor. Mas aprendi que  voc quem constri sua prpria felicidade, que para ganhar algo que se deseja muito  necessrio 
perder algo tambm. E quando os riscos so grandes, as perdas tambm podem ser.
Dex e eu conversamos por um bom tempo, relembrando cada momento do nosso vero, as coisas boas e as ruins. Rimos na maior parte das vezes, mas fico com os olhos 
cheios d'gua quando lembro que ele me disse que se casaria com Darcy. Conto dos nossos dados depois que ele saiu do apartamento. Ele me pede desculpas. Digo que 
ele no tem motivo para se desculpar, como no tinha naquele momento.
E ento, um pouco antes da meia-noite, comea aquele som doce de gaita, tocando baixo no comeo e depois aumentando o volume, ganhando impulso antes de Bruce Springsteen 
comear a cantar os primeiros versos de "Thunder Road".
Um sorriso se espalha pelo rosto de Dex, seus olhos brilham e esto especialmente verdes. Ele me puxa para junto do peito e diz no meu ouvido:
- Estou feliz que a gente no esteja comendo bolo agora.
- Eu tambm - sussurro.
Dex me segura enquanto ouvimos Bruce, as palavras da msica repletas de significado para ns dois.
De repente me ocorre que esta noite  ao mesmo tempo um final e um comeo. E pela primeira vez aceito ambos. Quando a msica acaba, pergunto a Dex:
- Voc quer ir embora agora?
Ele concorda.
- Quero.
Levantamos e caminhamos pelo bar enfumaado, deixando o 7B antes da prxima msica comear. A noite est bonita e clara, o ar ligeiramente frio. O outono est chegando. 
Caminhamos de mos dadas pela Avenida B, procurando um txi amarelo que esteja indo na direo da minha casa.


FIM


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